Não há perguntas imbecis

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Por: Vera Rita da Costa no Ciência Hoje

Educadora discute por que a curiosidade e o interesse por temas científicos diminuem à medida que avança a vida escolar. E aponta, como um dos itens responsáveis, a incapacidade dos adultos de lidar de forma salutar com o questionamento.

Como dizia Carl Sagan, pode haver questões ingênuas, enfadonhas, mal formuladas, mas não há perguntas imbecis: toda pergunta é um grito para compreender o mundo. (foto: Chris Baker/ Sxc.hu)

Como dizia Carl Sagan, pode haver questões ingênuas, enfadonhas, mal formuladas, mas não há perguntas imbecis: toda pergunta é um grito para compreender o mundo. (foto: Chris Baker/ Sxc.hu)

É praticamente uma ideia de senso comum que as crianças são ‘cientistas inatos’. Elas são curiosas, observadoras, perguntadoras e experimentadoras ativas. Qualquer pai ou professor sabe disso. Mas também é notável e reconhecido por muitos o declínio da curiosidade e do interesse pela ciência que vai marcando o passar dos anos na escola.

A ciência (ou a forma de pensar da ciência) é conteúdo indispensável para o desenvolvimento da criticidade e da autonomia
Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, de tal maneira que, para desespero dos professores de ciências, parece ser possível traçar uma curva descendente que representa a perda do status das disciplinas científicas ao longo dos anos escolares – uma curva que parte da curiosidade extrema da criança da educação infantil, aos 4 e 5 anos, e chega ao tédio e à indiferença, praticamente absolutos, dos adolescentes do ensino médio.

Há, certamente, muitas explicações possíveis para isso e nenhuma delas, por si só, parece dar conta de um processo tão complexo. Isso não invalida, no entanto, refletir sobre elas, sobretudo se formos professores e quisermos interferir nesse declínio do interesse. Também, se formos pais, pois, embora nem sempre se discuta isso, a ciência (ou a forma de pensar da ciência) é conteúdo indispensável para o desenvolvimento da criticidade e da autonomia.

Não faria mal, portanto, se nossos filhos adquirissem um pouco mais de conhecimento científico e, com ele, um pouco mais desses ingredientes, não é mesmo?

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, para desespero dos professores de ciências.

Como praticamente tudo em educação (e em termos de comportamento humano), as explicações para o declínio do interesse e da curiosidade pelo mundo ou pela ciência se dividem em dois grupos: há aqueles que consideram ser esse processo motivado por causas biológicas e há os que veem as causas culturais como suas motivadoras. Existe ainda uma terceira possível visão do assunto: a que considera ambos os fatores – biológicos e culturais – como integrados e, portanto, como necessários para explicar o desinteresse gradativo do jovem pelo mundo que o cerca.

Um dos argumentos que sustentam a visão biológica é o fato de a atividade científica envolver muitas habilidades relacionadas à exploração ativa e à obtenção de conhecimentos sobre o mundo (como a observação, o questionamento, a coleta, a classificação e a experimentação), e de essas habilidades serem vantajosas, do ponto de vista da sobrevivência.

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, para desespero dos professores de ciências. (foto: Alice Konieczna/ Sxc.hu)

Conforme os estudantes avançam na escolarização, a curiosidade e o interesse pelas coisas e fenômenos do mundo declinam acentuadamente, para desespero dos professores de ciências. (foto: Alice Konieczna/ Sxc.hu)

Como tivemos oportunidade de discutir em outro artigo (clique aqui para ver), o brincar é uma das marcas registradas da infância. Por meio das brincadeiras, a criança explora o entorno (físico e social) e aprende, imitando e antecipando situações que serão vividas de forma real mais adiante em sua vida de jovem e adulto. É interessante, portanto, que na infância as pessoas ajam como ‘pequenos cientistas’, explorando ativamente o mundo em que se encontram. Também é interessante que se perguntem sobre ele, buscando com aqueles que consideram mais experientes (os adultos) respostas para o que lhes inquieta.

Porquês necessários
Ou seja, sob o ponto de vista biológico, mesmo aquele perguntar inesgotável que caracteriza a ‘fase dos porquês’ na infância teria uma função importante: adquirir rapidamente informações sobre o mundo, colocando em ação um conjunto valioso de habilidades relacionadas à curiosidade. Entre essas habilidades estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. Habilidades que, como se percebe, são imprescindíveis na ciência.

Ao imaginar, a criança ensaia suas primeiras hipóteses, da mesma forma que, quando experimenta algo novo, testa seus primeiros ‘experimentos’ para comprová-las. O mesmo acontece com suas perguntas: ao fazê-las, ela exercita uma de nossas habilidades mais primorosas – a capacidade de buscar ativamente informações sobre o mundo e registrá-las como aprendizados valiosos.

Entre as habilidades que vão se perdendo, estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito.
Mas é aqui justamente que os argumentos biológicos começam a se entrelaçar com os culturais. O que acontece com essas habilidades ao longo da vida? Será que pura e simplesmente elas declinam e desaparecem? Ou começam a ser minadas em nosso processo de socialização e, principalmente, de escolarização?

No que diz respeito à capacidade de perguntar, por exemplo, o que fazem os professores e os pais, assim como outros adultos, diante dos questionamentos insistentes das crianças? Como agem diante desse impulso natural e valioso que envolve o querer saber mais sobre o mundo em que se encontram?

De forma geral, os adultos ficam desconcertados diante das perguntas das crianças, desviam-se delas ou oferecem repostas prontas e banais. Isso, quando não se irritam ou zombam das questões dos pequenos.

Muitos pais e/ou professores não sabem e não gostam de lidar com a dúvida e a incerteza. (foto: S Braswell/ Sxc.hu)

Muitos pais e/ou professores não sabem e não gostam de lidar com a dúvida e a incerteza. (foto: S Braswell/ Sxc.hu)

Certo e errado
O fato é que vivemos em uma sociedade que supervaloriza o saber; na qual é preciso ter respostas e, além disso, respostas corretas. Não saber é vergonhoso. Cometer erros é impensável. Além disso, consideramos que há somente o certo e o errado. Não há meio termo. Não há conhecimento em elaboração. O conhecimento reconhecido e valorizado é aquele que está estabelecido. E, se não sabemos a resposta (certa) para algo, é ‘normal’ que não saibamos como lidar com a pergunta. Essa é a lógica que impera e que nos faz, em geral, desviar, desconsiderar ou desdenhar das perguntas feitas pelas crianças.

Se não sabemos a resposta (certa) para algo, é ‘normal’ que não saibamos como lidar com a pergunta
Como aprendizes supereficientes, as crianças, por sua vez, logo entendem essa lição. Elas reconhecem rapidamente que suas perguntas incomodam, não são consideradas ou recebem respostas triviais. Deixam, assim, gradativamente de perguntar e iniciam sua trajetória rumo à apatia em relação aos fatos e aos fenômenos do mundo que caracteriza a vida de muitos adolescentes e adultos.

Se você é professor de ciências e já deu aulas no início e no final do ensino fundamental, sabe do que estamos falando. Mas, se não viveu essa realidade, há uma descrição do astrônomo Carl Sagan (1934-1997), em seu livro O mundo assombrado pelos demônios – a ciência vista como uma vela no escuro (Companhia das Letras, 2006), que revela essa realidade. Diz Sagan:

“De vez em quando, tenho a sorte de lecionar num jardim de infância ou numa classe de primeiro ano primário. Muitas dessas crianças são cientistas natos […] São curiosas, intelectualmente vigorosas. Perguntas provocadoras e perspicazes saem delas aos borbotões. Demonstram enorme entusiasmo […]. Mas, quando falo a estudantes do último ano do secundário, encontro algo diferente. Eles memorizam ‘fatos’. Porém, de modo geral, a alegria da descoberta, a vida por trás dos fatos, se extinguiu em suas mentes […] Ficam preocupados com a possibilidade de fazer perguntas ‘imbecis’; estão dispostos a aceitar respostas inadequadas; não fazem perguntas encadeadas; a sala fica inundada de olhares de esguelha para verificar, a cada segundo, se eles têm a aprovação de seus pares.

Entre as habilidades que vão se perdendo, estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. (foto: Jean-Pierre Knapen/ Sxc.hu)

Entre as habilidades que vão se perdendo, estão a capacidade de se admirar com o que se encontra no mundo, de se autoquestionar sobre o que é descoberto e buscar ativamente informações a respeito. (foto: Jean-Pierre Knapen/ Sxc.hu)

Muitos pais e/ou professores não sabem e não gostam de lidar com a dúvida e a incerteza.

É evidente que a puberdade ou outros fatores biológicos, por si só, não explicam o desinteresse por ciências que aos poucos vai tomando conta dos pré-adolescentes e chega ao cume na adolescência.

Para entender esses processos, é preciso somar a essas explicações fatores sociais, entre os quais, como Sagan assinala em seu livro: a desvalorização que nossa sociedade faz das carreiras científicas, a falta de modelos e discussão inteligente sobre ciência e tecnologia, a pressão dos pares sobre aqueles que buscam o caminho intelectual (considerados nerds, chatos e desinteressantes) e, o que nos interessa em particular aqui, a incapacidade dos adultos de lidar de forma salutar com o questionamento.

Apologia da dúvida
Mesmo sendo pais e/ou professores, o fato é que não sabemos e não gostamos de lidar com a dúvida e a incerteza. Consideramos errado admitir que não sabemos alguma coisa e, como diz Sagan, gostamos de “fingir onisciência” para as crianças. Isso, mesmo sabendo que a dúvida e a incerteza são dois dos princípios elementares da ciência.

No livro infantil Ei! Tem alguém aí? (Companhia das Letrinhas, 1997), o filósofo e escritor Josten Gaarden também faz a apologia das perguntas, de sua presença na infância e da importância de sua permanência na vida adulta. Um dos personagens-criança do livro, Mika, curva-se em reverência diante de cada pergunta que recebe, e as reverências de Mika são cada vez mais expressivas, conforme a profundidade da pergunta.

Diante de respostas, no entanto, o mesmo personagem não se curva, porque, como ele próprio explica, “a resposta é sempre um trecho de caminho que está atrás de você. Só uma pergunta pode apontar o caminho para frente”. Em outras palavras, menos poéticas, o personagem poderia ter dito: respostas são conhecimentos consolidados, estabelecidos. Perguntas, por sua vez, representam a chance do novo, do surgimento de novos conhecimentos, de inovação e de mudança.

O personagem criado por Josten Gaarden, como você pode imaginar, não é desse mundo. Nada impede, no entanto, que aprendamos com ele. A cada pergunta, cabe uma reverência. Afinal, como diz Carl Sagan, há perguntas de muitos tipos (profundas, ingênuas, enfadonhas ou mal formuladas). O que não há são perguntas imbecis. Toda pergunta – diz Sagan – é um grito para compreender o mundo.

E se você quiser, pode assistir também ao documentário “Educação Proibida“:

Um pensamento sobre “Não há perguntas imbecis

  1. Cesarious outubro 8, 2014 às 3:06 pm Reply

    Além do que foi explicado, outro motivo importante para o declínio da capacidade de se interessar pelo mundo científico, é a política científica, especificamente em nosso país, que coloca a ciência não como uma abertura para o conhecimento e a curiosidade do ser humano, mas como uma ponte de salvação para o emprego, para o desenvolvimento industrial.

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