Imagem: Magritte
“Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”
Carlos Drummond de Andrade
No decorrer de uma tarde borralheira em uma segunda-feira atípica, minha sobrinha-afilhada resolveu pedir ao pai (meu irmão) que me ligasse. Conversa vai, conversa vem e eu noto um certo tom de preocupação. É, preocupação. Resolvi perguntar.
- Rafa, está preocupada?
- Não, dinda.
- E o quê fizeste hoje? Me conta.
- Assisti um filme!
- É? Bonito? Como era?
- Era de conto de fadas.
- E tu gostou?
- Dinda… Eu não quero ser feliz pra sempre. Entende?
Entendo perfeitamente. No “feliz pra sempre” a história pára, acaba ou perde a beleza. Na situação conjugal, por exemplo: há começo, onde as pessoas se conhecem, se apaixonam, ultrapassam barreiras, lutam pra ficar juntas e ficam. Não é bonito? Eu sei, é bonito. Mas há uma continuação que a história não conta: o príncipe também envelhece, a princesa também tem dúvidas, adoece, os filhos nascem, o dinheiro aperta. Então a gente quer acreditar que é possível viver assim, só com as partes boas.
E o que é, afinal, viver feliz pra sempre? Que coisa monótona me parece. É ter uma certeza ortodoxa de que vai ser ‘sempre’ assim. É assumir com resignação o nosso pão-de-cada-dia, e não se rebelar contra o que não faz bem. Porque a gente é feliz e não pode correr o risco de ser triste. Nós, que somos bailarinos andando sob uma corda-bamba de sombrinha sobre o abismo, queremos acreditar que uma rede de asas nos ampara. Não existe a rede. Não existem asas.
Sinto muito. Sentimos. Porque só descobrimos que não há rede quando já estamos, muitas vezes, em queda livre.
Sonhamos com amores impossíveis e os abandonamos quando se tornam possíveis. Por quê? Porque sempre parece mais bonito ter um amor literodramático. As histórias nos ensinam desde a infância que casal perfeito é o que desperta com um beijo, que larga tudo pra ir embora com a amada ou amado, que se ajeita em uma casinha qualquer no meio de qualquer floresta. Aí vem a realidade e bate na nossa cara: temos família, estudos, emprego, amigos, vontades. Precisamos de dinheiro. Precisamos de convívio. Precisamos rediscutir.
Sonhamos com o emprego perfeito, e no final estamos lá exercendo a mesma atividade mecanicamente, já sem muita paixão. Viver é muito breve pra ceder aos caprichos do comodismo: é tanta coisa pra aprender, é tanta experiência aguardando a gente ali, do lado de fora da janela. Mas a gente faz uma pausa, toma um café e volta à tranquila cadeira, cuja amolfada já tem o formato da nossa bunda.
A bruxa malvada se chama “rotina”, e a maçã envenenada pode ser mil vezes multiplicada. Vivemos uma época em que duramos mais, morremos mais velhos, temos mais tempo de vida. Mas não sabemos definitivamente o que fazer com ele. Esquecemos que também a gente morre. E morre lentamente. Guardamos palavras que só poderiam ser ditas em um momento exato, e que por isso não são ditas nunca. Esperamos um par-perfeito, quando não existe par. Somos terrivelmente competitivos: escondemos pedacinhos de passado e queremos silenciar o que fomos. Não. A realidade não se adapta aos nossos anseios. O mundo não é conto de fadas e as coisas não serão exatamente como você sonhou. Sozinho ou acompanhado.
E é possível, sim, ser feliz sozinho.
Há algo de muito infantil no pensamento de que só existe significado na nossa vida se houver nela uma outra pessoa que “nos complete”. Completos já somos, meu bem. Se há que viver a dois (ou a três, ou de quatro – Ops! ) tem que ser com alguém que nos transborde. Que nos faça desaprender os limites. Que nos force ao autodescobrimento constante. Que nos desafie. Com ou sem “par”, a vida é tão significativa e incrível quanto nós escolhemos torná-la.
A tradição diz que temos que plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Que tal escrever o filho, plantar o livro e ter árvores? Por que a obrigação nos domina feito uma lança quando o assunto é “posteridade”? Não deve haver obrigação de ser feliz. Viver não vem com receita, nós não temos manual de uso. E deve ser medonho ser “feliz pra sempre”, porque o que adoça é a renovação diária: viver é estar em movimento. E estar em movimento exige a constante ameaça da queda.
O bom da vida, acredite, é que a gente viva ela de trás pra frente. Sim. A maioria das pessoas ganha experiência e quietude conforme passa o tempo, mas deveríamos inquietar e colecionar mais perguntas que respostas. Saber menos do mundo a cada dia e olhar tudo como se fosse novidade. Ter olhar de criança. Isso é que é encantador.
Se ser feliz pra sempre é tornar o agora estanque e se render ao comodismo pelo medo do que pode-vir-a-ser-ruim, então deve ser “mal de família”. Porque eu também não quero ser feliz pra sempre.