Preconceitos: Como exterminar ideias “no berço”

Imagem: Mulher no lago, s/a

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Texto de Jairo Siqueira, no Criatividade Aplicada

O gráfico a seguir apresenta de forma simplificada o processo de compreensão humana, mostrando a ação das percepções e da experiência sobre o nosso raciocínio e entendimento da realidade.

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Basicamente, nosso processo de raciocínio (Passo 3) sintetiza nossas percepções (Passo 2) da realidade (Passo 1) no contexto de nossas necessidades emocionais básicas (Passo 3A) e de nossos valores e princípios (Passo 3B) a fim de tirar conclusões (Passo 4) a respeito da situação.

O que isto significa? Significa que, por mais que nos esforcemos, nós não conseguimos ser inteiramente racionais e objetivos. Nas nossas análises e conclusões estaremos sempre influenciados pelas nossas experiências, emoções, interesses, crenças, valores, etc. Isto é natural e humano, o que se faz necessário é a consciência destas influências sobre nosso pensamento e nosso julgamento, e como elas criam bloqueios à criatividade e à aceitação de ideias inovadoras.

Um exemplo tirado da história de medicina ilustra bem o efeito das percepções e dos conceitos dominantes sobre o nosso pensamento e os bloqueios que eles geram.

Como os preconceitos matam as boas ideias

Até meados do século 19 era comum um médico passar de um paciente para outro, ou mesmo da autópsia de um cadáver para exame de uma pessoa viva, sem lavar suas mãos. O médico húngaro Ignaz Semmelweis (1818 a 1865), que trabalhava com um grupo de parteiras numa das clínicas do Hospital Geral de Viena, notou a grande diferença da taxa de mortalidade entre as parturientes de sua clínica e as parturientes da clínica que era atendida pelos médicos professores da universidade a que o hospital estava ligado. A taxa de mortalidade devida à febre puerperal na clínica dos professores era de 13,1%, enquanto na sua clínica era de 2,03%. Ambas as clínicas funcionavam no mesmo hospital e usavam as mesmas técnicas. A única diferença eram as pessoas que trabalhavam nelas, numa professores e estudantes, na outra médicos e parteiras.

Semmelweis concluiu que a febre puerperal era causada por “partículas” dos cadáveres introduzidas nas parturientes através das mãos dos professores e estudantes. Na época a teoria dos germes ainda não havia sido desenvolvida, mas Semmelweis intuiu que a infecção era causada por alguma coisa que passava dos cadáveres para as parturientes. Ele realizou um cuidadoso estudo estatístico comparando a mortalidade das duas clínicas e conclui com a recomendação de que os médicos sempre lavassem suas mãos antes de atenderem um paciente.

Apesar de todas as evidências, as reações contrárias foram muito fortes e as recomendações de Semmelweis foram ignoradas. Suas conclusões contrariavam a teoria médica dominante que atribua as doenças ao desbalanceamento dos quatro fluídos corporais (humores): sangue, bile negra, bile amarela e fleuma. Alguns médicos alegaram que suas conclusões careciam de base científica, não passando de pura superstição: mortos espalhando a morte entre seres vivos. Outros julgavam muito trabalhoso lavar as mãos antes de atenderem cada paciente. Aceitar as recomendações de Semmelweis era admitir de que vinham sendo a causa de tantas mortes. Em alguns hospitais, a mortalidade entre as parturientes chegava a 35%.

Em 1851, Semmelweis retornou para a Hungria, onde, a partir de 1857, suas ideias foram adotadas, resultando em notável redução da mortalidade entre as parturientes. Em Viena, na clínica onde Semmelweis tinha praticamente erradicado as mortes por febre puerperal, a taxa de mortalidade chegou a 35% no verão de 1860. Mesmo assim, a adoção de suas recomendações foi muito lenta.

Como você reage às novas ideias?

Este caso é um exemplo terrível de uma situação em que, apesar de todas as evidências objetivas, o progresso científico foi barrado pela inércia dos profissionais detentores do “saber” dominante. O termo Reflexo Semmelweis, atribuído a Robert Anton Wilson, significa a rejeição ou negação imediata e automática de qualquer informação, sem análise, inspeção ou experimento.

O Reflexo Semmelweis é uma tendência muito comum quando nos apresentam ideias que desafiam o saber convencional e nossa maneira usual de fazer as coisas.

E como se livrar disso?

Pensamento criativo é o processo que usamos para gerar ideias que são originais, úteis e valiosas. Pensamento crítico é o processo que usamos para determinar a veracidade, a exatidão e o valor das suposições que sustentam nossas próprias ideias ou de terceiros.

O raciocínio crítico planejado e bem dosado se mostra útil em dois momentos do processo criativo. Num primeiro momento, quando enfrentamos as verdades estabelecidas, as suposições e preconceitos que bloqueiam os esforços de inovação. Num segundo momento, ao final do processo criativo, quando temos de julgar a utilidade e o valor das diversas ideias e tomar decisões. Neste ponto, o pensamento crítico não deve ter o propósito de enterrar as ideias, mas de revelar seus pontos fortes e fracos e apontar onde e como as melhores ideias podem ser aprimoradas.

Quando falamos de inovação, o domínio do pensamento crítico pode se tornar tão importante quanto o conhecimento das técnicas e ferramentas de criatividade. Saber combinar os dois processos de pensamento resulta num processo criativo muito mais produtivo. A geração de ideias originais e verdadeiramente valiosas resulta de combinação inteligente de momentos de criatividade e momentos de análise crítica e verificação do valor das ideias geradas.

E este post termina com uma frase do filósofo inglês Bertrand Russel:

Em todos os assuntos, é sempre saudável colocar um ponto de interrogação naquelas coisas que você há muito tempo tem considerado como certas.

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