[Dossiê CORPO] De que corpo estamos falando?

Imagem: obra Abaporu, Tarsila do Amaral

Texto de Amanda Bragion

O corpo na sociedade atual está ganhando cada vez mais destaque, foco. Ele é usado na busca de contato com o outro, estabelecer vínculos, para a ascensão profissional em diversos meios de trabalho, além de significar sucesso e disciplina, adjetivos extra para aquele que tem o corpo tido como ideal atualmente.
Vive-se uma etapa onde o corpo se objetivou tentando responder aos anseios da sociedade industrial, e de maneira quase imperceptível cede às pressões sociais, comerciais e midiáticas buscando o corpo que deixou de ser uma exigência estética, para se tornar uma exigência moral. O corpo se tornou submisso, necessita ser ordenado e disciplinado para atender e responder aos anseios simplificadores que ordenam condutas e orientam posturas que são favorecedoras da instauração do mal-estar da civilização.
O corpo, o corpo…
Sim, o corpo. Na cultura instituída hoje, presencia-se uma clara supervalorização das qualidades físicas em detrimento das psicológicas e cognitivas.
Novaes e Vilhena (2003) consideram que a beleza, a aparência física e o corpo têm grande importância no discurso da mulher de hoje, e o consumo de tecnologias de embelezamento podem, de fato, potencializar a maturidade da mulher, mas por outro lado, podem conduzir ao risco de um sutil deslizamento para a patologia, quando a beleza se torna a única busca do indivíduo.
A imagem corporal é um fenômeno complexo que envolve aspectos cognitivos, afetivos, sociais/culturais e motores. É fortemente ligado ao conceito de si próprio e é influenciável pelas relações dinâmicas entre o indivíduo e o meio em que vive (ADAMI et al. 2005). É a representação mental do corpo existencial, é dinâmica, mas possui características mais estáveis e legitima a existência singular e original do ser humano no mundo.
O nosso corpo é o lugar onde a existência se realiza. A corporeidade é uma expressão utilizada para fazer um elo entre o sensível e o significado. É o corpo-vivido relacional, que não se define em explicações matemáticas. Possui recusas, hesitações e afirmações, pode se manifestar através do silêncio e ser compreendido, faz do corpo físico um ser expressivo. É o corpo que é, que sou, que somos. Não é mais um corpo “objeto”, mas com corpo “adjetivo”. É o corpo que trabalha, sonha, brinca, chora, o corpo que manifesta o mundo que se vive e percebe.
A corporeidade é, portanto, uma realidade humana que se constrói a cada momento. Cada ser é sua corporeidade, uma forma única de viver a realidade corporalmente, tem possibilidades ilimitadas e é quem torna a relação com o mundo significativa e cheia de sentidos. Através dessa reflexão e atribuição de significados que a supervalorização física se tornará menos evidente diante das psicológicas e cognitivas.
“Fazer uma fenomenologia da corporeidade não é descrever um corpo, mas sim a qualidade e os significados de uma experiência, que esteja intimamente relacionada com este corpo.”
Ari Rehfeld
Referências: ADAMI, F.; FERNANDES, T.; FRAINER, D.; OLIVEIRA, F. Aspectos da construção e desenvolvimento da imagem corporal e implicações na educação física. Revista Digital, 2005.
NOVAES, J.V.; Vilhena, J. De Cinderela a Moura Torta: Sobre a relação mulher, beleza e feiúra. Interações, Estudos e Pesquisas Psicológicas, V. 8, n. 15, p. 9- 36, 2003
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