O prazer próprio e a reprovação do prazer alheio

escher_encounterImagem: Escher

Se mulher mais nova casa com homem mais velho, é golpe. Se mulher mais velha casa com homem mais novo, é golpe. Se homem casa com homem, é promiscuidade. Se mulher casa com mulher, é falta de homem. Se as pessoas não casam, não se amam. Se casam, alguém está traindo. Se não se relacionam, são mal amadas. E você necessariamente está incluso em uma destas situações.

Sim, você, parado aí, lendo este texto. Já ouviu/leu alguma destas afirmações, não foi? Já falou alguma delas? Refletem suas opiniões?

Vamos ao papo: em qualquer país, a maioria da população acredita que os hábitos diferentes dos seus são imorais ou errados e isso se acentua muito quando é transposto para a intimidade, no tema amor/sexo. A intimidade do outro nos causa curiosidade e repulsa: há séculos a religião usurpou a naturalidade do sexo e condenou o amor a eternidades impossíveis.

É verdade que temos medo do desconhecido, e é natural. O hábito do outro, seja matrimonial, seja sexual, não nos pertence e por isso mesmo é desconhecido pra nós. O modo com que lidamos com isso é que nos afeta diretamente enquanto sociedade: na tentativa de substituir o medo, nos anestesiamos, precisamos nos reafirmar diante da (falsa) dicotomia (certo/errado). Se o meu modo não for certo, posso estar condenado à infelicidade social. Já pensou que triste? Preciso estar certo e por isso não suporto que o outro não possa gostar do que eu gosto e sentir o que eu sinto. Acreditamos equivocadamente em uma norma estatística de normalidade.

Você já pensou que a mesma repulsa que você sente vendo um casal gay, o casal gay pode sentir vendo um casal hétero? Já pensou que, assim como você não casaria com uma mulher 30 anos mais velha, essa mulher 30 anos mais velha simplesmente não casaria com alguém da mesma idade? Não é um capricho individual, e mesmo que fosse: sexualidade simplesmente é.

Você também faz isso com quem não gosta dos mesmos livros? Ou das mesmas músicas?

Temos medo do gozo do outro. Oras, ele não pode ser mais feliz (amorosamente ou sexualmente) que nós, especialmente quando assume hábitos diferentes. Não é por menos que as revistas estão cheias de matérias do tipo “como saber se seu marido está sendo infiel” e “como enlouquecer sua parceira na cama”. Vivemos em uma sociedade que explora a sexualidade através da repressão da pluralidade. Todo dia as práticas diferentes das nossas são colocadas na nossa cara como se fossem ameaça: “Homoafetividade destrói a instituição família”, “a mulher que dá no primeiro encontro pode roubar seu marido”. Somos cativos da insegurança.

O homem tem que ser pegador e a mulher “santa na mesa e puta na cama”. Ou então…? Ou então vai ser trocado, traído, infeliz e “fica pra titio/titia”.

Há quem faça tais afirmações por conformidade ao grupo, onde o ser humano pode abandonar o que é certo pela aceitação. Esse conceito é conhecido como “O experimento de Conformidade de Solomon Asch”, e você pode visualizar uma prévia aqui.

Segundo Solomon Asch, indivíduos ou grupos se tornam conformistas para evitar o conflito entre duas opiniões diferentes (aquela expressa pela maioria e aquela expressa ou representada mentalmente pelo indivíduo ou grupo minoritário) e a rejeição pela maioria. O conformismo também poderia ser engendrado por uma carência informacional, uma pressão normativa ou pela atratividade do grupo majoritário. Resulta que o indivíduo modifica seus comportamentos, atitudes e opiniões para harmonizá-los com os comportamentos e atitudes do grupo. Neste caso, a uma conformidade burra.

Por favor, não seja conformista. Pense.

Ninguém tem um relacionamento perfeito, nem uma sexualidade perfeita, mas é preciso entender que combater os hábitos alheios não justifica os desregramentos da sua própria vida. Você não vai ter tesão todos os dias, não vai ter orgasmos em todas as transas, não vai existir um parceiro-sexual-perfeito que fique com você por muito tempo sem que o sexo também diminua a intensidade. Há quem opte por viver o amor. Há quem opte por viver o sexo. Há quem opte por viver as duas coisas. Há quem opte por viver nenhuma.

Só existe uma dica possível para a sua felicidade: Ame mais. Goze mais. Se conheça. Pessoas de bem com a própria sexualidade não se sentem ultrajadas pela sexualidade alheia. Nem pelo amor.

O moralista é um invejoso do prazer alheio.
E, mesmo assim, o prazer alheio não precisa de justificativa.
O amor alheio também não.
Cuide do seu.

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6 pensamentos sobre “O prazer próprio e a reprovação do prazer alheio

  1. André junho 4, 2013 às 12:16 am Reply

    Falou e disse. Realmente, o pior veneno que corre nas veias dos seres humanos é a intolerância.

  2. Wesley Lübke junho 4, 2013 às 2:30 am Reply

    nossa, texto muito bem escrito, adorei ter lido

  3. Francisco Maximiano da Silva junho 4, 2013 às 3:26 am Reply

    Eu sou um inconformado Lis!

  4. Wesley junho 4, 2013 às 4:57 pm Reply

    Perfeito! A realidade da nossa sociedade hipócrita que por motivos banais resolveu rotular tudo e todos!

  5. Isabel Redig agosto 27, 2013 às 2:23 am Reply

    A nossa realidade social é projeção de um conjunto de realidades pessoais. Todos estamos incluidos nessa sociedade viciada a milênios por um entendimento distorcido pelo medo, das verdades fundamentais. E… que bom que existem os diferentes, corajosos o bastante para não serem iguais. Pois são eles que instigam às mudanças, ao crescimento e à evolução de todos nós. Mas, também precisamos dos iguais, senão não teríamos como identificar os diferentes. PARABÉNS pelo texto. Muito boa a sua reflexão. Abs

  6. tharyk junho 3, 2015 às 7:47 pm Reply

    um dos melhores textos que já li!.

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