Argumentum ad verecundiam, ou o famoso “argumento de autoridade”

Imagem: Google Imagens

Entre os debates, sejam virtuais ou reais, um apelo se tornou praxe ao esgotar dos argumentos: argumento de autoridade. É certo, pois, que nem sempre Argumentum ad verecundiam é sinônimo de apelo ou desonestidade intelectual. Afinal, você ouve seu médico para fazer um diagnóstico ou prescrever um medicamento, confia no meteorologista para falar sobre a previsão do tempo e assim por diante. Contudo, convido-lhes a uma breve análise.

O argumento de autoridade normalmente é constituído da seguinte forma: “X disse que Y. Logo, Y está/é certo.”, possuindo algumas variantes, como: “Ouvi dizer” ou “Diz-se que”. A autoridade em questão pode ser uma pessoa, uma instituição ou mesmo uma obra. No entanto, como e quando o Argumentum ad verecundiam pode ser utilizado de forma saudável?

  1. Quando a autoridade em questão é especialista (e um bom especialista) na matéria em debate. É insensato, por exemplo, citar um biólogo para validar crenças em horóscopo.
  2. Quando não existem argumentos de igual força – ou melhores – à favor da opinião/conclusão contrária.
  3. Quando não se pode utilizar de argumentos diretos, ou de métodos de comprovação imediata.
    Vale lembrar que em nenhuma dessas opções o indivíduo está isento de críticas ou de argumentações contrárias. Utilizar-se do fato 1, por exemplo, para calar o interlocutor é claramente um argumento de autoridade falacioso (apelo à autoridade). 

As informações aceitas unanimemente são raríssimas. Muito raramente o alvo das discussões será de um mecanismo binário – verdadeiro/falso. Desta forma, a opinião de uma pessoa – por mais que seja da área – para provar o que quer que seja, é falaciosa. Só visa dar força aos argumentos de quem a cita e desmerecer os do interlocutor.

Se o argumento preencheu os requisitos anteriores, atente ao seguinte: você precisa verificar a fonte da citação e precisa ter provas consistentes. Caso contrário, você entra no ramo do apelo à autoridade (ou “falácia da autoridade”):

“Coma merda! Um milhão de moscas não podem estar erradas.”
(Bill Maher)

O apelo à autoridade ocorre quando a pessoa/instituição/obra citada não é especialista na questão, ou quando os próprios especialistas da área não chegaram a uma conclusão. Também se utiliza do apelo para citar pessoas que não são especialistas, como se o fossem.

É comum encontrar em debates onde os argumentos são facilmente invalidados, momentos em que um dos interlocutores aponta a si mesmo como autoridade. Exemplos:

“Tenho PhD, você não pode refutar meus argumentos.”
“Tenho experiência de vida, siga minha dica.”
“Sou presidente de uma instituição. Sei do que estou falando.”

Tal apelo é conhecido como “falácia genérica”, pois tenta validar o argumento pelo “quem disse” (origem) e não pela força das evidências (e normalmente é adotado por quem possui o argumento mais fraco). A verdade de um fato deve se sustentar independentemente de quem concorda com ela ou a recusa. Uma crença não se torna verdadeira com base em quem lhe dá crédito.

Fique atento ao discurso. Atente ao debate. Desonestidade intelectual não combina com ceticismo ou comprometimento com a verdade.

Créditos da imagem ao excelente cartunista Quino.

Restam dúvidas? Você pode ler também a publicação do filósofo Desidério Murcho, na Enciclopédia de termos lógico-filosóficos: aqui.

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2 pensamentos sobre “Argumentum ad verecundiam, ou o famoso “argumento de autoridade”

  1. Bia Monteiro janeiro 5, 2013 às 3:01 pm Reply

    Nossa muito bom seu texto 😀
    Ainda não conhecia este site, vi em uma postagem no facebook. Muito bom mesmo !

  2. Paulo Roberto Armond março 28, 2014 às 12:55 am Reply

    Sou professor de sociologia de ensino médio, dublê de professor de filosofia… muito útil o seu texto para incrementar a aula desse tema. Parabéns!

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