A alteridade como categoria fundamental do pensamento humano

Imagem: Filme Persona, Ingmar Bergman. 1966.

Olhe para o lado. Olhe para o ambiente que o cerca: como você sabe que você é você? Digo, como você sabe que você é você e não o seu computador, por exemplo? Como você sabe de si? Como você construiu a consciência de si (que também é consciência da consciência)?

Para identificar-se enquanto ser-no-mundo, você precisa que o outro exista: você só sabe que é você e não o computador porque ele existe. Para que você SEJA, precisa negar o outro – podendo o outro ser um objeto, uma idéia, uma pessoa, enfim. Negar o outro não significa excluí-lo, mas constatar que ele não é você. Quando você afirma seu ‘eu’, automaticamente nega tudo que não é seu ‘eu’. “Este objeto É um livro. Logo, NÃO É um lápis”. “Este sou eu. Logo, não sou o Fulano”.

A categoria do outro é tão original quanto a própria consciência do outro. Granet, pesquisando sobre o pensamento chinês, descobriu que a história da humanidade está repleta de dualidades. As categorias do Mesmo e do Outro são base para a adaptação do indivíduo como ser-no-mundo. Habitantes e estrangeiros, judeus e anti-semitas, indígenas e colonizadores, capitalistas e comunistas: nada se define como Um sem colocar o Outro diante de si.

Quando me defino como Um, também me defino como Outro (sou Outro aos olhos do Outro), e defino o Outro como Um (ele é Um aos próprios olhos). Só sou Um, o Mesmo, para mim. Da mesma forma que o Outro é Um e o Mesmo para ele. Você está dentro de uma totalidade cujos termos (os dois) são necessários um ao outro. Jean-Paul Sartre declarou: “O ser Para-si só é Para-si através do outro“, idéia que herdou de Hegel e que exprime de forma clara a relação de necessidade Eu-Outro.

Acontece que as dualidades também podem gerar conflitos. Simone de Beauvoir, em seu “O segundo sexo” bem lembrou que:

“O senhor e o escravo estão unidos por uma necessidade econômica que não liberta o escravo. É que, na relação do senhor com o escravo, o primeiro não põe a necessidade que tem do outro; ele detém o poder de satisfazer essa necessidade e não a mediatiza; ao contrário, o escravo, na dependência, esperança ou medo, interioriza a necessidade que tem do senhor.”

Ver o outro como minha necessidade (novamente podendo o outro ser um objeto, uma vontade, uma idéia, etc.) não garante que eu tenha uma relação pacífica com ele. Afinal, é preciso afirmá-lo diferente de mim, alheio a mim, completamente outro. Depois de estudar sobre as figuras das sociedades primitivas, Lévi-Strauss concluiu:

“A passagem do estado natural ao estado cultural define-se pela aptidão por parte do homem em pensar as relações biológicas sob a forma de sistemas de oposições: a dualidade, a alternância, a oposição e a simetria, que se apresentam sob formas definidas ou formas vagas, constituem menos fenômenos que cumpre explicar do que dados fundamentais e imediatos da realidade social.”

Nada é algo sem não ser outro algo. A diferença é o que constitui a vida social, sendo tanto a base dela (a começar pelo afirmar, consciente ou não, da individualidade do ser) quanto fonte permanente de conflitos. Sem diferença, nosso modelo de mundo não faria sentido. A alteridade é, portanto, categoria fundamental do pensamento humano.

  1. Ver: Simone de Beauvoir, “O segundo sexo” vol 1.
  2. Ver: C. Lévi-Strauss, “Les structures élémentaires de la parenté”.  Tradução da citação: Sérgio Milliet.
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Um pensamento sobre “A alteridade como categoria fundamental do pensamento humano

  1. Devanil Júnior (@Devanil) fevereiro 26, 2012 às 12:21 pm Reply

    Muito interessante, Lisiane. Já tinha lido sobre a dualidade na filosofia, e fiquei meio confuso.

    Estava pensando ontem numa situação antes de dormir um pouco semelhante, mas tem a ver com o método científico. Digamos que eu vejo outra pessoa, como saber que ela é outra pessoa? Eu posso fazer testes com ela, para saber se ela é um lápis, um computador…

    Fazendo todas as análises percebo que ela não é um monte de coisa (negação), posso concluir que ela é humana? Acho que podemos concluir que ela não é várias coisas, mas não o que ela É.

    Para concluir o que seria um humano, teríamos que convencionar o que somos, para assim, através do método científico, concluirmos o que realmente somos (e não o que não somos).

    Mas claro que não dá pra fazer isso no dia-a-dia, hehe. Mas pressupondo que temos um cérebro que usa de métodos parecidos com o científico (inconscientemente), será a negação a forma de dizermos quem somos?

    Mal espero pela neurologia chegar a tal conhecimento e tirar esse peso filosófico de cima de nós 😛

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