Ainda é possível acreditar em alteridade?

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Imagem: Baron Munchausen

Texto de Clayton Marinho no Causas Perdidas

A CPFL Cultura disponibiliza em seu site a série ‘”Café Filosófico”, uma série de debates, tendo a filosofia como o eixo norteador dos discursos. No módulo “Os sete prazeres capitais – pecados e virtudes hoje”, o curador e historiador Leandro Karnal, na abertura, discursando sobre a inveja, coloca o papel do individualismo, entendido como a “valorização do eu”, como a causa da queda de Lúcifer. Tendo Deus criado os anjos, a norma da criação era o “nós”, ou seja, a alteridade. Preocupar-se com o outro era a regra divina. Não havia espaço para coisas como interior, autovalorização, amor próprio. O outro era o centro da vida de cada um. Contudo, Lúcifer, em seu afã de ser o preferido de Deus, o mais belo, achou-se no direito de proferir o “eu” em detrimento do “nós”, ao crer-se como a possibilidade de equiparar-se ao Criador. Isso, como coloca o historiador, gerou um peso no anjo, tendo como consequência sua queda.

Em verdade, parece que a coisa nunca se tratou de Bem ou Mal, mas da invenção desse sujeito “eu”, que resolveu exigir para si a centralidade do universo. Nesse ingressoem-si, o homem teria perdido, mais do que a vida eterna, a sua capacidade de integrar-se ao mundo. Inclusive sua linguagem deteriorou-se, fragmentou-se, espedaçou-se com a queda. Com isso, o homem criou um vácuo em si; ingressou mais do que em si, adentrou a vacuidade. O em-si tornou-se uma prisão profunda e fechada, da qual ninguém mais é capaz de sair. Não podemos fazer como o Barão de Münchhausen e nos tirarmos de nós mesmos, puxando-nos pelos cabelos, da areia movediça, agarrados aos nossos cavalos pelas pernas. A individualidade é, antes da glorificada ação de libertação do homem, ou como os administradores gostam de louvar, o empreendedor, parece mais ser nossa condenação e forma de afastamento da condição originária.

A reconciliação é um ato de aproximação, convergência de duas coisas diferentes, de modo que haja algo em comum entre elas. Esse comum é o “nós”. A Ética debate-se em construir pontes entre os indivíduos para que a Cultura seja um lugar de convivência e encontro humano. Contudo, não se trata de entender o “eu” do outro, aproximar-se, a ponto de por-se-no-lugar-do-outro, ou seja, alteridade. A alteridade nasce necessariamente na aproximação de cada núcleo-eu do núcleo-nós. Parece aí que, antes de um reconhecimento mútuo de cada um, deve haver um terceiro lugar, posto no mundo concreto, de encontro no “nós”. O “nós” não é uma ponte que interliga os dois diferentes, mas uma pequena pracinha em frente à ponte, em que ambos deslocam-se para reconhecer um lugar em que o “eu” dissolve-se no “nós”, embora ambos se mantém em sua inteireza. Porém, agora na medida em que se mantém o “eu”, possa haver uma hibridização, uma diluição do “eu” no “nós” como proposta de construção de uma via de acesso à alma que não seja a individualidade, mas a análise no psicólogo, para decifrar o enigma-de-si.

Num exemplo interessante, C.S. Lewis retrata a vida como um jogo de passar a bola, em que cada um deve imediatamente repassar a bola ao outro, mal recebendo. Enquanto cada um cumprir o papel de repassar a centralidade do “eu” adiante, de forma que o movimento forme o “nós”, o mundo tornar-se-ia um lugar melhor de se viver. Além disso, complementando, estão todos sobre uma tênue camada de gelo. O peso do “eu” daquele que resolvesse manter a bola para si seria a diferença necessária para a queda. Mais do que cair-no-mundo, nosso maior castigo foi cair-no-eu. Não há como libertar-se de si. Castigo eterno. Somente percebendo-se a perversão que é essa incandescência do “eu” em detrimento do “nós”, é que seria possível a alteridade. Ainda há esperança.

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