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Quando os elementos químicos foram descobertos?

Todos os elementos químicos que compõe o mundo ao nosso redor (incluindo as complexas moléculas que nos constitui) foram sendo descobertos aos poucos, graças ao empenho de homens e mulheres em busca de entender mais o mundo que nos cerca.

Todos os elementos químicos que compõe o mundo ao nosso redor (incluindo as complexas moléculas
que nos constitui) foram sendo descobertos aos poucos, graças ao empenho de homens e mulheres
em busca de entender mais o mundo que nos cerca.

Post escrito por Wesley Santos diretamente do blog Do Nano ao Macro

O homem, desde a descoberta e o desenvolvimento da manipulação de metais, teve curiosidades em aprender cada vez mais sobre suas propriedades e potencialidades. Entretanto, o homem durante milhares de anos sabia a existência de poucos metais[1] e os utilizava na confecção de armamentos, tubulações de água, construção civil, alimentação e cosméticos.
Sim, metais para alimentação e cosméticos. Os romanos utilizavam, por exemplo, suco de uva fervido em tachos de chumbo, de modo a obter um xarope adocicado que era usado para melhorar o sabor de vinhos e frutas. Esse xarope acabava contendo acetato de chumbo, que era consumido. Atualmente sabemos que o chumbo, em qualquer forma e concentração, é tóxico (tanto que não existem níveis seguros de exposição ao chumbo). Acredita-se que o consumo exacerbado desse xarope foi responsável pela demência e morte de alguns imperadores romanos. Além disso, o chumbo é usado até hoje em tintas (sobretudo em países pobres), no combustível, batons e tinturas de cabelo. Infelizmente, o seu uso ainda acomete mais de 600 mil casos de deficiência intelectual em crianças em todo o mundo a cada ano.
Ah sim, esqueci de dizer que os metais eram (e são) usados como ornamentação. Brincos de ouro 24 quilates já foram encontrados em escavações na Bulgária datados de 7 mil AeC. Sim amigos leitores, ostentar bens materiais não é uma coisa atual.
Mas vamos ao cerne dessa postagem: embora muitos elementos químicos já fossem conhecido das pessoas, a sua obtenção (ou seja, sua forma pura) ocorreu ao longo dos séculos do desenvolvimento do conhecimento humano. O Compound Interest, um site que faz interessantes infográficos sobre a composição e a química de diversos produtos (inclusive postamos uma adaptação em português sobre a química do cheiro dos livros). Agora, apresento abaixo o infográfico feito por eles mostrando a data e o países das descobertas dos elementos químicos da tabela periódica. É uma imagem curiosa e serve bem como uma consulta rápida de informações, visto que ele foi bem feito, separado em períodos de tempo para facilitar a leitura.

Timeline-of-the-Elements-v1Para ver em uma resolução maior ainda, clique aqui.

Se você gostou bastante dessa imagem e quer ter uma versão impressa para colar na parede do seu quarto/cozinha/sala de aula/laboratório, o site disponibilizou uma versão bacana para impressão em formato .pdf. Basta clicar aqui e baixar! =D
Rodapé:

[1]: e, também, de ligas metálicas, como o bronze, que é uma mistura de cobre (Cu) e estanho (Sn).

Com informações de IIP Digital e Folha. A imagem que abre a postagem por guidoneko em seu deviantART e da timeline dos elementos está aqui.

Desenho animado + matemática: você vai adorar

Donald no País da Matemágica (“Donald in Mathmagic Land”) é um curta de 27 minutos em que estrela o Pato Donald. Foi lançados nos EUA em 26 de junho de 1959, sendo dirigido por Hamilton Luske. O filme foi disponibilizado para as várias escolas, e se tornou um dos mais populares filmes educativos já feitos pela Disney. Em 1959, foi indicado ao Óscar como Melhor Curta-documentário.

Mini-guia do pensamento crítico para crianças

Cada vídeo abaixo possui entre três e cinco minutos, todos em linguagem clara e acessível, embora legendados.

1. Introdução

2. Três tipos de pensadores

3. O que é pensamento crítico

4. As partes do pensar

5. Virtudes Intelectuais

Existe olhar apenas, antes do interpretar o que se vê?

Imagem: s/n

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Post diretamente do Científica Mente

Imagine a seguinte situação: um físico experiente e seu filho de poucos meses no colo. Eles estão em um laboratório repleto de fios, parafusos, caixas e botões. No meio de tudo isso, há um tubo de raios X. Quando o pai e a criança olham para esse objeto, vêem a mesma coisa?

Aparentemente é uma questão simples, mas por trás dela há toda uma discussão que envolve filosofia, e quem diria, até mesmo a ciência. Deixemos isso para mais à frente. Afinal, qual a importância disso para a vida das pessoas? O que interessa saber se um físico e um bebê olham a mesma coisa ou não? Não parece óbvio que sim?

Esse exemplo foi dado por Hanson, importante filósofo do século XX, em seu texto “Observação e interpretação”. Ele responde à pergunta inicial da seguinte forma: sim e não. Sim, porque eles têm consciência visual do mesmo objeto. Não, pois o modo como têm essa consciência é profundamente diferente. A criança pode estar apreendendo exatamente os mesmos dados óticos, mas pode não estar observando nada em particular. Já o físico vê um instrumento, que tem certa utilidade, que pode ser usado em tais casos e de tal maneira.
O físico não está fazendo nada mais do que a criança ou uma pessoa comum que nada entende de física e de instrumentos. Ele está apenas olhando – porém o resultado não é o mesmo. Do mesmo modo, quando ouvimos uma língua estrangeira perto do nativo estamos tendo as mesmas impressões auditivas que ele. Para ouvir o mesmo que ele ouve, porém, precisamos aprender sua língua. Podemos não notar que as cordas do violão estão desafinadas, contudo isso é dolorosamente óbvio para o músico. Podemos não perceber que aquele amontoado de panos é a mais nova criação do estilista. Há muitíssimas maneiras de ouvir sons, assim como de ver um monte de linhas, formas, manchas.
Fourez, matemático e filósofo francês, em seu livro “A construção das ciências” diz que a observação não é puramente passiva: trata-se antes de uma certa organização da visão. Para observar é preciso sempre relacionar o que se vê com noções já possuídas anteriormente, normalmente compartilhadas culturalmente. Essa noção já vem desde Kant na filosofia, e a psicologia cognitiva é uma abordagem que segue nessa linha, insistindo no caráter construído de nossos conhecimentos.
Fourez diz ainda que o que nos dá a impressão de imediatez à observação é que não se colocam de maneira nenhuma em questão as teorias que servem de base à interpretação: a observação é uma certa interpretação teórica não contestada (pelo menos inicialmente). Como normalmente estamos próximos a pessoas que compartilham nossa cultura, e, portanto, uma visão de mundo semelhante a nossa, a ausência de um elemento novo dá um efeito de observação direta de um objeto. Portanto, mesmo não nos dando conta, nossa observação dos fatos é sempre a construção de um modelo de interpretação, que depende também de nossa história individual, nossas emoções, nosso estado motivacional, nosso gênero, nossa faixa etária.
Pode não parecer, mas esse assunto tem grande importância para a ciência. Isso porque muitas versões dela (alguns citariam o positivismo – movimento científico do século XIX -, por exemplo) consideram que observar diz respeito às coisas tais como são. O cientista deve relatar o que observa, de modo fiel à realidade. Nesse caso, a observação seria uma atenção passiva, pura recepção. Dois observadores científicos se defrontariam com os mesmos dados, caso divergissem, isso ocorreria posteriormente, no momento em que interpretam esses dados. O que Hanson salienta é que a interpretação não ocorre a posteriori porque ver já é interpretar. Não existe algo como órgãos “puros” da visão isolados da pessoa. Por isso, a observação científica e a interpretação científica são inseparáveis. No caso das ciências, os saberes compartilhados por certo grupo de cientistas, ou seja, suas teorias, também fornecem uma maneira de se ver tal fenômeno.
E o que uma pessoa comum tem a ver com tudo isso? Popularmente é comum se pensar que a observação é direta, global, imediata. Ela não é. É importante que se desenvolva a noção de que os cientistas não são indivíduos observando o mundo com base em coisa nenhuma, são na verdade participantes de um universo cultural e lingüístico no qual inserem os seus projetos individuais e coletivos. Deve-se questionar a visão ingênua da ciência que a encara como um processo absoluto e não histórico. O cientista não é um observador fiel dos fatos, ele é um sujeito que se situa histórica e culturalmente. Assim, a ciência não é neutra e absoluta. Isso faz com que não seja válida? Não.

Vale lembrar também que os cientistas, na verdade, tem o pequeno inconveniente de ter que provar matematicamente, ou cientificamente, o que dizem. É o que separa ciência da pura observação. Não que tudo seja perfeito depois de “provado”, mas é algo que tem o intuito de formar um conhecimento sustentável.

Referências bibliográficas

Fourez, G. (1991) A construção das ciências – introdução á filosofia e à ética das ciências. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

Hanson, N.R. “Observação e interpretação”. In: Filosofia da ciência. Org. Morgenbesser, São Paulo: ed. Cultrix, s/d.

Você sabe por que nossa crianças não querem ser cientistas ?

Imagem: Google

Imagem: Google

Texto da Folha de São Paulo, replicado por NUPESC

Os dados do Pisa, avaliação internacional de estudantes feita pela OCDE em 65 países, são desanimadores para o Brasil.

Estamos mal em todas as áreas: matemática, leitura e ciência. Dessas, a área científica é a que mais preocupa. Em ciências em que vamos pior – e não melhoramos desde o último Pisa. O Brasil se encontra em 59 lugar na lista de avaliação de ciência, atrás de países como Cazaquistão, Jordânia e Malásia.

Na minha tentativa de entender esses dados, conversei com uma especialista da PUC-SP, Ana Lúcia Manrique, que é coordenadora de uma pós-graduação em educação matemática, e ela fez uma pergutna bastante interessante

“Por que os nossos alunos não querem ser Cientistas?”

A especialista me lembrou que a curiosidade faz parte da infância. Ou seja, o gosto pela ciência é quase que natural.

O problema é que a escola no Brasil é tão ruim que acaba tendo um efeito contrário. Ao invés de se apaixonarem por ciência, os meninos e meninas acabam se distanciando dela.

A Física perde a beleza da Astronomia, por exemplo, e vira aplicação de fórmulas. A Biologia e a Química são ensinadas na lousa e giz. Os alunos não colocam a mão na massa.

Quanto menos brasileirinhos interessados, apaixonados e se dando bem em ciência, menos físicos, astrônomos, geólogos, biólogos, oceanógrafos teremos no futuro.

E nossa, o Brasil carece demais desses profissionais.

Não é por acaso que China, Japão e Cingapura, berço da inovação da atualidade, estão no topo da lista de desempenho dos países em educação científica.

As crianças desses países, sim, querem ser cientistas. E as nossas ?

As cinco maiores contribuições de Carl Sagan para a Ciência e Tecnologia

Imagem: s/n

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Se você não conhece Carl Sagan, tem que conhecê-lo. Motivos? Elencamos aqui cinco das maiores contribuições de Sagan para a ciência.

  1.  Cosmos, uma viagem pessoal. Uma série que deveria ser de visualização compulsória para todo mundo. Com seu carisma inigualável fez com que muitos se apaixonassem pelo espantoso universo e que ademais entendessem que sim é possível explicar conceitos muito complexos de forma amena e nem por isso menos rigorosa. Esperamos ansiosos a estreia da sequência de Cosmos, que deve ser apresentada por Neil deGrasse Tyson, no início do próximo ano.

  2.  A exploração espacial, pois Sagan trabalhou em numerosas missões como Mariner 9, Viking 1, Viking 2, Pioneer 10 e 11, e as Voyager 1 e 2. Também foi o primeiro a sugerir que Vênus não tinha um clima tropical ameno semelhante ao da Terra, como a maioria dos cientistas acreditava, e, junto com seu antigo aluno James Pollack, sugeriu que as mudanças de cor que observávamos em Marte eram devidas as tempestades de poeira.
  3.  Sagan se posicionou firmemente contra pseudociências e imbecilidades tais quais astrologia e homeopatia. Na verdade, durante toda a vida ele foi um grande defensor do ceticismo e do uso do método científico, o que acabou irritando muitos “filósofos ocasionais” que o classificavam como cientificista.
  4.  O compromisso político à hora de ser um dos primeiros em crer no aquecimento global e em expressar estas ideias; também se opôs à Iniciativa Estratégica de Defesa, mais conhecida como a “guerra nas estrelas”, de Ronald Reagan.
  5.  Seus livros, que estendem a tarefa que fez com Cosmos; e não há que esquecer Contato.

Créditos ao LuisaoCS, do Negócio Digital.

Não há perguntas imbecis

Imagem: s/n

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Por: Vera Rita da Costa no Ciência Hoje

Educadora discute por que a curiosidade e o interesse por temas científicos diminuem à medida que avança a vida escolar. E aponta, como um dos itens responsáveis, a incapacidade dos adultos de lidar de forma salutar com o questionamento.

Como dizia Carl Sagan, pode haver questões ingênuas, enfadonhas, mal formuladas, mas não há perguntas imbecis: toda pergunta é um grito para compreender o mundo. (foto: Chris Baker/ Sxc.hu)

Como dizia Carl Sagan, pode haver questões ingênuas, enfadonhas, mal formuladas, mas não há perguntas imbecis: toda pergunta é um grito para compreender o mundo. (foto: Chris Baker/ Sxc.hu)

É praticamente uma ideia de senso comum que as crianças são ‘cientistas inatos’. Elas são curiosas, observadoras, perguntadoras e experimentadoras ativas. Qualquer pai ou professor sabe disso. Mas também é notável e reconhecido por muitos o declínio da curiosidade e do interesse pela ciência que vai marcando o passar dos anos na escola.

A ciência (ou a forma de pensar da ciência) é conteúdo indispensável para o desenvolvimento da criticidade e da autonomia
Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, de tal maneira que, para desespero dos professores de ciências, parece ser possível traçar uma curva descendente que representa a perda do status das disciplinas científicas ao longo dos anos escolares – uma curva que parte da curiosidade extrema da criança da educação infantil, aos 4 e 5 anos, e chega ao tédio e à indiferença, praticamente absolutos, dos adolescentes do ensino médio.

Há, certamente, muitas explicações possíveis para isso e nenhuma delas, por si só, parece dar conta de um processo tão complexo. Isso não invalida, no entanto, refletir sobre elas, sobretudo se formos professores e quisermos interferir nesse declínio do interesse. Também, se formos pais, pois, embora nem sempre se discuta isso, a ciência (ou a forma de pensar da ciência) é conteúdo indispensável para o desenvolvimento da criticidade e da autonomia.

Não faria mal, portanto, se nossos filhos adquirissem um pouco mais de conhecimento científico e, com ele, um pouco mais desses ingredientes, não é mesmo?

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, para desespero dos professores de ciências.

Como praticamente tudo em educação (e em termos de comportamento humano), as explicações para o declínio do interesse e da curiosidade pelo mundo ou pela ciência se dividem em dois grupos: há aqueles que consideram ser esse processo motivado por causas biológicas e há os que veem as causas culturais como suas motivadoras. Existe ainda uma terceira possível visão do assunto: a que considera ambos os fatores – biológicos e culturais – como integrados e, portanto, como necessários para explicar o desinteresse gradativo do jovem pelo mundo que o cerca.

Um dos argumentos que sustentam a visão biológica é o fato de a atividade científica envolver muitas habilidades relacionadas à exploração ativa e à obtenção de conhecimentos sobre o mundo (como a observação, o questionamento, a coleta, a classificação e a experimentação), e de essas habilidades serem vantajosas, do ponto de vista da sobrevivência.

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, para desespero dos professores de ciências. (foto: Alice Konieczna/ Sxc.hu)

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, para desespero dos professores de ciências. (foto: Alice Konieczna/ Sxc.hu)

Como tivemos oportunidade de discutir em outro artigo (clique aqui para ver), o brincar é uma das marcas registradas da infância. Por meio das brincadeiras, a criança explora o entorno (físico e social) e aprende, imitando e antecipando situações que serão vividas de forma real mais adiante em sua vida de jovem e adulto. É interessante, portanto, que na infância as pessoas ajam como ‘pequenos cientistas’, explorando ativamente o mundo em que se encontram. Também é interessante que se perguntem sobre ele, buscando com aqueles que consideram mais experientes (os adultos) respostas para o que lhes inquieta.

Porquês necessários
Ou seja, sob o ponto de vista biológico, mesmo aquele perguntar inesgotável que caracteriza a ‘fase dos porquês’ na infância teria uma função importante: adquirir rapidamente informações sobre o mundo, colocando em ação um conjunto valioso de habilidades relacionadas à curiosidade. Entre essas habilidades estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. Habilidades que, como se percebe, são imprescindíveis na ciência.

Ao imaginar, a criança ensaia suas primeiras hipóteses, da mesma forma que, quando experimenta algo novo, testa seus primeiros ‘experimentos’ para comprová-las. O mesmo acontece com suas perguntas: ao fazê-las, ela exercita uma de nossas habilidades mais primorosas – a capacidade de buscar ativamente informações sobre o mundo e registrá-las como aprendizados valiosos.

Entre as habilidades que vão se perdendo, estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito.
Mas é aqui justamente que os argumentos biológicos começam a se entrelaçar com os culturais. O que acontece com essas habilidades ao longo da vida? Será que pura e simplesmente elas declinam e desaparecem? Ou começam a ser minadas em nosso processo de socialização e, principalmente, de escolarização?

No que diz respeito à capacidade de perguntar, por exemplo, o que fazem os professores e os pais, assim como outros adultos, diante dos questionamentos insistentes das crianças? Como agem diante desse impulso natural e valioso que envolve o querer saber mais sobre o mundo em que se encontram?

De forma geral, os adultos ficam desconcertados diante das perguntas das crianças, desviam-se delas ou oferecem repostas prontas e banais. Isso, quando não se irritam ou zombam das questões dos pequenos.

Muitos pais e/ou professores não sabem e não gostam de lidar com a dúvida e a incerteza. (foto: S Braswell/ Sxc.hu)

Muitos pais e/ou professores não sabem e não gostam de lidar com a dúvida e a incerteza. (foto: S Braswell/ Sxc.hu)

Certo e errado
O fato é que vivemos em uma sociedade que supervaloriza o saber; na qual é preciso ter respostas e, além disso, respostas corretas. Não saber é vergonhoso. Cometer erros é impensável. Além disso, consideramos que há somente o certo e o errado. Não há meio termo. Não há conhecimento em elaboração. O conhecimento reconhecido e valorizado é aquele que está estabelecido. E, se não sabemos a resposta (certa) para algo, é ‘normal’ que não saibamos como lidar com a pergunta. Essa é a lógica que impera e que nos faz, em geral, desviar, desconsiderar ou desdenhar das perguntas feitas pelas crianças.

Se não sabemos a resposta (certa) para algo, é ‘normal’ que não saibamos como lidar com a pergunta
Como aprendizes supereficientes, as crianças, por sua vez, logo entendem essa lição. Elas reconhecem rapidamente que suas perguntas incomodam, não são consideradas ou recebem respostas triviais. Deixam, assim, gradativamente de perguntar e iniciam sua trajetória rumo à apatia em relação aos fatos e aos fenômenos do mundo que caracteriza a vida de muitos adolescentes e adultos.

Se você é professor de ciências e já deu aulas no início e no final do ensino fundamental, sabe do que estamos falando. Mas, se não viveu essa realidade, há uma descrição do astrônomo Carl Sagan (1934-1997), em seu livro O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela no escuro (Companhia das Letras, 2006), que revela essa realidade. Diz Sagan:

“De vez em quando, tenho a sorte de lecionar num jardim de infância ou numa classe de primeiro ano primário. Muitas dessas crianças são cientistas natos […] São curiosas, intelectualmente vigorosas. Perguntas provocadoras e perspicazes saem delas aos borbotões. Demonstram enorme entusiasmo […]. Mas, quando falo a estudantes do último ano do secundário, encontro algo diferente. Eles memorizam ‘fatos’. Porém, de modo geral, a alegria da descoberta, a vida por trás dos fatos, se extinguiu em suas mentes […] Ficam preocupados com a possibilidade de fazer perguntas ‘imbecis’; estão dispostos a aceitar respostas inadequadas; não fazem perguntas encadeadas; a sala fica inundada de olhares de esguelha para verificar, a cada segundo, se eles têm a aprovação de seus pares.

Entre as habilidades que vão se perdendo, estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. (foto: Jean-Pierre Knapen/ Sxc.hu)

Entre as habilidades que vão se perdendo, estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. (foto: Jean-Pierre Knapen/ Sxc.hu)

Muitos pais e/ou professores não sabem e não gostam de lidar com a dúvida e a incerteza.

É evidente que a puberdade ou outros fatores biológicos, por si só, não explicam o desinteresse por ciências que aos poucos vai tomando conta dos pré-adolescentes e chega ao cume na adolescência.

Para entender esses processos, é preciso somar a essas explicações fatores sociais, entre os quais, como Sagan assinala em seu livro: a desvalorização que nossa sociedade faz das carreiras científicas, a falta de modelos e discussão inteligente sobre ciência e tecnologia, a pressão dos pares sobre aqueles que buscam o caminho intelectual (considerados nerds, chatos e desinteressantes) e, o que nos interessa em particular aqui, a incapacidade dos adultos de lidar de forma salutar com o questionamento.

Apologia da dúvida
Mesmo sendo pais e/ou professores, o fato é que não sabemos e não gostamos de lidar com a dúvida e a incerteza. Consideramos errado admitir que não sabemos alguma coisa e, como diz Sagan, gostamos de “fingir onisciência” para as crianças. Isso, mesmo sabendo que a dúvida e a incerteza são dois dos princípios elementares da ciência.

No livro infantil Ei! Tem alguém aí? (Companhia das Letrinhas, 1997), o filósofo e escritor Josten Gaarden também faz a apologia das perguntas, de sua presença na infância e da importância de sua permanência na vida adulta. Um dos personagens-criança do livro, Mika, curva-se em reverência diante de cada pergunta que recebe, e as reverências de Mika são cada vez mais expressivas, conforme a profundidade da pergunta.

Diante de respostas, no entanto, o mesmo personagem não se curva, porque, como ele próprio explica, “a resposta é sempre um trecho de caminho que está atrás de você. Só uma pergunta pode apontar o caminho para frente”. Em outras palavras, menos poéticas, o personagem poderia ter dito: respostas são conhecimentos consolidados, estabelecidos. Perguntas, por sua vez, representam a chance do novo, do surgimento de novos conhecimentos, de inovação e de mudança.

O personagem criado por Josten Gaarden, como você pode imaginar, não é desse mundo. Nada impede, no entanto, que aprendamos com ele. A cada pergunta, cabe uma reverência. Afinal, como diz Carl Sagan, há perguntas de muitos tipos (profundas, ingênuas, enfadonhas ou mal formuladas). O que não há são perguntas imbecis. Toda pergunta – diz Sagan – é um grito para compreender o mundo.

E se você quiser, pode assistir também ao documentário “Educação Proibida“:

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