O amor líquido

alexej_ravskiImagem: Alexej Ravski

Diretamente do Café de Fita.

“Logo que a liberdade se estabelece e se transforma numa rotina diária, um novo tipo de terror, não menos apavorante do que aqueles que a liberdade deveria banir, empalidece as memórias de sofrimentos e rancores de passado: o terror da responsabilidade.”
BAUMAN, Zygmunt. Vidas para Consumo, 2011.

“O vazio do lugar está no olho de quem vê e nas pernas ou rodas de quem anda. Vazios são os lugares em que não se entra e onde se sentiria perdido e vulnerável, surpreendido e um tanto atemorizado pela presença de humanos”
BAUMAN, Zygmunt. 2001, p. 122.

“A vida de consumo não pode ser outra coisa senão uma vida de aprendizado rápido, mas também precisa ser uma vida de esquecimento veloz. Refere-se acima de tudo, a estar em movimento.”
Bauman, Zygmunt. 2011, p. 35.

Bauman em seu livro “Amor Líquido” procura investigar, porque as relações humanas estão cada vez mais flexíveis, gerando níveis de insegurança que aumentam a cada dia. Os seres humanos estão dando mais importância a relacionamentos em “rede” (exemplo da internet através de bate-papo, email ou celular através de mensagens de texto) que podem ser desmanchados a qualquer momento e muito facilmente, sendo esse contato apenas virtual, as pessoas não sabem mais como manter um relacionamento em longo prazo, e também se privam de algumas situações consideradas problemáticas, algo como “… comer o bolo e ao mesmo tempo conservá-lo; desfrutar das doces delícias de um relacionamento evitando, simultaneamente, seus momentos mais amargos e penosos; forçar uma relação a permitir sem desautorizar, possibilitar sem invalidar, satisfazer sem oprimir…” (Bauman, 2003. p.9). E isso não acorre apenas nas relações amorosas e vínculos familiares, mas entre os seres humanos de uma maneira geral. Amar diz respeito à auto-sobrevivência através da alteridade. E assim o amor significa um estímulo a proteger, alimentar, abrigar; e também à carícia, ao afago e ao mimo, ou a – ciumentamente – guardar, cercar, encarcerar. Amar significa estar a serviço, colocar-se à disposição, aguardar a ordem. Mas também pode significar expropriar e assumir a responsabilidade.

Se um estranho cumprimenta outro na rua, o outro além de não responder o cumprimento, ainda sente-se estranho, talvez ofendido ou até pensa, “que pessoa esquisita”. As pessoas não se sentem à vontade na presença de um estranho, quanto mais cumprimentando alguém que não conhecem. Outro exemplo é o fato de quase ninguém ajudar um mendigo ou um estranho na rua. As pessoas têm medo, tanto por causa da violência, talvez sofrida por eles, quanto pela repercussão dos meios de comunicação que cada vez mais “apavoram” os seus usuários com notícias que envolvem apenas as coisas ruins feitas pelos próprios seres humanos. Esta dificuldade está ligada à nova situação que, no mundo Ocidental, se criou por causa das grandes migrações, por meio das quais milhões de pessoas emigram dos países pobres em busca de condições de vida melhor nos países ricos. E, assim, os migrantes são considerados “forasteiros”, “estranhos”, “diversos”, “desconhecidos”, que produzem medo. Lidar com os “estranhos” está se tornando o grande problema dos moradores das cidades dos países ricos, que não sabem como lidar com tantas pessoas “diferentes” Então, como não ter medo?

Os relacionamentos em geral, estão sendo tratados como mercadorias. “A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a “experiência amorosa” à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço.” (Idem, p.22). Se existe algum defeito, podem ser trocadas por outras, mas não há garantia de que gostem do novo produto ou que possam receber seu dinheiro de volta. Hoje em dia com toda a força do capitalismo e a sua capacidade de manipulação para convencer o individuo a sempre trocar pelo mais novo e eficaz faz com que automóveis, computadores, telefones celulares e outros bem duráveis em bom estado e em bom funcionamento sejam trocados como um monte de lixo no momento em que aparecem versões mais atualizadas. E assim acontece com os relacionamentos, se não há satisfação, troca-se e ninguém sofre. Também existem os “relacionamentos de bolso”, do tipo que se pode usar e dispor quando for necessário e depois tornar a guardar para ser utilizado numa outra ocasião. Nos compromissos duradouros, a líquida razão moderna enxerga a opressão; no engajamento permanente percebe a dependência incapacitante. Essa razão nega direitos aos vínculos especiais ou temporais. Eles não têm necessidade ou uso que possam ser justificados pela racionalidade moderna dos consumidores. E, também a novidade e a variedade que elas promovem e facilitam. É a rotatividade, não o volume de compras, que mede o sucesso na vida do homem consumidor. Os filhos estão entre as aquisições mais caras que o consumidor médio pode fazer ao longo de toda a sua vida. È provável que se pense duas vezes antes de assinar, ter filhos é, em nossa época, uma questão de decisão, não um acidente – o que aumenta a ansiedade. Tê-los ou não é comprovadamente a decisão com maiores conseqüências e de maior alcance que existe, e, portanto também a mais angustiante e estressante. “Eles não são desejados pelas alegrias do prazer paternal ou maternal que se espera que proporcionem – alegrias de uma espécie que nenhum objeto de consumo, por mais engenhoso e sofisticado seja, pode proporcionar.” (Ibidem, p.59).

A sociedade atual está criando uma nova ética do relacionamento, sendo eles cada vez mais fragilizados e desumanos. A confiança no próximo está cada vez mais próxima de terminar definitivamente. Os seres humanos estão sendo usados por eles mesmos. Um vaso de cristal, na primeira queda, quebra. As relações terminam tão rápido quanto começam, as pessoas pensam terminar com um problema cortando seus vínculos, mas o que fazem mesmo é criar problemas em cima de problemas. A definição romântica do amor está fora de moda. O amor verdadeiro em sua definição romântica foi rebaixado a diversos conjuntos de experiências vividas pelas pessoas, nas quais se referem utilizando a palavra amor. Noites avulsas de sexo são chamadas de “fazer amor”. Atualmente é muito fácil de dizer “eu te amo”, pois não existe mais a responsabilidade de estar mesmo amando, a palavra amor foi rotulada de uma forma em que as pessoas nem sabem direito o que sentem, não conseguem definir uma diferença entre amor e paixão, por exemplo.  Como diz o autor, “Amar é querer gerar e procriar”, e assim o amante busca e se ocupa em encontrar a coisa bela na qual possa gerar. Não são desejadas coisas prontas, completas e concluídas que o amor encontra o seu significado, mas no estímulo a participar da gênese dessas coisas. O amor é afim à transcendência.

            Os seres humanos têm medo de sofrer e pensam que não mantendo uma relação estável e duradoura, irão parar de sofrer ou diminuir a dor, trocando de parceiros, amigos, namorados, noivos, amantes, etc. O sofrimento e a solidão é o principal problema para as pessoas. Os seres humanos estão sendo ensinados a não se apegarem a nada, para não se sentirem sozinhos. A nossa sociedade moderna, não pensa mais na qualidade, mas sim na quantidade, quanto mais relacionamentos eu tiver, melhor, quanto mais dinheiro tiver, melhor. O consumismo é muito grande e as pessoas compram não por desejo ou necessidade, mas por impulso e isso ocorre também nas relações humanas. Outro problema que está na sociedade atual é a insegurança. Para sentirem-se seguras, as pessoas preferem se “encontrar” pela internet do que pessoalmente, assim, quando quiserem, podem apagar o que haviam escrito, ou simplesmente “deletar” um contato e facilmente dizer “adeus”. Os usuários dos recursos de namoro on-line podem namorar com segurança, protegidos por saberem que sempre podem retornar ao mercado para outra rodada de compras. Na Internet pode-se namorar sem medo de “repercussões” no mundo real. Para as pessoas de hoje sentirem-se seguras precisam ter sempre uma mão amiga, o socorro na aflição, o consolo na derrota e o aplauso na vitória e isso nem sempre iria ocorrer caso tivessem as mesmas pessoas ao seu lado. No momento em que o outro não lhe dá a segurança que tanto precisa logo o mesmo é esquecido e substituído.

A verdade nasce do confronto entre crenças que resistem à conciliação e entre seus portadores relutantes em chegar a um acordo. Sem esse confronto, a idéia de “verdade” dificilmente teria ocorrido, para começo de conversa. “Saber como ir em frente” seria tudo de que se precisaria – e o ambiente em que se faz necessário “ir em frente”, a menos que desafiado e assim tornado “estranho” e esvaziado de sua “auto-evidência”. Debater a verdade é uma resposta à “dissonância cognitiva”, Ela é instigada pelo impulso a desvalorizar outra leitura do ambiente e/ou outra prescrição de ação que lance dúvida sobre a leitura e a rotina de ação de alguém. Esse impulso crescerá de intensidade quanto mais às objeções/obstáculos se tornarem difíceis de abafar. O interesse em debater a verdade, e o principal propósito de sua auto-afirmação, é prova de que o parceiro/adversário está errado e de que, portanto, as objeções são inválidas e podem ser desprezadas. “Quando se trata de discutir a verdade, as chances de uma “comunicação não distorcida”, tal como foi postula por Jüguen Habermas, se tornam diminutivas. Os protagonistas dificilmente resistirão à tentação de recorrer a outros meios, mais efetivos, que não a lógica e o poder persuasivo dos seus argumentos.” (Ibidem, p.180).

O ideal de Bauman se insere na mesma vertente daqueles que acreditam que a humanidade tende para unidade. É o ideal da modernidade sólida de que se pode produzir um padrão universal, uma governança universal, um mundo em que não há separação entre os homens. O autor acredita que é necessário e possível apostar em um projeto de civilização em que as relações sociais podem ser transformadas na direção de uma boa sociedade. Com relação ao amor e aos relacionamentos que se caracterizam pela curta duração nos tempos líquidos. Em um tempo em que não se pode contar com nenhuma instituição de longa permanência, mas em que a vida individual está cada vez mais longa, talvez valesse a pena investir no amor durável, constante e compromissado.

Referências

BAUMAN, ZYGMUNT. Amor Líquido – Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora., 2004.
BAUMAN, ZYGMUNT. Vidas para consumo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora., 2011.

BORDON, GIOCONDA. A Fragilidade dos Laços Humanos. Disponível em: http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=123&titulo=A_fragilidade_dos_lacos_humanos (acesso: 18/04/12).

FERNANDES, JORGE MARQUES HENRIQUES. A Fragilidade dos Laços Humanos. Disponível em: http://site.unitau.br/scripts/prppg/humanas/download/Humanas%202005%202/Pdf/9%BA%20art..pdf (acesso: 19/04/12).
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2 pensamentos sobre “O amor líquido

  1. Gislene maio 9, 2013 às 9:53 am Reply

    Muito bom para refletir quando eu mesma me surpreendo me protegendo através da tela de uma computador……sozinha e com todos !!!! Obrigada !!!

  2. […] nos tornamos lixo. Por um lado, por que somos mercadoria e por que somos consumidos – o músico, o amante, são todos prestadores de serviço que podem ser ‘demitido’ a qualquer momento. Por […]

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