Desconstruindo o “eu” – por Daniel Dennett

Imagem: Daniel Dennett

De Flávio Paranhos¹
Em Portal Ciência e Vida

Muito discutido no meio acadêmico por suas teorias sobre a Filosofia da Mente, Daniel Dennett fala nesta entrevista sobre consciência, a não existência de um “eu” e a importância dos experimentos científicos nesta área.

Conhecido por seus estudos sobre a mente, o filósofo americano Daniel Dennett, 66, acredita que estados intrinsecamente subjetivos não existem e que o cérebro, em princípio, pode vir a ser substituído por próteses. Admirador de Darwin e de sua teoria da evolução, afirma que os seres humanos são apenas temporariamente únicos, “até que outra espécie desenvolva linguagem e tudo o que vem com ela.” Dennett, que estudou em Harvard e em Oxford e atualmente é co-diretor do Center for Cognitive Studies, da Universidade de Tufts, em Boston, nos EUA, onde também leciona – inclusive nas turmas de graduação , defende que os filósofos da mente devem andar de mãos dadas com os cientistas e critica aqueles que escolhem uma postura contrária: “fico impressionado com a resistência de alguns filósofos para qualquer abordagem que envolva a Ciência”.

Dennett possui uma obra filosófica extensa, mas extremamente consistente, o que o torna um dos filósofos mais respeitados da contemporaneidade. Eele recobre temas diversos, tais como a evolução, a cognição animal, a questão do livre-arbítrio e a Religião. Mas nela se nota sempre o fio condutor do mesmo filósofo naturalista, o materialista não-reducionista ou; como ele se classifica, o “funcionalista naturalista”. O funcionalismo é o materialismo que acredita que a mente pode ser instanciada por dispositivos que não sejam necessariamente o cérebro humano, estendendo sua possibilidade para sistemas artificiais. Daí não reduzir o mental, seja ao biológico seja ao silício, pois isso mostraria que a mente não depende do seu substrato físico.

Para Dennett, o mental é produto da evolução, algo que auxilia nossa sobrevivência, tanto quanto a linguagem ou outras características humanas. Eesta posição tem, contudo, colidido com a de outros filósofos da mente contemporâneos, sobretudo os que sustentam o dualismo mente-cérebro. nesta entrevista, dennett faz críticas a alguns deles, como, por exemplo, os defensores da existência dos qualia, para os quais o debate gira principalmente em torno de um experimento imaginário proposto pelo australiano Frank Jackson. Os qualia são sensações intrínsecas e indescritivelmente subjetivas, como cores, odores e sabores, que não poderiam ser captadas pela linguagem da Ciência.

Mas há ainda outras críticas. Uma é a David Chalmers, que não é explicitamente nomeado aqui, quando Dennett se refere ao hard problem. este nome, criado por Chalmers, expressa a dificuldade em estabelecer qualquer tipo de explicação para o fato de sermos conscientes de nossos pensamentos, emoções e de tudo o que ocorre em nossa mente. tudo o que ocor- re em nossa mente é acompanhado da experiência da consciência, algo que não temos a mínima idéia do que seja, exceto a certeza de que a possuímos. Chalmers não acredita que esse problema possa ser resolvido pela Ciência e aqui encontramos uma discordância com Dennett, que não acredita que a consciência continuará a ser o bastião intocado pela Ciência e o orgulho da nossa espécie.

A outra crítica é ao seu colega Ned Block. ele estabelece uma distinção entre consciência fenomênica e consciência de acesso. a consciência fenomênica seria um estado mental no qual se manifestam propriedades da experiência. temos consciência fenomênica quando vemos, ouvimos, cheiramos etc. Já a consciência de acesso é definida por Block como o conteúdo ou a informação que é transmitida por uma determinada experiência consciente. Mas dennett não concorda com essa distinção. Há ainda outros conceitos da filosofia de Dennett que aparecem nessa entrevista e que o lei- tor pode estranhar. Um deles é o de “heterofe- nomenologia”. ele designa um método filosófico de investigar a experiência em primeira pessoa dos outros, isto é, a partir de uma perspectiva de terceira pessoa.

As teorias da consciência e da intencionalidade, partes importantíssimas da Filosofia da Mente de Dennett, não poderiam deixar de constar na entrevista. São teorias complexas e, para o leitor mais curioso, sugiro a leitura do livro A Mente segundo Dennett, do professor João de Fernandes teixeira, que acaba de ser lançado pela editora Perspectiva, no qual a fi- losofia dennettiana é apresentada em lingua- gem simples e clara.

Filosofia – Eu gostaria de co meçar com algumas perguntas pessoais, se não se importa. Por que o interesse por Filosofia? Alguma influência de parentes? De professores? O senhor foi aluno de Gilbert Ryle (autor de The concept of mind), certo? Ele foi importante em sua escolha da Filosofia da Mente?
Daniel Dennett – Meus dois principais professores, Willard Van Orman Quine e Gilbert Ryle, tiveram grande influência sobre mim. Antes deles, um professor em meu primeiro ano de college, Louis Mink, também me influenciou bastante. Ele era um historiador de Filosofia, mas abriu meus olhos para todo o campo da Filosofia.

Filosofia – A teoria da evolu- ção exerce um papel central em sua teoria da consciência. Isso faz do senhor um funcionalista naturalista (em oposição a um funcionalista minimalista)?
Dennett – Já que sou um natura- lista e um funcionalista, imagino que eu seja um funcionalista naturalista, mas não estou certo a respeito da distinção que você está fazendo. Certamente eu defendo uma visão de funcionalismo que vai além de meras definições causais de propriedades.

Filosofia – A teoria da evolu- ção exerce importante papel em sua obra, não só em sua teoria da consciência, mas também em sua teoria evolucionista das religiões. Por quê? Ou, de outra forma, há outra abordagem possível ao desenvolvimento de uma teoria da consciência?Será a teoria da evolução abso- lutamente indispensável?

SE VOCÊ SUBSTITUIR PARTES DE SEU CÉREBRO E DEIXAR CADA PARTE PROTÉTICA APRENDER SUA FUNÇÃO COM AS PARTES ORIGINAIS RESTANTES, ENTÃO VOCÊ PODERIA TERMINAR COM UM CÉREBRO TODO PROTÉTICO

Dennett – A teoria da evolução pela seleção natural exerce um papel central em qualquer teoria de qualquer proprieda- de dos seres vivos tais como consciência, linguagem e até mesmo o significado, em seu sentido mais amplo. Isso porque cada característica “cara” dos seres vivos tem de se pagar por si mesma, na moeda da replica- ção diferencial em algum ponto do passado.

Filosofia – O senhor contra- argumenta a famosa intuição “Mary, a neurocientista” (em que uma neurocientista é mantida num mundo em preto-e- branco e estuda tudo o que é possível saber sobre cores) defendendo que se ela realmente soubesse tudo sobre cores, ela não ficaria surpresa quando libertada de seu mundo em preto-e-branco e visse cores. Mas vamos fazer outra proposição teórica: imagine dois médicos se especializando em Oftal- mologia, um deles pelo método tradicional e o outro preso em um quarto com acesso a tudo quanto se pode saber a respeito (mas sem acesso a pacientes, nem praticando procedimentos, cirurgias, etc). A qual dos dois confiaria a operação de sua retina descolada (um evento grave)? Admitindo que escolha o tradicional, o senhor diria que confia mais nesse por acreditar que ele aprendeu mais do que o outro, efetivamente praticando a cirurgia de descolamento (e não apenas estudando tudo a respeito)? Seguindo, admitindo que o senhor considere que, sim, o tradicional aprendeu mais, isso tornaria a intuição “Mary, a neurocientista” um argumento válido em favor da chamada “abordagem a partir da primeira pessoa”? (De minha parte, acredito que sim, “Mary, a neurocientista”, apren- de mais quando vê as cores. Assim como, pelo mesmo motivo, o oftalmologista aprende mais pelas vias tradicionais da prática. Entretanto, isso não faz do experimento um bom argumento para a “abordagem a partir da primeira pessoa” e, portanto, não faz do experimento um obstáculo à abordagem cientí- fica (pela terceira pessoa), pelo mesmo motivo que o fato de não ser capaz de chutar a bola da mesma forma que Pelé não impede os fisiologistas de estudarem os músculos da perna satisfatoriamente).

Dennett – O que sua variação mostra é a absurda irrealidade do experimento imaginário original, pelo qual Mary é declarada como sabendo “tudo” o que há para saber a respeito de cor (exceto ter visto cores). Ninguém poderia jamais alcançar tal estado – simplesmente há coisas demais a saber. Da mesma forma, nenhum oftalmologista po- deria saber “tudo” a partir de livros, sem a prática. Portanto, é claro que eu escolheria o médico que aprendeu pelas vias tradicionais, com a prática. Claro, se eu pudesse receber alguma garantia (de quem? De Deus?) de que o médico que não teve a prática realmente sabia tudo, então esse médico seria super- humano e, neste caso, eu até poderia escolhê-lo para realizar a cirurgia.

TEMOS UM ACESSO EMPOBRECIDO DOS NOSSOS PROCESSOS INTERNOS. EXPERIMENTOS COM A VISÃO, POR EXEMPLO, MOSTRAM O QUÃO DESCONTÍNUOS SÃO OS ESTADOS NEUROANATÔMICOS

Filosofia – Será “pensamento” o nome que se dá ao produto fornecido pelo cérebro, tanto quanto “movimento” é o nome que se dá ao produto fornecido pelas pernas?
Dennett – Eu não me preocupo muito com tais definições. O produto final do cérebro é o controle do corpo. O pensamen- to (cognição, resolução de problemas, imaginação, etc.) é um produto intermediário.

Filosofia – As pernas podem ser substituídas por próteses. Será isso possível para o cérebro também?

Dennett – Sim, em princípio. É claro que se você substituir todo o cérebro de uma vez por outro cérebro (usado), você desaparecerá, e o “doador” é que receberá um novo corpo a operação será na verdade um transplante de corpo, não um transplante de cérebro. Mas se você substituir partes de seu cérebro, pedaço por pedaço, e deixar cada parte prostética aprender sua função própria com as partes originais restantes, então você poderia terminar eventualmente com um cérebro inteiramente protético. Isso em princípio, pois é muito difícil fazê-lo na prática, tanto agora quanto, quem sabe, sempre.

Filosofia – O verdadeiro hard problem parece ser a resistência que nós humanos temos em aceitar que não somos especiais coisa alguma, afinal de contas. Ou não? Somos únicos? Há de fato um ‘eu’? Se há um ‘eu’, onde, diabos, ele está?
Dennett– Concordo que o hard problem verdadeiro é persuadir as pessoas de que não existe um hard problem! Somos, pelo menos temporariamente, únicos – até que outra espécie desenvolva linguagem e tudo o que vem com ela – e nossos “eus” não são órgãos e, certamente, não são substâncias imateriais (egos ou res cogitans cartesianos). O “eu” é uma ficção útil, como os centros de gravidade, na física.

Filosofia – O modelo para a consciência chamado ‘Global Workspace’, de Baar, é compatível com sua teoria da “fama no cérebro”?

Dennett – Sim, em algumas formas. Ambos os modelos têm em comum a idéia de uma espécie de arena na qual há competição pela influência sobre uma variedade de submódulos que têm acesso a todo o conteúdo dessa arena. Mas alguns modelos de ‘Global Workspace’ estragam essa boa idéia ignorando suas implicações temporais.

Filosofia – A teoria da cons- ciência de acesso, de Ned Block, faz algum sentido?
Dennett – Tenho sustentado por vários anos que a distinção proposta por Ned Block para consciência de acesso e consciência fenomenica é incoerente. Uma vez resolvida a questão sobre o que (e não quem) tem acesso a que, a distinção de Ned Block cai por terra.

Filosofia – Intencionalidade (abordagem pelo sistema intencional) é um ponto-chave em sua teoria da consciência. Intencionalidade também é um ponto-chave na abordagem fenomenológica de Husserl à consciência. Há semelhanças? Dennett – Sim, realmente. Foi Husserl quem inspirou minhas primeiras explorações à intenintencionalidade, e eu tenho dito que minha “heterofenomenologia” é descendente direta (e um desenvolvimento da) fenomenologia husserliana. Ambas envolvem uma espécie de epoche, mas a minha presta mais atenção aos problemas de como relacionar a (hétero) fenomenologia ao que Husserl chama de fase hilética – as atividades e processosno sistema nervoso que são responsáveis pela experiência consciente.

.“Fico impressionado com a resistência de alguns filósofos para qualquer abordagem que envolva a Ciência. em algum ponto, após uma exposição, um argumento ou uma elaboração se esgotarem (com relação a alguns filósofos especificamente), eu tomo a decisão de apenas ignorá-los dali ”

Filosofia – Sua teoria da consciência se vale bastante de experimen- tos em neurofisiologia, particularmente neuro- fisiologia e neuropatolo- gia do sistema visual. O senhor acredita que tais experimentos ajudam não só a provar que a abordagem pela “heterofenomenologia” para estudar a consciência é a correta, mas também ajudam a construir seu modelo de “fama no cérebro” para a consciência? Sendo o caso, o senhor apontaria um ou mais experimentos par- ticularmente úteis?
Dennett – Vários experimentos destacam o fato de termos um acesso bastante limitado e empobrecido aos nossos processos internos. Ex- perimentos com a visão, por exemplo, mostram o quão descontínua, não- homogênea e informativamente empobrecidos são os estados neuroanatômicos. E, ainda assim, nossa experiência parece contínua, unificada e rica. Isto é uma ilusão.

Filosofia – Vale a pena tentar convencer os filósofos de que a “heterofenomenologia” é a única maneira verdadeiramen- te séria para uma abordagem científica da consciência? Faz algum sentido falar em qualia?
Dennett – Às vezes eu fico pensando se vale a pena ficar ten- tando convencer meus colegas filósofos disso. Para mim parece óbvio e fico impressionado com a resistência de alguns filósofos para qualquer abordagem que envolva a Ciência. Em algum ponto, após uma exposição, um argumento ou uma elaboração se esgotarem (com relação a alguns filósofos especificamente), eu tomo a decisão de apenas ignorá-los dali para frente.

¹Flávio Paranhos é mestre (UFG) e doutorando (UFSCar) em Filosofia. É pesquisador visitante do Center for Cognitive Studies, da Universidade de Tufts. Autor do livro de contos Epitáfio e coordenador da Coleção Filosofia & Cinema da Nankin Editorial.

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