Fé na verdade – Parte III – Tentar dizer a verdade acerca da verdade

alexej_ravskiImagem: Alexej Ravski

Por Daniel Dennett

4. Epistemologia: tentar dizer a verdade acerca da verdade

A investigação reflexiva última acerca da investigação ocorre no ramo da filosofia conhecido como epistemologia, a teoria do conhecimento. Também aqui as controvérsias existentes nas margens criaram um efeito nocivo, uma distorção que muitas vezes conduziu a interpretações erradas. Ao concordar que a verdade é um conceito muito importante, os epistemólogos tentaram dizer exatamente o que é a verdade — sem se despistarem. Perceber o que é verdade acerca da verdade, contudo, acabou por se revelar uma tarefa difícil, tecnicamente difícil, uma tarefa na qual as definições e as teorias que parecem à primeira vista inocentes conduzem a complicações que rapidamente fazem o teórico enredar-se em doutrinas duvidosas.

A nossa estimada e conhecida amiga, a verdade, tende a transformar-se na Verdade — com V  maiúsculo —, um conceito inflacionado de verdade que de fato não pode ser defendido. Eis um dos caminhos que conduzem à dificuldade: suponhamos que o conhecimento não é nada senão acreditar justificadamente em proposições verdadeiras. Suponhamos, além disso, que as proposições verdadeiras, ao contrário das falsas, exprimem fatos. O que são os fatos? Quantos fatos existem? (Tom, Dick eHarry estão sentados numa sala. Eis um fato. Mas para além de Tom, Dick e Harry, da sala onde estão sentado se do que lhes serve de assento, parece que temos um sem-fim de outros fatos: Dick não está de pé, não existe qualquer cavalo que esteja a ser montado por Tom, e assim por diante, ad infinitum. Precisaremos realmente admitir uma infinidade de outros fatos juntamente com o pouquíssimo equipamento deste pequeno mundo?) Já existiam fatos antes de existirem aqueles que os procuram, ou são antes os fatos como as frases verdadeiras (inglesas, francesas, latinas etc.), cuja existência teve de aguardar que se criassem as línguas humanas? São os fatos independentes das mentes daqueles que acreditam nas proposições que os exprimem? Correspondem as verdades aos fatos? A que correspondem então as verdades da matemática, se é que correspondem a algo? As categorias começam a multiplicar-se, não emergindo nenhuma teoria unificada, óbvia e consensual sobre a verdade.

Os céticos, vendo as armadilhas que parecem rodear qualquer versão da verdade, absoluta ou transcendental, argumentam a favor de versões mais moderadas, mas os seus adversários contra-argumentam, mostrando as imperfeições das tentativas rivais de chegar a uma teoria aceitável. Reina a controvérsia sem fim. Esta investigação modesta, mas por vezes brilhante, do próprio significado da palavra “verdade” tem tido algumas consequências perniciosas. Algumas pessoas pensaram que os argumentos filosóficos que mostram asituação desesperada das doutrinas inflacionadas da verdade mostraram que, na realidade, a própria verdade não era algo digno de apreço ou sequer passível de ser alcançado. “Desistam!”, parecem essas pessoas dizer.

A verdade é um ideal inalcançável e insensato. Aqueles que buscam uma doutrina da verdade aceitável e defensável parecem estar a agarrar-se a um credo ultrapassado, dando crédito a uma religião que não conseguem fundamentar pelos métodos da própria ciência. A epistemologia começa a parecer-se com um jogode idiotas — mas apenas porque os seus observadores esquecem tudo aquilo que ambos os lados aceitam acerca da verdade. Os efeitos desta visão distorcida podem ser perturbadores.Quando era um jovem assistente de filosofia, recebi uma vez uma visita de um colega do Departamento de Literatura Comparada, um elegante e eminente teórico literário que precisava de ajuda. Senti-me lisonjeado porele me ter procurado e fiz o melhor que pude para corresponder ao pedido, mas fiquei, estranhamente, perplexo  com o sentido geral das suas perguntas acerca de vários tópicos filosóficos.

Durante muito tempo não chegamosa lado nenhum, até que ele conseguiu tornar claro o que desejava. Ele queria “uma epistemologia”, afirmou. Uma epistemologia. Todos os teóricos literários dignos desse nome tinham, ao que parece, de exibir uma epistemologia naquela temporada, sem a qual ele se sentia nu, de maneira que tinha vindo ter comigo em buscade uma epistemologia que pudesse usar — ele tinha a certeza que isso estava na moda e queria por isso o dernier cri em epistemologia. Não lhe interessava que fosse sólida, defensável, nem (como se poderia muito bemdizer) verdadeira; só tinha de ser nova e diferente e com estilo. Usa os acessórios certos, meu caro amigo, senão ninguém vai reparar em ti na festa. Nesse momento percebi que existia entre nós um abismo que até àquele momento não tinha claramente compreendido. Primeiro pensei tratar-se unicamente do abismo entre a seriedade e a frivolidade.

Mas a minha vaga inicial de orgulho na minha própria integridade era, de fato, uma reação ingênua. O meu sentimento de ultraje, o meu sentimento de que tinha desperdiçado o meu tempo com o bizarro projeto deste homem era, àsua própria maneira, tão pouco sofisticado como a reação de alguém que, ao assistir pela primeira vez a umapeça de teatro, irrompe pelo palco para proteger a heroína do vilão. “Não estás a ver?”, perguntamos, incrédulos. “É um faz-de-conta. É arte. Não é suposto ser tomado literalmente!” Neste contexto, a demanda deste homem não era afinal tão vergonhosa quanto isso. Eu não teria ficado ofendido se um colega do Departamento de Teatro me tivesse pedido alguns metros de livros para colocar nas prateleiras do cenário para a sua produção da peça Jumpers , de Tom Stoppard, pois não? Que mal haveria em abastecer este amigo com uma série de vistosas doutrinas epistemológicas escandalosas, com as quais ele poderia excitar ou confundir os seus colegas?

O que seria errado, uma vez que ele não se dava conta do abismo, não reconhecendo sequer a sua existência, seria o fato de a minha concordância com a sua pândega consumista contribuir para o aviltamento deum bem precioso e para a erosão de uma distinção valiosa. Muitas pessoas, incluindo quer os espectadores queros participantes, não se dão conta deste abismo, ou negam ativamente a sua existência; e é aí que está o problema. O que é triste nisto tudo é que em alguns círculos intelectuais, habitados por alguns dos nossos pensadores mais avançados nas artes e nas humanidades, esta atitude passa por ser uma sofisticada apreciação da futilidade da demonstração e da relatividade de todas as afirmações de conhecimento. Na verdade, esta opinião, longe de ser sofisticada, é o cúmulo da ingenuidade inconsciente, só possível graças à ignorância grosseira dos métodos já demonstrados de procura científica da verdade, assim como do seu poder. Como muitos outros ingênuos, estes pensadores, ao refletirem na manifesta insuficiência dos seus métodos de procurada verdade para atingir resultados estáveis e valiosos, generalizam inocentemente a partir dos seus próprioscasos, concluindo que mais ninguém sabe como descobrir a verdade.Entre os que contribuem para este problema está, lamento dizê-lo, um anterior orador nas Conferências da Amnistia de Oxford, o meu bom amigo Dick Rorty.

Rorty e eu temos vindo a discordar construtivamente desde hámais de um quarto de século. Penso que cada um de nós ensinou muito ao outro, através do processo recíproco de polir as nossas discordâncias mútuas. Não há outro filósofo contemporâneo com quem tenha aprendido mais. Rorty abriu os horizontes da filosofia contemporânea, mostrando de forma perspicaz a nós, filósofos, muito acerca do modo como os nossos próprios projetos têm resultado dos projetos filosóficos do passado distante e recente, ao mesmo tempo em que corajosamente descreve e prescreve rumos futuros. Mas não concordamos de maneira nenhuma — por enquanto — no que respeita à sua tentativa, ao longo dos anos, de mostrar que os debates dos filósofos acerca da Verdade e da Realidade eliminam de fato o abismo, permitem de fato a  derrapagem para uma forma de relativismo. No fim de contas, diz-nos Rorty, tudo são apenas “conversas”, restando apenas bases políticas ou históricas ou estéticas para assumir um ou outro papel numa conversa que continua.

Rorty tem tentado muitas vezes fazer-me alinhar na sua campanha, declarando poder encontrar na minha própria obra um ou outro insight  explosivo que o ajudaria no seu projeto de destruir o ilusório edifício da objetividade. A passagem com que termino o meu livro Consciousness Explained (1991) é uma das suas favoritas: Trata-se apenas de uma guerra de metáforas, poderá dizer-se — mas as metáforas não são “apenas” metáforas; as metáforas são instrumentos do pensamento. Ninguém pode pensar acerca da consciência seminstrumentos, por isso é importante equiparmo-nos com os melhores instrumentos possíveis. Repare-se no que construímos com os nossos instrumentos. Poderíamos nós imaginar tudo isto sem eles? [pág. 455]“Gostaria”, afirma Rorty, “que ele tivesse dado mais um passo e que tivesse acrescentado que esses instrumentos são tudo o que a investigação pode alguma vez fornecer, porque a investigação nunca é ‘pura’ no sentido do ‘projeto de investigação pura’ de [Bernard] Williams. A investigação é sempre uma questão dealcançar algo que queremos.” (“Holism, Intrinsicality, Transcendence”, in Dahlbom, org., Dennett and his Critics. 1993) Mas eu nunca daria tal passo, pois apesar de as metáforas serem de fato instrumentos de pensamento insubstituíveis, não são os únicos instrumentos insubstituíveis. Os microscópios e a matemática e o scanners deIMR (imagem por ressonância magnética) são alguns dos outros.

Sim, toda a investigação é uma questão de alcançar o que queremos: a verdade acerca de algo que nos interessa, se as coisas forem como devem ser. Quando os filósofos discutem acerca da verdade estão a discutir acerca de como não inflacionar a verdade acerca da verdade, transformando-a na Verdade acerca da Verdade — uma doutrina absolutista que faça exigências indefensáveis aos nossos sistemas conceituais. A este respeito, a discussão é análoga aos debates sobre a realidade do tempo, por exemplo, ou sobre a realidade do passado. Existem investigações filosóficas sofisticadas e meritórias sobre a questão de saber se, se formos precisos, o passado será real. As opiniões dividem-se, mas estará enganado quem pensar que se rejeitam afirmações como as seguintes: A vida surgiu neste planeta há mais de três mil milhões de anos.O Holocausto aconteceu durante a Segunda Guerra Mundial. Jack Ruby disparou a matar sobre Lee Harvey Oswald às 11:21da manhã, hora de Dallas, no dia 24 deNovembro de 1963. Estas são verdades sobre acontecimentos que ocorreram de fato. As suas negações são falsidades. Nenhum filósofo em seu perfeito juízo alguma vez pensou o contrário, apesar de no calor da batalha terem porvezes afirmado coisas que poderiam interpretar-se dessa maneira.

Richard Rorty merece os muitos leitores seduzidos que tem nas artes e humanidades, assim como nas ciências sociais “humanísticas”, mas quando os seus leitores o interpretam entusiasticamente como alguém que encoraja o ceticismo pós-modernista acerca da verdade, estão a precipitar-se por caminhos que ele próprio seabsteve de tomar. Quando o pressiono sobre estes tópicos, ele concede a existência de um conceito útil deverdade que sobrevive a todas as corrosivas objeções filosóficas. Rorty reconhece que este prestável e modesto conceito de verdade tem os seus usos: quando queremos comparar, em termos de precisão, dois mapas da  província, por exemplo, ou quando se trata de saber se o réu cometeu ou não o crime de que é acusado. Assim, até mesmo Richard Rorty reconhece o hiato, e a importância do hiato, entre a realidade e aaparência, entre os exercícios dramáticos que podem entreter-nos sem pretenderem dizer a verdade, e aqueles que procuram, e muitas vezes conseguem, a verdade. Rorty chama a isto uma concepção “vegetariana” daverdade. Muito bem, sejamos então todos vegetarianos acerca da verdade. Em qualquer caso, os cientistas nunca quiseram ser uns carnívoros radicais.

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