Porque tentar não pensar em algo é uma cilada

bolotov_Imagem: Alexander Bolotov

Escrito por André Rabelo
Diretamente do SocialMente.

Podemos sentir que controlamos nossos pensamentos quando quisermos. Se você quiser pensar, por exemplo, em uma casa, neste exato momento, você é capaz de imaginá-la detalhadamente. Mas apesar de sermos eficientes na arte de iniciar um pensamento, muitas vezes não somos igualmente bons na arte de encerrá-los ou suprimi-los. Nossos pensamentos nem sempre nos obedecem – quem nunca teve aquele pensamento que não saia da cabeça, por mais indesejável e desagradável que fosse?

O que este tipo de experiência parece indicar é que nem sempre temos o controle da nossa cognição. Se nossa capacidade de “mandar” no que iremos pensar fosse eficiente, alguns problemas que milhares de pessoas vivenciam nem deveriam existir. Um exemplo disso ocorre com pessoas que sofrem de insônia. Muitas pessoas com este problema vivenciam uma “enxurrada” de pensamentos que os induzem a um estado de agitação incompatível com o sono. Outro exemplo drástico de quem convive com este problema é quem enfrenta o Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o famoso TOC. Nesta condição, as pessoas vivenciam diariamente pensamentos repetitivos e frequentes sobre um ou mais determinados conteúdos (ex: sujeira) que as levam a realizar ações compulsivas relacionados aos seus pensamentos obsessivos (ex: lavar a mão para evitar a sujeira). Por mais que elas tentem parar de ter estes pensamentos, eles continuam ressurgindo em suas mentes e causando sofrimento.

Nada disso deveria acontecer se as nossas tentativas de suprimir pensamentos funcionasse de maneira eficaz. A supressão do pensamento é o processo pelo qual uma pessoa tenta, deliberadamente, parar de pensar sobre alguma coisa. O problema é que essa técnica, como você sabe, nem sempre funciona.

Tente não pensar em um urso branco

Foi um professor da Universidade de Harvard, chamado Daniel Wegner, que iniciou uma longa investigação sobre isso nos anos 1980. O professor Wegner queria entender o que ocorre quando tentamos suprimir um pensamento. Os seus primeiros estudos mostraram dois efeitos inesperados e paradoxais: as pessoas que foram instruídas a não pensar em um urso branco relataram surgir mais pensamentos relacionados ao urso do que participantes que não receberam essa instrução, durante a tentativa de suprimir o pensamento e posteriormente também.

Parece que quando tentamos NÃO pensar em uma coisa, nós acabamos ativando a própria ideia da coisa que temos em nossa cognição, da mesma maneira que ativaríamos se tentássemos apenas pensar no assunto, e quanto mais tentamos não pensar naquilo, mais estamos ativando também o conceito. O resultado disso pode ser um ciclo vicioso que se retroalimenta: quando o pensamento indesejável surge, tentamos suprimi-lo e, nessa tentativa, ativamos mais ainda a representação mental que possuímos daquele assunto, o que resulta em mais pensamentos, que nos torna mais engajados ainda na supressão e assim por diante. Ou seja, é uma cilada!

Apesar de muitos estudos demonstrarem este efeito em diversas amostras, as evidências relacionadas ao papel da supressão do pensamento na manutenção de diferentes transtornos mentais não corroboram totalmente o que poderíamos esperar. Eu citei no início do texto o exemplo do TOC, mas segundo uma metanálise* recente, ao longo de vários estudos, não se observou diferenças grandes na recorrência de pensamentos devido à supressão de pensamentos em pessoas com TOC, Transtorno de Estresse Pós-Traumático ou Depressão.

Entretanto, os autores deste trabalho deixam claro que este resultado pode se dever a diversos fatores, como a maior habilidade de pacientes com sintomas destes transtornos em suprimir pensamentos (já que eles precisam lidar com este problema diariamente, o que os diferenciariam de pessoas sem este transtorno) e a maior motivação para suprimir pensamentos. Além disso, a maneira como um indivíduo interpreta a sua falha de suprimir um pensamento pode resultar em uma emoção negativa mais intensa caso ela interprete aquilo como uma falha, o que a levaria a um maior esforço em suprimir o pensamento. Diferenças individuais podem induzir as pessoas a fazerem diferentes interpretações destes eventos, o que insere mais uma variável a ser considerada na investigação. Resumindo, ainda precisamos entender melhor os mecanismos cognitivos que mantém certas características destes transtornos e em que condições a supressão do pensamento pode exercer maior influência.

A despeito destes dados não encontrarem uma grande importância deste mecanismo na manutenção de certos transtornos mentais, muitos outros dados corroboram a ideia de que a supressão do pensamento pode ser um tiro no próprio pé quando queremos nos livrar de certos pensamentos. Ao invés de tentar deliberadamente parar de pensar em um determinado assunto, tente pensar em outro que seja engajante o suficiente para que você possa pensar nele por um certo tempo, até que o conteúdo indesejado deixe de ficar tão acessível na sua mente. Outras opções melhores são: testar diferentes temas que possam te distrair até encontrar um que consiga levar sua mente para longe do assunto indesejado; ou aceitar e expressar os pensamentos indesejáveis. A melhor técnica depende da sua condição individual, portanto, se esse é um problema que você enfrenta, é necessário buscar a ajuda de um profissional qualificado.

A linha de pesquisa sobre a supressão do pensamento é mais um ótimo exemplo de como uma pesquisa focada na compreensão de processos cognitivos básicos, aparentemente sem qualquer aplicação prática clara, demonstrou-se posteriormente relevante para a compreensão de diversas questões práticas, como alguns transtornos mentais. É sobre este aspecto “irônico” de como a nossa cognição funciona que precisamos ter consciência e sempre nos relembrar para não cair na cilada de tentar não pensar sobre uma determinada coisa.

*Uma metanálise é um tipo de estudo no qual certos dados de vários estudos sobre um mesmo assunto são agrupados para se verificar o “tamanho do efeito,” que pode ser traduzido como o nível de associação que podemos observar entre certas variáveis. Uma metanálise nos da uma informação mais conclusiva sobre uma pergunta de pesquisa que temos interesse. A metanálise do estudo citado indicou que, quando tomados como um todo, os efeitos observados em estudos individuais não demonstraram um tamanho de efeito alto – alguns estudos encontraram efeitos maiores e outros, demonstraram efeitos menores.

Referências

Magee, J., Harden, K., & Teachman, B. (2012). Psychopathology and thought suppression: A quantitative review. Clinical Psychology Review, 32 (3), 189-201 DOI: 10.1016/j.cpr.2012.01.001

Wenzlaff, R., & Wegner, D. (2000). Thought suppression. Annual Review of Psychology, 51 (1), 59-91 DOI: 10.1146/annurev.psych.51.1.59

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Um pensamento sobre “Porque tentar não pensar em algo é uma cilada

  1. Allan Trevisan (@allan_trevisan) dezembro 26, 2012 às 1:48 pm Reply

    interessante, ja tinha notado que quanto mais vc tenta não pensar em algo mais vc acaba pensando nisso.

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