A construção consciente do homem

Imagem: Jean-Paul Sartre

Por Isaias Kniss Sczuk¹
De Ciência e Vida

Segundo Sartre, não nascemos prontos, temos a possibilidade de nos construir. O existencialismo propõe encarar todos os aspectos adversos da vida. Por isso é preciso ter a consciência que sua ação se reflete para a humanidade.

Terminada a Segunda Guerra Mundial, surgiu na Europa, como um esforço de sua reconstrução, o Existencialismo. Na segunda metade da década de 1940, dizer-se existencialista não era pouco; era bem mais que professar uma filosofia, um credo. Era, sobretudo, adotar uma atitude. Não é difícil compreender que a geração que acabava de conhecer os horrores da guerra fosse naturalmente pessimista, e, ao mesmo tempo, inconformada. Declarar-se existencialista implicava um não-sei-quê de provocação, de escândalo, um pouco como uma rebeldia, uma indisciplina. As pessoas, mesmo sem entender o termo, sentiam-se provocadas e lhe atribuíam apanágios negativos, entendiam o Existencialismo como atitude proibida e profana.

Sartre, em sua conferência O Existencialismo é um humanismo, proferida e publicada em 1946, defendia, diante de alguns católicos e marxistas, que o Existencialismo não se trata de uma filosofia pessimista, contemplativa e passiva, mas de uma doutrina capaz de tornar a vida humana possível. Por outro lado, declarava que toda verdade e toda ação implicavam um meio e uma subjetividade humana. Ele dizia que a maior parte das pessoas que utilizavam o termo Existencialismo ficaria bem embaraçada se tivesse que explicá-lo, pois essa palavra tinha assumido uma tal amplitude que já não significava absolutamente nada. Mas Sartre afirma que o Existencialismo é uma doutrina menos escandalosa e a mais austera; e destinada exclusivamente aos técnicos e aos filósofos.

Há duas espécies de Existencialismo: de um lado há os cristãos, entre os quais Sartre inclui Karl Jaspers e Gabriel Marcel; e de outro lado há os existencialistas ateus, entre os quais Sartre inclui Martin Heidegger, os existencialistas franceses e ele próprio. Entre essas duas espécies, o que há em comum é simplesmente o fato de admitirem que a existência precede a essência ou que se deve partir da subjetividade. “Consideremos um objeto fabricado, como, um livro ou um corta-papel; esse objeto foi fabricado por um artífice que se inspirou num conceito; tinha, como referenciais, o conceito de corta-papel assim como determinada técnica de produção, que faz parte do conceito e que, no fundo, é uma receita. Desse modo, o corta-papel é, simultaneamente, um objeto produzido de certa maneira e que, por outro lado, tem uma utilidade definida: seria impossível imaginarmos um homem que produzisse um corta-papel sem saber para que tal objeto iria servir. Podemos assim afirmar que, no caso do corta-papel, a essência – ou seja, o conjunto das técnicas e das qualidades que permitem a sua produção e definição – precede a existência e, desse modo, também a presença de tal corta-papel ou de tal livro na minha frente é determinada. Eis aqui uma visão técnica do mundo em função da qual podemos afirmar que a produção precede a existência”¹.

Para Sartre, o raciocínio do exemplo acima não pode ser aplicado aos seres humanos. Pois, para o Existencialismo, o homem é causa de si e não tem uma essência definida, sendo também que o Existencialismo sartriano é ateu. Sendo assim, o homem simplesmente existe, e sua essência será apenas aquilo que ele fizer de si mesmo, aquilo que ele se projetar, levando em consideração a condição na qual ele está inserido. Não se pode falar, por isso, em uma natureza humana; pois, se assim fosse, o homem não interferiria em nada em sua existência, deixaria seguir sua ordem natural, sua essência viria antes de sua existência. Sartre diz que há uma condição humana, um modo de ser humano resultante da situação em que cada indivíduo se encontra, ou seja, essa condição indica o conjunto das circunstâncias que se impõem a todo ser humano. Esta condição é individual e passa a existir desde que o homem surge no mundo.

 NA SEGUNDA METADE DA DÉCADA DE 1940, DECLARAR-SE EXISTENCIALISTA IMPLICAVA UM NÃO-SEI-QUÊ DE PROVOCAÇÃO, DE ESCÂNDALO, UM POUCO COMO UMA REBELDIA, UMA INDISCIPLINA.

Para o Existencialismo sartriano, o homem, partindo de sua condição humana, deve fazer-se, visto que ele nada é enquanto não fizer de si alguma coisa. Esse fazer de si pressupõe um projeto: a existência é um projetar-se no sentido de impulsionar-se para o futuro. O homem é, antes de qualquer coisa, um projeto que vive subjetivamente; nada existe anteriormente a este projeto. Não diz respeito ao que ele quis ser, pois, segundo Sartre, o que entendemos vulgarmente por querer é uma decisão consciente, e que, para a maior parte de nós, é posterior àquilo que nós mesmos fazemos. Não somos aquilo que queremos ser, mas o projeto que estamos vivendo e esse projeto é uma escolha de responsabilidade, apenas, do próprio homem. É enfatizada a relação indivíduo/sociedade, o homem é colocado como sujeito da história social, na medida em que é sujeito de sua história individual. O Existencialismo compreende, assim, que a construção do ser é resultante de processos históricos de relações entre a materialidade, a Cultura, a família, enfim, entre as relações sociais e sociológicas e a apropriação ativa realizada dessa realidade pelo sujeito, concretizando-se em sua experimentação de ser: “Eu quero aderir a um partido, escrever um livro, casar-me, tudo isso são manifestações de uma escolha mais original, mais espontânea do que aquilo que chamamos de vontade. Porém, se realmente a existência precede a essência, o homem é responsável pelo que é. Desse modo, o primeiro passo do Existencialismo é o de pôr todo homem na posse do que ele é e de submetê-lo à responsabilidade total de sua existência”².

Para Sartre, quando se diz que o homem é responsável por si mesmo, não se quer dizer que o homem é apenas responsável pela sua individualidade, mas pela responsabilidade de toda a humanidade. Deve-se lembrar que não existe uma natureza humana, ou seja, como não existe um Deus para lhe dar uma essência, o homem não pode ser chamado de ser humano. O homem é apenas um ser no mundo, que pode caminhar em várias direções, assim há uma condição humana, e isso faz com que o homem seja responsável pelo todo.

O ENSAIO elaborado por Sartre, O Existencialismo é um humanismo baseado em uma conferência proferida por ele em 1946, em Paris. O objetivo do pensador foi explicar em detalhes sua doutrina e, também, defender suas ideias de críticas negativas.

O projeto existencial refletido por Sartre não implica a subjetividade no sentido tradicional, que é a escolha do sujeito individual por si próprio, pois nem mesmo se pode dizer que o “eu” seja essência predefinida do homem. O homem tem uma dimensão subjetiva que é a própria projeção de si e pode ter plena e autêntica consciência disso. Assim, podemos chamar de subjetividade a consciência de ser consciência. Mas, segundo Sartre, é preciso que essa consciência de ser consciência se qualifique de algum modo; e ela só pode qualificar-se como intuição reveladora, que leve o homem a pressupor o efeito de suas escolhas, caso contrário nada será.

A ANGÚSTIA DA RESPONSABILIDADE
Deve-se tomar ciência de que o homem, não sendo responsável apenas pela sua individualidade em seu projeto existencial, ao escolher-se escolhe todos os homens, o que, segundo Sartre, o leva a deparar-se com angústia, desamparo e desespero. De acordo com Sartre, o homem que é responsável por alguma coisa não pode se esquivar da angústia, sendo que ela não impede o homem de agir. A angústia constitui a condição da ação, pois pressupõe que o homem encare a multiplicidade dos possíveis e que, ao escolher um caminho, ele se dê conta de que não tem nenhum valor a não ser o de ter sido escolhido. O homem que tenta escapar de sua responsabilidade, dissimulando- a por si e por toda a humanidade, consegue disfarçar a angústia, mas o próprio ato de mentir implica uma escolha e exemplifica uma atitude de má-fé. Ao atribuir a responsabilidade a outro, estamos escolhendo a mentira não só para a nossa própria existência como para a de todos os homens, visto que influenciamos e somos influenciados. Ou seja, o ato de o homem tentar delegar sua responsabilidade a outro, não assumindo a responsabilidade de seu ser, é uma atitude de má-fé.

O desamparo que Sartre apresenta diz respeito ao fato da inexistência de Deus. Abandonado, mas não no sentido de permanecer desamparado e passivo em um universo hostil, mas no sentido de que me acho sozinho e sem ajuda, comprometido em um mundo pelo qual sou completamente responsável. Dostoiévski escreveu: “se Deus não existisse, tudo seria permitido”. Eis o ponto de partida do Existencialismo. De fato, tudo é permitido se Deus não existe, e, por conseguinte, o homem está desamparado porque não encontra nele próprio nem fora dele nada a que se agarrar. Para começar, não encontra desculpas. Com efeito, se a existência precede a essência, nada poderá jamais ser explicado por referência a uma natureza humana dada e definitiva; ou seja, não existe determinismo, o homem é livre, o homem é liberdade”³.

A ideia de que a existência precede a essência permite outros desdobramentos. Como vimos, o homem não pode responsabilizar natureza alguma pela sua existência. Não há nada que valide seu comportamento, não há nada que o determine. O homem faz a si próprio, é livre, ou seja, tem total liberdade para escolher o que se tornar, é responsável por sua paixão. Assim, não há nada que justifique seus atos. O homem está desamparado, condenado à sua própria escolha.

A LIBERDADE EM SARTRE
Partindo das propostas existencialistas sartrianas de que o homem é construtor de si mesmo e de que a existência precede a essência, podemos afirmar que o homem é causa de si, se faz mediante suas escolhas. Essa escolha, segundo Sartre, está fundamentada na liberdade, e isso leva o homem a ser fruto da liberdade. Assim, vê-se que a liberdade não é algo que pertence à essência do ser humano, mas dá suporte à sua essência. Se afirmarmos que a liberdade pertence à essência do homem, poderemos supor também que o homem pode escolher sua existência. A liberdade, assim, teria um poder indeterminado, ou seja, a noção sartriana de condição humana e de situação não teriam valor. Para Sartre, a liberdade é absoluta ou não existe, ele recusa todo determinismo e mesmo qualquer forma de condicionamento.

Assim, dado que o homem é causa de si, no sentido de que é ele que constrói seu modo de ser, para Sartre, a liberdade é absoluta e incondicional, sem limitações, ou seja, a liberdade é a escolha que o homem faz de seu próprio ser e do mundo. Não se podem encontrar outros limites para a liberdade além dela mesma. O homem faz-se afirmando suas escolhas livres, assim, ele é produto de sua liberdade, pois é na ação livre que o homem escolhe seu ser, ou seja, que se constrói o sujeito. Deve ficar claro que o homem não escolhe a liberdade, pois ela precede o ser; o homem é lançado nela. Como a liberdade não é indeterminada e sim um fazer de um ente alguma coisa, abandona-se o quietismo, o homem se engaja, assume uma posição no mundo, tomando partido e assumindo os riscos inerentes a essa atitude.

O exercício da liberdade nas ações de escolher o que fazer é sempre intencional, ou seja, é sempre movido por uma vontade consciente dos princípios norteadores dessa escolha e dos fins e consequências dessa ação. Na ação livre, o homem é consciente dos princípios de sua ação. No entanto, não existem princípios prontos que sirvam de guia para a escolha humana, não existem valores morais nos quais se possa fundar a ação humana. A humanidade do sujeito existe em circunstâncias e em condições sociais dadas, isso significa que toda relação humana é demarcada temporalmente, é histórica.

Para exemplificar ausência de princípios norteadores da ação, lembramos da passagem do texto O Existencialismo é um humanismo na qual um jovem pergunta a Sartre se deve ir para a guerra ou cuidar da mãe. E a resposta do filósofo foi de que não existe uma regra, um valor, um modelo, mesmo uma resposta correta ou um conselho que seja exterior a ele e que sirva de parâmetro para a ação. Ou seja, é de total responsabilidade do jovem a escolha que fizer, pois ele é livre para erigir seus valores. Nesse sentido, sendo o homem livre para agir e não existindo valores universais que sirvam de referenciais para nossa vida, cabe tão somente ao homem construir os valores norteadores de sua ação. Para Sartre, portanto, não existem valores éticos universais para a vida humana, mas somente a construção real e individual dos valores oriundos da condição social do sujeito.

Como nos apresenta Moutinho (1995), o verdadeiro conceito de liberdade, para Sartre, não implica em obter o que se quer, mas em querer autonomamente, determinar-se a querer por si mesmo (querer, aqui, evidentemente, não só no sentido de voluntário, reflexivo, mas no sentido largo que envolve toda ação humana). O problema da liberdade, segundo esse mesmo autor, diz respeito ao querer e não ao poder (poder alcançar o que o querer indica). É por isso que o sucesso não importa em rigorosamente nada para a liberdade. Não se é menos livre porque não se consegue o que se quer, mas seríamos não livres (o que é impossível) se nosso querer fosse condicionado. Pode-se dizer então que a liberdade não se refere ao poder mas ao livre querer.

Assim, podemos dizer que a liberdade só é em situação. Não é uma propriedade do homem, como a de ser bípede, não é uma entidade metafísica cravada em seu espírito. Ao contrário, é o ser mesmo do homem, sempre engajado. A liberdade não é uma coisa, mas um ato, o modo da ação humana no mundo, do desvelamento, da significação, da humanização do mundo. Como escreve Sartre: “O homem não é primeiro para ser livre depois: não há diferença entre o ser do homem e seu ‘ser livre’”4. Tudo isso nos remete à ideia de que o homem não é um ser pleno, total, com uma essência definida, pois se assim fosse ele não poderia ter nem consciência nem liberdade. Primeiro, porque a consciência é um espaço aberto a múltiplos conteúdos.

Segundo, porque a liberdade representa a possibilidade de escolha, por intermédio dela o homem revela suas aspirações por algo que ele ainda não é, pois não nasceu pronto. O homem se constitui, dessa forma, em uma livre unificação das diversas escolhas empíricas em direção a um projeto fundamental. Por isso o homem tem como característica específica o não ser, algo indefinido e indeterminado.

Contudo, é o exercício da liberdade, em situações concretas, que impulsiona a conduta humana, que gera a incerteza, a angústia, que leva à procura de sentidos, que produz a ultrapassagem de certos limites. Por tudo isso, afirmamos então que não há como escapar da liberdade: “o homem está condenado a ser livre”5. E sendo a liberdade o seu próprio limite, ele não é livre de deixar de ser livre. Assim, a realidade humana encontra-se abandonada diante de sua própria construção, necessitando fazer-se ser sem contar com nenhuma ajuda. E ser é escolher-se a cada instante. Não há como buscar ajuda fora de si ou mesmo dentro de si, apelar para Deus, para a natureza, para uma provável natureza humana ou mesmo para a sociedade. Para a realidade humana, ser é sinônimo de agir e “deixar de agir é deixar de ser”6. É por isso que Sartre afirma que, na construção do ser, o homem encontra-se só e sem desculpas.

NÃO SOMOS AQUILO QUE QUEREMOS SER, MAS O PROJETO QUE ESTAMOS VIVENDO. É UMA ESCOLHA DE RESPONSABILIDADE DO PRÓPRIO HOMEM. É ENFATIZADA A RELAÇÃO INDIVÍDUO/SOCIEDADE.

O EM-SI E O PARA-SI
Segundo Sartre, quando o homem se constata como existente, ou seja, quando começa a ter consciência de si e do outro, imediatamente percebe-se como existência consciente. Essa consciência ele a tem de si mesmo (como intuição originária de si) existindo no mundo e dirigida ao mundo. A consciência designa uma subjetividade sempre aberta, que a todo instante transcende em direção ao mundo. O caráter transcendente – como relação com algo que se encontra fora dela – é a própria consciência, é uma consciência completa e dirigida para alguma coisa que não é ela.

O homem como um ser no mundo sempre está se relacionando com um outro ser que lhe é distinto, um ser que não tem consciência de sua existência, o ser das coisas. A esse ser Sartre denomina Em-si. Esse ser não admite nenhuma abertura em direção a outro ser, ele é pleno e idêntico a si mesmo. Essa plenitude existe porque o ser Em-si não tem história, não tem devir, não tem potencialidade: todas as coisas do mundo são “em-si”. O nada – isto é, o homem –, ao contrário, não tem essência determinada e por isso é pura intencionalidade, pura abertura, puro movimento em direção às coisas. O nada se faz a si mesmo e tem consciência de suas ações; o ser Em-si apenas é em sua plenitude.

SARTRE utiliza as ideias de Dostoiévsky retiradas do romance Os irmãos Karamazov. a frase completa é “Se Deus não existe e a alma é mortal, tudo é permitido”. O clássico reflete os problemas da relação entre moral e religião.

Além do ser Em-si, Sartre concebe a existência do ser especificamente humano, denominando-o ser Para-si, o ser da consciência. O Para-si traz consigo, desde sua origem, a liberdade. Por meio dela, o Para-si escapa de cristalizar-se numa condição de ser acabado e pleno, no mesmo instante em que se projeta no tempo, em direção ao futuro. Ao contrário do Em-si, o Para-si não é em plenitude e anseia a todo instante completar-se. Assim, por ser inacabado é que o Para-si é liberdade, pois necessita sempre escolher seu modo de ser. A liberdade do Para-si implica um comprometimento constante: só por meio de escolhas incondicionadas é que ele vai se construindo. Manifesta-se aí um caráter de absurdez inegável em relação à liberdade; é impossível não escolher, ou seja, não escolher significa uma escolha.

De acordo com Sartre, apesar de o homem ser uma liberdade que escolhe, não é possível escolher não ser livre. Com essa afirmação estamos diante da facticidade e da contingência da liberdade. Sartre denomina facticidade da liberdade “ao dado que ela tem-de-ser e iluminado pelo seu projeto”7. Os aspectos da condição humana que são independentes de nossas escolhas são manifestações da facticidade, tais como o lugar, o corpo, o passado, a posição social e a época histórica. Já o fato de não poder existir é a contingência da liberdade. Afinal, o que representa uma escolha diante de um mundo inerte, que nenhuma resistência nos oferece? Escolher o significado de qualquer coisa no mundo de um puro Em-si só importa porque outros também podem imprimir nos mesmos objetos diferentes significados. Escolher é praticar um ato decisório que aponta em direção a um projeto original.

O SER PARA-O-OUTRO
O Existencialismo de Sartre apresenta a existência do ser Para-o-outro como um fato incontestável para a formação do sujeito. O outro é, antes de tudo, o ser pelo qual o homem adquire sua objetividade, estando sempre com ele. Assim, é necessário reconhecer primeiro o outro como outro para depois o sujeito se reconhecer. “A solidão na qual se insistia tanto quando se dizia que o homem está condenado a ser livre fica agora irremediavelmente comprometida com a presença do outro, da qual não posso escapar. Pois o mundo em que surjo é um mundo em que o outro já habita. E o conflito é constitutivo, pois mesmo minha intenção de respeitar a liberdade do outro já constitui um projeto acerca da sua liberdade e que por isso a violenta. Quando duas pessoas se medem pelo olhar, é inevitável que uma tente paralisar a outra, isto é, apossar-se da liberdade da outra. O ser-para-outro é estruturalmente conflituoso”8.

Segundo Sartre, é o mundo já dotado de sentido que leva o homem a constatar, de imediato, a importância do outro para a sua existência, e isso se dá quando o homem projeta-se diante de si no mundo, ou seja, numa relação de subjetividade. O Para-si surge no mundo e encontra outros Para-si. Por meio do olhar, o Para-si capta o outro. Vemos assim que o Para-si sofre a experiência de ser um objeto no universo. O Para-si descobrindo o comportamento do outro que se revela ao mundo e aparece como objeto pode interiorizá-lo como seu. Ao interiorizá-lo desse modo, transcende-o em direção aos seus fins, posicionando-se, assim, além do comportamento que utiliza.

A existência do outro enquanto limite à liberdade do Para-si, ao captá-lo como objeto, objetiva sua situação e engendra o fenômeno da alienação. De acordo com Sartre: “É esta objetivação alienadora de minha situação que constitui o limite permanente e específico de minha situação, assim como a objetivação de meu ser Para-si em ser Para-outro constitui o limite de meu ser. E são precisamente esses dois limites característicos que representam as fronteiras de minha liberdade”9.

A alienação consiste na exterioridade da própria situação que representa seu ser para o outro, isto é, refere-se a uma dimensão do indivíduo que foge ao seu domínio, pois trata do que se revela ao outro como seu exterior. Na experiência da alienação há o reconhecimento do outro como liberdade, mas quaisquer que sejam os limites impostos à liberdade do indivíduo eles são, em última instância, escolhidos e assumidos pelo próprio indivíduo. Nesse sentido, opera-se uma dupla condenação. Condenado a ser livre e ser impelido o tempo todo a projetar-se num futuro para ser, o homem também se encontra condenado a ser inteiramente responsável por si mesmo. Como vimos, Sartre admite a existência de limites (as coisas e os outros), mas não permite que eles sejam obstáculos efetivos à liberdade.

¹ Isaias Kniss Sczuk é professor de Filosofia no Colégio Sinodal Doutor Blumenau e na Escola de Educação Básica Estadual José Bonifácio, ambas em Pomerode, Santa Catarina. Possui graduação em Filosofia e especialização em Metodologia do Ensino de Filosofia e Sociologia.

2 SARTRE, 1987, p. 6
3 SARTRE, 1987, p. 9.
4 SARTRE, 2005, p. 68.
5 SARTRE, 2005, p. 587.
6 SARTRE, 2005, p. 87.
7 SARTRE, 2005, p. 602.
8 SILVA, 2004, p. 189.
9 SARTRE, 2005, p. 643.

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