Breve história da questão do belo nas inquietações humanas – Parte I

Imagem: Juan Miró

Desde a Grécia antiga, a Aesthesis desperta fascínio e intranquilidade, tendo importante lugar na evolução histórica da noção de arte. O questionamento do belo e a busca não só por um conceito, mas pela delimitação do próprio conceito  movem a estética (seja como disciplina, ideal ou ruptura). Na história das concepções da beleza, o belo flutua entre o estar na coisa e o estar no sujeito que a contempla.

Na antiguidade, para os gregos, o belo é uma característica das coisas belas e certas proporções são belas por si mesmas. Para os pitagóricos (século VI ao IV a.C.), em todas as coisas há uma relação matemática – e portanto, numérica. O termo “beleza” não era utilizado, mas sim “harmonia”, pois estava diretamente ligado à idéia de número, medida e proporção.

 Platão (428-347 a.C.) tenta responder sobre o que é o belo e qual sua essência em seu diálogo Hípias Maior. O texto divaga sobre as possibilidades de uma definição para o belo, passando pela harmonia, em função do bem, e em função do prazer. Contudo, ao final admitire que nenhuma definição encontrada é suficiente. Tal indecisão é reconhecida na frase “as coisas belas são difíceis“, que aparece ao fim do diálogo. Em Filebo, Platão explora a beleza como medida e proporção e nos textos posteriores, o belo aparece como idéia, o bem e o verdadeiro (tríade). Em Fedro, a beleza é encarada como a única, entre todas as idéias, que tem afinidade com as coisas visíveis.

Aristóteles (384-322 a.C.) assume um posicionamento oposto ao de Platão. Para este último, havia a crítica à imitação, levando como pano de fundo a questão da verdade na arte (a arte não implica o conhecimento). Por exemplo: o pintor representa a cama e ignora como se fabrica a cama. A arte seria o contentar-se com a aparência das coisas e não com a verdade delas. Aristóteles, ao contrário, afirmou a legitimidade da arte e da imitação. Em Poética, duas tendências naturais do ser humano são apontadas: a tendência de imitar – que nasce conosco e nos diferencia dos demais animis, e a tendência a ter prazer com as imitações. Para o filósofo, a arte teria uma origem natural, ao contrário do que afirmava Platão – que a arte seria inferior à natureza.

Entre a Antiguidade e a Idade Média, houve um prolongamento no que diz respeito à questão do belo. Contudo, essa relação inclui a concepção do universo e da divindade cristã. Dionísio Areopagita (séc. IV d.C.) comenta sobre o belo que supera nossos sentidos (belo suprassensível), identificado a Deus, como fonte de harmonia e clareza de todas as coisas. Tal idéia consta em seu Dos nomes divinos. No período medieval, a concepção de beleza foi desenvolvida sob três temas principais: a beleza como concordância das partes – ligada à idéia de proporção; a beleza como luz, cor e brilho; e a beleza como símbolo do abstrato e supranatural.

Santo Tomás de Aquino (1225 – 1274) entra nos temas supracitados e encontra sua sistematização. A concepção de Tomás constitui um sistema de transição, destacando a característica da percepção da beleza que terá continuidade na história da estética. Em sua obra Suma de teologia, define as coisas belas como aquelas que vistas, causam prazer. Seria a definição do efeito do belo, que estaria no prazer da visão. A percepção da beleza, porém, não se reduz à simples visão, pois é acompanhada do discernimento de características do belo que a própria visão não discerne, como as concordâncias ou não concordâncias, a ordem, o tamanho e a figura.

O Renascimento é um período decisivo para a história das concepções da arte e do belo, pois a arquitetura, a escultura e a pintura são promovidas a artes liberais – aquelas que implicam uma atividade mentais. As três integram o que passou a se chamar de “belas-artes”.

Continua na Parte II.

Créditos a: Andrey Ivanov – A concepção de beleza para a filosofia e a estética, pela base teórica.

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