Tá tudo bem não entender o que se passa – Texto de Carlos Orsi

EdwardHenryImagem: Edward Henry

Texto de Carlos Orsi
Diretamente de seu blog.

It is okay to say ‘I don’t know’ ” é uma frase fácil de se encontrar em depoimentos de cientistas. Ela reflete o que talvez seja a tensão fundamental do temperamento científico — a coexistência de uma profunda curiosidade e de uma alta capacidade de tolerar incertezas. É normal não entender o que está acontecendo. É melhor saber que não se sabe do que sustentar um falso diagnóstico.

O problema é que conviver com a incerteza agride o que talvez seja um dos impulsos humanos mais fundamentais, a necessidade de controle. Não necessariamente controle dos outros, mas controle das nossas circunstâncias: onde estamos, quem somos, o que podemos esperar do ambiente que nos cerca. Se esses controles fundamentais vão embora, a sensação de segurança desce o ralo e a tentação de fazer besteira atinge níveis insuportáveis.

“Fazer besteira”, no caso, é uma categoria de amplo espectro: pode ser pegar um fuzil e tomar uma meia dúzia de reféns, mas não precisa chegar a tanto. Um artigo publicado em 2008 na revista Science concluía, por meio de uma série de experimentos psicológicos, que a percepção de falta de controle aumenta a probabilidade de uma pessoa “perceber padrões ilusórios, incluindo ver imagens em ruído, encontrar correlações espúrias nos dados do mercado de ações, perceber conspirações e desenvolver superstições”.

Os parágrafos acima foram motivados pela minha experiência das redes sociais nos últimos dias. Entre o quase-linchamento do garoto no Rio, a morte do cinegrafista da Band, a prisão do suspeito dessa morte, na Bahia, e a aparição de “Sininho”, muita gente parece convencida de que tem “algo mais” acontecendo — só não se sabe o quê. Há a percepção de falta de controle, e seus correlatos surgem em seguida: padrões ilusórios, correlações espúrias, teorias de conspiração. E essas são coisas perigosas.

Enquanto eu apurava a reportagem sobre conspirações que escrevi para a Galileu de julho do ano passado, encontrei, seguidas vezes, ensaios e estudos alertando para os riscos do conspiracionismo. A melhor síntese aparece em um texto clássico, o ensaio  The Paranoid Style in American Politics, escrito pelo historiador Richard Hofstadter e publicado originalmente em 1964: “Como um membro da vanguarda que é capaz de perceber a conspiração antes que ela se torne óbvia para o público desavisado, o paranoico é um líder militante. Ele não vê o conflito social como algo a ser mediado e negociado, como o político profissional. Como o que está em jogo sempre é um conflito entre o bem e o mal absolutos, o que é necessário não é negociação, mas a vontade de lutar até o fim“.

O resultado é a desumanização do adversário: o diabo, afinal, não tem direitos. Em seu livro Brainwashing, a neurocientista Kathleen Taylor trata dos mecanismo que levam algumas pessoas a considerar que outras são “torturáveis”. Ela discorre um pouco sobre o que chama de Ideias Etéreas — coisas como Igualdade, Justiça, Deus, Liberdade — e nota que “Ideias Etéreas geralmente vêm manchadas de sangue. Valorizadas acima da vida humana, facilitam os processos pelos quais, primeiramente, os fins passam a justificar os meios e, em segundo lugar, as pessoas que não aceitam a supremacia da ideia passam a ser vistas como menos que humanas“.

A confluência entre um clima de paranoia e discursos recheados de Ideias Etéreas é uma receita de tragédia — ou, no mínimo, de grandes bobagens. Daí o apelo desta postagem: entre a tentação de comprar uma teoria conspiratória toda feita de viés de confirmação e admitir que não se sabe WTF está acontecendo, o mais saudável, para a sociedade e a democracia, é a segunda alternativa.

Claro, alguém poderia dizer, o fato de você ser paranoico não quer dizer que “eles” não estejam mesmo querendo lhe pegar — e, bolas, sem um modelo global do que está acontecendo, como é possível agir? como posicionar-se? Seria este artigo parte de uma conspiração para promover a apatia?

Minha suspeita é de que, no cenário em que vivemos, a busca por um “modelo global” é exatamente o que paralisa: num clima de incerteza e de ânimos acirrados, apenas a visão pontual é eficaz. E o que é visão pontual? Coisas assim: matar é crime; destruir patrimônio público ou privado é crime; criminosos devem ser punidos; pessoas só devem ser consideradas criminosas e punidas quando houver prova suficiente; a punição deve se dar dentro da lei; abuso de poder policial deve ser coibido; castrar a democracia, proibindo manifestações de rua ou cerceando a liberdade de expressão, é errado.

Cada uma das proposições acima é “óbvia”, mas todas elas vêm sendo desafiadas, ou relativizadas, por conta dos “modelos globais” conspiratórios que andam emergindo. Uma hora é preciso calar a boca dos “fascistas”; noutra, é preciso “castigar marginalzinho” à revelia da lei que, afinal, “só passa a mão na cabeça de bandido”. E ir à rua para xingar o governo, a Fifa ou a Coca-Cola é “terrorismo”.

Assim, pelas beiradas, as proposições fundamentais da convivência democrática vão sendo atacadas em nome de alguma Ideia Etérea — Ordem, Justiça, Paz — e do combate a alguma conspiração totalizante do Mal. É oquei não entender a “conjuntura”. Mas é importante entender o que está em jogo.

 

 

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