Celebrando o mistério

 

Imagem: Google

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Texto de Marcelo Gleiser,
publicado na Folha de São Paulo
e replicado n’O sorriso do gato de Alice

Mistério parece ser palavra antitética à ciência. Afinal, não é a ciência que nos livra desse tipo de crença, de que a realidade é envolta num véu de mistério? Temos que tomar cuidado com o que significa mistério, e como a ciência lida com o desconhecido.

Mistério não implica algo sobrenatural. Por mistério, quero dizer aquilo que está além do conhecido. A questão essencial é se o que está além do conhecido é conhecível ou não. Ou seja, será que existem aspectos do mundo natural que estão fora do alcance da ciência? Será que existem questões que, apesar de serem científicas, não têm resposta? A resposta, talvez chocante, é um categórico “sim”.

Para entendermos isso, devemos começar do começo, analisando como funciona a ciência. É claro que, nesse espaço, posso apenas esboçar alguns dos argumentos. Mas já é alguma coisa.

A ciência pode ser vista como um processo de amplificação da nossa percepção. Nossos cinco sentidos são como antenas, que captam diferentes aspectos da realidade física à nossa volta: vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos, degustamos. O cérebro é um sistema excepcionalmente complexo de integração, que sintetiza os estímulos que captamos do mundo e cria a noção de realidade.

Por outro lado, sabemos que nossa percepção do mundo é limitada: o que vemos e ouvimos, por exemplo, é mera fração do que existe “lá fora”;. Por isso nossa construção da realidade, baseada nos cinco sentidos, é profundamente limitada. O mundo é muito mais do aquilo que somos capazes de perceber.

Aqui entra a ciência, com seus instrumentos de exploração. São eles que usamos para ampliar nossa percepção do real, vendo mais longe e com mais detalhes, ouvindo o que nossos ouvidos não ouvem, estendendo o mundo muito além do que nossos cérebros captam. Com isso, vemos muito mais da realidade: mundos a bilhões de anos-luz daqui, bactérias e moléculas invisíveis aos olhos, partículas elementares numa dança constante de criação e destruição, fenômenos cósmicos que ocorreram quase que na origem do próprio tempo. Vemos tudo isso, mas não vemos tudo.

Todo instrumento de exploração tem um determinado alcance, uma determinada precisão. Com um bom par de binóculos, podemos ver quase tão bem quanto Galileu viu com seu telescópio em 1609. Vemos crateras e montanhas na Lua, fases em Vênus, as quatro maiores luas de Júpiter etc. Mas não vemos galáxias. Para isso, precisamos de telescópios maiores. E mesmo estes têm os seus limites. Vemos cada vez mais da natureza, mas nunca o suficiente, e certamente nunca veremos tudo. Existe sempre um véu em torno da nossa percepção do mundo.

Fora essa limitação instrumental, a própria natureza oferece barreiras ao conhecimento: a velocidade da luz implica que só podemos conhecer uma parte do Universo, aquela contida no "horizonte", definido como a distância máxima que a luz viajou desde o Big Bang, 4 bilhões de anos atrás. O Universo continua após o horizonte, mas está além da nossa percepção.

Assim como a velocidade da luz, existem outros limites naturais, que confirmam a existência do mistério à nossa volta. Quanto mais cresce a Ilha do Conhecimento, mais cresce a sua periferia, que delimita a dimensão da nossa ignorância, a barreira entre o conhecido e o desconhecido.

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Marcelo Gleiser é professor de física e astronomia do Dartmouth College, em Hanover (EUA). É vencedor de dois prêmios Jabuti.

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