A lei de Talião revisitada

Imagem: Flickr s/n

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[Este post foi escrito a quatro mãos: escrevi junto com a Thiara Tezza, do blog Couro velho pra tambor.]

“Quem luta com monstros deve velar para que,
ao fazê-lo, não se transforme também em monstro.
E se tu olhares durante muito tempo para o abismo,
o abismo também olha para dentro de ti.”
(Friedrich Nietzsche)

Discursos, muitas vezes com a participação de minorias historicamente oprimidas, assumem a posição que, até bem pouco, pertenciam aos que os subordinavam. A contemporaneidade foi surpreendida pela banalidade de que “quem até agora sofreu está legitimado a fazer sofrer”. E não são poucos os indivíduos que chamam para si este discurso: a mesma mulher, objetificada pelo homem tradicional, transferiu para si o direito de adornar-se do sexo oposto. Os disparates que até ontem ofendiam, hoje, são utilizados feito prática revanchista.

Não é raro que o argumento utilizado seja o de que a “opressão dos oprimidos” e a “opressão dos opressores” são diferentes – e sem dúvida o são, porque opressores e oprimidos trocam de lugar. No entanto, legitimar a coerção por motivos sentimentais é acreditar que há algo mais válido de um lado que de outro e abdicar do nosso senso de alteridade. Quando as “turbas” se fecham para dizer ao outro o que ele pode ou não fazer a partir do que vivi, a intenção não é mais que emocional: posso fazer porque um dia a parcela da população que ele representa atuou contra a parcela da população por mim representada. Por que fazer o mesmo, então?

Diante da problemática do “eles versus nós”, vale lembrar o que disse Contardo Calligaris sobre as turbas:

 As turbas servem sempre para a mesma coisa. Os americanos de pequena classe média que, no Sul dos Estados Unidos, no século 19 e no começo do século 20, saíam para linchar negros procuravam só uma certeza: a de eles mesmos não serem negros, ou seja, a certeza de sua diferença social. O mesmo vale para os alemães que saíram para saquear os comércios dos judeus na Noite de Cristal, ou para os russos ou poloneses que faziam isso pela Europa Oriental afora, cada vez que desse: queriam sobretudo afirmar sua diferença. Regra sem exceções conhecidas: a vontade exasperada de afirmar sua diferença é própria de quem se sente ameaçado pela similaridade do outro. No caso, os membros da turba gritam sua indignação porque precisam muito proclamar que aquilo não é com eles. Querem linchar porque é o melhor jeito de esquecer que ontem sacudiram seu bebê para que parasse de chorar, até que ele ficou branco. Ou que, na outra noite, voltaram bêbados para casa e não se lembram em quem bateram e quanto.  (Contardo Calligaris, em “A turba do pega e lincha”)

Neste sentido, poderíamos citar o infeliz escrito hospedado no blog “Escreva Lola, escreva” que propôs se ultrajar com o seriado The Big Bang Theory. A ofensa tomada? Todas. Sim: de acordo com o escrito, se as mulheres da série são nerds, o são para chamar a atenção dos homens; se não são, é porque estão fadadas a um mundo de intempéries caso tentem; e, caso não se interessem pelo assunto, o diretor do seriado é que é machista. Perceba: tudo o que não faça jus ao ideal de empoderamento feminino está fadado aos estereótipos históricos. Ninguém perguntou qual seria o objetivo da série ao classificá-la, terminantemente, como machista. Logo, não existe a diversidade da subjetividade: o que não me representa está contra mim; eu, que fui oprimida durante séculos, mereço dar as cartas e me situar com predominância em TODOS os ambientes.

A vontade de vingança nestes casos consegue ser maior que nosso senso de honestidade: fazer o outro sofrer parece ser uma solução mais fácil e rápida, o olho-por-olho de aparente justiça. Aparente. Não existe justiça diante de um juízo moral que só serve ao meu antagonista. Existe uma onda crescente de patrulhamento da opinião alheia, onde parece ser “socialmente apreciável” ser vítima e só ela pode tomar as rédeas, mesmo que imaginárias, do tema. Os que discordam são jogados no limbo da censura, já “não são dignos” da palavra, qualquer que seja.

É complicado lutar por ideais advindos de conceitos vagos, porque a possibilidade de se ver qualquer um como inimigo é gigantesca. Lutar por igualdade real não é acreditar que, por serem todos iguais em determinado sentido, são todos absolutamente iguais entre si. Não se vencem opressões históricas com novas cadeias de coerção. Acreditar que está justificado, em algum momento, tratar o outro com a inferioridade que o viu (ou não) praticar é perpetuar o mais do  mesmo, é querer tomar uma vingança nos moldes da lei de Talião como legítima. Lutar por igualdade é, acima de tudo, respeitar que somos seres singulares, em um momento determinado, com ações indeterminadas. Todo homem social depende do outro (eis aí o princípio da alteridade) e fazer esse outro “pagar” pelas intempéries não é um anseio por justiça, é sadismo; e não ajuda na igualidade, ajuda a destruir nossos princípios de pluralidade (mesmo a democrática).

A pluralidade humana, condição básica da acção e do discurso, tem o duplo aspecto da igualdade e diferença. Se não fossem iguais, os homens seriam incapazes de compreender-se entre si e aos seus antepassados, ou de fazer planos para o futuro e prever as necessidades das gerações vindouras. Se não fossem diferentes, se cada ser humano não diferisse de todos os que existiram, existem ou virão a existir, os homens não precisariam do discurso ou da acção para se fazerem entender. (…) A alteridade é, sem dúvida, um aspecto importante da pluralidade; é a razão pela qual todas as nossas definições são distinções e o motivo pelo qual não podemos dizer o que uma coisa é sem a distinguir de outra. (Hannah Arendt in “A condição humana”)

Em tempo: não se negam as atitudes sombrias que contribuíram na desqualificação dos indivíduos, seja por seu sexo, por sua cor, por sua classe social ou qualquer outro fator que o situasse no mundo. Lidar com os contratempos históricos é não nos deixarmos perder por práticas semelhantes; dessas que só transferem o direito à opressão aos que, até então, foram subjugados pelos tão incipientes padrões sociais.

O argumento falacioso que classifica o outro discurso, sob qualquer circunstância, como machista/sexista/racista/homofóbico/reaça/derivados pertence a uma linha de raciocínio que não permite ser falseada. Se existem preconceitos que tentam se justificar? Aos montes. Entretanto, bradar que os fundamentos que me contrariam são inválidos porque assim me parece não é, definitivamente, honesto à capacidade intelectual (tanto a minha como a do outro). Reductio ad absurdum não fará com que métodos escusos de ação e interpretação revanchista se tornem justificáveis. Dessa forma, se petrifica uma sociedade – que trata das desigualdades sem jamais buscar ser igualitária, como diz Maria da Conceição Tavares – a partir da impossibilidade de discutir: nada é falseável se cristalizei a minha – e unicamente a minha – opinião como verdade derradeira. Criticar e procurar mudar é ótimo, sim. O que não vale é tentar, a ferro e fogo, desumanizar o outro.

REFERÊNCIAS:

Contardo Calligaris. “A turba do pega e lincha”, publicado na Folha de São Paulo em 2009.

Hannah Arendt. A condição humana. s/a, 1958.

Maria da Conceição Tavares – http://www.insightinteligencia.com.br/64/PDFs/pdf1.pdf

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7 pensamentos sobre “A lei de Talião revisitada

  1. murilolilo junho 20, 2014 às 5:13 am Reply

    Olá…
    Esse texto reúne tudo o que pensei nesses últimos meses sobre o movimento feminista, do qual faço parte e me identifico.

    O perigo de nos tornar aquele com que lutamos é muito grande, e é realmente isso o que percebo que vem acometendo muito discurso feminista… Chegou a um ponto em que não faço ideia de como chegar em minhas amizades para alertar sobre, tamanho é o medo de me desprezaram e me jogar para o time “dos meninos”. São pessoas muito queridas e que acredito não serem má intencionadas, por isso minha preocupação excessiva.

    Enfim, gostaria de conselhos para sair dessa situação. Se alguém ler essa mensagem, por favor me ajude.

    Agradeço pelo texto.

    • Lisiane Pohlmann junho 20, 2014 às 1:32 pm Reply

      Bom dia, Murilo.

      A situação é complicada de qualquer forma e não há – penso eu – uma alternativa indolor. Se ficamos presos ao discurso de ódio que vem tomando conta nos movimentos que se dizem feministas (porque feminismo, deixo claro, não é buscar “o direito de oprimir”), acabamos anulando nosso senso de justiça: lutamos contra algo que fazemos, mas só é errado “se o outro fizer”.

      Em contrapartida, quando nos expressamos sobre o revanchismo ou o exagero contido nestes movimentos, somos declarados como “machistas”, “mascus” e derivados. Comigo foi assim. Expliquei – e expliquei, expliquei, expliquei, até cansar – os motivos da minha discordância, mas não fui ouvida: se eu estava contra uma premissa, naturalmente estava contra todos os movimentos igualitários e era “escrava de homem” (ipsi litteris, porque foi isso mesmo que ouvi).

      É uma escolha. Você pode romper (e toda decisão é um rompimento) com o discurso e adaptá-lo para o que pensa ser o melhor, com as melhores evidências, mas não espere tanto apoio dos movimentos que se declaram feministas: o que importa para a maioria deles, infelizmente, é a sensação de controle ao “fazer parte”, ao status de “estou revolucionando o mundo de alguma forma” – e estão, sem dúvidas. O que é preciso pensar é a forma dessa mudança, porque as consequências dos meios podem certamente modificar os fins.

      Alertar pessoas queridas sobre esse fato faz parte também do nosso cuidado com elas: desejamos o melhor, e o melhor não pode ser baseado no prejuízo de outrem.

      Espero que – qualquer seja a sua decisão – esteja bem e fique bem.
      Qualquer coisa, estamos por aqui.
      Beijo meu.

  2. Giovanna junho 20, 2014 às 11:34 am Reply

    Logo, não existe a diversidade da subjetividade: o que não me representa está contra mim; eu, que fui oprimida durante séculos, mereço dar as cartas e me situar com predominância em TODOS os ambientes.Logo, não existe a diversidade da subjetividade: o que não me representa está contra mim; eu, que fui oprimida durante séculos, mereço dar as cartas e me situar com predominância em TODOS os ambientes.
    A vontade de vingança nestes casos consegue ser maior que nosso senso de honestidade.”

    Uma das melhores coisas que já li sobre o assunto.

  3. Yuri Montorso junho 20, 2014 às 3:20 pm Reply

    Foi de longe a coisa mais sensata que eu já li com tal abordagem.

    Foi um sopro de ar fresco ler isso em meio a troca de discursos de ódio, que com frequência permeiam os debates nos temas que foram alvo de criticas no texto.

    Ótimo texto. Parabéns!!!

  4. Rafael Leon junho 21, 2014 às 2:36 am Reply

    Este texto foi simplesmente fantástico. Eu pensei em escrever algo sobre o tema, mas não chegaria nem perto da eloquência e da coerência expostas aqui. E ele ter sido escrito por mulher(es) é ainda melhor, pois elucida justamente o que eu pensava e me mostra que não era mísera discordância “porque sou um machinho com medo de perder meus privilégios”, como a lavagem cerebral que alguns grupos feministas tentam passar. Há tempos venho tendo problemas com correntes feministas. O grau de extremismo que eu vejo chega a ser assustador e, exatamente como o texto aborda, características outrora vistas exclusivamente no grupo opressor estão sendo reproduzidas agora pelos grupos historicamente oprimidos, numa atitude completamente revanchista e infantil de “foi ele que começou”, sem aceitar qualquer questionamento e tornando os debates saudáveis cada vez mais raros. A forma como esses grupos enxergam o mundo é espantosa. Pelo que vejo por aí, 100% dos problemas de gênero são culpa do “machismo”, a mulher SEMPRE é prejudicada em tudo, o homem é SEMPRE beneficiado de tudo e, quando não é, a culpa é exclusivamente sua e mais uma vez da palavra mágica “machismo”. Os problemas que envolvem as mulheres sempre são gigantescamente alardeados (e estão certo em serem, denúncias são sempre importantes quando algo está errado) e os que envolvem os homens são constantemente reduzidos a “male tears”, “iozumi”, “mansplaining”, entre outras formas falaciosas de diminuição do discurso alheio. Outra coisa que tem me incomodado é esse caráter de imposição que tomou conta das páginas de Facebook e blogs por aí. Segundo esses relatos, não pode existir homem feminista ou mulher machista (apenas reprodução dos discursos), homem não tem vez para falar sobre o feminismo porque isso seria “pautar/silenciar o movimento”, homem não pode participar das passeatas, pois estaria “roubando o protagonismo da causa”, entre outros absurdos. Enfim, há muito tempo que as correntes feministas mais barulhentas não representam em praticamente nada o que eu penso e vejo como sociedade equilibrada. Quero, sim, uma sociedade mais igual e justa para ambos os sexos. Quero, sim, menos sexismos e menos papéis de gênero. E quero, sim, que a individualidade de cada um seja respeitada. Mas quero que os dois lados sejam vistos, que os problemas de ambos sejam denunciados e que um pare de se achar mais sofrido (e por isso merece mais direitos) do que o outro. Porque esse tal “empoderamento feminino” que eu tenho visto ultimamente nada mais é do que querer tomar o papel de opressor para si. O feminismo, na teoria, diz ser algo que busca a igualdade entre os sexos. Na prática está passando longe disso. Mulheres podem ser tão opressoras quanto os homens, só precisam de poder. E o ideal é que nenhum dos dois tenha poder suficiente para ser opressor. Enfim, mais uma vez parabéns pelo belo texto. Nem tudo está perdido!

  5. Daniela junho 27, 2014 às 2:21 am Reply

    Oi Lisiane!
    Excelente texto! Extremamente interessante a relação com a Lei de Talião, eu realmente não tinha pensado na semelhança que vocês expuseram. Maravilhoso!
    Eu só gostaria de fazer um breve comentariozinho sobre o texto “POR QUE BIG BANG THEORY É MACHISTA” (do qual NÃO CONCORDO) justamente porque já o tinha lido… Pela minha interpretação, quando li, a moça que o escreveu quis expressar a falta de representatividade de mulheres que gostem de coisas nerds. E quando vocês disseram que “de acordo com o escrito, se as mulheres da série são nerds, o são para chamar a atenção dos homens”, acredito que, na verdade, ela quis expressar o fato de que muita gente, por não acreditar que uma mulher/moça/menina seja “nerd”, acabam tachando essas pessoas que realmente gostam de coisas do gênero de “attention whores” – como ela citou; não foi o que ela pensa, mas o que ela vê que os outros (seja lá quem forem) enxergam. Quanto ao resto “…se não são, é porque estão fadadas a um mundo de intempéries caso tentem; e, caso não se interessem pelo assunto, o diretor do seriado é que é machista.” fiquei confusa pois em momento algum senti que o texto original quis passar essas mensagens. Novamente, não concordo que o seriado seja machista, só quis expor a diferença da interpretação que fiz, ao ler.
    Abraço!

  6. […] alguns dias, postei esse texto, falando sobre a vontade (estranha) de um olho-por-olho em alguns movimentos que – se dizem […]

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