Van Gogh e o Sol de Arles – por Voltaire Schilling

Imagem: Van Gogh – Auto retrato com a orelha cortada

Por Voltaire Schilling, aqui.

Nos meses finais de 1888, dois gênios da pintura, ainda que desconhecidos em seu tempo, encontraram-se em Arles, no sul da França. Vicent Van Gogh e Paul Gauguin eram diferentes em tudo, do temperamento ao físico, só afinavam na idéia de que era preciso ir atrás do sol para que o grande astro lhes ensinasse os caminhos da pintura moderna.

Ainda que a estadia deles juntos naquela pequena cidade não tenha chegado a ultrapassar dois meses, permeada por desavenças de toda ordem, ela foi mutuamente enriquecedora. Gogh aspirou um ar estético de Gauguin e este, ao mudar-se depois para o Taiti, levou a cabo a idéia de Gogh de encontrar algum lugar onde o sol imperasse sempre.

O Salão de 1874

Por terem sido rejeitados numa grande exposição de pintura que anualmente era realizada em Paris, um grupo um tanto irreverente de artistas decidiu-se por realizar uma mostra paralela, produzindo com ela um grande escândalo: o salão dos impressionistas, como o evento foi posteriormente batizado. Ele deu-se no salão do fotógrafo Félix Nadar, que abriu suas portas no dia 15 de abril de 1874, expondo as telas de Auguste Renoir, Edgar Degas, Alfred Sisley, Berthe Morisot, Claude Monet, e outros tantos que não conseguiram se perpetuar. De certo modo era a reedição do Salon des Refusés, que ocorrera em 1863 em razão do escândalo provocado pela tela Déjeuner sur l’herbe de Manet (1832-1883), classificada pela imperatriz Maria Eugênia como “impudica”, sem que entretanto provocasse a celeuma e a verdadeira revolução que a exposição de 1874 causou. O salão de 1874 também foi filho de um movimento anterior que buscava inspiração no ar livre, liderado por Eugène Delacroix, Eugène Fromentin e Théodore Chassériau, todos eles mobilizados pela palavra de ordem “il faut sortir de l’atelier!”, era preciso sair-se do atelier. A crítica os tachou de preguiçosos fabricantes de borrões para baixo e, como em tantos outras oportunidades, a palavra “impressionistas”, como pejorativamente foram apelidados, tornou-se o lema da bandeira estética deles. Seja como for, a exposição de 1874 marcou o declínio da arte acadêmica e deu impulso a uma extraordinária desordem estética criativa da qual o pintor holandês Vicent van Gogh vai ser um dos maiores exponenciais.

Gauguin, Van Gogh e a Estúdio do Sul

Van Gogh, pastor frustado e pintor ocasional, um eterno problema para a família, decidiu-se um tanto tardiamente assumir-se como artista. Tinha 32 anos quando resolveu liberar o seu talento e abraçar a sua verdadeira vocação. Dando-se bem com Gauguin, um incorrigível e temperamental construtor de catedrais no ar, o que em si já era um feito, a quem conhecera em Paris no meio artístico, insistiu calorosamente para que o novo amigo o acompanhasse numa larga estadia no sul da França. Como seu conterrâneo Rembrandt, Vicent era um adorador do amarelo em todas as suas tonalidades imagináveis, um apaixonado por cores vivas as quais ele só poderia cultuar longe do norte da França, cinzento e úmido. Daí veio-lhe à mente a possibilidade de formar uma comunidade de pintores num lugar qualquer mais ao sul, para que todos os artistas que lá aparecessem pudessem intercambiar as experiências à luz do sol, ao ar livre, libertos das limitações da vida no atelier. Gauguin, que também decidira pela pintura tarde, aos 37 anos, recém tinha desembarcado da ilha da Martinica, onde estivera em 1887 levando um vida miserável, não resistiu muito ao apelo de Vincent. Além disso, segundo o holandês lhe informou, em Arles, a vida saía bem mais em conta. Em outubrode 1888, um Gauguin carregado com seu material de pintor e com seus trastes desembarcou na estação local. Vicent, radiante, pensando pôr um fim na solidão em que se encontrava, decorara o quarto do recém-chegado com um conjunto de telas de girassóis, a flor da região. Com a presença dele, inaugurava-se o que Van Gogh pretendia que fosse o embrião do Estúdio do Sul, uma irmandade utópica de artistas.

Administrando a escassez como dava, Gauguin assumiu a cozinha, Vicent as compras e a limpeza geral da casa. Era no segundo piso de um prédio de esquina, que, depois, por anos a fio foi ocupada pelo Grand Café Tabac, até ser destruído por uma bomba dos aliados na II Guerra Mundial. Chamavam-na a Maison Jeune, a Casa Amarela, que foi imortalizada numa tela de Van Gogh. Confinar os dois artistas no mesmo teto era ver dois vulcões em ebulição simultânea. Vicent recebia a sua inspiração vinda de fora, do contato com a paisagem, era movido pelo sol, Paul, ao contrário, se bem que não negasse o meio, retirava de si mesmo, do seu interior, tudo aquilo que fosse preciso para preencher uma tela. Para piorar a relação deles, o inverno de 1888 foi tenebroso, afogando-os a aguaceiros. Os prometidos dias de sol de Van Gogh ficaram apenas no desejo. Trancados em casa, saturados de absinto, a perigosa bebida da boemia européia, foi inevitável que os dois partissem para um desentendimento crescente, que as discussões deles em torno de Rembrandt ou Delacroix só os exasperavam ainda mais.

A Mutilação

Provavelmente, Paul deu-se contra que a loucura de Vicent era um caso perdido. Na noite de Natal, andando pela rua, ele sentiu-se seguido. Ao virar-se para ver quem era deparou-se com Vicent, com um olhar desvairado, empunhando uma navalha. Ao ser reconhecido, desatou a correr. Paul, que já havia se mudado para um pequeno hotel, tratou de voltar para Paris. No dia seguinte, porém, ele foi avisado do desatino de Vicent. O seu amigo havia cortado parte da orelha e a enviado, enrolada num lenço, a uma das rameiras, vizinhas dele. A cama e o quarto de Vicent havia se transformado numa grande poça de sangue.

Theo e Vincent

“A arte é ciumenta, não lhe agrada ficar em segundo lugar. Antes ainda eu tinha humor… Aquilo que eu quis e tive como meu objetivo tornou-se uma infernal dificuldade para alcançar, e agora eu penso que coloquei minhas visões muito no alto. Eu quero é desenhar o que toca as pessoas.”

 (Van Gogh ao irmão Theo em 21 de julho de 1882)

Quem mantinha Vincent na sua intenção de ser pintor era o seu irmão mais moço Theo Van Gogh, um modesto, mas premonitório, negociante de artes em Paris, que nunca poupou um tostão sequer para ajudá-lo. Graças a intensa correspondência trocada entre eles, entre Vicente e Theo, felizmente preservada, sabe-se com detalhes da evolução da pintura de Van Gogh, bem como suas impressões gerais sobre a arte, a dele e dos outros. Pelas cartas percebe-se como Vicent era um extraordinário sensitivo, um meticuloso, captando tudo ao seu redor para transformar em arte, em maravilhas extraídas do pincel. Theo, por sua vez, jamais faltou com o irmão, sendo o único a lhe reconhecer a genialidade, apesar de Vicent não ter conseguido vender nada em vida. Ao ser chamado com urgência a Arles para socorrer o irmão mutilado, Theo, desolado, não encontrou outra solução senão interná-lo numa clínica de alienados em Saint-Rémy. Um ano e meio depois, em 1890, Vicent, num outro ataque, dos tantos que já tivera, disparou contra o seu estômago, matando-se aos 37 anos de idade. Theo, seu irmão, logo o seguiu, morreu em 1891, aos 33 anos. Ambos estão enterrados no mesmo local.

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