Uma feliz páscoa, porque não sou cristã

“Agora que a terra é redonda
E o centro do universo é outro lugar
É hora de rever os planos

O mundo não é plano, não pára de girar
Agora tudo é relativo
Não há tempo perdido, não há tempo a perder.”
(Além da máscara – Pouca Vogal)

Antes de falar sobre minha vida enquanto ateia, preciso contar que já ouvi diversas vezes a argumentação da “aposta de Pascal”: Se você não tem certeza de que existe um deus, é melhor acreditar. Assim, se você estiver errado não perderá nada, e se estiver certo vai de encontro à vida eterna. Ok, venha cá, vamos conversar. Além da dicotomia óbvia, crer tem muito custo. O custo de dedicar a sua vida a tradições e dogmas, a anseios, esperanças e inseguranças que você não precisaria ter. E quem garante que seu deus se importa com a sua crença? Religião pode não ser saudável para crianças: por favor, não force seus filhos. Religião pode não ser saudável pra você, por favor, não se obrigue.

Acontece que muitos cristãos acreditam que, pelo fato de acreditarem em um Deus, automaticamente são bons e irão para o que se chama “vida eterna”. Vida eterna? Ok. E quantos deuses você rejeita? E se você acredita no “deus errado”? E se seu deus simplesmente não existir? E se você, não sendo religioso, consegue ter uma moralidade mais bem fundamentada em si mesma que quem frequenta às Igrejas? E se a bondade não for pautada por crença, mas por ação? E se, de repente, fazer o bem sem desejar recompensa for melhor? E se…?

Não preciso de uma vida eterna. Preciso viver bem a vida que tenho aqui e agora. Preciso olhar para o meu semelhante e entender que reparto com ele uma existência singular, possível entre tantas milhões, em uma época determinada e onde olhar para o ser humano é mais importante que olhar para um deus. Não espero uma justiça divina. Espero uma justiça humana, um olhar humano, mãos humanas. Já disse Platão: A pior injustiça é a justiça simulada.

Imagine uma vida eterna pautada nas suas ações do hoje. Você a desejaria? Se sim, parabéns: você não precisa de religião.

É comum que questionem se considero ruim a “Espiritualidade”. Não, não é ruim. Ruim é a mordaça da fé: imposta pelas religiões e aclamada pelos fiéis. Ruim é se aproveitar da crença para proclamar preconceitos. Ruim é usar uma opinião particular para justificar o injustificável. Ruim é fazer com que as pessoas, por tradição, transmitam o ódio ao questionamento de forma transgeracional. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não pode esperar que as outras pessoas acreditem no mesmo que você – e nem pode obrigá-las a isso.

Tenho família e amigos cristãos, e respeito suas escolhas sobremaneira. O que pretendo destacar é que, enquanto homens sociais, não podemos deixar que o desejo de infinitude nos deixe reféns de um “amor simulado” pelo outro: que sejamos capazes de ver, sentir, tocar, abraçar e amar todos os dias.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Toda a sabedoria resulta de aprendermos a não ter receio de morrer, o que acontecerá (a morte) inevitavelmente. O desprezo e a angústia que ela nos inspira permite que vivamos agradavelmente e sem preocupações com nossa existência. Contudo, o mesmo desprezo que nutrimos e nos “protege” do desespero não pode ser ferramenta do comodismo. A vida deve ser pensada, as coisas não deixarão de acontecer porque você não se preocupa.

Porque comer chocolate, ir na missa ou não comer carne em uma sexta-feira não são fatores constitutivos do meu (e do seu) caráter. O que eu sou (e você é) 365 dias por ano, sim. Quem você é enquanto não precisa de um deus?

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Post scriptum: A Páscoa teve sua origem na Roma Antiga e Grécia em 200 a.C. com a celebração dos deuses Cybele, deusa da fertilidade, e de seu companheiro o deus Attis, deus da vegetação, que nasceu de uma virgem e ressuscitou ao 3º dia (alguma semelhança?). Um festival comemorava todos os anos o seu renascimento no 1º domingo após a 1ª lua cheia após o equinócio de verão (quando o dia tem o mesmo número de horas do que a noite). O festival tinha início 3 dias antes, conhecida como Sexta-feira Negra. Coincidia com o início da Primavera no hemisfério norte e o período de flores e muito verde era creditado aos deuses. A Páscoa teve muitos nomes conforme a região mediterrânea que era comemorada, mas sempre celebrando a deusa da fertilidade: Afrodite no Chipre Antigo, Ashtoreth em Israel Antigo, Astarte da Grécia Antiga, Deméter de Micenas, Hathor do Egito, Ishtar da Assíria, Kali da Índia, além de Austron, Ausos, Ostare, Ostara, Ostern, Eostra, Eostre, Eostur, Eastra, Eastur. Daí resultando na palavra inglesa para Páscoa que chamam de Easter. E todos eles eram celebrados no mesmo dia, ou seja, no 1º domingo após a 1ª lua cheia após o equinócio de verão. Interessante, não?
Post post scriptum: O Pessach (páscoa judaica) e refere à comemoração, e não à data.

8 pensamentos sobre “Uma feliz páscoa, porque não sou cristã

  1. Adinan março 31, 2013 às 1:11 pm Reply

    Ótimo texto, parabéns. Fico feliz em ver tantos ateus se mostrando e expondo seus pensamentos, embora não seja fácil num país que se diz “cristão” em sua maioria. Se não sofrêssemos preconceito, com certeza o percentual de ateus declarados em pesquisas seria bem maior dos que os 615 mil do censo 2010. Abçs

  2. Bira Leal março 31, 2013 às 4:05 pm Reply

    Parabéns Lisi, texto fantástico! Mas só verá isso aquele que estiver minimamente disposto, quem não estiver, continuará com seus dogmas. Infelizmente é assim. Mas cada sementinha de questionamento que pudermos plantar já é válida!

  3. […] Uma feliz páscoa, porque não sou cristã | A vida, o Universo e tudo mais. […]

  4. Carlos Fábio Cortezão abril 1, 2013 às 6:02 pm Reply

    Muito bom o Texto, vale para a reflexão e exercitar a liberdade de pensamento. Quem não critica o que crê não lapidará suas crenças,quem não lapida suas crenças será será servo de suas verdades.E se suas verdades forem doentias,certamente será uma pessoa doente.

  5. Maria Isabel Redig de Campos abril 2, 2013 às 2:44 am Reply

    Meus parabéns pelo texto excelente! Cabe inteiro no momento que estou vivendo!
    Resultado de anos experimentando e vivenciando dogmas e rituais religiosos! Só gostaria de abrir espaço para mais um questionamento: será necessário nos rotularmos de ateus ou negarmos a existência de uma consciência superior e coletiva a qual nos habituamos a chamar de DEUS em nossa cultura cristã? Ando chegando a conclusão de que não. Em algum momento me dei conta sim do tom ameaçador dos dogmas religiosos, convenientes e alimentadores de egos vaidosos e resolvi romper com eles. Mas dentro de mim, deixei um cantinho muito sagrado dedicado ao melhor do que pude absorver de cada um desses deuses. Talvez, depois de passar uma peneira muito fina, tenha me deparado com a face divina do humano a qual chamo de Deus. Que com certeza nada tem a ver com ameaças, obrigações sem sentido, preconceitos e compromissos adotados e assumidos pelo pânico inato de “queimar no fogo de um inferno idealizado”. Tão desesperador que coloca em segundo plano o também inato e ainda muito mais primitivo desejo de AMAR e SER AMADO. Descobri que perdemos mais tempo nos ocupando em nos defender de um inimigo cruel e imaginário do que em desenvolver nossas habilidades para interagir com ele para só então descobrir que ou ele não era tão cruel assim, mas apenas tão assustado e defendido quanto qualquer um de nós.
    Enfim, todas as perguntas do texto eu me faço a cada dia, num processo lento e que exige muita perseverança, de desconstruir os hábitos e depois de torcer muito, descobrir o que tinha de mais bonito e útil em cada um deles.
    De qualquer modo, eu acredito em Deus e portanto, acredito no homem e no potencial latente que ele precisa desenvolver. E, na certeza de que se assim não fosse, simplesmente não estaria aqui ou não na condição de humano.

    Um grande abraço.
    Foi mesmo um grande prazer não me sentir sozinha nesses questionamentos.
    Isabel Redig

  6. Anderson Oliveira abril 9, 2014 às 2:57 pm Reply

    Oi Lisiane, sou cristão e queria comentar seu post, espero que não tenha problema. Achei legal o que você escreveu, tipo, você atacou a religião, somente ela, não atacou Deus. Aliás, tudo o que você disse, remete ao que Jesus Cristo dizia… O problema de hoje é que quando se fala em Jesus Cristo, se remonta a Igreja Católica, ou Igreja Evangélicas e seus dogmas, ou suas polêmicas, porque é isso que a mídia mostra, ela não mostra aquelas igrejas que são “bibocas”, quase que ninhos de ratos, onde existem pessoas trabalhando para o bem estar do próximo, dando comida, abrigo, respeito, consideração e uma chance para aquela pessoa sentir, nem que seja por um dia, que é alguém de valor. Eu olho pro universo e vejo que o ser humano é uma formiga, no meio de tanta coisa e por isso acredito mais em Deus e tento amá-lo e é claro que eu amo o ser humano, porque é impossível você amar Deus (que não vê) e não um ser humano (que você vê). Aliás, não tem melhor maneira de servir a Deus, do que servindo ao ser humano. Se você detalhar o homem vai ver que ele realmente é um universo inteiro e que o “acaso” nunca iria produzir isso. Eu não acredito em destino, acredito que existe um momento certo pra cada coisa acontecer, mas não acredito que somos reféns de nada, não somos vítimas, todos nós temos acesso a liberdade, a ir e vir de onde quiser. Eu respeito muito os ateus, os caras que estruturaram pensamentos socialistas, com os quais me identifico. A Páscoa hoje é uma cerimônia religiosa ou uma forma de consumismo (tudo é consumismo nos dias de hoje), esqueceu-se da outra importância. Pra mim, Páscoa é lembrar do que Jesus (que é Deus, sim Deus) fez morrendo na cruz, ele não fez nada por recompensa, ele não tinha nada (e tinha tudo), fazia o bem por que isso era natural a ele. Fazer o bem querendo algo em troca, é muito idiota, porque o melhor do bem é poder servir a alguém, isso é o que me faz bem sabe. Entendo o seu pensamento e foi extremamente útil pra mim, essa ideia de amar e respeitar e ajudar somente pela experiência de fazer isso é legal demóóóis, porque nos faz perceber o quanto somos egoístas sempre realizando algo para receber algum prêmio no fim.

    Lisiane, eu não sei se tenho esse direito, mas peço, já que você não acredita em Deus, não coloque sua fé ou confiança ou espiritualidade em nenhum tipo de misticismo ou doutrina, ou grupo de ideias, acredite em você, não em você Lisiane, ou você humana que é, porque assim como o ser humano é esplendido ele também é desprezível, mas em você humana que deveria ser, com amor, respeito, entrega, altruísmo, colocando sempre o bem estar dos outros acima do seu, isso é ateísmo que eu admiro. Mesmo quando as forças do universo conspirarem contra, não desista. Eu sou sonhador, tenho um mundo na minha mente, é diferente do mundo real, toda vez que passo de um pra outro sofro muito, contudo, não abro mão disso, porque isso me torna livre, e livre, eu posso escolher melhor o que eu devo ou não fazer. Boa semana!!!

  7. Josiane Loure de Oliveira março 28, 2015 às 2:39 pm Reply

    Na verdade a palavra Páscoa vem do hebraico Pessach, comemorada pelo povo Judeu como a passagem, quando Moisés libertou o povo da escravidão no Egito… Na verdade essa foi a verdadeira origem da Páscoa, e não como você disse o ritual da Roma Antiga e Grécia… A Igreja escolheu essa data, por encontrar a semelhança entro os dois eventos, o de libertação do povo da escravidão, e o de libertação da humanidade para gozar da vida eterna…. Só achei importante corrigir, pois o ultimo parágrafo não fez muito sentido para mim!!! É claro que a influência do simbolismo, como ovos e coelhinho… realmente veio desses rituais, porém a essência do sentido da Páscoa, como ressurreição de Cristo, essa veio do Judaísmo…

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