O conflito de opiniões

JohnStuartMillImagem: John Stuart Mill

“Mas em todos os assuntos sobre os quais a diferença de opinião é possível, a verdade depende de um equilíbrio a ser atingido entre dois conjuntos de razões que estão em conflito. Até na filosofia natural há sempre outra explicação possível dos mesmos factos; uma teoria geocêntrica em vez de uma teoria heliocêntrica; um flogisto em vez de oxigénio; e tem de se mostrar por que não pode outra teoria ser a verdadeira: e até se mostrar tal coisa, e até que saibamos como é mostrado, não percebemos os fundamentos da nossa opinião. Mas quando passamos para assuntos infinitamente mais complicados, para a ética, a religião, a política, as relações sociais e os assuntos da vida, três quartos dos argumentos a favor de cada opinião controversa consistem em dissipar as aparências que favorecem uma qualquer opinião diferente dela.

[...] O que Cícero fazia para alcançar sucesso retórico precisa de ser imitado por todos os que estudam qualquer assunto de modo a chegar à verdade. Aquele que conhece apenas o seu lado da questão, sabe pouco acerca do seu lado. As suas razões podem ser boas, e pode ser que pessoa alguma tenha sido capaz de as refutar. Mas se ele é igualmente incapaz de refutar as razões do lado oposto; se nem sequer sabe quais são, não tem quaisquer fundamentos para preferir qualquer das opiniões. A posição racional para ele seria a suspensão do juízo, e, a não ser que se contente com isso, ou é conduzido pela autoridade, ou então adopta, como a maior parte das pessoas, o lado para que está mais inclinado.”

John Stuart Mill, Sobre a Liberdade. Lisboa, Edições 70, 2006, pp. 78-79.

Aparência e realidade

miro_____Imagem: Miró

“Imaginemos que habitamos um estranho país onde tudo é absolutamente plano. (…) Chamemos-lhe Planilândia. Alguns habitantes são quadrados; outros são triângulos; outros têm formas mais complexas. Corremos, apressados entrando e saindo dos nossos edifícios planos, ocupados com os nossos negócios e divertimentos chatos. Toda a gente na planilândia tem largura e comprimento mas não tem altura. Conhecemos o que é a direita e esquerda, à frente e atrás, mas não temos a mínima noção, nem um vestígio de compreeensão, do que é em cima e em baixo – com excepção dos matemáticos planos. E esses dizem-nos: «Oiçam lá, é muito fácil. Imaginem esquerdo-direito. Imaginem à frente-atrás. Tudo bem até aqui? Agora imaginem outra direcção, em ângulo recto com as outras duas.» E nós dizemos: «De que estão a falar? ‘Em ângulo recto com a outras duas!’ Há apenas duas dimensões. Onde está ela?» Os matemáticos desencorajados, afastam-se. Ninguém escuta os matemáticos.

Cada criatura da Planilândia vê outro quadrado como um curto segmento de recta, o lado do quadrado que está mais perto dela. Só vê o outro lado do quadrado se andar um pouco. Mas o interior do quadrado permanece para sempre um mistério, a menos que um terrível acidente ou uma autópsia quebre os lados e exponha as partes interiores.

Um dia, uma criatura tridimensional – do feitio de uma maçã, por exemplo – aparece na Planilândia, pairando sobre ela. Ao ver um quadrado particularmente atraente e de aspecto simpático a entrar na sua casa plana, a maçã decide cumprimentá-lo, num gesto de amizade interdimensional.

«Como está?», pergunta (…). Eu sou um visitante da terceira dimensão.» O infeliz quadrado olha em volta da sua casa fechada e nada vê. E, o que é pior, parece-lhe que a saudação, vinda de cima, emana do seu próprio corpo plano, como uma voz interior. Existe um pouco de loucura na família, talvez pense o quadrado, na falta de melhor explicação.

Exasperada por ser considerada uma aberração psicológica, a maçã desce na Planilândia. Uma maçã a deslizar pela Planilândia apareceria primeiramente como um ponto e depois como fatias mais ou menos circulares, progressivamente maiores. O quadrado vê um ponto aparecer numa sala fechada, no seu mundo bidimensional, e transformar-se lentamente num círculo próximo. Apareceu-lhe, não sabe de onde, uma criatura de forma estranha e mutável.

Rejeitada, infeliz com a obtusidade do próprio plano, a maçã empurra o quadrado e atira-o pelo ar, flutuando e girando, para a terceira dimensão. A princípio, o quadrado não consegue perceber o que está a acontecer; é algo absolutamente alheio à sua experiência. Mas acaba por perceber que está a ver a Planilândia de um ponto de vista especialmente vantajoso: de «cima». Pode ver para dentro das casas fechadas. Pode ver o interior dos seus companheiros planos. Está a ver o seu universo de uma perspectiva única e avassaladora. Viajar noutra dimensão proporciona por acaso, a vantagem de uma espécie de raio X.

Finalmente como uma folha que cai, o nosso quadrado acaba por regressar à superfície. Do ponto de vista dos seus conterrâneos planilandianos, ele desapareceu inexplicavelmente de dentro de uma casa fechada e depois materializou-se, estranhamente, vindo não se sabe de onde. «Pelo amor de Deus», dizem eles, «que te aconteceu?» «Penso», acaba ele por responder, «que estive ‘lá em cima’.» Os outros dão-lhe palmadinhas nas costas e consolam-no. Na sua família sempre houve quadrados com visões.”

Edwin Abbott, citado por Carl Sagan em Cosmos, pp. 304-306

Um argumento contra o determinismo radical

AlteridadeImagem: Magritte

“Quando alguém se esforçar por te negar que nós, seres humanos, somos livres, aconselho-te a que lhe apliques a prova do filósofo romano. Na Antiguidade, um filósofo romano estava a discutir com um amigo que negava a liberdade humana e garantia que, para todos os homens, não há maneira de evitar fazer o que fazem. O filósofo pegou no seu bastão e começou a dar-lhe pauladas com toda a força que tinha, ‘já chega, não batas mais!’, dizia-lhe o outro. E o filósofo, sem deixar de surrá-lo, continuou a argumentar: ‘Não dizes que não sou livre e que quando faço uma coisa não posso evitar fazê-la? Pois então não gastes saliva a pedir-me que pare: sou automático’. Até que o amigo reconheceu que o filósofo podia livremente deixar de bater-lhe, e só então o filósofo deu descanso ao seu bastão. A prova é boa, mas só deves administrá-la em casos extremos e sempre com amigos que não saibam artes marciais…”

Fernando Savater, Ética Para um Jovem, Editorial Presença, pág. 25

Luz das estrelas

universeImagem: NASA

“Se for verdade que todos viemos do centro de uma estrela, cada átomo em nós veio do centro de uma estrela, então somos todos a mesma coisa. Mesmo uma máquina de refrigerante ou uma ponta de cigarro é feita de átomos que vieram das estrelas. Todos foram reciclados milhares de vezes, como eu e você. Portanto, o que há lá fora é simplesmente EU, não há o que temer, não há com o que se preocupar. Então o que temer, pois tudo somos nós!

Nós fomos separados por termos nascido, recebido um nome e uma identidade. Fomos separados da Unidade, e isso é o que a religião explora: as pessoas tem esse anseio por fazer parte da Unidade de novo, e isso é explorado, batizam-no de “deus”, dizem que ele tem regras, e eu acho isso cruel. Acho que você pode fazer isso sem religiões.

Poeira estelar contemplando as estrelas, grupos organizados de bilhões e bilhões de átomos, contemplando a evolução da natureza, traçando o longo caminho pelo qual se chegou a consciência aqui na Terra. Devemos lealdade às espécies e ao planeta. É nosso dever sobreviver e progredir, não só por nos mesmos, mas também pelo vasto e antigo cosmos de onde viemos. Somos uma espécie. Somos poeira estelar se nutrindo da luz das estrelas.

Carl Sagan

O prazer próprio e a reprovação do prazer alheio

escher_encounterImagem: Escher

Se mulher mais nova casa com homem mais velho, é golpe. Se mulher mais velha casa com homem mais novo, é golpe. Se homem casa com homem, é promiscuidade. Se mulher casa com mulher, é falta de homem. Se as pessoas não casam, não se amam. Se casam, alguém está traindo. Se não se relacionam, são mal amadas. E você necessariamente está incluso em uma destas situações.

Sim, você, parado aí, lendo este texto. Já ouviu/leu alguma destas afirmações, não foi? Já falou alguma delas? Refletem suas opiniões?

Vamos ao papo: em qualquer país, a maioria da população acredita que os hábitos diferentes dos seus são imorais ou errados e isso se acentua muito quando é transposto para a intimidade, no tema amor/sexo. A intimidade do outro nos causa curiosidade e repulsa: há séculos a religião usurpou a naturalidade do sexo e condenou o amor a eternidades impossíveis.

É verdade que temos medo do desconhecido, e é natural. O hábito do outro, seja matrimonial, seja sexual, não nos pertence e por isso mesmo é desconhecido pra nós. O modo com que lidamos com isso é que nos afeta diretamente enquanto sociedade: na tentativa de substituir o medo, nos anestesiamos, precisamos nos reafirmar diante da (falsa) dicotomia (certo/errado). Se o meu modo não for certo, posso estar condenado à infelicidade social. Já pensou que triste? Preciso estar certo e por isso não suporto que o outro não possa gostar do que eu gosto e sentir o que eu sinto. Acreditamos equivocadamente em uma norma estatística de normalidade.

Você já pensou que a mesma repulsa que você sente vendo um casal gay, o casal gay pode sentir vendo um casal hétero? Já pensou que, assim como você não casaria com uma mulher 30 anos mais velha, essa mulher 30 anos mais velha simplesmente não casaria com alguém da mesma idade? Não é um capricho individual, e mesmo que fosse: sexualidade simplesmente é.

Você também faz isso com quem não gosta dos mesmos livros? Ou das mesmas músicas?

Temos medo do gozo do outro. Oras, ele não pode ser mais feliz (amorosamente ou sexualmente) que nós, especialmente quando assume hábitos diferentes. Não é por menos que as revistas estão cheias de matérias do tipo “como saber se seu marido está sendo infiel” e “como enlouquecer sua parceira na cama”. Vivemos em uma sociedade que explora a sexualidade através da repressão da pluralidade. Todo dia as práticas diferentes das nossas são colocadas na nossa cara como se fossem ameaça: “Homoafetividade destrói a instituição família”, “a mulher que dá no primeiro encontro pode roubar seu marido”. Somos cativos da insegurança.

O homem tem que ser pegador e a mulher “santa na mesa e puta na cama”. Ou então…? Ou então vai ser trocado, traído, infeliz e “fica pra titio/titia”.

Há quem faça tais afirmações por conformidade ao grupo, onde o ser humano pode abandonar o que é certo pela aceitação. Esse conceito é conhecido como “O experimento de Conformidade de Solomon Asch”, e você pode visualizar uma prévia aqui.

Segundo Solomon Asch, indivíduos ou grupos se tornam conformistas para evitar o conflito entre duas opiniões diferentes (aquela expressa pela maioria e aquela expressa ou representada mentalmente pelo indivíduo ou grupo minoritário) e a rejeição pela maioria. O conformismo também poderia ser engendrado por uma carência informacional, uma pressão normativa ou pela atratividade do grupo majoritário. Resulta que o indivíduo modifica seus comportamentos, atitudes e opiniões para harmonizá-los com os comportamentos e atitudes do grupo. Neste caso, a uma conformidade burra.

Por favor, não seja conformista. Pense.

Ninguém tem um relacionamento perfeito, nem uma sexualidade perfeita, mas é preciso entender que combater os hábitos alheios não justifica os desregramentos da sua própria vida. Você não vai ter tesão todos os dias, não vai ter orgasmos em todas as transas, não vai existir um parceiro-sexual-perfeito que fique com você por muito tempo sem que o sexo também diminua a intensidade. Há quem opte por viver o amor. Há quem opte por viver o sexo. Há quem opte por viver as duas coisas. Há quem opte por viver nenhuma.

Só existe uma dica possível para a sua felicidade: Ame mais. Goze mais. Se conheça. Pessoas de bem com a própria sexualidade não se sentem ultrajadas pela sexualidade alheia. Nem pelo amor.

O moralista é um invejoso do prazer alheio.
E, mesmo assim, o prazer alheio não precisa de justificativa.
O amor alheio também não.
Cuide do seu.

O que acontece com nosso cérebro quando aprendemos algo?

connectomeImagem: Conexões cerebrais captadas por neuroimagem

Calma, não é tão difícil assim.

Diz o ditado que “a prática leva à perfeição”, e isso não deixa de ser verdade. Para realizar qualquer tarefa ativamos várias regiões do cérebro, não é novidade. Ao aprender qualquer atividade, no começo as coisas são difíceis: a gente não sabe como fazer. Conforme fazemos, as coisas vão se tornando mais fáceis, até se tornar quase natural.

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Mas por que isso acontece?

Acontece porque o cérebro otimiza esse conjunto de atividades através de um processo chamado mielinização. Por isso “a prátiva leva à perfeição”. Por isso as coisas se tornam mais fáceis conforme as fazemos repetidamente.

A mielina cobre boa parte dos neurônios e aumenta significativamente a velocidade e a intensidade da transmissão de impulsos elétricos entre eles. Esse processo ocorre naturalmente, principalmente na infância e adolescência. Nessa época o cérebro tem mais facilidade de formar novas ligações.

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De acordo com o modelo mais aceito na neurociência, a mielinização ocorre graças a dois tipos distintos de células: o astrócito e o oligodendrócito. A primeira recebe os estímulos elétricos, liberando substâncias químicas que estimulam a segunda a produzir mielina. Interessante, não? Pois é. Quando praticamos, acionamos um padrão de sinal elétrico ao longo dos nossos neurônios. Com o passar do tempo, isso ativa a dupla de células gliais que mielinizam os axônios, aumentando a força e a velocidade do sinal.

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Um exemplo do poder da mielina se dá no caso de doenças neurodegenerativas, onde o processo de desmielinização pode levar a perda de coordenação motora, visão turva, fadiga, fraqueza e incontinência.

Quer saber mais sobre a mielina? O LifeHacker ajuda a explicar.

A mulher-estereótipo e eu, um desabafo

velasquez_rokeby_venusImagem: Velasquez

“Porque
Nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda,
Meu peito não é de silicone
Sou mais macho que muito homem!”

Pagu – Rita Lee

Loguei no Facebook. Entre uma atualização e outra me convidaram para um grupo chamado “O que toda mulher inteligente deve saber”. Ok. Recusei. “Uma mulher inteligente nunca entraria em um grupo que lhe diz o que deve saber”, pensei de imediato, mas fiquei corroída pela dúvida do quê seria tão feminino assim no campo dos saberes.

Fui lá e acionei o grupo para ver as publicações. O que eu vi? Moda, relacionamentos, cores, poeminhas corriqueiros e artesanato. Isso é assunto de mulher inteligente? Desculpe, gente, eu sou muito burra. E não sabia disso.

Sou mulher. Ou seja, um ser humano adulto do sexo feminino. Sou novinha, é verdade, será que o problema é esse? Vejo nas revistas, vejo nas novelas, vejo na TV: mulher gosta de salão de beleza, de compras, de salto-alto, quer ter filhos. Eu troco o salão de beleza por um filme sem problemas, só vou às compras quando sei exatamente o que quero, não quero ter filhos e prefiro andar descalça a ter que usar o tal salto-alto. Eu caio. É verdade, eu caio se ando de salto.

Também não sei ter a postura social feminina. Nas junções na casa de amigos ou nas jantas em família, as pessoas costumam se dividir em dois grupos: os homens perto da churrasqueira e as mulheres na sala. Eu nunca fico na sala. Não sei avaliar se uma roupa é mais bonita que a outra, não sei e garanto que não sou a única. Talvez a única a fugir do processo de atuação. Sou mulher, ponto.

O problema é que se fez o estereótipo mulher. Quem nunca leu o jargão “mulher de verdade é a que…”? Meus queridos, mulher de verdade é a que é. Não precisa ler revista de fofoca. Pode ler a Scientific American, ser nerd, gostar de sexo violento, saber trocar as lâmpadas da casa, dirigir bem, ser autodeterminada. Pode sim. Já se foi a época do “sexo frágil”.

A mulher-de-revista (que é um subestereótipo dentro do estereótipo de mulher) é tão mulher quanto a que dirige um caminhão. Duvida? Pense.

Outra coisa que me preocupa é o título: “mulheres inteligentes”. Nunca vi um grupo chamado “homens inteligentes”. Será que as mulheres inteligentes são tão poucas assim que precisam ficar se procurando, se afirmando? Será que andam dizendo por aí que mulheres não podem ser inteligentes? Se sim, pelo que vi do grupo só tenho duas opções: ou não sou mulher, ou sou burra. E também o homem sofre com o estereótipo de homem. Alô, mundo! Cada um se situa no mundo como quer, beleza? Beleza.

Aí entre um comentário e outro eu vejo a piada: “Mulher de verdade é a que se respeita”. Oras, se respeita e não é um estereótipo, sua mula!

Quer apostar quantos homens não lerão esse post por causa do título? Pois é.

Lembro da música “Ai que saudades da Amélia”: “Amélia não tinha a menor vaidade / Amélia é que era mulher de verdade / Às vezes passava fome ao meu lado / E achava bonito não ter o que comer / E quando me via contrariado / Dizia: Meu filho, que se há de fazer“. Ô musiquinha infeliz, viu?

Se Amélia é que era mulher de verdade, então peço desculpas. Ou sou mulher de mentira, ou sou um homem.

“Mexo, remexo na inquisição
Só quem já morreu na fogueira
Sabe o que é ser carvão
Eu sou pau pra toda obra…”

A imortalidade possível

the_persistence_of_memory_1931_salvador_daliImagem: Salvador Dalí, a persistência da memória

“…é certo, se isso lhe serve de consolação, que se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequencias dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar. Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-los, para congratular-nos, ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade que tanto se fala.”

José Saramago, in “Ensaio sobre a cegueira“.

Eu queria ser o Spock

spock_1024Imagem:  Leonard Nimoy como Spock e sua saudação vulcana

Sou apaixonada por Star Trek, e isso não é novidade. Assisti pela primeira vez aos onze ou doze anos e de cara identifiquei meu personagem preferido: Spock, claro. O vulcano. Os vulcanos são uma espécie humanóide do universo fictício do seriado Star Trek. Quando Zefram Cochrane, criador do “motor de dobra” fez seu primeiro voo mais rápido que a luz, foi com os vulcanos que os humanos tiveram o primeiro contato. Mas não foi isso que me encantou neles, não. Foi o comportamento.

Conhecidos pelo comportamento racional e muito, muito frio, a filosofia de vida dos vulcanos parte da repressão de emoções. Nunca perdem o controle, e é aí que surge o Spock e minha paixão desmedida. Spock era meio-humano, meio-vulcano e mais de uma vez durante a série manifestou que também era emocional, embora sempre muito controladamente.

E eu queria ser o Spock.

Eu queria ser o Spock especialmente porque ele não vazava as emoções: era lógico, rápido, astuto, sem depender das respostas emocionais. Podia entender a emoção porque também era humano, mas não se permitia sentí-la. Não parece ideal? Uma vida sem surpresas emocionais negativas é tudo que a gente quer, e as positivas até poderiam vir em boa hora, que vida!

Volto ao meu tempo de infância: até os cinco ou seis anos eu tinha pânico de palhaços. Era um pânico muito tosco, é verdade, mas manifesta algo que é muito meu: detesto a felicidade forçada. O “estou bem” falado a um passo de cair do penhasco nunca foi do meu agrado, e juro que tenho vontade de cometer um haraquiri se convivo muito tempo com quem tem a postura de uma gueixa pneumática. Blasée, sabes? Não gosto de gente blasée. Gosto de quem cai à moda mexicana e levanta rindo britanicamente.

Quando crianças somos provocativos: é birra pra cá, birra pra lá, choro aqui e acolá. Mas a gente vira adulto e nos ensinaram que ser adulto é ser controlado. É não fazer birra, não chorar, assim mesmo: meio-humano, meio-vulcano. Aí alguém que pensávamos ser amigo resolve nos difamar pelas costas, e nós engolimos o sapo. O chefe nos xinga, e nós pacificamente pensamos no quanto precisamos do emprego. Pegamos o marido com outra e separamos solidariamente, porque há uma imagem a zelar. A esposa nos expulsa de casa e nós recolhemos as roupas sem dizer uma palavra.

Por que é que nos obrigamos a ser tão “civilizados”? Viramos sujeito passivo de tudo na obrigação de vestir a roupa mais social que temos: a da convenção. E não duramos mais de duzentos anos, como os vulcanos. Entramos cedo na escola e somos preparados para a adolescência, adolescentes precisamos escolher uma profissão, na faculdade precisamos pensar em arrumar um bom trabalho, no trabalho pensamos em  conseguir um melhor ainda. Um dia, PÁ: vem o epitáfio. A vida sempre regrada é mais uma disfunção que um sinal de lucidez, e nós também temos o direito de perder o controle. Vale rir es-can-da-lo-sa-men-te com um desconhecido, vale rasgar todas as folhas de caderno no último ano da faculdade, vale pintar o cabelo de azul-berrante e se arrepender dois minutos depois, vale fazer declaração dramática de amor no meio da rua, vale chorar lispectorianamente por sentir medo de perder. Vale.

Só não vale morrer pelo que a gente nunca se permitiu sentir.

Anota aí: Proibido calar catarses.

Felizes para sempre

AlteridadeImagem: Magritte

“Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.”

Carlos Drummond de Andrade

No decorrer de uma tarde borralheira em uma segunda-feira atípica, minha sobrinha-afilhada resolveu pedir ao pai (meu irmão) que me ligasse. Conversa vai, conversa vem e eu noto um certo tom de preocupação. É, preocupação. Resolvi perguntar.

- Rafa, está preocupada?
- Não, dinda.
- E o quê fizeste hoje? Me conta.
- Assisti um filme!
- É? Bonito? Como era?
- Era de conto de fadas.
- E tu gostou?
- Dinda… Eu não quero ser feliz pra sempre. Entende?

Entendo perfeitamente. No “feliz pra sempre” a história pára, acaba ou perde a beleza. Na situação conjugal, por exemplo: há começo, onde as pessoas se conhecem, se apaixonam, ultrapassam barreiras, lutam pra ficar juntas e ficam. Não é bonito? Eu sei, é bonito. Mas há uma continuação que a história não conta: o príncipe também envelhece, a princesa também tem dúvidas, adoece, os filhos nascem, o dinheiro aperta. Então a gente quer acreditar que é possível viver assim, só com as partes boas.

E o que é, afinal, viver feliz pra sempre? Que coisa monótona me parece. É ter uma certeza ortodoxa de que vai ser ‘sempre’ assim. É assumir com resignação o nosso pão-de-cada-dia, e não se rebelar contra o que não faz bem. Porque a gente é feliz e não pode correr o risco de ser triste. Nós, que somos bailarinos andando sob uma corda-bamba de sombrinha sobre o abismo, queremos acreditar que uma rede de asas nos ampara. Não existe a rede. Não existem asas.

Sinto muito. Sentimos. Porque só descobrimos que não há rede quando já estamos, muitas vezes, em queda livre.

Sonhamos com amores impossíveis e os abandonamos quando se tornam possíveis. Por quê? Porque sempre parece mais bonito ter um amor literodramático. As histórias nos ensinam desde a infância que casal perfeito é o que desperta com um beijo, que larga tudo pra ir embora com a amada ou amado, que se ajeita em uma casinha qualquer no meio de qualquer floresta. Aí vem a realidade e bate na nossa cara: temos família, estudos, emprego, amigos, vontades. Precisamos de dinheiro. Precisamos de convívio. Precisamos rediscutir.

Sonhamos com o emprego perfeito, e no final estamos lá exercendo a mesma atividade mecanicamente, já sem muita paixão. Viver é muito breve pra ceder aos caprichos do comodismo: é tanta coisa pra aprender, é tanta experiência aguardando a gente ali, do lado de fora da janela. Mas a gente faz uma pausa, toma um café e volta à tranquila cadeira, cuja amolfada já tem o formato da nossa bunda.

A bruxa malvada se chama “rotina”, e a maçã envenenada pode ser mil vezes multiplicada. Vivemos uma época em que duramos mais, morremos mais velhos, temos mais tempo de vida. Mas não sabemos definitivamente o que fazer com ele. Esquecemos que também a gente morre. E morre lentamente. Guardamos palavras que só poderiam ser ditas em um momento exato, e que por isso não são ditas nunca. Esperamos um par-perfeito, quando não existe par. Somos terrivelmente competitivos: escondemos pedacinhos de passado e queremos silenciar o que fomos. Não. A realidade não se adapta aos nossos anseios. O mundo não é conto de fadas e as coisas não serão exatamente como você sonhou. Sozinho ou acompanhado.

E é possível, sim, ser feliz sozinho.

Há algo de muito infantil no pensamento de que só existe significado na nossa vida se houver nela uma outra pessoa que “nos complete”. Completos já somos, meu bem. Se há que viver a dois (ou a três, ou de quatro – Ops! ) tem que ser com alguém que nos transborde. Que nos faça desaprender os limites. Que nos force ao autodescobrimento constante. Que nos desafie. Com ou sem “par”, a vida é tão significativa e incrível quanto nós escolhemos torná-la.

A tradição diz que temos que plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Que tal escrever o filho, plantar o livro e ter árvores? Por que a obrigação nos domina feito uma lança quando o assunto é “posteridade”? Não deve haver obrigação de ser feliz. Viver não vem com receita, nós não temos manual de uso. E deve ser medonho ser “feliz pra sempre”, porque o  que adoça é a renovação diária: viver é estar em movimento. E estar em movimento exige a constante ameaça da queda.

O bom da vida, acredite, é que a gente viva ela de trás pra frente. Sim. A maioria das pessoas ganha experiência e quietude conforme passa o tempo, mas deveríamos inquietar e colecionar mais perguntas que respostas. Saber menos do mundo a cada dia e olhar tudo como se fosse novidade. Ter olhar de criança. Isso é que é encantador.

Se ser feliz pra sempre é tornar o agora estanque e se render ao comodismo pelo medo do que pode-vir-a-ser-ruim, então deve ser “mal de família”. Porque eu também não quero ser feliz pra sempre.

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