António Damásio e o sentimento de si

litografia-autorretrat0Imagem: Escher

“Or the waterfall, or music heard so deeply

That it is not heard at all, but you are the music

While the music lasts. These are only hints and guesses,

Hints followed by guesses; and the rest

Is prayer, observance, discipline, thought and action.

The hint half guessed, the gift half understood, is Incarnation.”

T.S.Eliot, Four Quartets

 

1. O Si

“O leitor está a olhar para esta página, a ler este texto e a elaborar o significado das minhas palavras à medida que vai avançando na leitura. Porém, o que se passa na sua mente não se limita de forma alguma ao que diz respeito ao texto e ao seu significado. Paralelamente à representação das palavras impressas e à evocação de conceitos necessária para compreender aquilo que escrevi, a sua mente revela também uma outra coisa, algo que é suficiente para indicar, a cada instante, que é o leitor e não outra pessoa quem está a ler e a compreender o texto. As imagens que correspondem às suas percepções externas e às percepções daquilo que recorda ocupam quase toda a extensão da sua mente, mas não ocupam a sua totalidade. Para além destas imagens, existe igualmente uma outra presença que o significa a si, enquanto espectador das coisas imaginadas, proprietário das coisas imaginadas e actor potencial sobre as coisas imaginadas. (…) Se esta presença não existisse, como poderia saber que os seus pensamentos lhe pertencem? Quem poderia afirmá‑lo? Esta presença é calma e subtil e por vezes é pouco mais do que uma alusão meio aludida e um dom meio compreendido (…). Nesta perspectiva, a presença do si é o sentir daquilo que acontece quando o seu ser é modificado pela acção de aprender alguma coisa. Essa presença tenaz nunca desiste, desde o momento de acordar até ao do adormecer. Esta presença tem que permanecer ou o seu eu não permanecerá.” (António R. Damásio, O Sentimento de Si. O Corpo, a emoção e a neurobiologia da consciência, Lisboa, Europa-América, 2000 (1999), p.29).

2. A Consciência de Si e a Consciência Autobiográfica de Si

“A consciência não é monolítica, pelo menos nos seres humanos (…). A espécie mais simples, a que chamo consciência nuclear, fornece ao organismo um sentido do si num momento – agora – e num lugar ­– aqui. O âmbito da consciência nuclear é o aqui e o agora. (…) Por outro lado, a espécie mais complexa de consciência, a que chamo consciência alargada e da qual existem vários níveis e graus, fornece ao organismo um elaborado sentido de si – uma identidade e uma pessoa, o leitor ou eu (…) Em resumo, a consciência nuclear é um fenómeno biológico simples; possui um único nível de organização; é estável ao longo da vida do organismo; não é exclusivamente humana; e não está dependente da memória convencional, da memória de trabalho, do raciocínio e da linguagem. Por outro lado, a consciência alargada é um fenómeno biológico complexo, possui vários níveis de organização e evolui ao longo de toda a vida do organismo. Embora acredite que a consciência alargada também se encontra presente de forma elementar em alguns seres não humanos, ela só atinge o seu auge nos seres humanos. A consciência alargada depende da memória convencional e da memória de trabalho. Quando atinge o seu apogeu humano, é largamente reforçada pela linguagem. (…) Como veremos, a consciência alargada não é uma variedade independente da consciência, pelo contrário, é edificada sobre os alicerces da consciência nuclear. O bisturi da doença neurológica revela que as alterações da consciência alargada deixam incólume a consciência nuclear. (…) Com uma frequência preocupante, a consciência é simplesmente explicada em termos de outras funções cognitivas, tais como a linguagem, a memória, a razão, a atenção e a memória de trabalho. Embora estas funções sejam realmente necessárias para que os níveis superiores de consciência alargada operem normalmente, o estudo de doentes neurológicos sugere que não são necessárias para a consciência nuclear.” (pp.35‑37).

3. Persona e Identidade de Si

“Podemos ser Hamlet durante uma semana ou Falstaff por uma noite, mas tendemos a regressar ao ponto de partida. Se tivermos o génio de Shakespeare, podemos utilizar as batalhas interiores do si para criar o elenco inteiro de personagens do teatro ocidental – ou no caso de Fernando Pessoa, para criar vários poetas diferentes, os seus heterónimos. Porém, ao fim e ao cabo, é um Shakespeare idêntico a si mesmo (e não um dos seus personagens) que se reforma tranquilamente em Stradford, e é um Pessoa idêntico a si mesmo (e não Ricardo Reis) que bebe até ao esquecimento e morre num hospital de Lisboa.” (p.260)

4. A Consciência de Si e a Memória

“A consciência nuclear não se baseia na memória convencional, nem na memória de trabalho que são, no entanto, necessárias para a consciência alargada. Em termos de memória, a consciência nuclear apenas requer uma brevíssima memória de curto prazo. Não precisamos de ter acesso a memórias do passado para ter consciência nuclear, embora o material autobiográfico contribua para os níveis avançados da consciência alargada. (…) Para ilustrar a minha tese vou falar (…) do meu doente, o doente mais profundamente amnésico até hoje documentado e que o nosso laboratório estuda há mais de vinte anos. (…)

O meu amigo David acaba de chegar. Cumprimento‑o com um abraço e um sorriso e ele devolve‑me o cumprimento. Estou encantado de o ver e ele está encantado de me ver. É tudo tão natural que nem me consigo lembrar de quem sorriu primeiro ou de quem primeiro falou. Não é importante. Tanto o David como eu estamos contentes por estar aqui. Sentamo‑nos e começamos a conversar, como é costume entre velhos amigos. Ofereço-lhe café e sirvo‑me também. Se o leitor estivesse a observar‑nos do outro lado, não teria visto nada que merecesse comentário especial.

Mas esta cena está prestes a mudar quando me viro para o David e lhe pergunto quem sou. Imperturbável, responde-me que sou o seu amigo. Imperturbável, respondo‑lhe: «Claro. Mas quem sou eu na realidade, qual é o meu nome?”

“Bem, não sei. Neste momento não consigo lembrar‑me. Não consigo mesmo.”

«Mas, David, por favor, tenta lembrar‑te do meu nome”

Nessa altura o David responde: «És o meu primo George.” (…)

Apesar das aparências indicarem o contrário, o David não sabe de todo quem eu sou. Não sabe o que faço, não sabe se já alguma vez me viu, não sabe qual foi a última vez que me viu e não sabe o meu nome. Nem sequer sabe o nome da cidade em que vive, o nome da rua ou o número do prédio. Também não sabe que horas são, embora quando eu lhe pergunto as horas ele olhe para o seu relógio e me responda, correctamente, três menos um quarto. Quando lhe pergunto a data, volta a olhar para o relógio e responde, mais uma vez correctamente, que estamos a «seis». «Muito bem David, muito bem, mas por favor, diz‑me seis de que mês?» Mas como o seu relógio indica o dia, e não o mês, responde lançando um olhar inquieto à sua volta e um relance para os cortinados bem fechados das janelas. «Bem, Fevereiro ou Março, acho eu, tem feito muito frio»; e, sem se atrapalhar, levanta‑se no meio da última frase, dirige‑se à janela e abrindo as cortinas exclama: «Oh, não, Deus do céu! Deve ser Junho ou Julho. Está mesmo Verão.». (…)

O meu velho amigo David tem uma das mais profundas alterações de memória jamais registadas num ser humano. A memória de David tinha sido completamente normal até ao dia em que foi atingido por uma grave encefalite. No caso de David, esta doença infecciosa do tecido cerebral foi causada por um vírus, o vírus herpes simplex, tipo I. A maior parte de nós é portador deste vírus, mas apenas um pequeno número de nós jamais virá a ter uma encefalite provocada por ele. (…) Uma vez terminada a doença, verificou‑se que o David tinha perdido a capacidade de aprender qualquer facto novo. Quer encontrasse uma nova pessoa ou uma paisagem nova, quer assistisse a um novo acontecimento ou lhe fosse dada uma palavra nova para decorar, David não conseguia reter na sua memória nenhum aspecto da nova informação. A sua memória estava limitada a um período de tempo inferior a um minuto. Durante esse curso período a sua memória para factos era normal. Se me apresentasse, saísse da sala e regressasse, num período, digamos de vinte segundos, e lhe perguntasse quem era, diria prontamente o meu nome e confirmaria que sim, que tinha acabado de me conhecer, que eu tinha saído e que agora regressara. Mas se eu voltasse três minutos mais tarde, o David não faria a mínima ideia de quem eu era. E se insistisse com ele para que «adivinhasse» a minha entidade, então tornar‑me‑ia alguém, quem sabe, talvez o primo George McKenzie.(…) A perturbação de memória do David é (..) extensa (…) porque não só é incapaz de aprender factos novos como também é incapaz de recordar muito factos antigos. Está-lhe inteiramente vedada a capacidade de recordar o que quer que possua uma natureza singular, quer seja uma pessoa, um objecto ou um acontecimento. A sua perda de memória recua praticamente até ao berço. Existem poucas excepções a este panorama calamitoso. O David sabe o seu nome, o nome da sua mulher e o nome dos filhos e parentes próximos, mas não se lembra da aparência física de nenhum deles, nem do som das suas vozes. Consequentemente, não consegue reconhecê-los em fotografias, antigas ou recentes, ou mesmo em pessoa. (…) Tão profundo é o problema que é difícil imaginar o que poderá ser a mente de uma pessoa de tal modo diminuída. Será que o David é um zombie, o tipo de indivíduo criado por alguns filósofos para os seus “thought experiments” (…)? Ou voltando ao tema que nos ocupa: será que o David continua a ter consciência?

No que respeita à consciência nuclear o desempenho do David é exemplar. Para começar, o David está vígil. Como dizem os neurologistas, está «acordado e alerta» (…). A propósito, nós sabemos que os ritmos circadianos são normais, que dorme normalmente e que a parte do tempo de sono que passa em sono REM (o período de movimentos oculares rápidos, durante o qual ocorrem os sonhos) é aquela que se espera. Também não há dúvida que o David se comporta atentamente em relação aos estímulos que apresentamos. (…)

O si de David está bem presente. No interior da abertura da sua memória de curto prazo – cerca de 45 segundos – existe tempo suficiente para gerar consciência nuclear acerca de um grande número de coisas. As imagens que o David forma nas várias modalidades sensoriais – visão, audição, tacto – são formadas na perspectiva do seu organismo. É óbvio que ele trata essas imagens como suas e não como sendo de outrem. É facilmente observável que ele actua baseando‑se nessas imagens e que as suas intenções estão intimamente ligadas ao conteúdo das imagens. Em conclusão, o David não é um zombie. Em termos de consciência nuclear, ele é tão consciente como a do leitor ou eu. (…) Tudo indica que ele tem um sentido do si normal, no aqui e agora, mas que a sua memória autobiográfica está reduzida a um esqueleto e, consequentemente, o si autobiográfico está gravemente empobrecido.” (139‑145).

5. A Imagem e a Consciência de Si

“Devo ser eu porque eu estou aqui”. Foi isto que a Emily disse, cautelosa e vagarosamente, ao contemplar o rosto que estava no espelho à sua frente. Tinha que ser ela; tinha‑se colocado em frente ao espelho, por sua livre vontade, por isso tinha que ser dela a imagem do espelho, de quem mais poderia ser? Todavia, a Emily não era capaz de reconhecer o seu rosto no espelho, estava certa de que era uma cara de mulher, mas de quem não fazia ideia. Não parecia que fosse a dela, mas também não podia dizer que não fosse, uma vez que não conseguia visualizar a sua face na mente, mesmo que insistisse em recordá-la da memória. (…) A situação mostrava‑lhe de forma inequívoca que não podia ser outra pessoa senão ela, e foi isso que aceitou a minha afirmação de que era ela sem qualquer dúvida. (…) Não era capaz de reconhecer o rosto do marido, o dos filhos ou de outros familiares, amigos e conhecidos. (…).

E quantos valores teve a Emily na minha classificação da consciência nuclear? Vinte. Não preciso de vos dizer que a Emily está vígil e atenta sob todos os pontos de vista. A sua atenção concentra‑se facilmente e pode ser mantida em toda a espécie de tarefas. As emoções e os sentimentos que refere também são inteiramente normais. O seu comportamento é intencional e adequado em todos os contextos, imediatos ou a longo prazo, e é apenas limitada pelas suas dificuldades visuais. De facto, apesar de todas essas dificuldades, consegue realizar admiráveis façanhas intelectuais. Permanece horas a fio a observar a mancha e os trejeitos das pessoas e a tentar adivinhar quem são, sendo muitas vezes bem sucedida; consegue fazer conversa social quando recebe os seus convidados, desde que o marido lhe sussurre o nome das pessoas que se aproximam. (…) Gostava de chamar a atenção para um pormenor muito revelador: a Emily não está só consciente daquilo que conhece na perfeição, como também está consciente daquilo que não conhece. Gera consciência nuclear para cada objecto com que se depara, independentemente de conhecer ou não esse objecto. (…)

Quando um doente com agnosia facial falha o reconhecimento de um rosto familiar com o qual é confrontado, afirmando que nunca viu essa pessoa e que não recorda de nada relacionado com ela, não evoca memórias específicas sobre a pessoa, mas a consciência nuclear mantém‑se intacta. (…) O problema não tem de todo a ver com a consciência, mas sim com a memória. A consciência nuclear encontra‑se presente, porque está a ser gerada por outros níveis da‑coisa‑que‑está‑para‑ser‑conhecida; por exemplo, o rosto enquanto rosto. É precisamente porque a consciência nuclear normal se encontra presente que o vazio da recordação acaba por ser incorporado na mente.”(pp.193‑196).

6. A Linguagem e a Consciência de Si

“Nos tempos em que estudava medicina e neurologia, lembro‑me de perguntar a algumas das pessoas mais sábias que me rodeavam como é que produzíamos a mente consciente. Curiosamente, a resposta era sempre a mesma: o segredo está na linguagem. Diziam‑me que as criaturas sem linguagem estavam limitadas à sua ignorante existência, ao contrário de nós, felizardos humanos, a quem a linguagem permitia conhecer. A consciência era uma interpretação verbal dos processos mentais em curso. A linguagem providenciava o afastamento necessário para podermos olhar para as coisas com a distância necessárias. Esta resposta pareceu‑me sempre muito simples, simples demais para explicar um fenómeno que eu imaginava na altura impossível de explicar dada a sua complexidade. E a resposta não só era simples, mas também improvável, dado o que me era dado ver sempre que visitava o Jardim Zoológico. Nunca acreditei na resposta e agrada‑me muito nunca ter acreditado.

A linguagem, com as suas palavras e frases, é tradução de uma outra coisa, é uma conversão de imagens não linguísticas que representam entidades, eventos, relações e inferências. Se a linguagem funciona em relação ao si e à consciência do mesmo modo que funciona para todas as outras coisas, ou seja, simbolizando em palavras e frases aquilo que começa por existir de uma forma não verbal, então deverá existir um si não verbal e um conhecimento não verbal para os quais as palavras “eu” e “mim” ou a frase “eu conheço” constituem as traduções apropriadas, em qualquer linguagem. Julgo que é inteiramente legítimo pegar na frase “eu sei” e deduzir, a partir dela, a presença de uma imagem não verbal de conhecimento centrada num si que procede e motiva essa frase não verbal. A ideia de que o si e a consciência deveriam emergir após a linguagem e de que seriam uma construção directa da linguagem não parece ser correcta. A linguagem não nasce do nada. (…) A medida que estudava, caso após caso, doentes com graves alterações de linguagem causadas pelas doenças neurológicas, apercebi‑me de que, independentemente do grau de defeito da linguagem que apresentavam, os processos de pensamento dos doentes se mantinham essencialmente intactos e, mais importante ainda, a consciência que os doentes tinham da sua situação não parecia diferir em nada da minha. A contribuição da linguagem para a mente era admirável, sem qualquer dúvida, mas a sua contribuição para a consciência nuclear era nenhuma.

Em todos os casos que tenho estudado, os doentes com importantes perturbações da linguagem permanecem vigis e atentos e demonstram facilmente a finalidade dos seus comportamentos. Mais ainda, são perfeitamente capazes de indicar que estão a observar um determinado objecto, a detectar o humor ou a tragédia duma determinada situação ou a imaginar qual o resultado que o observador antecipa. Esta indicação pode ser feita através duma linguagem empobrecida dum gesto da mão, dum movimento do corpo ou duma expressão facial, mas está sempre acessível e sem demora. Não menos importante é o facto de que a emoção está profundamente presente, sob a forma de emoções de fundo, primárias e secundárias, intimamente relacionadas com os acontecimentos em curso (…) A melhor demonstração do que acabo de descrever ocorre em pessoas com aquilo a que chamamos afasia global. Trata-se de uma perturbação de todas as faculdades da linguagem. Os doentes são incapazes de compreender a linguagem, auditiva ou visualmente. Quando se fala com eles não compreendem o que dizemos e não conseguem ler uma única letra ou palavra; não são capazes de falar (…) Não há qualquer prova de que, nas suas mentes vigis e atentas, se estejam a formar quaisquer palavras. Pelo contrário, o seu processo de pensamento parece não usar palavras.

Todavia, enquanto manter uma conversa normal com afásicos globais está fora de questão, é possível comunicar com eles, duma forma rica e humana, se tivermos a paciência de nos adaptarmos ao vocabulário limitado e improvisado de sinais não linguísticos que estes doentes inventam e usam. (…) Em termos de consciência nuclear, estas pessoas em nada diferem de mim ou do leitor, apesar da incapacidade de traduzirem o pensamento em linguagem e vice‑versa. (…)

A viabilidade deste cenário pode ser testada directamente através do estudo de doentes que foram submetidos a excisões radicais de todo o hemisfério esquerdo para o tratamento de certos tumores cerebrais. Este tipo de operação, que felizmente caiu em desuso, foi praticado como último recurso para ajudar a situação de doentes com tumores cerebrais malignos e rapidamente fatais. (…) Tal como seria de esperar, as hemisferectomias cerebrais esquerdas forma devastadoras do ponto de vista da linguagem, resultando numa gravíssima afasia global. (…) Posso assegurar‑vos que ninguém jamais pôs em causa a integridade da consciência de Earl e que ninguém com bom juízo clínico o faria nos dias de hoje. (…) O Earl não só estava vígil e atento, como também produzia um comportamento apropriado à desgraçada situação que lhe tinha cabido em sorte. Não se limitava a produzir reflexos não pensados e não conscientes. Tentava com grande esforço responder às questões que lhe eram colocadas, algumas vezes através de gestos. (…) A gratidão dos seres humanos para com a linguagem não requer de todo que a linguagem esteja na origem da consciência.” (pp.133‑138).

7. O Pensamento Racional e a Consciência de Si

“A consciência nuclear realça e sublinha a atenção e a memória de trabalho; favorece o estabelecimento de memórias; é indispensável ao funcionamento normal da linguagem; e aumenta o alcance das manipulações inteligentes a que chamamos planeamento, resolução de problemas e criatividade.

Em conclusão, os indivíduos como nós dotados de memória abundante e inteligência, conseguem manipular factos, logicamente, com ou sem a ajuda da linguagem e produzir inferências a partir desses factos. Proponho que a consciência nuclear é distinta das inferências que podemos estabelecer em relação aos conteúdos dessa mesma consciência. Podemos inferir que os pensamentos da nossa mente são criados na nossa perspectiva individual: são pertença nossa; que podemos agir sobre eles; que o protagonista aparente da relação com o objecto é o nosso organismo. Todavia, na minha opinião, a consciência nuclear começa antes destas inferências: a consciência nuclear constitui ela própria o conhecimento, directo e sem qualquer verniz inferencial do nosso organismo individual no acto de conhecer.

Todas as propriedades cognitivas acima referidas foram potenciadas pela consciência nuclear e ajudaram, por sua vez, a construir a consciência alargada a partir da consciência nuclear. No entanto, o cordão umbilical que une as duas espécies de consciência nunca foi cortado. Dentro da consciência alargada, em cada um de nós e em qualquer momento, encontra‑se a pulsação da consciência nuclear.” (p.152).

8. A Experiência do Corpo e a Consciência de Si

“A anosognosia constitui (…) exemplo de alteração da consciência alargada, sem alteração da consciência nuclear. A palavra anosognosia deriva do grego nosos, «doença» e de gnosis, «conhecimento», e traduz a incapacidade de reconhecer um estado de doença no nosso próprio organismo. (…) Na neurologia não escasseiam os casos bizarros, mas a anosognosia é por certo um dos mais estranhos. O exemplo clássico da anosognosia é o de uma vítima de acidente vascular cerebral, completamente paralisada do lado esquerdo do corpo, incapaz de movimentar a mão e o braço, a perna e o pé, metade do roto imobilizado, incapaz de se manter de pé ou de andar, mas que ignora o problema e declara que nada de especial se passa. Quando se pergunta a um doente com anosognosia como se sente, o doente responde com um sincero «Sinto‑me bem». (…) Sempre houve e ainda há quem pense que esta negação da doença é motivada psicodinamicamente e que consiste apenas numa adaptação ao grave problema que o doente enfrenta, influenciada pela história desse indivíduo relativa a situações incomparáveis. Mas é fácil provar que tal explicação não é correcta quando pensamos na imagem espelho desta situação, a de um doente cujo lado paralisado do corpo seja o direito em vez do esquerdo. Tais doentes não sofrem de anosognosia. Podem estar gravemente paralisados e até gravemente afásicos, mas permanecem cientes da sua tragédia. (…) A minha doente DJ tinha uma paralisia completa do lado esquerdo mas sempre que lhe perguntava como estava o seu braço esquerdo, começava a dizer que estava óptimo, que tinha tido alguns problemas, mas que agora estava perfeito. Quando lhe pedia para movimentar o braço esquerdo à sua volta para o procurar e, confrontado com o membro inerte, perguntava‑me se eu queria «realmente» que «ele» – o braço – se mexesse. Só então, e à custa da minha insistência, DJ reconhecia que «sozinho, não parece mexer‑se assim muito bem», altura em que, invariavelmente, usava a mão direita para pegar no braço paralisado e verificava o que era óbvio: «Consigo mexê‑lo com a minha mão direita.»

É surpreendente que o doente anosognósico seja incapaz de se aperceber da paralisia – automática, rápida e internamente –, mas é ainda mais surpreendente que não seja capaz de aprender que tem uma paralisia, mesmo após ter sido repetidamente confrontada com ela. Alguns doentes, depois de lhes ter sido dito que têm uma paralisia, usam essa informação obtida do «exterior» para dizer que costumavam ter uma paralisia, embora, é claro, a paralisia continue inalterada.” (pp.244-245)

9. A Emoção e a Consciência de Si

“Há alguns anos atrás, a brilhante pianista Maria João Pires contou‑nos a seguinte história: quando toca, através do controlo total da sua vontade, consegue reduzir ou permitir a passagem do fluxo de emoção para o seu corpo. A minha mulher, Hannah, e eu pensámos que se tratava penas de uma maravilhosa ideia romântica, mas apesar de a Maria João insistir que conseguia fazê-lo, nós permanecíamos incrédulos. Finalmente, resolvemos pôr a ideia à prova científica. Numa das suas visitas ao nosso laboratório, Maria João foi ligada por fios ao complicado equipamento psicofisiológico, enquanto escutava curtas peças musicais seleccionadas por nós em duas situações: uma de emoção natural «autorizada», outra de «emoção» voluntariamente «inibida». Os seus Nocturnos de Chopin tinham acabado de ser publicados e usámos alguns deles e outros tocados por Daniel Barenboim como estímulo. Na situação de «emoção autorizada», o registo de contundência da pele mostrou montes e vales, intimamente ligados ao perfil emocional destas peças. Seguidamente, na situação de «emoção reduzida» aconteceu, de facto, o impensável. A Maria João conseguia literalmente aplanar o seu gráfico de condutância da pele, de acordo com a sua vontade e conseguia até modificar o seu ritmo cardíaco. Sob o ponto de vista comportamental também se transformou. As emoções de fundo estavam reorganizados e alguns dos comportamentos especificamente emotivos eliminados, registando‑se uma diminuição do movimento da cabeça e da face. Quando o nosso colega Antoine Bechara, totalmente incrédulo, quis repetir toda a experiência, pensando que os resultados poderiam ser devidos a um artefacto de habituação, a Maria João repetiu tudo. Afinal, podemos encontrar certas excepções, sobretudo entre aqueles cuja vida consiste em criar magia através da emoção.” (pp.70‑71).

10. A Narrativa não verbal da Consciência de Si

“Narrativa e história estão de tal forma ligadas à linguagem que devo insistir (…) que não sejam interpretadas em termos de palavras. Por narrativa ou história quero significar a criação de um mapa não linguístico de acontecimentos logicamente ligados. Será melhor pensar em termos de filme (embora este meio de comunicação também não nos dêuma ideia perfeita) ou de pantomima (…). No caso dos seres humanos, a narrativa não verbal (…) pode ser convertida imediatamente em linguagem, é evidente. (…) A narrativa do estado do proto‑si a ser modificado pela interacção com um objecto deve ocorrer, em primeiro lugar, na sua forma não linguística de modo a que seja possível a sua tradução ulterior em palavras. Na frase «Eu vejo um carro aproximar‑se», a palavra vejo significa um certo acto de pertença perceptual, perpretada pelo meu organismo e envolvendo o meu si. (…) Contar histórias sem palavras é a mais natural das coisas. (…) A ocorrência espontânea e pré‑verbal da narração de histórias pode muito bem ter sido a razão por que inventámos o teatro, os livros, e por que uma grande parte da humanidade passa uma grande parte da vida activa em salas de cinema e defronte de ecrãs de televisão. Os filmes constituem a representação externa mais semelhante ao atarefado contar de histórias que acontecem sem descanso nas nossas mentes.” (pp.217‑220).

“Narra uma história, a história do organismo surpreendido no acto de representar o seu próprio estado de mudança enquanto prossegue coma representação de um objecto. Porém, o mais surpreendente é que a entidade conhecedora do surpreender só é criada ao longo da narração do processo de surpreender.” (p.202)

11. A privacidade dos estados mentais

“As imagens (padrões mentais) podem ser conscientes ou não conscientes (…). As imagens não conscientes nunca são acessíveis directamente. Só temos acesso às imagens conscientes na perspectiva da primeira pessoa (as minhas imagens, as suas imagens). Por outro lado, só temos acesso aos padrões neurais na perspectiva da terceira pessoa. Ainda que eu tivesse a possibilidade de observar os meus próprios padrões neurais com a ajuda de uma tecnologia de ponta, estaria sempre a observá‑los na perspectiva da terceira pessoa.” (p.362).

“Para nós cientistas, é costume lamentar o facto de que a consciência é um fenómeno de carácter pessoal e privado, não acessível às observações de terceiras pessoas que são tão comuns na física e em outros ramos das ciências da vida. Todavia, é necessário aceitar o facto de que é esta a situação, e devemos tirar partir dela. Acima de tudo não devemos cair na armadilha de tentar estudar a consciência exclusivamente do ponto de vista externo, receosos de que o ponto de vista interno esteja irremediavelmente viciado. O estudo da consciência requer tanto a perspectiva interna como a externa.” (p.105).

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2 pensamentos sobre “António Damásio e o sentimento de si

  1. Cid janeiro 14, 2013 às 9:31 pm Reply

    Que legal! Estava mesmo precisando de uma perspectiva mais “áustera” e clínica sobre esse assunto. Geralmente, achamos que a única forma de pensar sobre a consciência é lançando mão de abstrações.
    Saio daqui com a impressão de que a consciência é o conhecimento que temos da nossa própria história. E, ao que entendi, a história nos é contada a partir da consciência nuclear seguindo, então, em direção à consciência alargada. Isso quer dizer que quanto mais aprendemos, maior fica a nossa consciência e que somos pessoas diferentes a cada aprendizado.

  2. Luiz agosto 14, 2013 às 7:47 pm Reply

    Cid, leia um pouco do David Chalmers, que voce irá perceber que Damazio nem sequer trata o verdadeiro probelma.

    Leia sobre como a Teoria da Relatividade Geral impacta nosso entendimento da consciêcia como o processo (https://www.google.com.br/#bav=on.2,or.r_qf.&fp=d774fdf8fec5f834&q=consciouness+and+block+universe, http://philsci-archive.pitt.edu/5073/ , http://www.imprint.co.uk/pdf/smythies.pdf) ; como a cosmologia quântica traz mais reflexões sobre este assunto (http://www.closertotruth.com/participant/Andrei-Linde/57).

    O porblema é que a maioria dos filósofos da mente e neurocientistas sequer analisam o “quadro físico” no qual suas explicações tem que ser válidas!

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