O mundo é incrível, nós é que somos indiferentes

Texto de Alberto Brandão
Diretamente do seu blog.

 O comediante Louis CK tem uma entrevista fantástica, intitulada “tudo é incrível e ninguém está feliz”.

Com esse olhar que começo esse texto:

Vivemos em uma das eras mais fantásticas da nossa história e nossos contemporâneos estão por aí perdendo tudo isso, olhando uns para os outros com um olhar blasé, com a indiferença de quem está acostumado com tudo e não dá a mínima para o que está acontecendo.

Desde que nossos ancestrais mais antigos saíram da pangeia, que aprendemos a cultivar nossa própria comida e nosso cérebro sofreu uma enorme mudança, sendo capazes de compreender informações e melhorar processos. Desde as pirâmides, Grécia antiga, Roma, escola de Pitágoras, grande muralha da china, ENIAC ou qualquer outro marco evolucionário que possamos destacar. Nunca tivemos acesso tão fácil a tanta informação.

Temos acesso praticamente ilimitado a todos os assuntos existentes e, se não conseguirmos achar nada sobre isso, podemos encontrar alguma pessoa que nos apontará uma pista de onde procurar. Podemos acessar praticamente qualquer material, sabendo que ter ou não dinheiro, nunca importou tão pouco.

Nossas pequenas caixas de areia

Gostamos de nos portar como pessoas evoluídas, mas conhecimentos valiosos estão morrendo com as pessoas mais velhas, simplesmente porque não sabemos dar o devido valor. Gostamos de nos iludir, achamos que desfrutamos de um imenso mar de conhecimento, quando na verdade, estamos brincando em uma caixa de areia, onde sentimos uma vaga ideia de como seria navegar nesse mar.

A internet tem uma quantidade ridiculamente grande de sites, blogs, fóruns e todo formato agregador de conteúdo. Eu sei que você sabe disso. Mas qual a última vez que navegou além das páginas que acessa com frequência? Quando foi que tentou entender um assunto além dos dois primeiros parágrafos da Wikipédia? Somos uma raça superficial, nos tornando cada vez mais superficial.

Nadamos segurando na borda da piscina, só sabemos aquilo que conseguimos enxergar da borda.

Quando foi a última vez que ouviu um álbum por inteiro? Escutou todas as músicas, na ordem que foi planejado e organizado? Quando foi a última vez que procurou escutar músicas que nunca ouviu antes? Compositores clássicos, estilos diferenciados, artistas de um país tão pequeno, que não sabe pronunciar o nome? Já escutou um Rock Nigeriano? Ou uma escola de samba finlandesa?

Podemos ter acesso a tudo isso, mas insistimos em nos manter dentro dos limites da nossa caixa.

Não há tanto tempo assim desde que eu precisava esperar uma música passar na rádio, para gravar e poder ouvir de novo. Os mais novos não conhecem a frustrante sensação de ouvir uma musica fantástica na rádio e nunca mais encontrá-la novamente.
Podemos escutar toda música que já passou no mundo. Tudo que está passando agora e nem sonhamos.

Novamente, nunca foi tão fácil.

E pior, sistemas estão sendo desenvolvidos para nos colocar cada vez mais dentro desta caixa. Seu tocador de música sugere coisas idênticas ao que está escutando, seu site de vídeos e filmes sugere similaridades do que gosta, e você, sem perceber, se fecha em um mundo inteiramente limitado. Sites de busca mostram resultados filtrados para se parecer com o que mais procura, redes sociais mostram apenas conteúdo dos amigos que mais conversa. Sem perceber, você vai ficando preso a uma realidade.

De repente, todo mundo tem uma opinião similar à sua. Tudo diz o que você quer ouvir, assim, sua ilusão se torna cada vez mais real.

Você está sendo tratado como uma criança mimada, com pais que não contrariam, só mostram o que vai agradar.

Deixe-se deslumbrar

Fotografias nem sempre foram acessíveis.

Quando criança, sempre quis ter uma máquina fotográfica, demorei muito tempo para ganhar a primeira e, ainda assim, filmes e revelação eram caríssimos. Não tirávamos foto de qualquer coisa. Fotografia era um momento especial, nos vestíamos apropriadamente para isso. Hoje em dia tenho quatro câmeras de qualidades diferentes em casa e não tiro fotos quase de nada.

Quando fotografias ainda eram pinturas, representando apenas aqueles que tinham poder para contratar um artista e ilustrar sua imagem, tudo era diferente. Mas imagine quantos momentos preciosos não foram perdidos por falta de uma simples câmera?

Agora que temos recursos amplos, todo aparelho celular tem uma câmera embutida, porque tratar isso como algo ruim? Certamente nossos ancestrais nos achariam malucos de desperdiçar toda essa possibilidade.

Por que nos incomoda tanto quando alguém posta foto de comida no instagram? Deixem as pessoas filmarem gatos sendo engraçados. Vamos editar de vídeos de Harlem Shake, afinal, quantas vezes em toda nossa história fomos capazes de gerar uma piada mundial, compreendida por todas as culturas?

Não somos obrigados a gostar e participar de tudo, mas o excesso de reclamação é tão ou mais chato que todos esses hábitos descritos acima.

Tudo é fantástico e você está perdendo tempo vendo apenas o lado negativo de tudo. Usei o exemplo das câmeras para ilustrar, mas temos feito isso com praticamente tudo. Estamos perdendo a noção de quanto tudo é fantástico.

Não precisamos nos tornar escravos da modernidade, mas não ver o quanto tudo é lindo e perder a oportunidade maravilhosa de viver e se deslumbrar com o mundo é bem triste.

Saiba desligar todos os seus aparelhos luminosos e passar um final de semana isolado em uma cachoeira. Mas sorria sozinho quando voltar pra casa, voando numa máquina de quase 80 toneladas.

Entenda quanto tudo é incrivelmente maluco e por isso, muito mais fascinante.

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5 pensamentos sobre “O mundo é incrível, nós é que somos indiferentes

  1. Ana março 19, 2013 às 11:24 pm Reply

    tomei a liberdade de levar esse texto pra sala para discutir com meu professor de filosofia, realmente muito bom!

  2. Victor Dantas abril 11, 2013 às 8:28 pm Reply

    Eu tenho tido sensações “estranhas” mas que deviam ser normais com todos, por exemplo, acordar às 5h da manhã só pra ver o orvalho e o sol nascer e lavar meu rosto com seu banho laranja! É fascinante! Quando a noite cai, eu saio de casa, deito-me no chão e observo as estrelas… já perdi a conta de quantas estrelas cadentes e quantos pedidos malucos eu fiz! Fiz coisas como parar de andar enquanto está chovendo e ficar parado, sendo encharcado por água que foi vaporizada, subiu às nuvens e retornou ao chão, deixando aquele maravilhoso cheiro de terra molhada! Nossa! Coisas tão extraordinariamente simples mas que me cativam por inteiro, deixando aquela sensação de felicidade eterna! Nossa! Nossa! Nossa! O mundo é maravilhoso, os animais são maravilhosos, a natureza é maravilhosa! Por que não estamos mais tão interessados nessas coisas? Por que as percebemos, mas, mesmo assim, ficamos indiferentes? Nosso minúsculo pontinho verde-azulado é magnífico! Estonteantemente magnífico!

  3. Felipe Kroth (@Feel_ipe) abril 12, 2013 às 10:44 pm Reply

    Só eu fiquei interessado em ver o vídeo que está no início do texto, mas recebi o aviso de que ele “não existe mais”?

    • Lisiane Pohlmann abril 14, 2013 às 8:33 pm Reply

      Estou tentando encontrá-lo no VIMEO. Não sei o motivo de ter sido removido. 😦

  4. norma7 abril 13, 2013 às 12:26 am Reply

    Agradavelmente abordado.

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