Menino ou menina?

Imagem: Google Images

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Escrevo esse texto diante da notícia de um amigo que infelizmente mora longe e foi expulso de casa por ir à universidade de saia. Escrevo esse texto sem ser mãe e sem a pretensão de ter filhos. Meu sexo biológico é feminino e meu gênero também – mas e se não fosse? Escrevo esse texto pela humanidade que palpita em mim, pelo meu desejo de compartilhar a existência com pessoas que querem ser melhores do que são. Escrevo porque desejo mãos dadas.

Antes mesmo do nascimento, somos preparados para um encaixe quase perfeito: as meninas recebem seus primeiros presentes, as bonecas e as roupas cor-de-rosa. Os meninos, ao contrário, têm suas primeiras roupas azuis e já lhes escolhem um time. As meninas são esperadas cheias de delicadeza. Os meninos, cheios de garra. Quando chegam os bebês dos amigos, vamos logo dizendo: “Vai ser namoradinho da Fulaninha”. E isso, claro, é um processo comum.

Mas os filhos crescem. E crescem rápido. E se, de repente, “sem prévio aviso”, seu filho virasse pra você e dissesse: “Mãe/Pai, não me sinto bem neste corpo”? E se tudo o que você planejou de melhor, nas suas cores específicas, nos seus brinquedos específicos, na sua educação específica, simplesmente deixasse seu filho deslocado? Eu sei, eu sei: você aceita que isso aconteça com os filhos dos outros, não com o seu. “Eu não tenho preconceito, MAS prefiro que meu filho não tenha *problema (problema?)* de gênero”. Eu não tenho preconceito, mas…

Aí entram os discursos: a religião discrimina, a escola discrimina, os amigos discriminam, e fica você aí, parado(a) diante de uma situação aparentemente sem solução. Você não quer que seu filho sofra, mas também não quer assumir o risco. Em um mundo de Bolsonaros, como é que posso aceitar essa diferença? Como posso considerar que eu, tão “normal”, seja mãe /pai de alguém tão diferente assim? Você fez planos: os planos são seus.

Diferente nada. O filho não deixa de ser filho e os pais não deixam de ser pais. É melhor permitir que seus filhos cresçam felizes e saudáveis, ou viver na espreita do que pensam os outros? A vida, meu bem, até que se prove o contrário, é única. Ú-n-i-c-a. Não há tempo a perder na amarra do preconceito cego e cada um é o que é. Você amadurece na maternidade/paternidade. Seus filhos, nas experiências compartilhadas. É uma equação simples: você perde o preconceito e ganha alguém que, além de seu filho, é seu fiel amigo. Que tal?

Alguns apelam para “a moral e os bons costumes”, mas espere aí: seu filho será menos ético, menos moral, menos incrível porque não se sente bem com seu sexo biológico? Não adianta tentar a negação com a desculpa de “evitar dores do mundo”: a pior dor é a não-aceitação do que se é. Sejamos melhores pais, melhores irmãos, melhores colegas. Sejamos capazes de olhar o outro como um ser não acabado, cheio de descobertas, medos e anseios. Cheios de vida.

Eduque seus filhos para que sejam pessoas de bom caráter, capazes e guerreiras. Eduque para serem livres das amarras que, aqui e ali, nos deixam inertes. Que saibam respeitar as diferenças e até admirá-las. A vida é colorida, e não há no mundo duas pessoas iguais. Que namorem quem quiserem, que amem quem quiserem, que sintam tesão por quem quiserem, e tenham sempre um colo pra voltar: o seu. SE aceite para aceitá-lo.

Viver e deixar viver.

Post scriptum: excelente vídeo aqui – http://www.youtube.com/watch?v=98SnqA51jxQ

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2 pensamentos sobre “Menino ou menina?

  1. André Ribeiro de Oliveira maio 20, 2014 às 3:31 pm Reply

    Excelente texto! Parabéns!

  2. Vinícius Justo maio 21, 2014 às 12:40 am Reply

    Curti Curti! Ótima escrita. Sucinta e suficiente para nos remeter à uma [in]conveniente reflexão! 😀

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