Camus e Sartre: O Fim de Uma Amizade no Pós-guerra

Albert Camus e Jean-Paul SartreImagem: Camus e Sartre

Com amor, sal grosso e desa­feto
Livro do pes­qui­sa­dor mos­tra como a Guerra Fria colo­cou em cam­pos opos­tos os ami­gos Camus e Sartre
Por Rafael Dias

Um era arge­lino, ati­vista polí­tico enga­jado desde jovem e fazia sucesso entre as mulhe­res. O outro, pari­si­ense, misan­tropo e um inte­lec­tual de gabi­nete que cir­cu­lava com livre trân­sito pelo créme de la créme da soci­e­dade fran­cesa. Em comum, e nada tinham, somente dife­ren­ças de “ori­gem” e per­so­na­li­dade. Dois dos mai­o­res pen­sa­do­res do Século 20, os escri­to­res cons­truí­ram, no entanto, uma das rela­ções amis­to­sas mais sin­ce­ras da filo­so­fia moderna. Tão intensa e fugaz quanto um fogo-fátuo. “Ele foi meu último bom amigo”, con­sen­tiu certa vez Sartre.

Por diver­gên­cias polí­ti­cas, rom­pe­ram publi­ca­mente em 1952, tornando-se ini­mi­gos fer­re­nhos de trin­cheira até a morte. Mas, no fundo, sem­pre se man­ti­ve­ram estri­ta­mente liga­dos de corpo, alma e inte­lecto. É o que con­clui o pes­qui­sa­dor norte-americano Ronald Aronson no livro , que foi lan­çado no fim do ano pas­sado pela Nova Fronteira. Com uma des­cri­ção impar­cial, mas não menos apai­xo­nada, Aronson con­se­gue o que os bió­gra­fos até então haviam refu­tado como um tabu. Provar, sobre­tudo a par­tir das car­tas (e sub­tex­tos) que os dois filó­so­fos tro­ca­vam entre si, que Camus e Sartre vive­ram, sim, um idí­lio ainda que sepa­ra­dos for­mal­mente. Nem sob o fogo-cruzado ide­o­ló­gico dei­xa­ram de fazer refe­rên­cia um ao outro.

Foi o tea­tro que con­fluiu os inte­res­ses entre Camus e Sartre. Não houve arre­ba­ta­mento ou cama­ra­da­gens no pri­meiro encon­tro. Apenas uma sau­da­ção seca de Camus, que deci­diu conhe­cer o mais novo dra­ma­turgo de Paris, cuja peça As Moscas seria ence­nada em pré-estréia, naquele ano de 1943. Logo tro­ca­riam ame­ni­da­des e fariam pas­seios cor­ri­quei­ros ao lado da inse­pa­rá­vel com­pa­nheira de Sartre, Simone de Beauvior. Antes, porém, já se conhe­ciam lite­ra­ri­a­mente. Em 1938, Camus havia lido e rese­nhado, para um jor­nal arge­lino, o livro Náusea, de Sartre, que, por sua vez, tinha ouvido falar do novato autor de O Estrangeiro. Apesar das leves crí­ti­cas que faziam aos escri­tos de um e outro, era ine­gá­vel: a admi­ra­ção era mútua e desabrida.

Até que a con­jun­turCamus e Sartre – O Fim de Uma Amizade no Pós-guerraa externa cons­pi­rou con­tra eles pró­prios. Passada a eufo­ria do fim da 2ª Guerra Mundial e a onda do exis­ten­ci­a­lismo filo­só­fico que ambos pre­ga­vam, a dico­to­mia da Guerra Fria os colo­cou em cam­pos opos­tos: Camus, do lado dos anti­mar­xis­tas, e Sartre, dos soci­a­lis­tas e da União Soviética. Em falas públi­cas e depois vela­das, um pas­sou a acu­sar o outro de ser­vir a regi­mes tota­li­tá­rios e fas­cis­tas, lan­çando impro­pé­rios e evo­cando o mani­queísmo do “bem con­tra o mal”. Em um só golpe, este­re­li­za­ram a ami­zade de quase dez anos com sal grosso e desafeto.

O tempo depois mos­trou que nenhum dos dois estava certo. Não foi o soci­a­lismo que ruiu junto com a queda do Muro de Berlim de 1989. Mas sim a ino­pe­rân­cia e a cor­rup­ção do Estado que des­truiu a uto­pia das esquer­das. Quanto às fagu­lhas de ami­zade, res­ta­ram ape­nas mágoas: Camus calou-se até a sua morte em 1960, e Sartre manteve-se impas­sí­vel até 1980, ano em que fale­ceu. Ficou a lem­brança de uma ami­zade que, se não resis­tiu bra­va­mente, arru­mou um jeito de coe­xis­tir sob o caos, como um espe­lho fiel para quem deseja enten­der o breve e san­grento Século 20.

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