Bem-vindo ao deserto do real

Imagem: “O pesadelo”, obra de Henry Fuseli

Era tarde da noite. O relógio marcava mais ou menos uma hora da manhã de quarta-feira. Estava frio e resolvi ir dormir, embora nada tivesse de sono naquele momento. Deixei um copo de suco na mesinha, deitei, ajeitei as cobertas e em algum momento peguei no sono. Sonhei que acordava ali mesmo, na minha cama. Olhei para a mesinha, o copo estava exatamente onde o deixei antes de dormir.

Eu estava dormindo e sabia que estava dormindo, coisa que não é raro me acontecer. Sabendo se tratar de mais um “sonho-consciente”, fui logo levantando da cama. Me vesti, peguei o copo e levei-o até a cozinha. Ao retornar, constato que havia deixado o computador ligado. Deixei no real ou no sonho? Bem, no sonho resolvi desligá-lo. Do real cuidaria depois.

O quê faria agora? Sonhar com o real é entediante – pensei. Então resolvi dormir, no sonho. Oras, dormir no sonho talvez me fizesse partir para um sonho mais interessante. Arrumei as cobertas, deitei e em algum momento dormi.

Acordei. Continuo no mesmo sonho – pensei. Resolvi levantar e fazer algo até acordar realmente. Quando fui colocar as pantufas, notei que o copo que havia deixado na mesinha antes de dormir-no-real, ainda estava lá. Teria eu acordado no real? Afinal, dormi no real e dormi no sonho, do mesmo jeito e no mesmo lugar. Olhei para o lado e o computador estava ligado. Duas coisas, então, poderiam estar acontecendo: ou eu acordei no real ou estava tendo a repetição de cenário no sonho. E só havia uma forma de saber.

“- Ai!”, foi o que exclamei quando cravei as unhas no meu próprio braço. A dor era a única forma de acordar dos sonhos conscientes e, se eu não acordasse, é porque estava no real. E estava. A dor pode ser, às vezes, a reafirmação da existência. Depois de algumas gargalhadas pelo ocorrido, comecei a pensar sobre o que é, afinal, o real. Como você sabe que não está sonhando agora?

Segundo a terminologia filosófica, o real existe em si independentemente de como o representemos. A ilusão seria o engano dos sentidos e do juízo, como percepção equivocada sobre o real. A realidade é coisa real por fora e a ilusão é coisa real por dentro, diriam alguns. Não discordo.

A ilusão existe à partir de uma consciência – intencionada ou não. Ela – a ilusão – move-se dentro do real, onde se encontra a existência. Faz parte dos reflexos de mundo do indivíduo e é particular. No entanto, há a necessidade de delimitar a linha entre o real e o ilusório, passar a régua entre o que É REAL e o que está DENTRO DO REAL.

Tanto o real quanto a verdade têm como característica a neutralidade valorativa. Existem independentemente do que o indivíduo em singularidade conceda como real ou ilusão, verdade ou mentira. Essas concepções e o interpretar-do-mundo, bem como o erro de percepção que não é consciente, fazem parte do meu estar-no-real. É impossível, pois, fugir do real, tendo em vista que a existência só se move dentro dele. Só se É no real. Você tanto não pode “ser fora do real” quanto não pode “não ser” no real.

O sonho, sendo sonho consciente de que se sonha ou não, está dentro do real. Mas não posso classificá-lo como tal, e esta justificação é simples: o sonho é individual e só capta o estar-no-mundo de um único indivíduo, além de não possuir neutralidade valorativa. O real não pode ser vivido, ou acabaria quando acaba a vida (plural).

Desta forma, resta uma dica: da próxima vez que for dormir, deixe um copo na mesinha. E seja bem-vindo ao deserto do real.

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3 pensamentos sobre “Bem-vindo ao deserto do real

  1. João do Pêssego setembro 21, 2011 às 1:25 pm Reply

    Quando pequeno, eu tinha muito medo disso tudo não ser real, e tentava não fazer movimentos bruscos pra que, no ‘mundo real’, não achassem que eu fosse louco. Tipo quando você tá dormindo perto de alguém, e começa a falar (é, isso é comum acontecer comigo).

  2. Sylvio Deutsch setembro 21, 2011 às 9:40 pm Reply

    O problema é que a linha entre o real e o ilusório é completamente invisível.
    Todos temos uma doença mental. A coisa de 45000 anos surgiu alguém que vivia boa parte do tempo dentro da própria cabeça, um doido varrido. Só que ao fazer isso ele (ou ela) conseguia imaginar o futuro. E isso deu tamanha vantagem que todos nós atualmente somos descendentes desse maluco (ou maluca). Nossa realidade é meio real (nesse seu sentido) e meio imaginação. Mas ambos existem, são reais (é um absurdo chamarem o que vai pelos computadores de virtual. Pode não ter existência física, mas é absolutamente real) e interferem um no outro. Convivem.
    Sabe que eu gosto assim? (:

    {}Fatbear

  3. Sylvio Deutsch setembro 21, 2011 às 9:41 pm Reply

    Há coisa de 45000… (meu revisor interno ainda não acordou!)

    {}Fatbear

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