[Tradução] Carta de Epicuro a Herodoto

Imagem: Busto – Epicuro de Samos

Esta semana, o  Thiago Carvalho, me pediu para traduzir o fragmento disponível da Carta de Epicuro a Herodoto, que não possui versão livre em português. Peguei as traduções disponíveis (inglês e espanhol) e a mais antiga delas (latim) e comecei a traduzir e comparar. Eis o resultado:

  • Carta de Epicuro a Herodoto (Fragmento)

Para aqueles, oh Heródoto, que não podem ter um conhecimento perfeitamente exato de cada um de meus escritos sobre a Natureza, e estudar a fundo os principais livros, maiores, que escrevi, fiz um resumo de toda minha obra que permite reter mais facilmente as principais teorias. Poderão, assim, evitar ter que fazê-lo, eles mesmos, com minhas idéias principais na medida em que se interessam pela Natureza. De outro modo, os que já conhecem a fundo minhas obras completas, necessitam ter presentes na memória as linhas gerais de minha doutrina; muitas vezes temos mais necessidade de um resumo que de conhecimento particular dos detalhes.

Há que avançar passo a passo, retendo constantemente o conjunto da doutrina para compreender bem seus detalhes. Esse duplo efeito será possível se forem bem compreendidas e se o reterem em sua verdadeira formulação as idéias essenciais, e se as aplica seguido aos elementos, às idéias particulares e às essenciais. Conhece a fundo a doutrina quem pode obter partido rapidamente das idéias gerais. Pois é impossível colocar em seu completo desenvolvimento a totalidade de minha obra se és incapaz de resumir para si mesmo e em poucas palavras o conjunto daquilo que se quer aprofundar particularmente, detalhe a detalhe.

Já que este método resulta útil para todos que estudam seriamente a física, aconselho a todos os homens decididos, que se entregam assiduamente ao estudo, e que buscam nele o meio de obter tranquilidade na vida, que façam um resumo similar do conjunto de minhas teorias. Há que começar, Herodoto, por conhecer o que se oculta nas palavras essenciais, a fim de poder, relacionando-as com as coisas mesmas, formular juízo sobre nossas opiniões, nossas idéias e nossas dúvidas. Deste modo, não corremos o risco de discutir até o infinito sem resultados e de pronunciar palavras vazias. Com efeito, é necessário estudar primeiramente o sentido de cada palavra, para não ter necessidade de um excesso de demonstrações, quando discutimos nossas perguntas, nossas idéias e nossas dúvidas.

Depois há que se observar todas as coisas, confrontando-as com as sensações e, de modo geral, com as intuições do espírito ou qualquer outro critério. Igualmente pelo que diz respeito às nossas afeições presentes, para poder julgar segundo os signos dos objetos de nossa atenção e os objetos ocultos. Quando já se viu tudo isso, se está preparado para estudar as coisas invisíveis, em primeiro lugar, podendo dizer que nada nasce do nada, já que as coisas não tiveram necessidade de semente, tudo poderia nascer de tudo.

De outra forma, se o que desaparece volta ao nada, todas as coisas pereceriam, já que não poderíam converter-se em mais que nada, do que resulta que no universo tenha sido sempre e será sempre o que é atualmente, já que não há nenhuma coisa em que se possa converter, e tampouco há, fora do universo, nada que possa atuar sobre ele para provocar uma troca. O universo está formado por corpos. Sua existência é mais que suficientemente provada pela sensação, pois é ela, repito, a que sere de base ao raciocínio sobre as coisas invisíveis. Se o que chamamos de vazio, a extensão, a essência intangível, não existisse, não haveria lugar em que os corpos poderiam mover-se; como efeito, vemos que se movem. À margem destas duas coisas não se pode compreender nada, nem por intuição, nem por analogia com os dados da intuição – de que existe como uma natureza completa, já que não estou falando de acontecimentos fortuitos ou de acidentes.

Entre os corpos, uns são compostos, outros são os elementos que servem para fazer os compostos. Estes últimos são os átomos indivisíveis e imutáveis, já que nada pode converter-se em nada e é necessário que subsistam realidades quando os compostos se desagregam. Estes corpos estão completos por natureza e não têm neles lugar nem meio pelo qual poderão se pode destruir. Do que resulta que tais elementos devem ser, necessariamente, as partes indivisíveis dos corpos. Ademais, o universo é infinito. Em efeito, o que é finito tem um extremo e o extremo se descobre por comparação com o outro. Assim que, necessitando de extremo, não tem, em absoluto, fim: e não tendo fim, é necessariamente infinito e não finito. O universo é infinito desde dois pontos de vista: pelo número de corpos que contém e pela imensidão de vazio que contém. . Se o vazio fosse infinito e o número de corpos limitado, estes se dispersariam em desordem pelo vazio infinito, já que não havería nada para sustentá-los e nada para uní-los às coisas. E se o vazio fosse limitado e o número de corpos infinito, não haveria lugar onde poderiam se instalar.

De outra forma, os corpos completos e indivisíveis, dos que estão formados, e nos que se resolvem nos compostos, apresentam formas tão diversas que não podemos conhecer seu número, já que não é possível que tantas formas diferentes provenham de um número limitado e compreensível de figuras semelhantes. Ademais, cada figura apresenta um número infinito de exemplares, porém, pelo que diz respeito à sua diferença, tais figuras não alcançam um número absoluamente ilimitado. Seu número é, simplesmente, incalculável. Ademais, os átomos estão animados de movimento perpétuo. Uns estão separados por grandes intervalos; outros, pelo contrário, conservam seu impulso todas as vezes que são desviados, unindo-se a outros e convertendo-se nas partes de um composto. É a consequencia da natureza do vazio, incapaz por si mesma de imobilizá-los.De outro modo, sua inerente solidez os faz ressaltar em cada choque, ao menos na medida em que sua integração em um composto lhes permita ressaltar logo após um choque.

O movimento dos átomos não teve começo, já que átomos são eternos como o vazio. De outra forma, há uma infinidade de mundos, sejam parecidos com o nosso, sejam diferentes. Em efeito, sendo os átomos infinitos, como se acaba de demonstrar, são levados por seu movimento até os lugares mais longes. E tais átomos, que por sua natureza servem, já por si mesmos, por sua ação, para criar um mundo, não podem ser utilizados todos para formar um único mundo, ou um número limitado de mundos, nem para os semelhantes a esse, nem para os diferentes, de modo que nada impede que exista uma infinidade de mundos.

Para compreender a carta, é necessário que se saiba algumas informações básicas sobre Epicuro de Samos.

Quem foi Epicuro? Epicuro de Samos foi um filósofo do período helenístico. Viveu de 341 a.C. a 270 a.C e foi o fundador da escola que tomou o seu nome.

Epicuro defendia ardorosamente a liberdade humana e a tranqüilidade do espírito. O atomismo, acreditava o filósofo, poderia garantir ambas as coisas desde que modificado. A representação vulgar do mundo, com seus deuses, o medo dos quais fez com que se cometessem os piores atos, é obstáculo à serenidade. Todas as doutrinas filosóficas, salvo o atomismo, participam dessas superstições.

No sistema epicurista, os átomos se encontram fortuitamente, por uma leve inclinação em sua trajetória, que o faria chocar com outro átomo para constituir a matéria. Esta é a grande modificação em relação ao atomismo de Demócrito, onde o encontro dos átomos é necessário. A inclinação a que o átomo se desvia poderia ser por uma vontade, um desejo ou por afinidade com outro átomo. Precisamente este é o ponto fosco na teoria atômica de Epicuro. Provavelmente tenha explicado melhor em alguma de suas obras perdidas. Certo é que este encontro fortuito dos átomos que garante a liberdade (se assim não fosse, tudo estaria sob o jugo da Natureza) e garante a explicação dos fenômenos, sua elucidação, fazendo com que possam ser explicados racionalmente. Assim, ao compreender como opera a Natureza, o homem pode livrar-se do medo e das superstições que afligem o espírito. (Wiki)

Para saber mais sobre o filósofo, leia aqui.

Tradução: espanhol – português.
Comparação: grego – inglês, grego – latim.
Tradutor: Lisiane Pohlmann

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: