Fé na verdade – Parte I – A ciência é uma religião? – O primado da verdade

VLADIMIR VOLEGOV 8-2003Imagem: s/t, Vladimir Volegov

Por Daniel Dennett

 1. É a ciência uma religião?

É a matemática realmente uma religião? E a ciência? Hoje em dia ouve-se muitas vezes dizer que a ciênciaé “apenas” mais uma religião. Há algumas semelhanças interessantes. A ciência oficial, tal como a religião oficial, tem as suas burocracias e hierarquias entre funcionários, as suas instalações grandiosas e esotéricas sem qualquer utilidade aparente para os leigos, as suas cerimônias de iniciação. Tal como uma religião decidida a alargar a sua congregação, a ciência tem uma enorme falange de missionários — que não se chamam a simesmos missionários, mas professores. Eis uma fantasia engraçada: um observador mal informado presencia o trabalho de equipe, intrincado eformal, necessário para preparar uma pessoa para a parafernália esotérica de uma tomografia axial computadorizada — um exame T.A.C. — e supõe tratar-se de uma cerimônia religiosa, um sacrifício ritual,porventura, ou a investidura de um novo arcebispo. Mas estas semelhanças são superficiais. E quanto às semelhanças mais profundas que têm sido defendidas?

A ciência, tal como a religião, tem as suas ortodoxias e as suas heresias, não tem? Não é afinal a crença no poder do método científico um credo , tal como os credos religiosos, no sentido em que em última análise é de uma questão de fé, tão incapaz de confirmação independente ou fundamento racional como qualquer outro credo religioso? Repare-se que a  pergunta ameaça autodestruir-se: ao contrastar a fé com a confirmação independente e com o fundamento racional, negando que a ciência como um todo possa usar os seus próprios métodos para assegurar o seu próprio triunfo, a pergunta presta homenagem a esses mesmos métodos. Parece existir uma assimetria curiosa: os cientistas não apelam àautoridade de quaisquer líderes religiosos quando os seus resultados são contestados, mas muitas religiões atuais adorariam poder garantir o aval da ciência. Algumas dessas religiões têm nomes que manifestam esse desejo: os cientistas cristãos e os cientologistas, por exemplo. Temos também uma palavra para a veneração da ciência: “cientificismo”. Acusam-se de cientificismo aqueles cuja atitude entusiástica perante as proclamações da ciência é muito semelhante às atitudes do devoto: em vez de ser cauteloso e objetivo, tem uma postura deadoração, é acrítico ou até fanático.Se o summum bonum ou máximo bem dos cientistas é a verdade, se os cientistas fazem da verdade o seu Deus, como já foi defendido, não será esta uma atitude tão situada quanto o culto de Jeová, de Maomé, ou doAnjo Moroni? Não, a nossa fé na verdade é, verdadeiramente, a nossa fé na verdade — uma fé partilhada portodos os membros da nossa espécie, mesmo que exista grande divergência nos métodos admitidos para a obter.
A assimetria acima referida é real: a fé na verdade tem uma primazia que a distingue de todas as outras fés.

 2. O primado da verdade

Neste preciso momento, há bilhões de organismos neste planeta a jogar às escondidas. Mas para eles nãose trata apenas de um jogo. É uma questão de vida ou de morte. Não se enganarem, não cometerem erros, tem sido de uma importância primordial para todos os seres vivos deste planeta desde há mais de 3 bilhões de anos;por isso, estes organismos desenvolveram milhares de formas diferentes de descobrir como é o mundo em que vivem, distinguindo os amigos dos inimigos, os alimentos dos companheiros e ignorando, em grande medida, oresto. É para eles importante não estarem mal informados acerca destas matérias — mas, regra geral, não sedão conta disto. Eles são os beneficiários de um equipamento delicadamente concebido para captar bem o que interessa, mas quando o seu equipamento funciona mal e capta as coisas mal, não têm, regra geral, recursos para se darem conta disto, quanto mais para o lamentarem. Eles limitam-se a prosseguir, inconscientemente. A diferença entre a aparência e a realidade das coisas é um hiato tão fatal para eles quanto o pode ser para nós, mas eles não se apercebem, em grande medida, disso. O reconhecimento da diferença entre a aparência e arealidade é uma descoberta humana. Algumas das outras espécies (alguns primatas, alguns cetáceos, talvez até algumas aves) reconhecem, aparentemente, o fenômeno da “crença falsa” — o engano. Mostram alguma sensibilidade aos erros dos outros e talvez até alguma sensibilidade aos seus próprios erros enquanto erros, masnão têm a capacidade de reflexão necessária para refletir  nesta possibilidade, razão pela qual não podem usaresta sensibilidade para conceber deliberadamente correções ou aperfeiçoamentos nos seus próprios instrumentos de busca e dissimulação. Esse tipo de superação do hiato entre a aparência e a realidade é um ardil que só nós, os seres humanos, dominamos. Somos a espécie que descobriu a dúvida. A comida armazenada será suficiente para o Inverno? Terei feito os cálculos mal? Estará a minha companheira a enganar-me? Deveríamos ter ido para Sul? Será seguro entrarnesta caverna? As outras criaturas são muitas vezes visivelmente inquietadas pelas suas próprias incertezas acerca destas mesmas questões, mas, porque não podem, na verdade, colocar-se a si mesmas estas perguntas,não podem articular, perante si próprias, os seus dilemas, nem tomar medidas para aperfeiçoar o seu controle da verdade. Estão encurraladas num mundo de aparências, fazendo com elas o melhor que podem, raramente sepreocupando (se é que alguma vez o fazem) com a questão de saber se as aparências correspondem à realidade. Só nós podemos ser arruinados pela dúvida e só nós fomos impelidos por essa inquietação epistêmica aprocurar uma cura: melhores métodos de procurar a verdade.

Ao desejar um conhecimento mais adequado dasnossas reservas de comida, dos nossos territórios, famílias e inimigos, descobrimos os benefícios de falar sobreisso com os outros, de fazer perguntas e de transmitir conhecimentos: inventamos a cultura. Depois, inventamos a medição e a aritmética, os mapas e a escrita. Estas inovações nas áreas da comunicação e do registro arrastam já consigo um ideal: a verdade. O sentido de fazer perguntas é encontrar respostas verdadeiras; o sentido da medição é medir de forma precisa; o sentido de produzir mapas é encontrar o caminho para o nosso destino. Pode existir uma Ilha dos Daltônicos (para usar a enorme dose habitual de liberdade poética de OliverSacks), mas não uma Ilha das Pessoas Que Não Reconhecem os Seus Próprios Filhos. A Terra dos Mentirosos só  poderá existir nos enigmas dos filósofos; não há tradições de Sistemas de Calendários Falsos para registrar erradamente a passagem do tempo. Em suma, é evidente que o objetivo da verdade existe em todas as culturashumanas.Na verdade, o dizer não faria realmente sentido sem o ideal da verdade. Mas assim que o dizer a verdade foi inventado, descobriram-se igualmente formas de explorar este pressuposto: sobretudo, a mentira. Como Talleyrand cinicamente afirmou em tempos, a linguagem foi inventada para podermos esconder os nossospensamentos uns dos outros. Dizer a verdade é, e tem de ser, o pano de fundo de toda a comunicação genuína,incluindo a mentira. Afinal, o dolo só funciona quando aquele que pretende enganar tem a reputação de dizer a verdade. A adulação não conduziria a nada sem o pressuposto inicial de dizer a verdade: arrulhar como umapomba ou grunhir como um porco teriam as mesmas probabilidades de captar as boas graças de alguém.O mundo dos animais não humanos descobriu muitas vezes a possibilidade da publicidade falsa.

Onde existem espécies venenosas, avisando os possíveis predadores com as suas cores brilhantes, existem muitas vezes espécies não venenosas que imitam estas cores brilhantes, obtendo assim proteção barata graças àprática do engano. Mas aqueles que fazem às vezes de mentirosos entre os animais descobriram também umaforma de fazer valer a verdade: o princípio de Zahavi. Como defendeu o biólogo Amotz Zahavi, só a publicidade cara mostra claramente a sua credibilidade porque não pode ser imitada. Por exemplo, na competição do acasalamento os pretendentes com chifres incômodos, caudas de pavão ou outras desvantagens óbvias estão narealidade a dizer: “sou tão bom que posso suportar estes custos enormes e, mesmo assim, sobreviver”. Quem quiser competir é obrigado a sustentar estes custos extravagantes, senão fica sem acasalar. Assim, as espécies não humanas são muitas vezes conduzidas pelo caminho que conduz diretamente ao verídico; entre os animais, somos os únicos a apreciar a verdade por si mesma. E, graças à ciência que criamos ao procurar a verdade,somos também os únicos que podemos ver por que razão a verdade, apesar de não ser admirada ou até mesmo concebida, é um ideal que constrange as atividades perceptivas e comunicativas de todos os animais. Nós, seres humanos, usamos as nossas capacidades comunicacionais não apenas para dizer a verdade,mas também para fazer promessas e ameaças, para regatear e contar histórias, para divertir, mistificar eoriginar transes hipnóticos ou, simplesmente, para brincar — mas a rainha de todas estas atividades é a de dizera verdade, e foi para esta atividade que inventamos utensílios cada vez melhores. Juntamente com os nossos utensílios para a agricultura, a construção, a guerra e o transporte, criamos uma tecnologia da verdade: a ciência.

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Um pensamento sobre “Fé na verdade – Parte I – A ciência é uma religião? – O primado da verdade

  1. 2fatbear dezembro 15, 2012 às 1:41 am Reply

    Muito bom! Sou fã do Dennett, mas não conhecia esse texto.
    {}Sylvio

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