Existe olhar apenas, antes do interpretar o que se vê?

Imagem: s/n

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Post diretamente do Científica Mente

Imagine a seguinte situação: um físico experiente e seu filho de poucos meses no colo. Eles estão em um laboratório repleto de fios, parafusos, caixas e botões. No meio de tudo isso, há um tubo de raios X. Quando o pai e a criança olham para esse objeto, vêem a mesma coisa?

Aparentemente é uma questão simples, mas por trás dela há toda uma discussão que envolve filosofia, e quem diria, até mesmo a ciência. Deixemos isso para mais à frente. Afinal, qual a importância disso para a vida das pessoas? O que interessa saber se um físico e um bebê olham a mesma coisa ou não? Não parece óbvio que sim?

Esse exemplo foi dado por Hanson, importante filósofo do século XX, em seu texto “Observação e interpretação”. Ele responde à pergunta inicial da seguinte forma: sim e não. Sim, porque eles têm consciência visual do mesmo objeto. Não, pois o modo como têm essa consciência é profundamente diferente. A criança pode estar apreendendo exatamente os mesmos dados óticos, mas pode não estar observando nada em particular. Já o físico vê um instrumento, que tem certa utilidade, que pode ser usado em tais casos e de tal maneira.
O físico não está fazendo nada mais do que a criança ou uma pessoa comum que nada entende de física e de instrumentos. Ele está apenas olhando – porém o resultado não é o mesmo. Do mesmo modo, quando ouvimos uma língua estrangeira perto do nativo estamos tendo as mesmas impressões auditivas que ele. Para ouvir o mesmo que ele ouve, porém, precisamos aprender sua língua. Podemos não notar que as cordas do violão estão desafinadas, contudo isso é dolorosamente óbvio para o músico. Podemos não perceber que aquele amontoado de panos é a mais nova criação do estilista. Há muitíssimas maneiras de ouvir sons, assim como de ver um monte de linhas, formas, manchas.
Fourez, matemático e filósofo francês, em seu livro “A construção das ciências” diz que a observação não é puramente passiva: trata-se antes de uma certa organização da visão. Para observar é preciso sempre relacionar o que se vê com noções já possuídas anteriormente, normalmente compartilhadas culturalmente. Essa noção já vem desde Kant na filosofia, e a psicologia cognitiva é uma abordagem que segue nessa linha, insistindo no caráter construído de nossos conhecimentos.
Fourez diz ainda que o que nos dá a impressão de imediatez à observação é que não se colocam de maneira nenhuma em questão as teorias que servem de base à interpretação: a observação é uma certa interpretação teórica não contestada (pelo menos inicialmente). Como normalmente estamos próximos a pessoas que compartilham nossa cultura, e, portanto, uma visão de mundo semelhante a nossa, a ausência de um elemento novo dá um efeito de observação direta de um objeto. Portanto, mesmo não nos dando conta, nossa observação dos fatos é sempre a construção de um modelo de interpretação, que depende também de nossa história individual, nossas emoções, nosso estado motivacional, nosso gênero, nossa faixa etária.
Pode não parecer, mas esse assunto tem grande importância para a ciência. Isso porque muitas versões dela (alguns citariam o positivismo – movimento científico do século XIX -, por exemplo) consideram que observar diz respeito às coisas tais como são. O cientista deve relatar o que observa, de modo fiel à realidade. Nesse caso, a observação seria uma atenção passiva, pura recepção. Dois observadores científicos se defrontariam com os mesmos dados, caso divergissem, isso ocorreria posteriormente, no momento em que interpretam esses dados. O que Hanson salienta é que a interpretação não ocorre a posteriori porque ver já é interpretar. Não existe algo como órgãos “puros” da visão isolados da pessoa. Por isso, a observação científica e a interpretação científica são inseparáveis. No caso das ciências, os saberes compartilhados por certo grupo de cientistas, ou seja, suas teorias, também fornecem uma maneira de se ver tal fenômeno.
E o que uma pessoa comum tem a ver com tudo isso? Popularmente é comum se pensar que a observação é direta, global, imediata. Ela não é. É importante que se desenvolva a noção de que os cientistas não são indivíduos observando o mundo com base em coisa nenhuma, são na verdade participantes de um universo cultural e lingüístico no qual inserem os seus projetos individuais e coletivos. Deve-se questionar a visão ingênua da ciência que a encara como um processo absoluto e não histórico. O cientista não é um observador fiel dos fatos, ele é um sujeito que se situa histórica e culturalmente. Assim, a ciência não é neutra e absoluta. Isso faz com que não seja válida? Não.

Vale lembrar também que os cientistas, na verdade, tem o pequeno inconveniente de ter que provar matematicamente, ou cientificamente, o que dizem. É o que separa ciência da pura observação. Não que tudo seja perfeito depois de “provado”, mas é algo que tem o intuito de formar um conhecimento sustentável.

Referências bibliográficas

Fourez, G. (1991) A construção das ciências – introdução á filosofia e à ética das ciências. São Paulo: Editora da Universidade Estadual Paulista, 1995.

Hanson, N.R. “Observação e interpretação”. In: Filosofia da ciência. Org. Morgenbesser, São Paulo: ed. Cultrix, s/d.

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