Breve história da questão do belo nas inquietações humanas – Parte II

Imagem: Van Gogh – Noite estrelada

Leonardo da Vinci (1452 – 1519) caracterizou a arte de pintar como “coisa mental” e não como apenas atividade manual. A subjetividade e o individualismo transformam radicalmente a atitude do homem em relação a Deus, ao mundo e à humanidade no Renascimento. Surge uma nova concepção do artista como indivíduo criador, que se distingue dos outros seres humanos pela capacidade de criação, dotado de talento ou do que se começa a considerar como “gênio”.

Entre os filósofos anteriores ao século XVIII, pode-se falar de uma teoria do sensível (do que pode ser percebido pelos sentidos), de uma teoria do belo, ou de uma teoria da arte. É somente no século XVIII que estas três áreas do conhecimento vão constituir uma disciplina, denominada estética. A disciplina e o termo aparecem com a publicação, em 1750, de Aesthetica, de Baumgarten (1714 – 1762) e é uma disciplina moderna, embora seu objeto de estudo seja bastante antigo.

O termo “estética” é formado a partir da palavra grega aestesis, que significa “sensação”/”percepção”. O surgimento dessa nova disciplina se deve à aproximação da teoria da beleza com a teoria do sensível, possível graças ao empirismo inglês da primeira metade do século XVIII, inaugurado por Locke. A “estética”, com efeito, trata da sensação, ou seja, do campo constituído pela experiência; esta designa, no sentido do empirismo, a relação do homem para com o mundo exterior através da percepção. De modo que “a estética” constitui-se como uma teoria da percepção, à qual se reserva o domínio do belo e das artes, pois estes dão-se na percepção, contrariamente aos objetos do pensamento, que se dão na concepção da mente. Assim, desde logo, há dois sentidos para a “estética”: como estética do sensível, e como estética do belo e da arte. Contudo, é necessário considerar um outro fator na evolução dessa nova disciplina. Todo sentir, além da sensação da coisa exterior (esta cor, este som, etc.), é acompanhado do sentimento interior do sujeito. Trata-se do sentimento de prazer ou desprazer que acompanha todo sentir.

A “estética” sempre esteve na encruzilhada entre a sensação e o sentimento. E o que será denominado “sentimento do belo” é entendido como emoção ou prazer estético experimentado na percepção de certas coisas. A estética moderna realiza uma ruptura com as concepções anteriores, na medida em que deixa em segundo plano o cuidado de definir as características da coisa bela, e o substitui pelo tema do sentimento da beleza.

Desse modo, na concepção moderna, prevalece a segunda tese exposta no início. A esse respeito, Hume (1711-1776) diz que o belo não é uma qualidade das próprias coisas, e que existe apenas no sujeito que o contempla. Os teóricos da época recusam a concepção do belo “objetivo” e enaltecem o discernimento (juízo) do sujeito. Coube a Kant (1724-1804), na Crítica da faculdade do juízo, estabelecer as condições de um juízo estético sem a necessidade de uma definição do belo. Não existe, para Kant, um conceito definido do belo. A beleza não está na coisa, não pode ser estabelecida antes da experiência. É atribuída à coisa pelo pensamento (juízo) a partir de um sentimento de prazer provocado pela percepção. Esse é o juízo de gosto, que é “subjetivo”, porque não nos informa nada sobre a coisa, apenas sobre o sentimento de prazer ou desprazer que o sujeito sente no contato com a coisa; e “reflexivo”, porque o sujeito pensa (julga) o seu sentimento. Cada um julga seu gosto, normalmente, como um sentimento necessário e universal, e que, portanto, todos devem admitir. Hegel (1770-1831), por seu turno, não concebeu uma teoria do juízo estético, mas uma teoria da arte. No Curso de estética, afirma que a “estética” não tem como objeto o belo em geral, mas somente o belo da arte, e considera o termo “filosofia da arte” como mais apropriado. A “estética” concerne menos à sensação do que aos sentimentos expressados pelo artista e experimentados por aquele que vê ou escuta a obra de arte. Em sua análise sobre as artes, Hegel aponta a pintura, a música e a poesia como as artes que mais expressam a subjetividade do artista. A beleza produzida por essa subjetividade é superior à beleza natural, que é produzida sem consciência. Pela mesma razão, Hegel recusa toda teoria da imitação (a arte não imita a natureza). A beleza artística é superior porque a arte exterioriza a ideia elaborada pelo espírito (sujeito), e o belo é essa ideia mesma encarnada na obra.

O século XIX assiste à passagem do paradigma da beleza como “imitação” para o paradigma da beleza como “expressão”, vinculado ao crescimento da subjetividade. A partir do início do século XX, a realização da pintura ou das obras plásticas é cada vez mais identificada ao ato individual. Pode-se observar a disseminação da arte na sucessão de atos individuais sem conexão entre si. A questão da definição da arte torna-se mais e mais controversa. Uma das razões desse quadro está no fato de que a beleza desapareceu totalmente do domínio da estética. Recusa-se a relação que a tradição estabelecia entre a beleza, o bem e a verdade, isto é, entre os valores estéticos, morais e cognitivos. As obras de arte raramente visam o sentimento da beleza, mas as sensações complexas, de atração, de repulsa e de sugestão mental. A produção artística volta-se para a provocação sensorial ou conceitual. Fatores como o choque, a ruptura, a dissonância e a novidade entram nos programas das artes de “vanguarda” (Fovismo, Expressionismo, Futurismo, Cubismo). A pintura abstrata (1912) descarta o tema, a representação do “objeto”, e faz experiências de composição de cores e formas geométricas. O movimento Dadá (1916) ataca a concepção da beleza e esforça-se para desestruturar os modos de construção das obras de arte. Este esforço é seguido pelo surrealismo (1924), que também cultiva a parte que o acaso, o involuntário e o inconsciente têm na criação artística e, assim, pretende dar uma nova concepção da beleza que rompe radicalmente com as características tradicionais do belo. Um evento decisivo é a invenção por Duchamp (1887-1968) do readymade (arte pronta). Duchamp coloca em questão a definição da arte ao imaginar que qualquer objeto utilitário pode, através de um deslocamento escolhido pelo artista, funcionar como obra de arte. A arte, como consequência, não deve ser necessariamente bela.

A evolução da arte na “pós-modernidade” (a partir da segunda metade do século XX) corresponde ao declínio da confiança do Ocidente na ideia do progresso da humanidade. Esta ideia baseava-se na certeza de que o desenvolvimento da arte, da tecnologia, do conhecimento e da liberdade seria útil para a humanidade em geral. No entanto, a crise do capitalismo, as duas guerras mundiais, os totalitarismos e “Auschwitz” arruinaram os valores do humanismo e da racionalidade. A esperança de substituir esses valores através do socialismo enfraquece-se com a experiência do stalinismo. Além de tudo, o desenvolvimento científico-técnico tornou-se um meio para aumentar os malefícios e não para diminuí-los. A ausência de valores se traduz nas concepções da arte, da criação e do artista. Não existem mais valores aos quais o artista possa se referir, como a beleza. A arte contemporânea abandona a concepção da beleza, é marcada por sua ausência. O motivo principal da arte não é mais a beleza, mas algo que depende da “inspiração” ou do inconsciente do artista. Da mesma forma, a obra não imita mais a natureza, mas esforça-se para expressar o irracional. Nutre-se a obsessão pela “novidade” a todo custo e por si mesma. As obras de arte desaparecem, substituídas por experiências, isto é, por instalações e performances que funcionam como obras, e o artista torna-se um criador de experiências. Não é possível julgar como belo algo que se apresenta como uma “experiência”. O paradoxo é que a beleza está por toda parte. Esse processo de desaparecimento da obra de arte contribui para um mundo de beleza difusa. Belos são os corpos cultivados nas academias, remodelados ou rejuvenescidos por cirurgias plásticas, os rostos maquiados ou com aplicações de “botox”, as roupas de grife, as tatuagens ou os piercings, as invenções do design, etc. Um segundo processo na origem da difusão da beleza é a difusão de obras que se tornam objetos de consumo pela indústria.

Créditos a: Andrey Ivanov – A concepção da beleza para a filosofia e a estética

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