Esperanto: a língua artificial mais falada no mundo

Imagem: uma das versões do Jubilea simbolo

Há alguns meses, um amigo me questionou sobre o “idioma defendido pelos espíritas”. Questionei sobre o que se tratava e ele respondeu “Oras, o Esperanto!”. Acontece que o esperanto não é um “idioma defendido pelos espíritas”, coisa que tem causado muitas confusões e preconceitos.

Em 1887, o médico polaco Ludwik Lejzer Zamenhof publicou a versão inicial do idioma esperanto. A intenção – ao contrário do que se supõe –  foi criar uma língua que, além de ser de fácil aprendizagem, também servisse como língua franca internacional.

Zamenhof vivia em Bialystok (atualmente na Polônia), local onde eram falados muitos idiomas devido à grande quantidade de comunidades. A compreensão era difícil  e tal fato motivou Ludwik a criar uma língua auxiliar neutra. A primeira versão de lingwe universala foi criada ainda em sua adolescência. Seu pai, entretanto, fez com que prometesse deixar de trabalhar no idioma para se dedicar aos estudos. Zamenhof aceitou e foi para Moscovo estudar medicina e posteriormente, em uma de suas visitas à Bialystok, descobriu que seu pai havia colocado fogo em todos os manuscritos do seu idioma. Foi necessário reescrever tudo.

Após a publicação da primeira obra, o número de falantes cresceu rapidamente nas primeiras décadas, começando pelo Império Russo e a Europa Oriental, depois a Europa Ocidental. Em 1906 o primeiro grupo esperantista foi fundado no Brasil: Suda Stelaro, em Campinas, 19 anos após o surgimento da língua.

Apesar de o movimento avançar razoavelmente, as duas guerras mundiais o fizeram recuar. As tropas comandadas por Hitler perseguiam e matavam esperantistas na Alemanha, as tropas de Stalin faziam o mesmo na Rússia e a família de Zamenhof foi dizimada.

Após a segunda grande guerra, o esperanto reergueu-se. Em 1954, a UNESCO passou a reconhecer formalmente o valor do esperanto para a educação, a ciência e a cultura, e, em 1985, novamente a UNESCO recomendou aos países membros a difusão do esperanto.

Após 1995, com a popularização e disseminação da Internet, o movimento esperantista ganhou uma nova força propulsora. Um exemplo de como está a situação atual do esperanto é ver o número de artigos na língua na Wikipédia: mais de 140 000 em janeiro de 2011, com índice de profundidade 13 — números maiores do que os de muitas línguas étnicas.

Como uma língua construída, o esperanto não é relacionado genealogicamente a nenhuma língua étnica; pode ser descrito como uma língua de léxico predominantemente românico e de morfologia aglutinante. A pragmática e outros aspectos da língua não descritos especificamente nos documentos originais de Zamenhof foram influenciados pelas línguas nativas dos primeiros falantes, principalmente russo, polonês, alemão e francês. A relação entre grafemas e fonemas é biunívoca (uma letra para cada som e um som para cada letra) e a morfologia é extremamente regular e fácil de aprender.

A gramática segue poucas regras simples, entre elas as chamadas 16 regras do esperanto, sendo porém necessário algum estudo para uma aprendizagem satisfatória.

O vocabulário original do esperanto foi definido em Lingvo internacia, publicado por Zamenhof em 1887. Trata-se de uma compilação de 900 radicais, passíveis de expansão para dezenas de milhares de palavras com prefixos, sufixos e composição. Em 1894, Zamenhof publicou o primeiro dicionário de esperanto, Universala Vortaro, com uma maior quantidade de radicais. As próprias regras da língua permitem a introdução de novos radicais de acordo com a necessidade, recomendando apenas que isso seja feito a partir das formas mais internacionais.

Desde então, muitas palavras têm sido “emprestadas”, basicamente mas não apenas de línguas da Europa ocidental. Nem todas as novas palavras propostas entram em uso generalizado, mas muitas o fazem, especialmente termos técnicos e científicos.

Muitos esperantófonos tomaram a iniciativa de aprender esperanto pelo chamado lingva problemo (literalmente, problema linguístico). Uma das maiores faces desse problema é o chamado imperialismo cultural, que encerra em si o favorecimento a poucos grupos linguísticos, e a pouca praticidade da estrutura vigente de comunicação entre sujeitos sociais de línguas diferentes. Vários estudiosos têm se debruçado sobre esses aspectos.

Esperantófonos são mais numerosos na Europa e Ásia Oriental do que nas Américas, África e Oceania, e mais numerosos em áreas urbanas do que em rurais.Na Europa, é mais comum nos países do norte e do leste; na Ásia, na China, na Coreia, no Japão e no Irã; nas Américas, no Brasil, na Argentina e no México; na África, no Togo e em Madagascar.

Uma estimativa do número de esperantófonos foi feita por Sidney S. Culbert, um professor de psicologia aposentado da Universidade de Washington e esperantista de longa data que rastreou e avaliou esperantófonos em áreas de amostragem em dezenas de países por mais de vinte anos. Culbert concluiu que entre um e dois milhões de pessoas falam esperanto no nível 3 da escala ILR (competência linguística para trabalho profissional).A estimativa de Culbert não foi feita apenas para o esperanto; incluía-se numa listagem de estimativas para todas as línguas com mais de um milhão de falantes, publicada anualmente no The World Almanac and Book of Facts. Uma vez que Culbert nunca publicou os resultados detalhados para países e regiões particulares, é difícil verificar a precisão de seus resultados.

Como uma língua planejada, o esperanto realmente não possuía a princípio uma cultura, mas os quase 120 anos de história e divulgação da língua geraram o que poderíamos chamar assim. Algumas pessoas acusam-no quanto a ser um “idioma universal” por não apresentar cultura, literatura, falantes nativos e por outras razões. Em contrapartida, já há elementos de cultura própria do esperanto, há um acervo considerável de músicas e obras literárias originais na língua (inclusive alguns escritores, como William Auld, já foram indicados ao Nobel de literatura por suas obras originais em esperanto), há pessoas que têm o esperanto como língua materna (na maioria dos casos, poliglotas) e a língua é usada em todos os continentes.

O mais simples e antigo dos símbolos é a estrela verde de cinco pontas, usada, por exemplo, como broche ou adesivo para automóvel. Segundo a tradição, as cinco pontas representam os cinco continentes (segundo cálculo tradicional) e o verde simboliza a esperança. Zamenhof, entretanto, em 1911, já não tinha mais certeza de sua origem; a cor lhe fora proposta pelo irlandês A. Richard Henry Geoghegan, que depois lhe esclareceu que se tratava da cor nacional da Irlanda. Já em 1893, Louis de Beaufront propunha o uso do verde e da estrela em tudo que se relacionasse ao movimento. A consolidação da estrela como símbolo do esperanto data dos últimos anos do século XIX; da estrela na cor verde, provavelmente apenas em 1904.

A bandeira é uma espécie de extensão da estrela verde, retomando a mesma cor e significados, com a adição do branco, para representar paz e neutralidade. Era originalmente a bandeira do clube de esperanto de Bolonha-sobre-o-mar (França). Foi adotada generalizadamente nessa cidade por ocasião do primeiro Congresso Universal de Esperanto, em 1905.

O jubilea simbolo (símbolo do jubileu) é um símbolo alternativo proposto para o esperanto, contendo a ideia interna da língua: juntar todos. As suas duas metades laterais representam a letra latina E (Esperanto) e a letra cirílica Э (Эсперанто), simbolizando a união do ocidente e do oriente. A ideia de usar as duas letras ocorreu por causa da Guerra Fria, quando as duas grandes potências estatais a se enfrentar tinham como línguas maternas o inglês (com alfabeto latino) e o russo (com alfabeto cirílico).

O esperanto é frequentemente usado para se ter acesso a uma cultura internacional, dispondo ele de um vasto leque de obras literárias, tanto traduzidas como originais. Há mais de 25.000 livros em esperanto, entre originais e traduções, além de mais de uma centena de revistas editadas regularmente. Muitos esperantófonos usam a língua para viajar livremente pelo mundo usando o Pasporta Servo, rede internacional de hospedagem solidária. Outros têm correspondentes em vários países diferentes através de serviços como o Esperanto Koresponda Servo.

Com o desenvolvimento da internet e sua maior popularização, as iniciativas de imprensa em esperanto têm se tornado mais fáceis, e pouco a pouco ela se desenvolve.

Atualmente, vários Estados subvencionam transmissões regulares em esperanto de suas estações de rádio oficiais, como China, Polônia (diariamente), Cuba, Itália e Vaticano. Em menor escala, várias estações de rádio mantêm programas em ou sobre esperanto, como a Rádio Rio de Janeiro, que têm um departamento dedicado exclusivamente ao esperanto.

Anualmente, de 1.200 a 3.000 esperantistas encontram-se anualmente no Congresso Universal de Esperanto. A língua mostra-se útil essencialmente para a troca de informações entre indivíduos de etnias diferentes que doutra maneira só seria realizada através de elementos mediadores (uma língua estranha a pelo menos um deles, um intérprete, organizações privadas, Estados, etc.).

Por gerar estes benefícios, o idioma é defendido por alguns movimentos (como o movimento espírita, que faz forte divulgação no Brasil), mas também há a comunidade de ateus que defendem o uso do esperanto, a ATEO-associação de ateus esperantistas. Viu só? O esperanto não é o “idioma dos espíritas”.

Crédito total pelas informações: Wiki – Esperanto e UEA.

Quer aprender? Indico:

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8 pensamentos sobre “Esperanto: a língua artificial mais falada no mundo

  1. Rodrigo de Sá janeiro 21, 2012 às 12:50 am Reply

    Ah, a muuuito tempo atrás eu tinha uma programa pra pc que ensinava a língua. Mas comecei a faculdade e deixei de lado. Acho que tá na hora de voltar a estudar, né?

  2. Gabriel Calegari janeiro 21, 2012 às 12:58 am Reply

    Saluton!

    Bem completo seu texto, Liz!
    Obrigado por divulgar o Esperanto.
    Àqueles que quiserem conversar sobre músicas e livros em esperanto, estou a disposição.

    Ĝis!

  3. Sergio de Sersank janeiro 21, 2012 às 2:13 pm Reply

    Tre bona artikolo. Gratulojn!

  4. Everton janeiro 25, 2012 às 5:22 pm Reply

    Ótimo texto.

    Tenho certeza que com o Esperanto o peixe babel teria muito menos trabalho. 😉

    Kaj vi? Ĉu vi parolas Esperanton? (E você? Você fala Esperanto?)

    Até!

  5. Marcus Aurelius fevereiro 1, 2012 às 1:21 pm Reply

    Só uma correçãozinha. Me consta que existiu uma Lingwe Uniwersala (com W, e terminação E na palavra Lingwe) e depois uma Lingvo Universala (com V) antes do Esperanto mesmo (Lingvo Internacia). Uma versão com V e W na mesma língua acho que não existiu.

    Fonte:
    http://www2.math.uu.se/esperanto/ees5.pdf (página 79)
    (não terminei de ler ainda)

  6. Pietro Von Herts Júnior abril 18, 2012 às 7:23 pm Reply

    Bonega artikolo! Ótimo artigo!
    Mi ege gratulas vin! Meus parabéns!

  7. esperantomaceio julho 25, 2012 às 9:12 pm Reply

    Bonega artikolo.

    Amanhã Esperanto fará 125 anos de língua viva.
    Vizitu nin: http://esperantoalagoas.wordpress.com kaj http://esperantomaceio.blogspot.com.br

  8. Marco Antonio dezembro 23, 2013 às 2:01 pm Reply

    Parabéns ao Esperanto, mas para nós falantes do Português e línguas latinas
    em geral não há dúvida de que a Interlíngua eh mais fácil e o vocabulário então … .facílimo, pois são os vocábulos comuns, com origem do latim e do grego.

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