Reencontro com a Náusea

Imagem: “A queda”, Magritte.
por Paulo Jonas de Lima Piva
“O que fazemos aqui, nós, que vamos desaparecer?” (Senancour)

Inicia-se com um estranhamento. De repente, as coisas deixam de ser inofensivas e passam a incomodar o indivíduo, provocando nele uma sensação desagradável, um medo, um enjôo metafísico: é a náusea. Tudo passa a existir com uma intensidade jamais percebida. Tudo o que existe revela-se à consciência como absurdo, gratuito, contingente, insignificante, inclusive o próprio pensar e o próprio pensante. Existe o que está presente, diluindo-se na liquidez do tempo que se esgota mas nunca termina.

Antoine Roquentin existe, tem consciência da sua existência. Por isso é assolado constantemente por esse mal-estar que só é eliminado pela música, a qual parece ser o oposto da existência na medida em que é um universo onde tudo é necessário e faz sentido. Homenzarrão ruivo, de trinta anos, sempre quis ser livre. E conseguiu. Mas quais são as características da sua liberdade? Solidão, tédio, angústia, vazio. Sem familiares, sem afetos ou razões para viver, Roquentin sobrevive de rendas (1200 francos mensais). Não trabalha, não vota nem paga impostos. Vive viajando, morando de hotel em hotel, freqüentando cafés, museus, cinemas e bibliotecas. Tentou preencher o tempo redigindo uma biografia sobre um obscuro marquês do século XVIII, mas desistiu. Acabou convencendo-se de que aquilo também não fazia sentido. Conheceu boa parte do mundo, teve mulheres, participou de duelos, deparou-se com situações inusitadas. No entanto, concluiu mais tarde que nunca teve aventuras: há aventuras somente nas narrações. Mas isso pouco lhe importa. Aliás, nada importa para um homem sem passado e sem esperanças, para quem todos os dias são essencialmente iguais e repugnantes. Significa então que felicidade e liberdade são incompatíveis? Que para ser livre é necessário ser só, isento de quaisquer vínculos e desencantado?
Além da música — em especial, de um ragtime —, outro refúgio de Roquentin eram os cafés. Mas por pouco tempo. Lá a náusea também passou a persegui-lo. Em todos os cantos Roquentin tinha consciência do absurdo da própria existência e da existência dos outros homens. Estes, imersos em suas “estreitas e sólidas ideiazinhas”, em seus “delírios compensatórios” (Deus, etc), em suas convenções salafrárias e no orgulho de suas estúpidas tradições, não viam o óbvio flamejante diante dos seus focinhos, logo, eram imunes à náusea: nascemos sem razão, prolongamos por fraqueza e morremos por acaso. A eles cabia plenamente o direito de existir. Já Roquentin renunciou a tal “prerrogativa” a partir do instante em que questionou radicalmente o sentido da existência, em que adquiriu a lucidez, ou seja, em que descobriu o nada de tudo o que se deteriora no universo. Roquentin, portanto, sente o fervilhar da existência por si mesmo e por todos os outros seres. Se todos, um dia, sentissem-no, todos provavelmente suicidariam-se. Então, por que Roquentin não se suicida? Difícil responder. Talvez estivesse muito habituado a viver.
O Autodidata é outro personagem estratégico de A Naúsea, romance filosófico de Jean-Paul Sartre. Trata-se de alguém obcecado pelo conhecimento e que se instruía por ordem alfabética dos autores, na biblioteca da provinciana Bouville, cenário onde se desenvolve a obra publicada em 1938. No fundo, o Autodidata é uma caricatura das ovelhas da cultura e da ciência, daqueles que encontram na humanidade e no saber para ela a justificativa suprema da vida. Mas ele era também homossexual, um pedófilo mais exatamente. Pedófilo e socialista. E quando sua homossexualidade veio à tona, a mesma humanidade que ele amava, em troca o rechaçou violentamente, não aceitando essa sua particularidade inevitável.
Qual a vantagem, portanto, de se ter consciência de que a existência não tem nenhum sentido a priori? Nenhuma, talvez. O pessimismo quase schopenhauriano de Roquentin parece ser o resultado involuntário de uma reflexão corajosa e sem limites, em última instância, um alerta para os riscos que correm aqueles que ambicionam a lucidez. Em suma, A Náusea — originalmente intitulado A Melancolia — é um livro fascinante do ponto de vista literário e completo do ponto de vista filosófico. Vale ressaltar que Roquentin — “um rapaz sem importância coletiva; é apenas um indivíduo” — deixa de ser o porta-voz do pensamento de Sartre anos depois da publicação da obra, e torna-se o alvo do seu existencialismo ateu e humanista. A refutação de Sartre ao pessimismo de Roquentin — e, indiretamente, ao escritor L.F. Céline — encontramos na sua trilogia Caminhos da Liberdade, cuja primeira parte, A Idade da Razão, foi publicada em 1945, onde o filósofo trata, entre outros temas, da questão do engajamento político do intelectual.
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