Em que crêem os que não crêem?

diaboreal

Mas você não acredita em nada?” é a pergunta que mais me fazem quando assumo publicamente meu ateísmo. Não adianta que eu explique a base etimológica da palavra “ateu”, as pessoas acabam inclinadas a pensar que ceticismo e negativismo são irmãos siameses. Eu não creio em deuses ou sobrenaturalidades. E concordo, sim, que há muitos ateus mais fanáticos que os próprios religiosos.

A gente não vive tempo suficiente pra ler todos os livros, ver todos os filmes, dominar minimamente todas as teorias, conhecer todos os métodos. Não. A gente não vive tempo suficiente pra aprender a não cometer erros, a desacreditar das mentiras, a discernir sem falhas. Erramos, todos – e somos ignorantes em muitos aspectos. Nossas teorias e nossa ciência, aparentemente tão “impecáveis”, serão em grande escala destruídas no futuro. Mas a gente vive tempo suficiente pra aprender o mínimo, pra estar disposto, pra aceitar o toque do outro, pra se despir dos dogmas, pra proclamar a liberdade. Vive sim. Cabe na nossa vida muito mais do que somos capazes de viver: cabe o que os outros viveram antes de nós, e cabe o que vamos deixar para os que ainda virão.

Nós, que dominamos tecnologias tão modernas, somos os mesmos homens que viviam nas cavernas – mas podemos discernir as sombras. Cabe a decisão, que é intransferível. “Sair da caverna”, qualquer que seja ela, não é um posicionamento fácil.

Já ouvi diversas vezes a argumentação da “aposta de Pascal”: Se você não tem certeza de que existe um deus, é melhor acreditar. Assim, se você estiver errado não perderá nada e se estiver certo vai de encontro à vida eterna. Será? Além da dicotomia óbvia, crer tem muito custo. O custo de dedicar a sua vida a tradições e dogmas, a anseios, esperanças e inseguranças que você não precisaria ter. E quem garante que seu deus se importa com a sua crença? E quem garante que uma crença forçada seja válida? Falei bem mais sobre isso aqui (clique para ler). Eu, particularmente, não gostaria de retornar ao mundo mais de dois mil anos depois e constatar que a imagem que me “assegura” sou eu pregada em uma cruz de madeira. Me nego a aceitar um deus que vê de bom grado o sofrimento de muitos e a felicidade de poucos. Religião não é saudável para crianças: por favor, não force seus filhos. Religião pode não ser saudável pra você, por favor, não se obrigue.

Acontece que muitos teístas acreditam que, pelo fato de acreditarem em um deus, automaticamente são bons e irão para o que se chama “vida eterna”. Vida eterna? Ok. E quantos deuses você rejeita? E se você acredita no “deus errado”? E se seu deus simplesmente não existir? E se você, não sendo religioso, consegue ter uma moralidade mais bem fundamentada em si mesma que quem frequenta às Igrejas? E se a bondade não for pautada por crença, mas por ação? E se, de repente, fazer o bem sem desejar recompensa for melhor? E se…?

Não preciso de uma vida eterna. Preciso viver bem a vida que tenho aqui e agora. Preciso olhar para o meu semelhante e entender que reparto com ele uma existência singular, possível entre tantas milhões, em uma época determinada e onde olhar para o ser humano é mais importante que olhar para um deus. Não espero uma justiça divina. Espero uma justiça humana, um olhar humano, mãos humanas. Já disse Platão: A pior injustiça é a justiça simulada.

Imagine uma vida eterna pautada nas suas ações do hoje. Você a desejaria? Se sim, parabéns: você não precisa de religião – embora seja livre para tê-la. Se faz bem sem prejudicar, se você não usa a religião pra legitimar preconceitos, se você não é preso ao dogma, e especialmente se é capaz de se indignar com as injustiças sem deixá-las “apenas nas mãos de Deus”, receba minha sincera admiração.

É comum que questionem se considero ruim a “Espiritualidade”. Não, não é ruim. Ruim é a mordaça da fé: imposta pelas religiões e aclamada pelos fiéis. Ruim é se aproveitar da crença para proclamar preconceitos. Ruim é usar uma opinião particular para justificar o injustificável. Ruim é fazer com que as pessoas, por tradição, transmitam o ódio ao questionamento de forma transgeracional. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não pode esperar que o mundo corresponda às suas fantasias. O real continua sendo real, independentemente de você acreditar ou não. A única coisa que temos sob controle é a ilusão de que podemos controlar plenamente alguma coisa.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Toda a sabedoria resulta de aprendermos a não ter receio de morrer, o que acontecerá (a morte) inevitavelmente. O desprezo e a angústia que ela nos inspira permite que vivamos agradavelmente e sem preocupações com nossa existência. Contudo, o mesmo desprezo que nutrimos e nos “protege” do desespero não pode ser ferramenta do comodismo. A vida deve ser pensada, as coisas não deixarão de acontecer porque você não se preocupa.

Se eu não acredito em nada? Asimov responde: “Eu acredito em prova. Eu acredito em observação, medição, e raciocínio, confirmados por observadores independentes. Vou acreditar em qualquer coisa, não importa quão bizarra e ridículo, se houver provas para isso. O algo mais bizarro e mais ridículo, no entanto, a mais firme e sólida evidência tem que ter”.”

O que eu sou 365 dias por ano independente das ameaças de infernos ou promessas de vida eterna é o que me constitui quanto ao caráter. Quem você é enquanto não precisa de um deus?

O céu é só uma promessa.

Post scriptum: Quer saber mais a respeito? 1) Nigel Spivey fala sobre nosso medo da morte e a criação dos símbolos. 2) Daniel Dennet fala como a religião oferece desculpas para que não pensemos. 3) Sagan disserta sobre  nosso papel no mundo. 4) Dawkins e Neil deGrasse Tyson falam sobre a poesia da ciência. 5) “Daniel L. Everett fala como é ser desconvertido por uma tribo indígena onde ele pretendia ser missionário. 6) Os apresentadores do AE mostram como a moral não cai do céu. 7) Em quantos deuses você não acredita? 8) Bill Maher satiriza sobre as religiões não causarem nenhum mal. 9) George Carlin e os dez mandamentos. 10) Lawrence Krauss questiona os paraísos. 11) Hitchens comenta sobre o ateísmo. 12) Um debate com Dawkins. 13) Bill Maher fala sobre o novo Papa. 14) Sam Harris e o perigo das crenças religiosas. 15) Frans de Waal e a moralidade sem religião.

15 pensamentos sobre “Em que crêem os que não crêem?

  1. Raab agosto 2, 2013 às 5:08 pm Reply

    “O que eu sou 365 dias por ano independente das ameaças de infernos ou promessas de vida eterna é o que me constitui quanto ao caráter. Quem você é enquanto não precisa de um deus?
    O céu é só uma promessa.”

    IN-CRÍ-VEL! Parabéns pelo excelente post.

  2. Felipe Lopes Ferreira agosto 2, 2013 às 6:08 pm Reply

    Parabéns pelo post. Sou neopagão e concordo plenamente com o modo de conduta que vejo de sacerdotes que existem por aí, independente da religião que representam. Isso se representam alguma religião.

  3. samu agosto 2, 2013 às 6:14 pm Reply

    mostra que a razão difere – se da fé religiosa que mata mais que a fome !!!

  4. Porantim agosto 2, 2013 às 10:59 pm Reply

    Texto do Daniel Dennet sobre o assunto:

    http://livrepensamento.com/2013/04/04/fe-na-verdade/

  5. Carlos Fábio Cortezão agosto 5, 2013 às 3:10 pm Reply

    De uma simplicidade e clareza. Muito bom.

  6. Isabel Redig agosto 6, 2013 às 3:38 am Reply

    Gostei muito da colocao dela, Norma. Depois que eu encarei 1200 pginas de Gurdjieff, mudei muito a minha cabea. No vou nunca conseguir pensar como ela porque a f simplesmente brota de dentro de mim. Mas… j no ando to fantica. Todas as religies versam sobre os mesmos temas, afinal e acabam por dizer coisas muito semelhantes. A V Catarina, j dizia, que escolher uma religio, parecido com escolher como vamos arrumar a nossa casa. Cada um arruma do seu jeito. O importante arrumar. E hoje, consigo entender o significado disso. Mas, Obrigado por compartilhar. Beijo grande.

    Isabel Redig e-mail:isabelredig@gmail.com Skype: isabel.redig

    • norma7 agosto 17, 2013 às 2:43 pm Reply

      Bom ver você aki!
      Sim a ADM do Blog (Lisiane) tem um mérito fundamental para mim: Te leva a pensar.🙂
      Bjo Norma

  7. VonNaturAustreVe agosto 9, 2013 às 5:04 pm Reply

    Lendo esse texto me lembrei imediatamente desse vídeo: http://www.youtube.com/watch?v=t11JYaJcpxg

  8. Sheilon Cesar agosto 10, 2013 às 12:57 am Reply

    Oi Lisiane, você já está cansada de saber, mas o seu sorriso é realmente cativante! Gostaria de comentar brevemente sobre certas indagações que fez, e que de certa forma deixou transparecer um certo conhecimento superficial da verdade revelada na bíblia. Não vou pretender defender a autenticidade dela no momento, mas gostaria de expor pontos chaves das indagações humanas, à respeito do sentido de tudo. Já que você citou Pascal gostaria de citar mais uma de suas frases: “Que os homens aprendam, pelo menos, qual a fé que rejeitam antes de rejeitá-la!” Deus, o criador, se revelou ao homem que criou através de sua palavra, palavra esta que criou tudo que existe. Não temos que nos pautar em nenhuma religião ou tradição de homens, de imaginação humana. Temos que refletir o caráter do autor da carta, que enviou aos homens, a bíblia! Se a bíblia não existisse teríamos o evangelho bem explicado em uma frase famosa de Deus, quando aquí esteve, dois mil anos atrás: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus enviou o seu Filho ao mundo, não para que condenasse o mundo, mas para que o mundo fosse salvo por Ele.” Evangelho de João 3:16 e 17 Sim, Deus se importa com os que crêem Nele, e com os que não crêem também, pois continua abençoando a todos, com o sol, a chuva, os alimentos, a água, igualmente! O que a bíblia nos revela não é Deus, lá no céu, contemplando “o sofrimento de muitos e a felicidade de poucos”, indiferente! Mas, como vimos na famosa frase acima, nos mostra o Criador deixando seu lugar, no comando do universo, para vir aqui nos resgatar da morte eterna. A salvação na visão hebraica tem muito a ver com o pagamento de um resgate. Que solidariedade conosco, não é mesmo?! O ser humano não tem nenhum mérito nesse processo, por isso se chama graça! Ninguém se salva por ser bom, mas por ter aceito a salvação que Cristo nos oferece, esse é o passaporte, o sangue do Deus vivo! Não existem outros deuses, além do Deus único que a bíblia nos apresenta. As supostas divindades cultuadas por diferentes nações mundo afora eram seres humanos admirados por seus contemporâneos, com caráter e características humanas, e com seus defeitos. Não é assim com Deus revelado na bíblia. Se o Criador realmente existe? Olhe ao seu redor! Olhe para a gestação dos seres vivos, para o meio ambiente, para as estrelas, o minúsculo átomo! Tem que ter muito mais fé pra se acreditar que tudo não passa de “acidente, coincidência”, não é mesmo?! Existe um design inteligente em tudo, só não vê se usar o livre arbítrio para não querer ver! A vida que Deus nos deixou como exemplo, quando aqui viveu entre nós, é uma vida de piedade prática, amando o semelhante como a si mesmo. A religião que permanece das portas pra dentro, quando você sai, é vazia e de aparência somente. Jesus não autorizou ninguém a matar em nome de Deus, os excessos infelizmente existiram e existem em muitos lugares mundo afora. E quanto ao maior ser humano que viveu nessa terra, e também nosso Deus criador e salvador, Jesus Cristo, voltar a esse mundo para um juízo final, isso é tão real como o sol que irá nascer no dia seguinte, para fazer justiça, a verdadeira justiça, e ninguém escapará dela. Mas todas as provisões para todo aquele que quiser se salvar, foram feitas, a um custo infinito! Termino aqui com a promessa Dele, que deixou para os que crêem: “Não se turbe o vosso coração. Credes em Deus, crede também em mim. Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se não fosse assim eu vo-lo teria dito. Vou preparar-vos lugar. E se eu for e vos preparar lugar, virei outra vez, e vos levarei para mim mesmo, para que onde eu estou estejais vós também.” Evangelho de João 14: 1 a 3
    Eu queria ser breve mas parece que não consegui, né? rsrs Lisiane, foi um prazer, linda! Se você quiser poderemos falar mais à respeito, ok? Meu email você já tem! Um forte abraço!

  9. Paulo Arthur Simonato agosto 24, 2013 às 11:28 pm Reply

    Lisiane, saudades de você.❤
    Pensei que iriamos ter uma vida eterna… no nosso querido e aconchegante "infernus". =(
    Bom texto. Beijão.

  10. Maíra Beltrão outubro 30, 2013 às 2:28 am Reply

    Excelente texto, de leitura fáci. Penso igual. Também não tenho religião, mas apesar de todo mal q causa acredito q tem um lado bom para os não fanáticos. E penso q se for feliz tendo um credo, então q tenha.

  11. André Ricardo dezembro 11, 2013 às 3:13 pm Reply

    “Bendita seja uma religião, que derrama no amargo cálice da humanidade sofredora algumas doces e soporíferas gotas de ópio espiritual, algumas gotas de amor, fé e esperança.” – Heinrich Heine
    Concordo Maíra, as vezes me pego pensando como a vida seria mais fácil com uma religião, respostas simples, não precisaria pensar, tudo mastigado pronto pra acreditar cegamente, eu até tentei, estudei e pesquisei diversas religiões, mas nenhuma me convenceu que aquilo que ela pregava era ao menos plausível, muito menos as de base cristã, enfim, um filosofo que me vem a cabeça quando penso em religião é Feuerbach, ele consegue pelo menos pra mim mostrar como a perspectiva materialista lida com a religião, quando ele fala que “Deus é a mais alta subjetividade do homem, abstraída de si mesmo.”. Achei perfeita essa frase, resume bem o que eu acho.

  12. Alex julho 2, 2014 às 2:12 am Reply

    Por quê 42. Alex.

  13. Carolina Kadix maio 21, 2015 às 7:34 am Reply

    sensacional! Seu texto é maravilhoso porque além de muito bem escrito e argumentado, você conseguiu explanar teus pensamentos com respeito a quem for ler. Me sinto maravilhosamente bem ao fim desta leitura e só posso deixar aqui o meu muito obrigada.

  14. Evandro Camargo novembro 5, 2015 às 6:32 am Reply

    Para mim a melhor definição do que é ser ateu de verdade!!!
    “Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não pode esperar que o mundo corresponda às suas fantasias”!!! (Lisiane Pohlmann)

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