Preconceito, estereótipo e discriminação

O que é preconceito, afinal? O termo “preconceito” diz respeito à estrutura geral da atitude (porque ele mesmo é uma atitude) e de seu componente emocional – e embora utilizemos a palavra pejorativamente, há preconceitos positivos e preconceitos negativos. Quer ver? Podemos ter um preconceito contra os gaúchos ou a favor dos gaúchos, contra os nordestinos ou a favor dos nordestinos, contra os palmeirenses ou a favor dos palmeirenses. Dependendo da reação emocional que o estereótipo (gaúcho/nordestino/palmeirense) gera em você, sua resposta poderá ser negativa ou positiva, fazendo com que espere que o sujeito estereotipado se comporte de maneiras peculiares, boas ou ruins.

Embora o preconceito envolva emoções que podem ser negativas ou positivas, tendemos a reservar a palavra para nos referirmos a atitudes negativas a respeito de outras pessoas. De modo geral, o preconceito é representado como uma atitude hostil contra pessoas de determinado grupo, baseando-se unicamente na condição destes como membros do grupo. Um exemplo simples: quando afirmamos que alguém tem preconceito contra os negros, queremos dizer que ele está disposto a comportar-se de maneira hostil em relação a eles. O preconceito é um comportamento emocional/afetivo, parcialmente automático e bastante sensível à estrutura social.

estereótipo, diferentemente, é um componente cognitivo – ou seja, não é necessariamente emocional, positivo ou negativo e fixa-se mais na generalização sobre o grupo todo (e não sobre uma característica específica, como é o caso do preconceito). Enquanto o preconceito é uma atitude positiva ou negativa sobre um grupo com base em suas características, o estereótipo é o ato de atribuir características idênticas a todos os membros de um grupo.

A estereotipagem não é necessariamente emocional ou leva a atos  intencionais de hostilidade. Ao contrário, a estereotipagem é com frequência apenas uma maneira que temos de simplificar a ideia que formamos do mundo – e todos nós fazemos isso. Vamos testar:  concentre-se por alguns segundos e imagine a aparência das seguintes pessoas: 1) líder de torcida, 2) motorista de táxi, 3) músico negro. Pronto? Acredito que não tenha sido uma tarefa difícil, porque todos nós fazemos imagens mentais de “tipos de pessoas”.  Provavelmente você imaginou a líder de torcida como uma moça animada, não-intelectual e bem feminina, o motorista provavelmente era homem e o músico negro dificilmente tocava música clássica. Correto?

O jornalista Walter Lippmann (1922) foi o primeiro a utilizar a palavra “estereótipo” e descreveu a diferença entre eles e o mundo externo. Em cada cultura, agrupamos indivíduos conforme as características mais fortes de seus membros. É óbvio que há líderes de torcida masculinos, motoristas de táxi mulheres e negros que tocam música clássica, mas tendemos a categorizar de acordo com o consideramos a norma estatística. No interior de uma cultura, o que cada um considera norma é sempre muito semelhante ao que consideram os demais, porque essas imagens são divulgadas amplamente pela história oral, artística e mesmo pela mídia desta cultura.

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Imagem: parábola dos cegos – Brueghel

Uma vez formados, os estereótipos são resistentes às mudanças, mesmo que elas sejam baseadas em novas (e confiáveis) informações. Gordon Allport (1954), por exemplo, chama a estereotipagem de “lei do menor esforço”. Conforme ele, o mundo é complexo demais para que criemos atitudes diferenciadas a respeito de cada coisa. Ao invés disso, confiamos em crenças e esquemas simples e generalizantes, considerando nossa capacidade limitada de processar muitas informações ao mesmo tempo. Assim, é normal que tomemos atalhos e adotemos algumas regras na tentativa de compreender outras pessoas (Fiske, 1989; Fiske & Depret, 1996; Jones, 1990; Taylor, 1981; Taylor & Falcone, 1982). Conforme o estereótipo resultante se baseia em experiência e é exato, ele pode ser uma maneira adaptativa de lidar com eventos complexos. De outra forma, quando ele nos deixa desconsiderar as diferenças individuais, nos faz cometer generalizações injustas, virando discriminação (que veremos a seguir).

O outro elemento do preconceito é a ação, que comumente chamamos de discriminação. A discriminação é o ato de utilizarmos o estereótipo para recorrer a uma ação negativa injustificada ou prejudicial contra membros de um grupo.

É bastante comum pensarmos que a discriminação é destinada apenas aos grupos minoritários. Acontece que, mesmo que esse aspecto do preconceito deva ser reconhecido, a discriminação perpassa todos os indivíduos e pode, sim, fluir do grupo minoritário para o majoritário.

Todos somos, fomos ou seremos vítimas potenciais de estereotipagem e discriminação,  graças à nossa simples condição de membro de um grupo qualquer (religioso, de gênero, sexual, etc.).

Portanto:

Preconceito: atitude negativa dirigida a um grupo, com base em uma característica desse grupo. É dirigido ao grupo como um todo, ignorando diferenças individuais.

Estereótipo: generalização sobre um grupo, onde características idênticas são dadas a todos os membros de um grupo. Não é necessariamente emocional, positivo ou negativo, e não necessariamente produz discriminação.

Discriminação: uma ação negativa dirigida a um membro de um grupo, simplesmente por sua identificação como membro do grupo.

Natural ou antinatural?

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Imagem: Escher

Esta é certamente uma discussão espinhosa, pois até hoje não existe consenso sobre o preconceito ser  natural ou antinatural.  Aronson, Akert e Wilson (2011) lembram que psicólogos evolutivos tem sugerido que os animais tem uma forte tendência a “se sentirem mais favoráveis em relação a outros geneticamente semelhantes e a expressarem medo e aversão contra organismos geneticamente diferentes, mesmo que estes últimos nunca lhes tenham feito nenhum mal” (estudos podem ser encontrados em Buss & Kenrick, 1998; Rushton, 1989; Trives, 1985). Pensando nisso, o preconceito, poderia ser inato – uma parte essencial do nosso mecanismo biológico de sobrevivência. De outro modo, talvez nossa inclinação natural seja sermos cordiais, abertos e cooperativos. Assim a cultura (os pais, a comunidade, a escola, a mídia) poderia intencionalmente ou não ensinar-nos a atribuir qualidades e atributos negativos a pessoas diferentes de nós (Aronson; Akert; Wilson, 2011).

Neste sentido, a maioria dos psicólogos sociais concorda que os aspectos específicos do preconceito podem ser aprendidos, mas as crianças de pouca idade, embora possam captar os preconceitos dos pais, não necessariamente os retêm até a idade adulta. Em pesquisa, Mega Rohan e Mark Zanna (1996) analisaram a semelhança de atitudes e valores entre os progenitores e seus filhos na idade adulta. O que eles descobriram? Que a transmissão transgeracional funciona mais quando os pais adotavam atitudes e valores igualitários do que quando manifestavam atitudes preconceituosas. Concomitantemente, pode-se dizer que é, sim, possível ensinar preconceitos às crianças, e é o que Elliot (1977) mostra em seu documentário “olhos azuis” (que você pode assistir AQUI).

 

O que causa o preconceito?

A primeira explicação das causas do preconceito dada por Aronson, Akert e Wilson (2011) é a de tratar-se de um subproduto inevitável da maneira como processamos e organizamos as informações. A tendência humana a agrupar informações e categorizá-las, formando esquemas para interpretar informações incomuns ou novas através de atalhos no funcionamento mental, podem certamento levar-nos a formar estereótipos negativos e, através deles, ter ações discriminatórias.

O primeiro passo em qualquer preconceito é a criação de grupos, criando-os com base em certas características. Sobre essa categorização e o ato agrupar os estímulos de acordo com suas semelhanças, constrastando os estímulos segundo suas disparidades, existem diversos estudos na área da psicologia social (Brewer & Brown, 1998; Rosch & Lloyd,  1978; taylo, 1981; Wilder, 1986). O exemplo mais clássico disso é que agrupamos animais e plantas em taxonomias – e o mundo social em sexo, nacionalidade, etnia, escolaridade, classe.  Nos baseamos no que foram os estímulos semelhantes no passado, a fim de reagir aos novos estímulos (Andersen & Klaatzsky, 1987). A categorização é, ao mesmo tempo, útil e necessária.

Mas o que cria esse preconceito intragrupo (destinado a quem pertence ao mesmo grupo que nós)? Para responder a essa questão, o psicólogo britânico Henri Tajfel (1982) descobriu que o grande motivo pode ser a autoestima:  identifica-se com grupos específicos faz com que os indivíduos aumentem sua auto-estima, desde que considerem seu grupo de pertencimento superior aos demais grupos. Para entender o fenômeno, Tajfel e alguns de seus colegas criaram pequenos grupos, que contavam com indivíduos que sequer se conheciam e muito pouco tinham em comum: para separá-los, os participantes eram distribuídos em um ou outro grupo conforme o lançamento de uma moeda. O resultado é que, embora não se conhecessem antes do experimento, o grupo se comportava compartilhando o mesmo estilo, classificando-se como tendo personalidades semelhantes e buscando itens em comum, muitas vezes denegrindo os participantes do outro grupo.

O que se observou com esses resultados: que ainda que as razões sejam mínimas para uma diferenciação gritante, ser parte de um grupo leva os participantes a quererem “ser superiores” aos outros grupos (item também salientado por Robert Cialdini e colegas, 1976). Trata-se de uma polarização entre “nós” e “eles”. E é extremamente difícil fazer um preconceituoso mudar de opinião. Por quê? Podemos elencar alguns motivos a seguir:

  1. O preconceito é componente afetivo e não racional
  2. Argumentos lógicos não conseguem neutralizar emoções
  3. Acabamos ficando emocionalmente condicionados a reagir de modo preconceituoso
  4. Pode haver correlação ilusória (tendência de se ver relações onde elas não existem)
  5. Ameaça de estereótipo (impacto da curva do Sino: Murray, 1995), apreensão causada pelo pertencimento a um grupo de minoria (“Será que minha resposta vai confirmar o estereótipo?)
  6. Conformidade ao grupo (experimento de Asch, que você pode ver AQUI)

 

Não está disposto a ler toooodo esse post? Tudo bem, você pode assistir a um resumão AQUI.

O que significa sermos livres para tomar decisões, se nosso comportamento não faz senão seguir as leis da natureza?

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Imagem: s/n

“Existe uma questão em particular, em relação a nós mesmos, que muitas vezes nos deixa perplexos: o que significa sermos livres para tomar decisões, se nosso comportamento não faz senão seguir as leis da natureza? Será que não há contradição entre nossa sensação de liberdade e a lógica com a qual já compreendemos que se desenvolvem as coisas do mundo? Será que existe em nós alguma coisa que escapa às regularidades da natureza, e nos permite distorcê-las e desviá-las com nosso pensamento livre?

Não, não há nada em nós que escape aos padrões da natureza. Se algo em nós violasse os padrões da natureza, já o teríamos descoberto há tempos. Não há nada em nós que viole o comportamento natural das coisas. Toda a ciência moderna, da física à química, da biologia à neurociência, não faz senão reforçar essa observação.

A solução do equívoco é outra: quando dizemos que somos livres, e é verdade que podemos sê-lo, isso significa que nossos comportamentos são determinados por aquilo que acontece dentro de nós mesmos, no cérebro, e não são induzidos de fora. Ser livre não significa que nossos comportamentos não sejam determinados pelas leis da natureza. Significa que eles são determinados pelas leis da natureza que agem no nosso cérebro. Nossas decisões livres são livremente determinadas pelos resultados das interações fugazes e riquíssimas entre os bilhões de neurônios do nosso cérebro: são livres quando é a interação desses neurônios que as determina.

 Isso significa que, quando decido, sou “eu” a decidir? Sim, claro, porque seria absurdo perguntar se “eu” posso fazer algo diferente daquilo que o complexo dos meus neurônios decide fazer: as duas coisas, como havia compreendido com maravilhosa lucidez, no século XVII, o filósofo holandês Baruch Spinoza, são a mesma coisa. Não existem “eu” e “os neurônios do meu cérebro”. Trata-se da mesma coisa. Um indivíduo é um processo, complexo, mas estreitamente integrado.

Quando dizemos que o comportamento humano é imprevisível, dizemos a verdade, porque ele é complexo demais para ser previsto, sobretudo por nós mesmos. Nossa intensa sensação de liberdade interior, como Spinoza havia visto de forma perspicaz, vem do fato de que a ideia e as imagens que temos de nós mesmos são extremamente mais toscas e imprecisas do que o detalhe da complexidade daquilo que ocorre dentro de nós. Ficamos espantados conosco. Temos centenas de bilhões de neurônios em nosso cérebro, tantos quantas são as estrelas de uma galáxia, e um número ainda mais astronômico de ligações e combinações em que eles podem se encontrar. De tudo isso, não estamos conscientes. “Nós” somos o processo formado por essa complexidade, não aquele pouco de que estamos conscientes.

Aquele “eu” que decide é o mesmo “eu” que aquela impressionante estrutura que gerencia informação e constrói representações, que é o nosso cérebro, forma — de um modo que, sem dúvida, ainda não nos é totalmente claro, mas que começamos a vislumbrar — a partir do espelhar-se em si mesma, do autorrepresentar-se no mundo, do reconhecer-se como ponto de vista variável colocado no mundo.

Quando temos a sensação de que “sou eu” a decidir, não há nada mais correto: quem mais? Eu, como queria Spinoza, sou o meu corpo e tudo o que acontece no meu cérebro e no meu coração, ambos com sua ilimitada e, para mim mesmo, inextricável complexidade.

 A imagem científica do mundo, que descrevi nestas páginas, não está, portanto, em contradição com o nosso sentir a nós mesmos. Não está em contradição com o nosso pensar em termos morais, psicológicos, com nossas emoções e nosso sentimento. O mundo é complexo, nós o capturamos com linguagens diversas, apropriadas para os diversos processos que o compõem. Todo processo complexo pode ser encarado e compreendido com linguagens diversas em níveis diversos. As diversas linguagens se entrecruzam, se entrelaçam e se enriquecem mutuamente, como os próprios processos. O estudo da nossa psicologia se refina compreendendo a bioquímica do nosso cérebro. O estudo da física teórica se nutre da paixão e das emoções que nos acompanham pela vida.

Nossos valores morais, nossas emoções, nossos amores não são menos verdadeiros pelo fato de fazerem parte da natureza, de serem compartilhados com o mundo animal ou por haverem crescido e terem sido determinados ao longo dos milhões de anos da evolução de nossa espécie. Ao contrário, são mais verdadeiros por isto: são reais. São a complexa realidade de que somos feitos. Nossa realidade são o pranto e o riso, a gratidão e o altruísmo, a fidelidade e as traições, o passado que nos persegue e a serenidade. Nossa realidade é constituída pelas nossas sociedades, pela emoção da música, pelas ricas redes entrelaçadas do nosso saber comum, que construímos juntos. Tudo isso é parte daquela mesma natureza que descrevemos. Somos parte integrante da natureza, somos natureza, em uma de suas inumeráveis e variadíssimas expressões. É isso que nosso conhecimento crescente das coisas do mundo nos ensina.

Tudo o que é especificamente humano não representa nossa separação da natureza, é a nossa natureza. É uma forma que a natureza assumiu aqui em nosso planeta, no jogo infinito de suas combinações, da influência recíproca e da troca de correlações e informação entre suas partes. Quem sabe quantas e quais outras extraordinárias complexidades, em formas que talvez até nem possamos imaginar, existem nos ilimitados espaços do cosmo… Há tanto espaço lá em cima, que é pueril pensar que neste cantinho periférico de uma galáxia das mais banais exista algo especial. A vida na Terra é apenas uma amostra do que pode suceder no universo.

Somos uma espécie curiosa, a única que restou de um grupo de espécies (o “gênero Homo”) formado por pelo menos uma dúzia de espécies curiosas. As outras espécies do grupo já se extinguiram; algumas, como os neandertais, há pouco: não faz nem 30 mil anos. É um grupo de espécies que evoluiu na África, afim aos chimpanzés hierárquicos e litigiosos, e mais ainda aos bonobos, os pequenos chimpanzés pacíficos, alegremente promíscuos e igualitários. Um grupo de espécies que saiu repetidamente da África para explorar novos mundos e que chegou longe, até a Patagônia, até a Lua. Não somos curiosos contra a natureza: somos curiosos por natureza.

Cem mil anos atrás, nossa espécie partiu da África, talvez impelida justamente por essa curiosidade, aprendendo a olhar cada vez mais à frente. Sobrevoando a África à noite, eu me perguntei se um daqueles nossos longínquos antepassados, erguendo-se e pondo-se a caminho rumo aos espaços abertos do Norte, e olhando o céu, poderia ter imaginado um distante neto seu voando naquele céu, interrogando-se sobre a natureza das coisas, ainda impelido pela sua mesma curiosidade.

Penso que nossa espécie não durará muito. Ela não parece ter a resistência das tartarugas, que continuaram existindo semelhantes a si mesmas por centenas de milhões de anos, centenas de vezes mais do que nós temos existido. Pertencemos a um tipo de espécie de vida breve. Nossos primos já estão todos extintos. E nós causamos danos. As mudanças climáticas e ambientais que deflagramos foram brutais, e dificilmente nos pouparão. Para a Terra, será um pequeno clique irrelevante, mas penso que não passaremos incólumes por ele; ainda mais quando a opinião pública e a política preferem ignorar os perigos que estamos correndo e enfiar a cabeça na areia. Talvez sejamos sobre a Terra a única espécie consciente da inevitabilidade de nossa morte individual: temo que em breve nos tornaremos também a espécie que conscientemente verá chegar o próprio fim, ou pelo menos o fim da própria civilização.

Assim como sabemos enfrentar, mais ou menos bem, nossa morte individual, também enfrentaremos a ruína da nossa civilização. Não é muito diferente. E, sem dúvida, não será a primeira civilização a desmoronar. Os maias e os cretenses já passaram. Nascemos e morremos como nascem e morrem as estrelas, tanto individual quanto coletivamente. Essa é nossa realidade. Para nós, justamente por sua natureza efêmera, a vida é preciosa. Porque, como escreve Tito Lucrécio, “nosso apetite de vida é voraz, nossa sede de vida, insaciável” (De rerum natura, III, 1084).

Mas, imersos nessa natureza que nos fez e que nos leva, não somos seres sem casa, suspensos entre dois mundos, partes somente em parte da natureza, com a nostalgia de algo mais. Não: estamos em casa.

A natureza é nossa casa e na natureza estamos em casa. Este mundo estranho, diversificado e assombroso que exploramos, onde o espaço se debulha, o tempo não existe e as coisas podem não estar em lugar algum, não é algo que nos afasta de nós: é somente aquilo que nossa natural curiosidade nos mostra da nossa casa. Da trama da qual somos feitos nós mesmos. Somos feitos da mesma poeira de estrelas de que são feitas as coisas, e quer quando estamos imersos na dor, quer quando rimos e a alegria resplandece, não fazemos mais do que ser aquilo que não podemos deixar de ser: uma parte do nosso mundo.

Por natureza, amamos e somos honestos. E, por natureza, queremos saber mais. E continuamos a aprender. Nossa consciência do mundo continua a crescer. Existem fronteiras, nas quais estamos aprendendo, e onde arde nosso desejo de saber. Elas estão nas profundezas mais diminutas da textura do espaço, na origem do cosmo, na natureza do tempo, na existência dos buracos negros e no funcionamento do nosso próprio pensamento.

À beira daquilo que sabemos, em contato com o oceano do desconhecido, reluzem o mistério e a beleza do mundo. E é de tirar o fôlego.”

Carlo Rovelli, em “Sete breves lições de física”

Ponderar evidência e prática

“A fim de haver tolerância no mundo, uma das coisas a ser ensinada nas escolas deve ser o hábito de ponderar a evidência e a prática de não dar total assentimento a proposições em que não haja razão para serem aceitas como verdadeiras. Por exemplo, a arte da leitura de jornais precisa ser ensinada. O professor deve selecionar algum incidente acontecido há muitos anos e que tenha provocado paixões políticas à época. Então, ele deve ler para as crianças o que foi publicado por um jornal de uma corrente política e o que foi mencionado por outros jornais de opinião oposta, e algum relato imparcial do que realmente aconteceu. Ele deve mostrar como, a partir do viés de cada relato, um leitor habituado à leitura pode inferir o que de fato ocorreu, e precisa fazer com que elas entendam que tudo nos jornais é mais ou menos falso. O ceticismo cínico que resultaria desse ensinamento tornaria as crianças mais tarde imunes a apelos de idealismo pelos quais pessoas decentes são induzidas a favorecer os esquemas dos vigaristas.”

Bertrand Russell, 1920

A habilidade específica do político

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Imagem: Bertrand – BBC

“A habilidade específica do político consiste em saber que paixões pode com maior facilidade despertar e como evitar, quando despertas, que sejam nocivas a ele próprio e aos seus aliados. Na política como na moeda há uma lei de Gresham; o homem que visa a objetivos mais nobres será expulso, exceto naqueles raros momentos (principalmente revoluções) em que o idealismo se conjuga com um poderoso movimento de paixão interesseira.”

Bertrand Russell, in ‘Ensaios Céticos: A Necessidade do Ceticismo Político’

Racionalidade e política: um guia para um debate político mais racional

Texto escrito por Riis Rhavia Assis Bachega,
diretamente para o Universo Racionalista

Frente a recente onda de irracionalidade motivada por questões políticas, é extremamente necessário que se divulgue ferramentas para que essas questões tão importantes para todos nós sejam discutidas de maneira racional e objetiva. Esse texto se dividirá em duas partes: a primeira parte se encarregará de tentar entender por que há tanto fanatismo e irracionalidade nas discussões de cunho político e social, e a segunda parte se encarregará de fornecer algumas dicas para que possamos discutir mais racionalmente esse tema e não cairmos no fanatismo.

I – Por que o fanatismo?

Primeiramente, tentarei expor alguns motivos que impulsionam a polarização de opiniões e a onda de fanatismo. A saber:

  • O viés de confirmação

É muito bem documentada a tendência das pessoas de procurarem informações que condizentes com suas crenças prévias e prestar atenção apenas nos fatos que confirmem essas crenças. Essa tendência é conhecida como viés de confirmação, um tipo de viés cognitivo. Por exemplo, se uma enfermeira que trabalha em uma maternidade acredita que nascem mais bebês durante a Lua cheia, ela irá prestar mais atenção nas noites de Lua cheia em que nascem mais bebês, ignorando quando não nascem. O viés de confirmação é a principal origem das crenças supersticiosas, e também, da polarização ideológica.

  • Bolhas ideológicas

Como consequência do viés de confirmação, se forma as chamadas bolhas ideológicas. É tendência natural das pessoas se agruparem com outras pessoas com gostos e opiniões parecidas com as suas, o que não tem problema nenhum à princípio. O problema é quando a pessoa limita seu círculo de relações somente a quem pensa parecido com ela. Também, a pessoa tende a seguir somente veículos de mídia e formadores de opinião com os quais ela já concorda, dessa maneira, gente de esquerda tende a acompanhar publicações de esquerda, e gente de direita tende a acompanhar publicações de direita. Para o de esquerda (direita), as publicações de direita (esquerda) são mentirosas e manipuladoras, enquanto as publicações de esquerda (direita) são isentas e verídicas. Dessa maneira, veículos de mídia e formadores de opinião aglomeravam em torno de si as pessoas que seguem aquela linha de pensamento, e formam um séquito. As consequências são a polarização de opiniões, o fanatismo e a intolerância.

Enquanto a rede de conhecidos se limitava a o círculo familiar e de amigos, era muito propício a formação dessas bolhas ideológicas. Com o advento da internet, tivemos uma oportunidade como nunca antes na história da humanidade, de ter acesso a informação e conviver com pessoas das mais variadas orientações de pensamento. Tínhamos oportunidade de um ambiente plural necessário para o exercício do livre pensamento e a emergência de um mundo mais plural.

No entanto, o que ocorreu foi o contrário. As pessoas limitaram sua lista de contatos em redes sociais somente àqueles que pensam de forma parecida. Vimos muito isso nas últimas eleições, em que várias amizades foram desfeitas entre pessoas que apoiavam candidatos diferentes. Essa tendência é intensificada pelo que o pesquisador Eli Pariser chama de “Filtro Bolha, os algoritmos que sites de busca e redes sociais utilizam que tornam mais visíveis para o usuário somente informações e conteúdos de acordo com os interesses e crenças deste. Segundo Eli Pariser “O filtro bolha tende a amplificar dramaticamente o viés de confirmação. De certa forma, ele é feito para isso. Consumir informações que corroborem com suas ideias de mundo é fácil e prazeroso; consumir informações que nos desafiem a pensar de novas formas ou questionar nossas presunções é frustrante e difícil”. As consequências disso é que as opiniões tendem a ficar mais polarizadas e os usuários mais extremistas.

  • Ignorância racional e irracionalidade racional

A teoria da ignorância racional e da irracionalidade racional está muito bem explicada nos textos “Por que as pessoas são irracionais sobre política? e no texto Por que políticos ruins se reelegem?”, e, portanto, não me alongarei aqui discutindo esse tema. Mas resumidamente, o termo ignorância racional vem da teoria econômica da escolha pública. Ele se refere ao fato que muitas vezes os custos de colher informações para embasar uma decisão excedem os ganhos. Para exemplificar, no caso de eleições, o custo para um eleitor de pesquisar candidato por candidato excede em muito o ganho individual, já que o voto individual dificilmente vai alterar o resultado das eleições. Por isso que aqueles políticos que já tem visibilidade e reputação (mesmo que má) acabam se elegendo, pois é mais cômodo para os eleitores votarem em quem já conhecem (mesmo sabendo que é um patife) do que pesquisar novos nomes.

Já o termo irracionalidade racional se refere ao fato que muitas vezes, as pessoas pensam irracionalmente por que é de seu interesse pensar assim. Esse conceito vem da distinção entre dois tipos de racionalidade: a racionalidade instrumental (o que eu preciso fazer pra alcançar um determinado objetivo) e a racionalidade epistêmica (pensar de maneira logicamente consistente e com boas evidências empíricas). Resumindo: se for vantajoso para alcançar determinado objetivo, eu pensar de maneira ilógica, então pensarei de maneira ilógica.

  • O debate político é dominado por ideólogos

Por fim, segue o fator que eu considero mais grave, porque se aproveita dos fatores anteriormente descritos. Os principais formadores de opinião são ideólogos. Por ideólogos, eu me refiro àqueles que têm compromisso antes com um projeto político/ideológico do que com os fatos. O ideólogo faz uso do viés de confirmação, para ele os únicos fatos relevantes são aqueles que se encaixam na sua concepção ideológica de mundo, ou que são uteis para o seu projeto político/ideológico. Os que não se enquadram são ignorados ou se faz um malabarismo argumentativo para que eles possam se enquadrar.

Outra marca do ideólogo é a relativização de valores, em que bem e mau, certo ou errado, verdade ou falsidade; depende de quem faz. Quando alguém da tribo ideológica deles comete algo que ele condena na tribo “inimiga”, ele relativiza/releva/ignora/nega.

Não que não existam estudiosos sérios debatendo questões políticas, mas o alcance deles é muito reduzido. Para a maioria das pessoas, segundo os conceitos de ignorância racional e irracionalidade racional, é mais fácil consumir análises rasas e terceirizar o pensamento. E dessa maneira, os ideólogos reúnem um verdadeiro séquito em torno de si, e insufla um sentimento de “nós x eles”, partindo para a total desumanização do adversário.

O objetivo dos ideólogos é ficar em evidência para que sua mensagem atinja o maior número de pessoas possíveis. Por isso, ele está pouco preocupado com a consistência lógica e compatibilidade com os fatos da mensagem que ele divulga, já que ele sabe que tem um séquito que irá aceitar à priori tudo que ele diz. Também ele sabe que tem os haters, aqueles que irão rejeitar à priori tudo que ele diz. Das duas formas, agradando seus seguidores e irritando seus haters, ele consegue visibilidade.

Quem mais se prejudica com essa polarização são aqueles que assumem posições mais moderados, pois recebem ataques dos extremistas dos dois lados. A racionalidade leva a moderação, a entender que não existem respostas finais e soluções fechadas para a maioria dos problemas. Se você tende a uma posição mais de centro, acaba sendo “acusado” de esquerdista pelos extremistas de direita, e de direitista pelos extremistas de esquerda.

II – Como podemos debater racionalmente?

Agora que vimos algumas das causas para tanto fanatismo, darei algumas sugestões para aqueles, que antes de qualquer posicionamento político/ideológico, valorizam a razão, a evidência e o livre pensamento.

  • Saia das bolhas ideológicas

Como vimos limitar sua rede de contatos somente àqueles que pensam de maneira parecida conosco, e seguir veículos de comunicação e formadores de opinião, com os quais já tendemos a concordar, reforça o viés de confirmação. Se nos isolarmos em bolhas ideológicas, nunca iremos ter oportunidade de confrontar nossas opiniões e assim, não saberemos quão boa elas são.

Sair das bolhas ideológicas também é importante pra percebemos que quem pensa diferente não necessariamente é algum tipo de monstro, ou algum imbecil. Entender as razões que levam a pensar daquela maneira, mesmo que não concordemos, é importante para não desumanizar o adversário. Em minha opinião, a internet contribuiu muito para essa desumanização do diferente, pois nas discussões cara a cara, é mais fácil desenvolver empatia, enquanto que nas virtuais, o que temos é um perfil, e aí é mais difícil medir o impacto do que falamos sobre as outras pessoas.

  • Procure diversas fontes de informação

Quando se trata de política, sejamos realistas: não existem veículos de informação isentos!Os interesses envolvidos são muitos, e os veículos de mídia sempre vão dá informações que favoreçam um lado e comprometam outro. O pior é que muitos consideram os veículos de mídia que se posicionam contrariamente a linha que eles defendem como tendenciosos e mentirosos, enquanto que aqueles que se posicionam na mesma linha como confiáveis e isentos.

O que aqueles que valorizam opiniões formadas com base em evidências devem fazer quanto a isso? O volume de informações que nos chegam é muito grande, e é humanamente impossível verificar a veracidade de todas elas. A recomendação que eu dou é: acompanhe veículos de mídia das mais variadas orientações, pois já que todos tem um lado, procure reconhecer aquele que é mais coerente em relação aos fatos. Como vimos os ideólogos não estão preocupados com a coerência dos seus argumentos, apenas em defender um discurso ideológico. Se um veículo de mídia, a despeito de sua orientação ideológica, é coerente em seus argumentos, isso mostra que ele é confiável.

  • Admita sua própria ignorância

Frequentemente somos intimados a nos posicionar pelos extremistas, e quem prefere manter a cautela é logo rotulado pejorativamente de “insentão”. Lembre-se: a ignorância pode ser uma bênção! Muitas das questões debatidas (como a do impeachment) exigem conhecimentos especializados de direito, sociologia, economia, história, ciência política, etc. É melhor ser “insentão” e admitir que você não tem competência de julgar certas coisas pra formar uma opinião embasada do que repetir clichês ideológicos prontos e seguir manadas.

  • Esteja disposto a mudar de opinião

Não há problema nenhum em defender causas políticas e sociais, pelo contrário, isso é muito nobre. Mas não podemos nos deixar cegar pelas ideologias de nossa preferência e simplesmente ficar alheio aos fatos. Formar uma opinião com base em certas informações, e ao se deparar com uma informação nova, mudar de opinião (um procedimento bayesiano que será tema de um artigo futuro) é algo louvável. Denota humildade e respeito às evidências.

Também seja crítico em relação às informações que você recebe, independente de elas se alinharem ou não ao que você acredita. Por exemplo: não é por que saiu uma denúncia de corrupção envolvendo um político que você não gosta que a denúncia necessariamente seja verdadeira, assim como se sair uma denúncia em relação a um político que você apoia que ela seja falsa. Sempre vá atrás da veracidade da informação, independente de ela te agradar ou não. Uma boa dose de ceticismo é sempre bem vinda.

Outra coisa: quando você se deparar com um texto argumentando uma posição contrária àquela que você defende, antes de procurar furos na argumentação e ensaiar uma “refutação” (eu não gosto dessa palavra), procure entender os argumentos apresentados no texto, eles podem ser bons e você aprender algo novo com eles! Ou eles podem ser ruins e você consegue ficar mais seguro de suas crenças. Das duas formas, você ganha.

Conclusão

Todos têm a ganhar com o debate racional, e todos perdem com a polarização de opiniões. A finalidade de um debate não é humilhar e refutar (por isso que eu não gosto dessa palavra) aqueles com posição diferente, mas sim chegar a um esclarecimento mútuo e solucionar problemas que nos afetam.  É o que ocorre na ciência, em que cientistas debatem teorias diferentes, comparam com os dados disponíveis para ver qual a que melhor corresponde a esses dados. Dessa maneira a ciência progride.

Um adendo: cientistas são pessoas e não estão imunes a vieses cognitivos, filtros bolha ou desonestidade pura e simples. Mas o método científico e o compartilhamento de trabalhos para ser submetidos ao crivo crítico da comunidade científica acabam por minimizar esses efeitos, ainda mais se compararmos como o que ocorre em outras áreas, como a política e religião, por exemplo. Em debates científicos, os debatedores normalmente saem de um estado de maior ignorância para um de menor ignorância, enquanto que nos debates políticos e religiosos, os debatedores saem de um estado de ignorância para um de maior ignorância ainda. Nos debates científicos, o ganho é mútuo por que cientistas estão cientes da sua ignorância, enquanto que em debates políticos e religiosos os dois lados estão certos de que sua posição é a verdadeira, e o prejuízo é mútuo.

Para que a democracia progrida, é necessário um ambiente de livre pensamento, com respeito a quem pensa diferente e valorização da racionalidade epistêmica (consistência lógica e respeito às evidências empíricas). Como diz Bertrand Russel, se você sente raiva de alguém com uma opinião diferente da sua, é por que provavelmente sua opinião não é bem fundamentada.