Fé na verdade – Parte IV – A verdade pode magoar

macsucciImagem: Claudia Macsucci

Por Daniel Dennett

 5. A verdade pode magoar

Toda a gente deseja a verdade. Quando o leitor se interroga sobre se o seu vizinho o enganou, ou se há peixes nesta área do lago, ou para que lado deve caminhar para chegar a casa, está interessado na verdade. Mas então, se a verdade é tão maravilhosa, por que motivo existe tanto antagonismo em relação à ciência? Toda a gente aprecia a verdade; mas nem toda a gente aprecia os instrumentos científicos de procura da verdade. Ao que parece, algumas pessoas prefeririam outros métodos mais tradicionais de alcançar a verdade: a astrologia, a adivinhação, os profetas e gurus e xamãs, o transe e a consulta de vários textos sagrados.

Nestes casos, o veredicto da ciência é tão familiar que quase nem preciso repeti-lo: enquanto diversões ou exercícios de elasticidade mental, todas estas atividades têm os seus méritos, mas, enquanto métodos para procurar a verdade, nenhum deles pode competir com a ciência — um fato em geral reconhecido tacitamente pelos que defendem a sua prática alternativa favorita através do que afirmam ser a base científica (que outra coisa haviade ser?) dos seus poderes. Nunca encontramos um crente na comunicação com o além a procurar o apoio de uma associação de astrólogos ou de um Colégio dos Cardiais; pelo contrário: exibem-se avidamente todos os farrapos de possíveis indícios estatísticos e qualquer físico ou matemático extraviado que possa oferecer um testemunho favorável. Mas então por que motivo há tanto pavor, se mesmo os que procuram passar palavra acerca de alternativas apelam regularmente para a ciência? A resposta é amplamente conhecida: a verdade pode magoar. Sem dúvida que pode. Isto não é uma ilusão, mas é por vezes negado ou ignorado por cientistas e outras pessoas que fingem acreditar que a verdade acima de tudo é o bem supremo. Posso facilmente descrever circunstâncias nas quais eu próprio mentiria ou omitiria a verdade para evitar o sofrimento humano.

A uma senhora idosa, no fim dos seus dias, nada resta senão as histórias dos feitos heroicos do seu filho — vai o leitor dizer-lhe a verdade quando o seu filho for preso, condenado por um crime terrível e humilhado? Não será para ela melhor deixar este mundo em ignorante serenidade? Claro que é, afirmo eu. Mas note-se que mesmo aquitemos de compreender estes casos como exceções à regra. Não poderíamos oferecer a esta mulher o  conforto das nossas mentiras se mentir fosse a regra geral; ela tem de acreditar em nós quando falamos com ela.É um fato que as pessoas não querem muitas vezes saber a  verdade. E é um fato mais inquietante que aspessoas não queiram muitas vezes que os outros saibam a verdade. Mas, tentar transformar estes fatos de forma a que apoiem a ideia estúpida de que a própria fé na verdade é uma atitude humana relativa a certas culturas, situada ou em qualquer caso opcional, é confundir tudo.

O pai do acusado que ouve em tribunal os testemunhos contra o seu filho, a mulher que se pergunta se o marido a anda a enganar — eles podem muito  bem não querer saber a verdade, e podem ter razão em não querer saber a verdade, mas o fato é que acreditam na verdade; isso é claro. Eles sabem que a verdade está aí, para ser evitada ou abraçada, e sabem que a verdade é importante. É por isso que eles podem muito bem não querer saber a verdade. Porque a verdade pode magoar. Podem conseguir enganar-se a si mesmos, pensando que a atitude que têm nestas ocasiões perante a verdade reflete um defeito da própria verdade, assim como da própria procura e descoberta da verdade — masse isto acontecer é puro autoengano. O máximo a que podem aspirar agarrar-se é à ideia de que podem existirboas razões, as melhores razões — no tribunal da verdade, note-se — para, por vezes, suprimir ou ignorar averdade. Não devíamos, então, considerar a possibilidade de suprimir, em grande escala, a verdade, protegendo assim dos seus efeitos corrosivos vários grupos em situação de risco? Pense no que acontece inevitavelmente quando a nossa cultura científica, e a sua tecnologia, é apresentada a populações que têm até agora sido poupadas às suas inovações. Que efeitos terão os telefones celulares e a MTV e o armamento de alta tecnologia(e a medicina de alta tecnologia para combater os efeitos do armamento de alta tecnologia) nos povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo? Sem dúvida, muitos efeitos destrutivos e penosos.

Mas não temos de olhar para os artifícios eletrônicos para ver o mal que pode ser cometido. Tijs Goldschmidt, no seu fascinante livro, Darwin’s Dreampond (1996), conta-nos os efeitos devastadores de introduzir a perca do Nilo no Lago Vitória(Uganda): a eptosa espécie de peixes ciclóstomos quase se extinguiu em apenas alguns anos, uma perda catastrófica… isto é, para os biólogos, mas não necessariamente para as pessoas que viviam nas suas margens eque podem agora completar as suas dietas de subsistência com uma nova e abundante pesca. Goldschmidt também descreve, todavia, um efeito cultural análogo: a extinção dos tradicionais cestos sukuma. Estes cestos à prova de água eram tecidos pelas mulheres e usados nas festas religiosas como vasilhas para consumir vastas quantidades de  pombe , uma cerveja de milho […] Os cestos eram entretecidos, empadrões geométricos de significado simbólico, com folhas de erva tingidas com manganês. Nem sempre erapossível descobrir o significado dos padrões porque a introdução do mazabethi — os pratos de alumínio, cujo nome deriva da rainha Isabel, introduzidos em grande escala durante o domínio britânico — foi o fim da cultura masonzo. Falei com uma mulher idosa de uma pequena aldeia que, ao fim de mais de 30 anos, estava ainda revoltada com os mazabethi […] “ Sisi wanawake, nós, as mulheres, costumávamos tecer cestos, sentadas emgrupo, ao mesmo tempo em que falávamos umas com as outras. Não vejo nada de mal nisso. Cada mulher dava o seu melhor para tentar fazer o cesto mais bonito que fosse possível.

Os mazabethi acabaram com tudo isso.”[pág. 39] Acho que ainda mais triste é o efeito da introdução de machados de aço junto dos índios panare daVenezuela.Dantes, quando se usavam os machados de pedra, juntavam-se vários indivíduos, trabalhando emconjunto para cortar árvores para fazer um jardim. Contudo, com a introdução do machado de aço, um só homem pode fazer um jardim sem qualquer ajuda […] A colaboração já não é obrigatória nem é particularmente frequente. (Katharine Milton, “Civilization and Its Discontents”, Natural History, Março, 1992,pp. 37-42) Estas pessoas perderam a sua “estrutura de interdependência cooperativa” tradicional, perdendo tambémgrande parte do conhecimento, acumulado ao longo dos séculos, da fauna e da flora do seu próprio mundo.  Muitas vezes as suas línguas extinguem-se numa ou duas gerações. Estas são sem dúvida grandes perdas. Mas que políticas devemos adotar em relação a eles? Em primeiro lugar, não devemos esquecer o óbvio: quando os povos de culturas tradicionais contatam coma cultura ocidental adotam entusiasticamente quase todas as novas práticas, os novos instrumentos, os novos costumes. Por quê? Porque sabem o que sempre desejaram, valorizaram e ambicionaram, e sentem que essas novidades são melhores meios para os seus próprios fins do que os seus velhos costumes. Os machados de aço substituem os de pedra, os motores fora de borda substituem as velas, a medicina moderna substitui os curandeiros, os radiotransistores e os telefones celulares são avidamente desejados.

Estas pessoas não são afinal melhores do que nós a prever os efeitos em longo prazo das suas escolhas, mas, com base na informação de que dispõem, as suas escolhas são racionais. É sem dúvida verdade que por vezes a “publicidade” espalhafatosa, astuciosamente dirigida às suas noções insulares do que a vida tem para nos oferecer, tira partido da sua inocência. Mas repare-se que estatática deplorável não é domínio exclusivo dos que os exploram. Aqueles que os querem proteger da tecnologia moderna estão aparentemente preparados para morder a língua e mentir-lhes descaradamente: “Escondam asvossas maravilhas de alta tecnologia! Se lhes derem alguma coisa, impinjam-lhes pérolas de fantasia coloridasou quaisquer outros nadas que eles possam rapidamente incorporar na sua cultura tradicional.” É assim que se tratam membros adultos da nossa própria espécie? Não temos todos nós, entre outros direitos humanos, o direito de saber a verdade? É escandalosamente paternalista dizer que devemos isolar estas pessoas dos frutos da civilização. Serão eles como elefantes, para serem postos numa reserva? Acho que devemos tratá-los como tratamos os nossos próprios cidadãos: oferecemos lhes todos os instrumentos de procura da verdade que temos, de maneira a que possam escolher com base numa opinião informada — se assim o escolherem.

É claro que esta política é uma estrada de sentido único. Depois de os termos informado já violamos a sua prístina pureza. Não é possível voltar atrás. Não é possível ter as duas coisas. Se se trata de humanos adultos, então têm o direito de saber, não têm? Está o leitor realmente disposto a tomar medidas no sentido de lhes impedir o acesso à educação? Mas a educação irá transformá-los completamente. Perderão muitos dos seus velhos costumes. Em alguns casos será um alívio, noutros será, sem dúvida, trágico. Mas que cânone usaria o leitor para definir o que devem e o que não devem perder? Devem preservar os costumes dos últimos 100 anos? Ou dos últimos 10 anos? Ou dos últimos 10 milênios? E, o mais importante de tudo, o que nos daria afinal o direito de os discriminar em relação aos nossos próprios cidadãos? E já agora, estas restrições autoimpostas são exigidas por quem? Quem é que implora que fechemos as nossas bocas “imperialistas” e que guardemos as chamadas verdades científicas para nós próprios? Não é, em geral, o povo, mas antes os seus autoproclamados líderes espirituais. São eles, e não o seu rebanho, que exigem que o seu rebanho seja protegido das influências corrosivas e irreversíveis da nossa cultura científica da verdade. As pessoas que trabalham nos cultural studies e outras que agitam a bandeira do multiculturalismo deviam deter-se cuidadosamente sobre a seguinte sugestão: a sua política bem intencionada de tolerância das políticas tradicionais que recusam o livre acesso aos instrumentos científicos de procura da verdade é muitas vezes uma política ao serviço dos tiranos — e parece-me que são mais as vezes em que isto é assim do que aquelas em quenão o é.

Na nossa cultura, o conceito de consentimento informado é uma das pedras-de-toque da liberdade. Mas o próprio conceito de informar as pessoas para que possam consentir ou não é encarada, noutras culturas, com hostilidade. Na verdade, penso que os líderes políticos terão cada vez mais dificuldades em manter os seus povos num estado de falta de informação. Tudo o que precisamos fazer é continuar a passar a palavra claramente e sempre com o cuidado escrupuloso de dizer a verdade. De fato, não há nada de novo nesta sugestão. Algumas instituições, como a BBC Internacional, têm vindo a fazer precisamente isto, com enorme sucesso, desde há décadas. E ano após ano, a elite de todas as nações do mundo envia os seus filhos para asnossas universidades para aí receberem a sua formação. Eles sabem, talvez melhor do que nós próprios pensamos, que a ciência e a tecnologia da procura da verdade constitui o nosso mais valioso bem de exportação. Dept of Philosophy Tufts University, USA.

Referências

Akins, K. A. 1989 Narcissism and Mental Representation: An Essay on Intentionality and Naturalism,Dissertação de Doutoramento, Dept. of Philosophy, University of Michigan, Ann ArborDennett, Daniel C. 1991.

Consciousness Explained. Nova Iorque e Boston: Little, Brown; Londres: Allen Lane.

Feynman, Richard 1985 QED: A Estranha Teoria da Luz e da Matéria. Trad. 1988, Lisboa: Gradiva.

Goldschmidt, Tijs 1996. Darwin’s Dreampond. Cambridge, MA: MIT Press Hauser, Marc 1996 The Evolution of Communication.

Cambridge, MA: MIT PressKrebs, John R., e Dawkins, Richard 1978 “Animal Signals: Information or Manipulation” in J. R. Krebs e N. B. Davies, orgs.

Behavioural Ecology: An Evolutionary Approach, Oxford: Blackwell Scientific Publications, pp. 282-309Milton, Katherine 1992 “Civilization and Its Discontents” Natural History, Março, 1992, pp. 37-42.

Rorty, Richard 1993 “Holism, Intrinsicality, Transcendence” in Bo Dahlbom, org., Dennett and his Critics. Oxford: Blackwell.

Anúncios

Um pensamento sobre “Fé na verdade – Parte IV – A verdade pode magoar

  1. norma7 dezembro 15, 2012 às 1:38 pm Reply

    Alguém que aos 11 anos já se auto-reconhece como um filósofo, não deveria me surpreender…enfim, grata pela postagem.
    Fique bem, Norma

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: