A ficção e os instintos: por que as histórias de violência e vingança nos atraem tanto?

Imagem: DeviantArt

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Navegando distraída pela internet, encontrei um excelente texto sobre nossa atração pela violência. Resolvi replicá-lo aqui, muito embora se trate de um post longo.

Texto de Camilo Gomes Jr. em Ontogenia literária

Em Hamlet, de Shakespeare, o personagem-título da peça diz que o propósito da dramaturgia poética — e da literatura, por extensão —, é «apresentar o espelho à natureza, mostrando à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma» (Hamlet, ato III, cena 2). Ora, é claro que as narrativas de nossos tempos mudaram muito em relação às que se escreviam há dois, cinco mil anos, bem como também mudaram nossos critérios de valorização de uma obra literária — motivo pelo qual nem todo texto fictício é hoje consensualmente tido por «literário» ou por «boa literatura». Porém, há um detalhe que permaneceu imutável, ao longo de todos esses séculos: a literatura continua a cumprir aquela função de exibir o espelho à natureza humana. Em alguns textos, aliás, o reflexo é tão nítido, tão escancarado de fato, que torna mais fácil para o ser humano identificar nele a própria imagem, ou antes, a imagem de seu animal interior. Ao passo que noutros o reflexo vem distorcido de forma deliberada pela engenhosidade do autor, fazendo-se mais difícil notá-lo, exigindo mais aguda percepção e atenção do leitor para que se o enxergue. 

Como qualquer amante das letras o poderá confirmar, embora tramas fictícias se multipliquem em narrativas o mais diversas possível, e os estilos e movimentos literários mudem e se influenciem uns aos outros ao longo do tempo, o fato é que não só a literatura permanece, como nela também insistem em persistir temas antigos e triviais — os quais são reciclados e repetidos um sem-número de vezes, sem que essas incontáveis recorrências façam esmaecer-se sua capacidade de fascinar as pessoas, nas mais diversas culturas. Temas que ainda são degustados, como se exibissem o doce frescor da novidade, sempre. E a indagação que se faz é justamente por que essas questões ainda nos encantam ou interessam tanto. Quer dizer, por que fomos e somos sempre tão atraídos por temas nada originais como amor sexo, por exemplo, ao ponto de fazermos destes, invariavelmente, apostas quase certeiras para os best-sellers de ontem e de hoje, em quaisquer cantos da Terra? Por que a temática religiosa e de autoajuda ainda apela fortemente a tantos leitores que só esse tipo de textos consomem, vorazes? Por que livros espíritas vendem tanto? Por que, enfim, dentre as histórias que sempre nos despertam interesse, são tão frequentes os motes traiçãomorte, vida após a mortehonracoragem, esperança, perseverançalaços familiaressuperação de adversidadesconquista de poder e statusconquista ou manutenção liberdade?

Ora, é claro que nosso apreço por narrativas tem muito a ver com os sentimentos, a racionalidade e a percepção — até o momento, incomparáveis — que nos distinguem no reino animal. Tem muito a ver ainda com os valores morais que essas faculdades nos permitiram conceber e cultivar. Entretanto, há também algo mais profundo nessa realidade — enraizado em nossos mais primitivos instintos, é o que quero dizer. Algo que partilhamos com outras espécies e que nos precede na história evolutiva. Sem dúvida, a traição e os ciúmes, por exemplo, interessam-nos por diversas razões. Mas uma destas é justamente porque tais comportamento e sentimento estão relacionados com a natureza sexuada de nossa reprodução e com os imperativos biológicos que pressionam para a perpetuação dos genes de cada indivíduo. Motivos outros, de caráter cultural, simplesmente não excluem esse — natural, elementar.

Isto é, podemos racionalizar e reelaborar, ou desconstruir, os conceitos culturais de traição e ciúmes. Podemos erguer ainda mais suas muralhas e reforçar suas estruturas, ou, pelo contrário, demoli-las, colocar tudo abaixo, sem dó nem piedade. Podemos fazê-lo pelo simples motivo de que não nos é impossível colocar a razão acima dos instintos. Fácil não é, com certeza; mas tampouco é impossível. Só não devemos supor, por conta disso, que seja possível extirpar de nós, apagar de nossos genes, aquilo que, em nível tão elementar, inspira o comportamento traiçoeiro e o sentimento de ciúme. O animal humano, nosso símio interior, nós sempre o trazemos por sob a pele de civilidade e racionalidade com que aprendemos a nos revestir nos últimos milênios. Até porque o sucesso da sociedade que criamos depende de que assim seja: de que se mantenha a besta acorrentada.

Entendam: não é que, para mantermos uma bem-sucedida a experiência social, precisemos — para usar dois conceitos freudianos tão popularizados quanto superados — que o id seja sufocado de uma vez por todas, enquanto o império tirânico e conservador do superego vigore sem ser ameaçado. Enquanto formos humanos, enquanto, quem sabe, não transitarmos para um estágio futuro de fusão com as máquinas, os instintos serão parte indelével de nós, do que nós somos. Entretanto, é necessário que sejam submetidos à censura dos juízos morais e do pensamento consequencial, os quais também desenvolvemos de forma universal (ainda que o conteúdo da moralidade construa-se culturalmente). Afinal, para a manutenção da ordem social nos grupos humanos, como bem sabemos, um homem não deve abordar e estuprar uma jovem atraente avistada na rua, apenas porque se sentiu impelido a fazê-lo por um instinto poderoso, que o encheu de desejo. Do mesmo modo, não deve matar outra pessoa para tomar algo cobiçado que ela possua, só porque se veja estimulado no sentido contrário por um instinto egocêntrico que as pessoas são ensinadas a domar desde a infância, o qual inspira a pegar o que se queira, a todo custo.

Creio que está bem clara a mensagem. Vários são os instintos do mundo do ser que se revelam subjacentes aos conceitos morais do mundo do deve-ser, não porque os valores morais e éticos advenham do que se encontra no mundo natural, ou encontrem neste validade — conclusão equivocada, apropriadamente conhecida como falácia naturalista. A questão é que as regras do deve-ser são constructos socioculturais que permitem lidar com o que de mais daninho há no ser natural do homem. E não fosse assim, a sociedade seria impossível. 

A ficção e o instinto

Dito isso, cumpre perguntar: e o que a ficção tem a ver com toda essa história? Bem, o fato é que a ficção parece desempenhar um interessante papel na dinâmica pela qual o homem doma sua fera interior — ainda que esse papel não seja, obviamente, a única função da literatura que se possa reconhecer, salientar e valorizar. Hoje, já há estudos demonstrando que as artes, em geral, e a literatura, em especial, oferecem meios de criar uma identidade social compartilhada, bem como ajudam a produzir e manter laços humanos (cf. BOYD, Brian. On the origins of stories. Cambridge, MA: Belknap Press of Harvard University Press, 2009; DISSANAYAKE, Ellen. Art and intimacy. Seattle, WA: University of Washington Press, 2000). Além disso, as artes e a literatura auxiliam na organização da mente humana, conferindo-lhe modelos da realidade modulados estética e emocionalmente (cf. CARROLL, Joseph. Literary Darwinism. New York: Routledge, 2004; DUTTON, Denis. The art instinct. Oxford: Oxford University Press, 2009). Acontece que muito disso é possível porque nossas complexas capacidades cognitivas acabaram nos conferindo uma faculdade autoilusória muito interessante: a fantasia.

A realidade em que nos vemos inseridos, de forma não voluntária, pode decerto impor limites à nossa vida prática, mas seu poder restritivo não alcança a imaginação. Na esfera desta, pobres que penam dia e noite a fim de conseguirem o que comer, por exemplo, simplesmente podem ser ricos, podem imaginarem-se ricos, vivenciar por alguns instantes de consciente autoengano os prazeres dessa «realidade» material mais confortável, pelo simples fato de que a mente reage de forma bastante similar tanto perante o fantasioso quanto perante o realEla não raro responde a um como se o outro fosse. Ora, é claro que chega o momento em que a realidade de fato se impõe, e a fantasia já não mais se sustenta. Mas ela pode, sim, funcionar de modo a fornecer doses diárias de alívio ilusório. Um tipo de escapismo que, para uns, diminui a dor da vida real, dura e infeliz; para outros, traz injeção de ânimo, de esperança de se obter um dia o que ainda não foi possível conseguir; para ainda outros, conforta perante a desilusão ou permite extravasar emoções reprimidas no mundo «aí fora», o que possibilita lidar com o medo, com a raiva, com a inveja etc.

A fantasia e a ficção, assim, criam um espaço de realização não só para nossos desejos e esperanças, mas também um campo para a catarse e para o impune extravasamento de nossos instintos socialmente reprimidos. O que é deveras interessante, em especial, quando alguns estudos em psicologia destacam que «a maioria das pessoas já teve o pensamento de matar alguém num ponto ou noutro da vida», ainda que, felizmente, «a maioria não aja segundo esses pensamentos» (BUSS, David. The Dangerous Passion. Nova York: The Free Press/Simon & Schuster, 2000, p. 128, tradução minha). A verdade, a propósito, como bem enfatizado pelo Dr. David Buss, é: «Pensamentos homicidas são milhares de vezes mais comuns do que assassinatos reais» (id., ibid.). Ou seja, a maioria dos humanos fantasia que estão fazendo coisas violentas, sádicas, cruéis, até mesmo homicidas, contra outras pessoas, por motivos bastante pessoais, não raro banais até; porém, poucos dos que concebem tais cenários imaginários passam do pensamento à ação. Isso porque, cientes das possíveis consequências de tais atos, o simples processo de vivenciarmo-los em nossas mentes, em muitos casos, já sacia ou alivia esses impulsos violentos ou assassinos do primata que urra e soca o peito, dentro de nós.

A esse respeito, podemos notar que um autor, ao escrever uma obra ficcional, muitas vezes deixa nela parte de seus próprios pensamentos violentos, que se esvaem em meio à trama que compõe. Em alguns casos, é uma explícita sessão de exorcismo a que ele se submete ao escrever. Um exemplo bem conhecido é Stephen King, dentre cujos vários best-sellers destaca-se o romance Carrie (1974), no qual a garota desajustada (e paranormal) que dá nome ao livro vinga-se com extrema violência dos colegas de colégio que a submetiam ao bullying. Discorrendo sobre a vida e a obra do autor — que não ocupa o panteão dos grandes escritores americanos canonizados pela crítica, mas que goza de imensa popularidade e tem reconhecida boa técnica narrativa —, o Prof. Tony Magistrale, da Universidade de Vermont, afirma: «escrever é uma atividade que mantém Stephen King inteiro, equilibrado psicologicamente; é um meio de exorcizar seus demônios pessoais» (MAGISTRALE, Tony. Stephen King: America’s Storyteller. Santa Barbara, CA: ABC-CLIO, 2010, p. 23, tradução minha). E o fato é que, não só nas obras de King, mas também nas de outros tantos autores de best-sellers — e ainda em muitos clássicos da alta literatura de ontem e de hoje —, o animal humano desfila por páginas e páginas a fio. Essa criatura violenta e egocêntrica, que, no mundo real, vivemos a vida aprendendo a domar em prol da coexistência social, ali, na literatura, não apenas desperta o interesse do escritor que lhe solta as amarras e deixa-a às soltas no mundo ficcional; essa criatura também cativa quem apenas lê a história criada.

O fascínio pela violência na ficção

Deveríamos nos perguntar por que pessoas racionais, pacíficas em seus modos de vida, defensoras sinceras dos direitos humanos, ainda assim, conseguem encontrar prazer, por exemplo, na ação intempestiva de Hamlet, quando este faz seu tio Cláudio tomar à força a taça letal de veneno, para vingar a morte de seu pai, ou enquanto Edmond Dantès vai destruindo sem piedade a vida de todos os que o fizeram ir para a prisão, em O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas (pai), ou ainda quando Heathcliff leva à ruína aqueles que o humilharam quando criança e impuseram um barreira de classes entre ele e Catherine, seu platônico amor juvenil, em O Morro dos Ventos Uivantes, de Emily Brontë. Isto é, por que nos deliciamos tanto com histórias de vingança, ao ponto de este ser, dentre os motes mais comuns na literatura, um dos mais recorrentes, desde a Ilíada, de Homero, à novela Rape: a Love Story [Estupro: uma História de Amor], de Joyce Carol Oates; desde Os Miseráveis, de Victor Hugo, a Memorial de Maria Moura, de Raquel de Queiroz? Por que conseguimos, alguns de nós pelo menos, até mesmo nos solidarizar com a vingança sádica e egocêntrica promovida por personagens como o protagonista do excelente conto «Venha Ver o Pôr-do-Sol», de Lygia Fagundes Telles, assim como com a do protagonista de «O Barril de Amontillado», conto de Edgar Allan Poe, que o de Lygia busca homenagear?

A questão é que nós, humanos, trazemos um forte impulso retributivista cujas raízes nos precedem enquanto espécie. É um instinto que partilhamos com diversos outros animais na natureza, dada nossa história evolutiva comum. Realmente, não faltam casos de comportamentos punitivos muito semelhantes aos nossos entre os animais, em geral em espécies de elevada sociabilidade — nas quais, a ação que se pune é claramente contrária ao interesse coletivo do grupo. Para citar um exemplo, entre os ratos-toupeira pelados (Heterocephalus glaber), as rainhas parecem estimular ataques contra os indivíduos que são mais preguiçosos no cumprimento dos trabalhos essenciais à colônia (vide: REEVE, Hudson. Queen activation of lazy workers in colonies of the eusocial naked mole-rat. NatureLondres: Nature Publishing Group, v. 358, p. 147-148, jul. 1992). Ao passo que, em algumas espécies de lobos, entre os quais são habituais as lutas simuladas, aqueles que se excedem na brincadeira, machucando outros, são geralmente punidos com nada menos que o isolamento social. Uma reação típica a esse violento descontrole. No fim, aos lobos assim punidos, não resta senão deixarem o grupo, e a dura realidade é que esses excluídos acabam morrendo numa taxa muito acima da média (vide: BEKOFF, Marc. Wild justice, cooperation, and fair play: minding manners, being nice, and feeling good. In: SUSSMAN, Robert; CHAPMAN, Audrey [Org.]. The origins and nature of sociality. Nova York: Aldine de Gruyter, 2004, p. 53-80).

Sim. A vingança, a retaliação, é muito comum na natureza. E é comum entre os primatas, dentre os quais nos incluímos. Não é por acaso, aliás, que as mais primitivas formas de punição criadas nas antigas sociedades sempre tiveram um forte caráter retributivista. Tampouco é coincidência que, mesmo nos dias atuais, diante de esmagadoras estatísticas que demonstram que a pena de morte não é eficaz na dissuasão social da criminalidade, tantas pessoas ainda optem, de forma mais passional do que racional, por sua manutenção onde ainda é executada ou por sua implementação onde ela não vigora, como no Brasil, por exemplo. Não é coincidência nem sequer a falta de razoabilidade nos discursos de defesa dessa política de «olho por olho», ignorando-se deliberadamente os dados refutadores, já que não é a voz da razão que se ouve, mas os urros primitivos do símio prisioneiro de uma mente racional e moral, da qual ele quer se libertar.

Sem dúvida, essa sanha irracional nos acompanha e nos acompanhará por sabe-se lá quanto tempo mais. E é muito difícil viver nesta condição ambígua de ser pensante e cultivador de valores, e de macaco egocêntrico e retaliador, que sente ganas de resolver todos os problemas por via das ações mais brutais. É a condição humana — fazer o quê? O ponto relevante aqui é que a literatura — e, hoje, também e sobretudo, o cinema, que muitas vezes leva à telona adaptações de obras literárias — tem oferecido a essa dimensão primitiva de nós, como já foi dito, um palco para sua catarse. Se temos um assassino, um sádico, um pilantra egoísta enterrado dentro de nós, estes podem encontrar uma esfera onde expressar o «melhor» de si — isto é, em muitos casos e aspectos, o que há de pior nos humanos que somos. 

O curioso nesse procedimento, no entanto, é que, enquanto nos refugiamos nessas «realidades paralelas», não é apenas que passemos a concordar, sem hesitação ou remorso, com a «justiça» que o herói ou a heroína resolve fazer pelas próprias mãos, contra seus algozes. Na verdade, quando nos permitimos adentrar o mundo alternativo da ficção, também chegamos ao ponto de inverter por completo nossos valores morais e… torcer pelos vilões. O que não é nada raro de acontecer. Por isso há, em todo o mundo, por exemplo, um número tão grande de fãs confessos do Dr. Hannibal Lecter, o sofisticado psicopata canibal que protagoniza os romances Dragão Vermelho (1981), O Silêncio dos Inocentes (1988) e Hannibal (1999), de Thomas Harris, e que foi brilhantemente encarnado no cinema por Anthony Hopkins. Por isso acabamos simpatizando com o inescrupuloso, farsante, interesseiro e assassino Tom Ripley, da série de romances policiais O Talentoso Ripley (1955), Ripley Subterrâneo (1970), O Jogo de Ripley (1974), O Garoto que Seguiu Ripley (1980) e Ripley debaixo d’Água (1991), de Patricia Highsmith. E não preciso nem falar do sucesso que faz o personagem Dexter Morgan, o psicopata serial killer justiceiro, surgido em 2004, no romance Dexter: A Mão Esquerda de Deus, de Jeff Lindsay — o livro inspirou uma série de TV que se tornou um fenômeno de audiência no mundo todo. Neste caso, aliás, nem nos incomoda o fato de que Dexter não mata «para fazer justiça» — o que estaria mais em consonância com nosso retributivismo primitivo —, mas, sim, aprendeu a adequar sua patológica necessidade de matar a um código moral que seu pai adotivo ensinou-lhe ser «o certo»: se precisa mesmo matar alguém para saciar esse desejo sombrio, que ao menos seja um criminoso impune pelo Estado.

Em tempo, eu gostaria de salientar que alguns escritores aclamados pela crítica também concebem personagens sinistros como esses. Porém, justamente pelo reconhecido talento que têm, conseguem fazê-lo com um nível de complexidade tamanho, que são capazes de provocar ao mesmo tempo os dois lados de cada um de nós — o instintivo e violento, e o racional e moral —, fazendo-os colidir e causando-nos uma sensação de desconfortável interesse por tais figuras. Curiosamente, os que talvez sejam os dois mais extraordinários exemplares desse tipo na literatura foram concebidos por um mesmo gênio criativo. Um autor aclamado como um dos maiores escritores da literatura norte-americana dos últimos cem anos, a saber: Cormac McCarthy.

Em seu monumental Meridiano de Sangue (1981) — descrito por Harold Bloom como «o autêntico romance apocalíptico americano, até mesmo mais relevante no ano 2000 do que era quinze anos atrás» (BLOOM, Harold. How to Read and Why. Nova York: Scribner, 2000, p. 254, tradução minha) —, somos apresentados ao Juiz Holden. Trata-se de uma criatura tenebrosa, de discurso acentuadamente racional e erudito, que, de forma paradoxal, encarna toda a violência animalesca e crua que o enredo apresenta em inúmeras de suas páginas. 

Holden é uma criatura demoníaca. Tem mais de dois metros e dez de altura (apesar das mãos e pés diminutos, femininos) e o corpo completamente desprovido de pelos, inclusive cílios e sobrancelhas. Domina várias línguas e viajou pela Europa, enquanto a maioria da tropa mal articula frases completas. Possui conhecimentos científicos e registra em uma caderneta que traz nos bolsos desenhos e anotações sobre a fauna e flora. Polido, sedutor, manipulador, seja numa festa dançando e tocando violino ou escalpelando vítimas, afogando filhotes de cães por prazer e degolando uma criança sem qualquer motivo, age com a mesma arrogância, seguro de sua imortalidade. Quando Holden fala, costura na trama um discurso teológico e filosófico que chega a contrastar com a linguagem primitiva de Meridiano (SALATIEL, José R. Desertos Vermelhos, Jornal Rascunho, nº 188, fev. 2010, p. 19).

 

Noutra obra de McCarthy, aparece mais uma figura pavorosa, fria, gratuitamente violenta. Capaz de provocar uma importuna dissonância cognitiva em nós, leitores, mesmo tão acostumados que estamos a admirar seres amorais e assassinos na ficção e a ficar do lado deles em muitos casos. Refiro-me a Anton Chigurh, o matador psicopata do romance Onde os Velhos não têm Vez (2005) — obra adaptada para o cinema, em 2007, com o título de Onde os Fracos não têm Vez, e que trouxe Javier Bardem numa premiadíssima interpretação do vilão, hoje listado como um dos mais tenebrosos da história do cinema.

Figuras como o Juiz Holden e Anton Chigurh podem promover uma incômoda ruptura em nosso ser ambíguo, enquanto pairamos como testemunhas oniscientes dos eventos que se desenrolam no mundo diegético, fictício. De um lado, uma nossa dimensão primitiva inspira racionalizações que buscam justificar de algum modo as ações violentas descabidas desses personagens — é aquela parte de nós que busca a catarse. Do outro lado, nosso lado moral e razoável, surge a repulsa incontinente perante a banalidade absurda com que a vida é descartada. Perante a brutalidade que o ser humano traz dentro de si e que pode descarregar contra outra pessoa com a mais arrepiante frieza. É o que sentimos, por exemplo, diante de cenas como as do massacre de uma aldeia indígena, descrito por McCarthy em Meridiano de Sangue — com seu conhecido estilo fluido de prosa, em que a narrativa rola quase sem pausas, como a ação, deslizando por sobre vários «e» repetidos, que ecoam os «et» anafóricos de textos latinos medievais, como a Vulgata de São Jerônimo:

Quando Glanton e seus oficiais voltaram à carga contra a aldeia as pessoas fugiam sob os cascos e os cavalos empinavam e pisoteavam e alguns dos homens apeados corriam entre as cabanas com tochas e arrastavam as vítimas para fora, lambuzadas e pingando sangue, golpeando os moribundos e decapitando os que se ajoelhavam pedindo clemência. Havia no acampamento uma certa quantidade de escravos mexicanos e estes saíram correndo gritando em espanhol e tiveram a cabeça esmagada ou foram abatidos com tiros e um dos delawares emergiu da fumaça segurando um bebê nu em cada mão e se agachou junto a um círculo de pedras com restos de comida e os balançou pelos calcanhares um de cada vez e esmagou suas cabeças contra as pedras de modo que os miolos espirraram pela fontanela em um vômito sanguinolento e humanos pegando fogo corriam dando guinchos como berserkers e os cavaleiros os abatiam com seus facões e uma jovem correu e abraçou as patas dianteiras ensanguentadas do cavalo de batalha de Glanton (McCARTHY, Cormac. Meridiano de Sangue. Rio de Janeiro: Objetiva/Alfaguara, 2009, p. 166). 

Na literatura brasileira, cena semelhantemente repugnante, pelo vandalismo e a violência extremados, aos quais a linguagem chula e coloquial do narrador dá contornos de um assombroso realismo, é a que encontramos no livro Feliz Ano Novo, de Rubem Fonseca. No conto que dá nome ao livro, moleques fortemente armados, dentre os quais o narrador, invadem uma mansão de bairro nobre do Rio, na véspera de ano novo, durante uma comemoração em família. O grupo espalha o terror no local. A certa altura, depois que um dos invasores estupra e mata uma jovem, o narrador passa à seguinte descrição dos fatos: 

Subi. A gordinha estava na cama, as roupas rasgadas, a língua de fora. Mortinha. Pra que ficou de flozô e não deu logo? O Pereba tava atrasado. Além de fudida, mal paga. Limpei as joias. A velha tava no corredor, caída no chão. Também tinha batido as botas. […] Arranquei os colares, broches e anéis. Tinha um anel que não saía. Com nojo, molhei de saliva o dedo da velha, mas mesmo assim o anel não saía. Fiquei puto e dei uma dentada, arrancando o dedo dela. Enfiei tudo dentro de uma fronha. O quarto da gordinha tinha as paredes forradas de couro. A banheira era um buraco quadrado grande de mármore branco, enfiado no chão. A parede toda de espelhos. Tudo perfumado. Voltei para o quarto, empurrei a gordinha para o chão, arrumei a colcha de cetim da cama com cuidado, ela ficou lisinha, brilhando. Tirei as calças e caguei em cima da colcha. Foi um alívio, muito legal. Depois limpei o cu na colcha, botei as calças e desci.

[…]

Como é seu nome?

Maurício, ele disse.

Seu Maurício, o senhor quer se levantar, por favor?

Ele se levantou. Desamarrei os braços dele.

Muito obrigado, ele disse. Vê-se que o senhor é um homem educado, instruído. Os senhores podem ir embora, que não daremos queixa à polícia. Ele disse isso olhando para os outros, que estavam quietos apavorados no chão, e fazendo um gesto com as mãos abertas, como quem diz, calma minha gente, já levei este bunda suja no papo. 

Inocêncio, você já acabou de comer? Me traz uma perna de peru dessas aí. Em cima de uma mesa tinha comida que dava para alimentar o presídio inteiro. Comi a perna de peru. Apanhei a carabina doze e carreguei os dois canos.

Seu Maurício, quer fazer o favor de chegar perto da parede? Ele se encostou na parede. Encostado não, não, uns dois metros de distância. Mais um pouquinho para cá. Aí. Muito obrigado.

Atirei bem no meio do peito dele, esvaziando os dois canos, aquele tremendo trovão. O impacto jogou o cara com força contra a parede. Ele foi escorregando lentamente e ficou sentado no chão. No peito dele tinha um buraco que dava para colocar um panetone.

Viu, não grudou o cara na parede, porra nenhuma (FONSECA, Rubem. Feliz ano novo, Feliz Ano Novo. Rio de Janeiro: Editora Artenova, 1975, p. 13-14).

Em casos como esses, quando a literatura nos leva ao mundo dos instintos plenamente liberados e nos faz dar de frente com a face horrenda do monstro, já não ocorre a catarse. Já não há o livre extravasamento de nosso lado antissocial e amoral/imoral, tal como o encontramos diante de tantas outras obras. Mas há a reflexão provocada pelo choque, pelo estranhamento. Aqui, a literatura mostra-se capaz de provocar a mente, levando-a a repensar o mundo e a vida. Nisto, ela nos faz crescer, amadurecer. Nos outros casos, de catarse, a ficção permite transportar para outra dimensão nossa violência, vingança e egoísmo primitivos, que, na vida real, podem e devem ser mantidos sob as rédeas da razão e da moral. Num grau de restrição tal que torne possível coexistirmos pacificamente uns com outros, amarmos de forma saudável e respeitosa, saciarmos a libido sem violação do consentimento alheio, reconhecermos nos outros a titularidade dos mesmos direitos que reivindicamos para nós mesmos. Não que a ficção seja a resposta para nossas desgraças.  Ela não tem esse poder. Mas pode sim ser uma ferramenta auxiliar, um mecanismo saudável, que nos ajude a satisfazer essa criatura antissocial, a dar-lhe vasão, realizar seus desejos e caprichos, sem que o mundo real seja obrigado a pagar o preço de ver abertas as jaulas dos símios que há dentro de nós.

 

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