Beleza e subjetividade, uma confissão

litografia-autorretrat0Imagem: Autoretrato, de Escher

“Quero aprender cada vez mais a considerar como belo o que há de necessário nas coisas:
assim serei daqueles que tornam belas as coisas.
Amor fati [amor do destino, em latim]: que esse seja doravante meu amor.

Nietzsche

Não queria falar sobre algo tão subjetivo como a beleza, mas não pude evitar. Entre os compartilhamentos dos meus amigos do Facebook, encontro uma foto no mínimo interessante: Luana Piovani e seu companheiro tomando banho de mar, com a legenda “Luana se descuida e mostra celulite”. Peraí, onde foi que eu perdi a noção e a celulite de alguém virou assunto público? Fui à procura de algum pronunciamento mais sensato a respeito, e o que encontro, ao contrário, foi da própria Luana (no Twitter, pra quem quiser visualizar):

“Precisamos de audiência e ninguém vai assistir a um pgm que incentive a inércia no duvidoso. Incentivamos a sua melhor versão. Todos temos! Agora, você me diz onde estão esses homens que curtem bunda mole com furinhos, a testa giga, barriguinha e cabelos crespos polvorosos pq no planeta q moro, homem tá mais vaidoso q a gente.”

Pois bem, este post vai para as mulheres que pensam como a Luana. Às Luanas que não são livres por jamais terem soltado as grades do rótulo e do estigma. É uma “carta” aberta, pra ficar no melhor tom de uma conversa informal.

A aesthesis tem questionamentos complicados não é de hoje, e a questão do belo está há muito entre as inquietações humanas. Platão já contemplava a beleza da completude, do todo indissociável, e não uma beleza que simplesmente imita a natureza. Delleuze trouxe a beleza da cópia nas artes. Kant falou sobre o juízo estético. Hegel defendia a beleza de ordem espiritual. E você e eu, hoje, tentamos explicar o sensível. A estética é percepção. É o modo com que nós, humanos, olhamos para o mundo exterior e o percebemos: de maneira sensível, introspectiva, sem compreensão além da que nos é interna: as coisas não carregam a beleza, nós as carregamos da beleza com a percepção.

Dizem os historiadores que – que interessante!- foi só no século século XIX que deixamos de ver a beleza como poder de imitação. Não, queridos. Não deixamos. Transferimos a imitação que antes era própria da arte, para o subjetivo do corpo humano: o corpo que é, que sente, que tem atração e repulsa. A gente está formando exércitos de pessoas que querem ser iguais, um padrão de cópia: “isso pode”, “isso não pode”. Quem excede a linha é gauche na vida, feito Drummond.

Mas e a Luana? Ah sim, a Luana. Luana, como qualquer ser que esteja-no-mundo, tem um corpo. E um corpo que lhe é próprio. E um corpo que não é igual a nenhum corpo que já foi, é ou será-no-mundo. Mas ela quer o corpo-felicidade em 10x de 29,90: o padrão estético que é vendido como perfeição aqui e ali, e que subtrai as diferenças pra homogeneizar o natural. Tudo bem, tudo bem… São escolhas. Do meu corpo sei eu e do teu corpo sabes tu: é o direito ao próprio corpo – e é na falta dele que se dá a problemática: por que impôr a mim um padrão que se encaixa contigo? Eu não quero um corpo pra responder aos anseios alheios. Quero um corpo que me responda e me indague o que fui, o que sou e o que posso ser.

De mulher, minhas queridas Luanas, eu entendo. E não é simplesmente por ser mulher, mas também porque gosto de mulher (não só na simpatia, mas no tesão). E lhes digo que essa necessidade de suprir um padrão não é, em nenhum momento, o que me chama atenção. Sim, pode ser o que chama atenção de outros alguéns, mas não a minha. E como eu, existem muitas mulheres e homens. E como eu, existe muita gente a que vale mais o que se manifesta na íris do olho que a cor do mesmo. E como eu, muita gente tem o tesão na carne porque é diferente, porque é quente, porque é alheia, porque é alguém. E que me importam as celulites? Por seus deuses, eu nem vejo celulites! Tenho as minhas e conservo como o registro em braile das experiências que tive.

Homem está mais vaidoso que mulher? Não sei. Pode ser. E daí se tiver? Homem também pode, e muito bem, ser vaidoso. Essa mania do julgamento ‘sexual’ parte da projeção que fazemos da perfeição no “tem-que-ser”. Você tem que ser bonito, ou vai ser trocado. Você tem que ser lindo – ou além de ser trocado, não vai conseguir outro alguém. Você tem que ser, porque queremos que você seja, e vamos lhe bombardear de dicotomias até que ceda.

A gente está plastificando o que há de mais belo em nós: a imperfeição. As lindas são as brancas, loiras, altas e magras? Só na sua cabeça. Só na cabeça de quem tem medo do toque do outro. Só na cabeça de quem não é capaz de aceitar que não vivemos no admirável mundo novo. E ainda bem.

Quer a estética perfeita? Pois não existe consenso. Em séculos diferentes, em sociedades diferentes, cultivamos diferentes padrões de beleza. Se você tem que ceder ao atual, já digo que eu não. Ser humano é ser desdobrável, e a beleza mora é na subjetividade.

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3 pensamentos sobre “Beleza e subjetividade, uma confissão

  1. Emerson maio 12, 2013 às 8:36 pm Reply

    Excelente este texto, parabéns….

  2. anne b (@skywalkeranne) maio 13, 2013 às 2:33 pm Reply

    Muito bom o texto. Penso da mesma maneira, atualmente as pessoas estão se prestando ao ridículo por conta dos padrõe estéticos, é de dar pena.

  3. norma7 junho 2, 2013 às 5:21 pm Reply

    Muito bom!

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