Breve comentário sobre a patologização do imperfeito

ilusao_de_oticaImagem: ilusão de ótica

“[…] que é preciso eu ser, eu que penso
e que sou meu pensamento, para que eu seja
o que não penso,
para que meu pensamento seja o que não sou?”
(FOUCAULT. As Palavras e as Coisas, 1999, p.448).

Há cinquenta anos, eram seis as categorias de diagnóstico psiquiátrico, e hoje são mais de trezentas. O que exatamente isso reflete na saúde pública e nas nossas noções de subjetividade e intersubjetividade? Pois bem, vamos pensar.

Semana passada estive conversando brevemente com uma amiga, que procurava um psicólogo competente.  Seu filho, de sete anos, não queria mais ir à escola ou brincar com os amigos da mesma idade. Estranho, não? Pois é. O médico detectou uma “fobia social” e medicou o menino – sem saber que o mesmo sofria preconceito porque – pasme! – sua mãe é branca e seu pai, negro. Ameaçavam, davam apelidos, boicotavam-no nas brincadeiras. A criança, pós-medicação, começou a dormir nas aulas e isso diminuiu tremendamente seu aprendizado. A mãe, pessoa sensata e instruída, resolveu consultar outro médico que, conversando com o menino, descobriu o motivo dos “sintomas” e pediu que o uso do medicamento fosse interrompido. Sem uma segunda opinião, teríamos uma criança medicada sem necessidade, com o aprendizado dificultado e sem que o problema real fosse resolvido. Mas, afinal, quem lucra com esse processo imediatista? Acredite: muita gente.

Ano passado, publicaram dados sobre população que habita São Paulo, afirmando que uma a cada três pessoas possui algum distúrbio psiquiátrico. O que ninguém comentou é que os fundadores dessa pesquisa (além da Fundação de Amparo à Pesquisa de São Paulo, a OMS e a OPAS), foram grandes conglomerados da indústria farmacêutica: Ortho-McNeil Pharmaceutical, a GlaxoSmithKline, Bristol-Meyers Squibb e Shire. Adoecer quem não está doente gera consumidores, dependentes e equívocos.

Lembro de que, no final de 2012, Contardo Calligaris publicou um texto interessante na sua coluna da Folha de São Paulo: comentou que gostava de sair com suas roupas remendadas, porque demonstrava o quanto havia vivido. Deparou-se então com uma criança que indagou algo como “-Olha, é um buraco?”, remetendo ao remendo na camiseta do Calligaris. Mas a própria criança tinha sua calça toda rasgada. Não de rasgos naturais, mas fictícios – aqueles que volta e meia retornam à moda. O que o mundo quer é que desde cedo aparentemos o amadurecimento, a experiência e a vivência, mesmo que essas características sejam ausentes em nós. O medo do erro, da queda, da vergonha, impera sobre nossa noção de “SER” aqui e agora: O que sou depende do que aparento. E não preciso viver o que aparento. Temos a obrigação de ser: bem sucedidos, felizes, com casamentos perfeitos, com filhos perfeitos, com uma situação financeira perfeita. Peraí… Isso é real?

Quando acreditamos que esse caminho idealizado da perfeição não ocorre, passamos a ter a sensação de frustração. E a frustração, não estando dentro da nossa vida idealizada, é vista como erro. É erro perder o controle, é erro sentir-se desesperado, é erro chorar porque o felino de estimação morreu, é erro que o filho seja “arteiro” demais, é erro se o marido sai de casa toda vez que brigamos. A frustração de não ser ideal gera a frustração em ter frustração: criei a norma ideal e agora me sinto com uma patologia. Qual? A patologia de viver. Oras, o próprio Freud afirmou em uma de suas obras que todo o ser humano tem, teve ou terá em sua vida uma grande depressão aparentemente sem motivo, ou uma série de alterações repentinas de comportamento, passando por circunstâncias meio paranóides, e depois tudo ficará bem, voltando a oscilar. Mesmo o psicossomático possui uma causa.

As patologias deixam de existir por isso? De forma alguma. A patologia deve, sim, ser descoberta e tratada. Mas em um mundo onde qualquer mania é um TOC, qualquer tristeza é depressão e qualquer euforia é hiperatividade, é necessário mais que um excelente médico para fazer sua análise: é necessário que saibamos mensurar se a situação em que nos encontramos não é fruto da “patologização do imperfeito”, se consigo aceitar que a vida é uma montanha-russa, e que não tenho a obrigação de ser alegre. Nem triste.

Como a discussão sobre normalidade já foi feita neste post aqui, deixo uma pequeno trecho do mesmo texto:

Ao considerarmos normal aquilo que está “equilibrado”, precisamos estabelecer algumas definições. A primeira é: o que é equilíbrio? Se equilíbrio é objetivo e absoluto, então se faz impossível estabelecer um padrão ou entraremos nos campos do determinismo e corremos o risco de criar padrões estáticos. Se equilíbrio é subjetivo, não há como criar medidas. Vejamos dois exemplos clássicos: o primeiro é quando uma norma socialmente construída é capaz de trazer malefícios, mesmo sendo considerada dentro do padrão de normalidade. O segundo é quando um comportamento socialmente tido como anormal não é problemático nem para o indivíduo, nem para a sociedade – exceto por uma posição de “estranheza”.

O outro também é subjetivo e imperfeito: sofre, chora, sente, por mais que não aparente. Precisamos aprender a conviver com isso, e não tornarmo-nos vítimas dos interesses farmacêuticos ou da má formação profissional de alguéns. Vamos cuidar para não tornar reais Simão Bacamarte e a Casa Verde, que ficou repleta de internados sãos enquanto os verdadeiros “problemas” ficaram do lado de fora.

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6 pensamentos sobre “Breve comentário sobre a patologização do imperfeito

  1. Igor Calado fevereiro 13, 2013 às 6:26 am Reply

    Ótima reflexão!

  2. […] Breve comentário sobre a patologização do imperfeito « A vida, o Universo e tudo mais. […]

  3. Vinícius Justo fevereiro 14, 2013 às 12:39 am Reply

    É… acho que já falei algo no Face né? Mas sabe, isso se torna algo totalmente irreal e fanático. Não se pode fazer nada demais!
    Às vezes fico pensando: onde está a liberdade que os da geração passada deixaram para nós? Nos tornamos verdadeiros escravos das tais novas “liberdades”. Temos a liberdade de nos aprisionarmos. E é isso que andamos fazendo. Incessantemente.
    E é bom os que não querem entrar nessa “onda”, erguerem suas armaduras, já que a maré dos CSM – Cegos, Surdos e Mudos – está aí para nos atolar!

    Grande beijo Lisi! Saudades de tu, menina!

  4. Sylvio Deutsch - Fatbear Flamand fevereiro 15, 2013 às 10:56 pm Reply

    O buraco é fictício? Ou artificial (feito de propósito e não por desgaste natural)?

    Esses laboratórios e essas análises exageradas estão se aproveitando de uma visão moderna da psiquiatria segundo a qual somos constituídos por pulsões (de vida, de morte, sexual, etc, etc), impulsos que nos impelem todo o tempo a agir. Isso quer dizer que todos temos em nós todas as doenças psiquiátricas, mas na maioria das pessoas elas aparecem apenas de forma suave, ou não aparecem, ou em alguma outra gradação. Mas de formas que conseguimos controlar, dá pra conviver com isso (são as manias, muitas das neuroses populares e etc). Algumas são até simpáticas (: ou úteis (ser obsessivo pode ser uma grande vantagem numa sociedade de especialistas.)
    O problema é quando uma dessas pulsões se torna tão poderosa que passa a controlar a vida da pessoa. Aí vira doença. Aí é hora de ir no psicólogo (ou psiquiatra que, pra romper com o preconceito que as pessoas tem com esses médicos, não são nada mais que psicólogos que também podem receitar remédios) e não só pra tentar entender o sentido da vida (:

    PS: uma psiquiatra uma vez me disse: fuja de psiquiatras que são rápidos em sacar o receituário. É sempre saudável começar com várias sessões de conversa, que podem resolver o problema ou no mínimo deixar clara a origem dele.

  5. norma7 fevereiro 22, 2013 às 4:36 pm Reply

    Lisi,
    No texto acima, você ‘brincou’ na lucidez. (Tive que catar meus óculos de sol – rs.).
    A ‘performance’ dos homens está bem difícil de se fazer entender, principalmente para os que ainda não tem tempo de vida para o “Conheça a ti mesmo” ou os que são incapazes de decidir por si mesmos, por ‘n’ motivos, inclusive dopping..
    O diferente (o fora dos padrões) nem sempre tem que ser curado (anestesiado) ‘dicumforça’ pela química, matando-se, talvez, uma genialidade/qualidade pré existente.
    (lembro-me sempre da Dra Nise Silveira: “Só os loucos e os artistas podem me compreender.”). Ou, como agem os menos ‘amorosos’, que querem que você fique ‘normal’ para não serem incomodados. (reportagem Dom. 17/02 – O Globo – sobre doentes mentais em cadeias comuns).
    Grata e fique bem, Norma

  6. Isabel Redig fevereiro 25, 2013 às 1:44 pm Reply

    Eu gostaria de acrescentar que a pressão que o homem contemporâneo sofre no caminho da busca pela perfeição, também encontra justificativa em suas próprias crenças: o medo atávico de ser excluído e em consequência experimentar uma “morte social” que o condena ao isolamento e ao não preenchimento de suas necessidades emocionais. E nós não prescindimos disso! Por mais que tentemos nos enganar, reinventando e modificando religiões e rituais, que terminam sempre da mesma forma. Isso parece até lembrar a simbólica fuga do Egito e os quarenta anos no deserto: todos os esforços despendidos e tudo continuou como antes: o povo arranjou outras formas de escravidão ao longo da história. Só mudaram os algozes e os métodos de tortura. Cada vez os nomes se tornam mais e mais sofisticados – como enfeites e adereços que precisam estar impecavelmente na moda. Ora, sempre haverá quem se aproveite disso em benefício próprio. Parece que faz parte do jogo! Lamentável para todos! Tomara que um grupo, por menor que seja, consiga alcançar o verdadeiro significado da libertação. Já traria algum sentido para tanto sofrimento!

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