Alice no país das maravilhas: o autor, a obra e a matemática (Parte I)

Imagem: Alice in wonderland em sua primeira versão, desenhada por John Tenniel

Em outubro, houve um viral no Facebook: trocar a imagem do avatar pelo seu personagem preferido na infância. Sinceramente ia colocar Tom Sawyer, do livro de Mark Twain, que muito me marcou. No entanto, o gato de Cheshire se parece bem mais comigo – e foi graças a ele que ganhei o apelido, na infância, de “Lisi-gato“.

Não foram poucas as pessoas que perguntaram as questões que envolviam o fato de eu tê-lo escolhido, entre tantos outros personagens. Por isso, resolvi fazer esse post, para contar a história do livro e o motivo de tê-lo escolhido. Vamos lá?

1. O autor

Não, ele não se chamava Lewis Carroll. Seu nome era Charles Lutwidge Dodgson e nasceu no povoado de Daresbury, no condado de Cheshire, Inglaterra, em 27 de janeiro de 1932. Dodgson foi escritor, matemático, diácono da igreja anglicana e também fotógrafo – esta última ocupação muito polêmica, como veremos ainda nesse post.

Na infância, Dodgson gostava de brincar com marionestes e magia ou ilusionismo, e durante toda a vida gostava de fazer passes de mágica – em especial para crianças. Era apaixonado por diversos tipos de jogos, de forma que inventou um grande número de enigmas e jogos matemáticos.

Durante a juventude, Charles foi educado em casa. Era bastante precoce, aos 7 anos já lia livros como “The Pilgrim’s Progress” (em pt “O peregrino”) e era gago. Em 1846, Dodgson mudou-se para Rugby School, onde declarou ser bem menos feliz. Deixou-a em 1949 e, depois de um intervalo que continua inexplicado, volta à cidade de Oxford, em 1851, para estudar na universidade Christ Church. Esta também era a Universidade onde seu pai havia lecionado e, por isso, já iniciou carreira com algumas responsabilidades de ” preservação do nome”.

Em 1852, recebeu o prêmio de Honra ao Mérito e logo foi nomeado para uma bolsa de estudos, graças a um amigo de seu pai. Pouco tempo depois, Dodgson perdeu a bolsa de estudos por se declarar incapaz de se dedicar à ela. Mesmo assim, permaneceu na Christ Church, assumindo diversas ocupações até a sua morte.

Era um jovem alto, de cabelos castanhos e olhos azuis acinzentados. A gagueira se estendeu por toda a vida e, por ter o hábito de usar referências pessoais para criar seus personagens, muitas pessoas acreditaram que o personagem “Dodo” (de Alice no país das maravilhas) era inspirado em sua condição enquanto gago. Quando questionado a respeito, Charles afirmou que “Dodo” era sim, inspirado nele, mas não por este aspecto.

A última grande obra de Dodgson foi “A caça ao Snark“, um “poema” (se assim pode ser considerado) absurdo, que explora as aventuras de seres de formas diferentes e de um castor. O pintor Rossetti ficou convencido durante muito tempo de que o poema era sobre ele.

A vida pessoal do autor não possui muito diferencial, exceto que Carroll é mundialmente conhecido como pedófilo. Como tinha na fotografia seu hobbie, gostava de retratar meninas nuas em fotografias e desenhos. Declarou sempre que seu intuito era puramente artístico, que tais retratos eram feitos somente com o consentimento dos pais e ordenou também, em seu testamento, que todos os retratos fossem queimados para evitar constrangimentos. No entanto, muitos estudiosos tentam acusá-lo.

Alguns estudiosos recentes, como Karoline Leach e Hughes Lebailly, afirmam que Dodgson não era pedófilo e que tais fotografias faziam parte de um movimento conhecido como “Victorian Child Cult“. O autor vivenciou exatamente este período, onde tais obras eram comuns entre os artistas e não representavam nenhum tipo de comportamento pedófilo, mas uma manifestação artística que era utilizada, inclusive, em cartões postais.

Seus diários desapareceram e isso auxilia nas acusações. Segundo Lebailly, os diários retratavam orgias com mulheres adultas e algumas delas, casadas. Isso teria feito com que sua família suprimisse os registros, para preservar reputação. Contudo, esse fato da vida de Carroll continua sendo motivo de discordâncias e não há nenhuma conclusão a respeito.

1.1 Como a obra nasceu

A obra nasceu em 4 de julho de 1862, quando Lewis Carroll passeava no rio Tâmisa junto a um amigo e três irmãs: Edith Mary, Lorina Charlotte e Alice Liddell. Carroll resolveu inventar e contar uma história para passar o tempo. Foi esta história, repleta de fantasia e personagens nonsense, que deu origem a um manuscrito entitulado “Alice’s adventures Underground“, entregue à Alice.

Mais tarde, resolveu transformar o manuscrito em livro e acrescentou alguns personagens, como o Chapeleiro Maluco e o Gato de Cheshire. Assim, em 4 de julho de 1865 – exatamente três anos após a viagem – a história foi publicada na forma que é conhecida hoje.

2. O retrato da Era Vitoriana

No post passado, publiquei algumas informações sobre o autor da obra e como ela foi escrita. Hoje, quero defender a obra de Carroll enquanto retrato da Era Vitoriana. Esta defesa não é algo novo, muitos pesquisadores já trataram de fazê-la. Contudo, ainda sinto necessidade de comentar sobre o tema.

Alice no país das maravilhas não é apenas uma fábula nonsense, mas constitui uma alegoria política de forte cunho crítico à época em que viveu Carroll. Foi escrita no auge da Revolução Industrial, onde as crianças dividiam-se em pobres que necessitavam trabalhar ou burguesas educadas de forma rígida e repetitiva. Os livros infantis refletiam esse aspecto: eram de uma função educativa nítida e de intenção moralizante, orientando a maneira metódica da educação e as rigorosas normas de conduta.

O reinado de Vitória era marcado pela moral puritana, a solidez política e pelo conservadorismo cultural. A sociedade era repressiva e formadora de pessoas apressadas e inflexíveis (questão bem retratada no personagem coelho branco). Alice representa mais que o fugir da regra: é o rebelar-se contra o conservadorismo. É uma menina que enfrenta situações de aparente caos da lógica, mas é capaz de se impôr enquanto individualidade. Responde à audaciosa pergunta “- Quem é você?”, proferida pela lagarta: “Eu… Eu… No momento não sei, minha senhora… Pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então”. Alice reconhece que o emaranhado de fatos externos a fizeram mudar várias vezes de posicionamento durante o dia, ao ponto de questionar quem era. “Quem sou eu?” afinal, é uma das perguntas mais difíceis de se responder, se não apontamos para a condição “estar”, que é transitória.

Em outra cena, a menina cresce diante do tribunal montado pela Rainha de Copas, mostrando revolta contra o “deixar levar” da história. Vale lembrar que as próprias instruções da Rainha de Copas (assim como as da Rainha Vitória) não eram tão respeitadas assim. A famosa frase “– Cortem-lhe a cabeça!” recebe um tom tragicômico, quando o próprio Grifo elucida que jamais alguém fora executado através das ordens da Rainha (CARROLL, 1985, p.107). O próprio tribunal anota palavras desconexas do discurso das testemunhas, fixando a idéia de que o julgamento depende mais da desordem que da ordem.

O discurso dos adultos também é desafiado: oras, uma menina cai no país das maravilhas através do sonho (onde tudo pode ser) e desafia a capacidade (a nossa capacidade, comum) de entender o real: era o seu sonho, demonstrando o nonsense do mundo em que vivia. Daí que existia a obediência até determinado ponto, era necessário questionar esse mundo. Não existiam maneiras metódicas ali.

Alice mostra uma figura infantil diferente das crianças da época: questiona e fantasia, descobre que a linha entre o normal e o anormal é demasiado tênue e depende muito mais do ser histórico, da construção história da concepção de normalidade. Quebra-se a falta de espontaneidade da Era Vitoriana, sua forma aborrecida de ver as crianças e sua pressa para chegar em lugar algum (“- É tarde, é tarde!”).

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