A páscoa de uma não-cristã

“Agora que a terra é redonda
E o centro do universo é outro lugar
É hora de rever os planos

O mundo não é plano, não pára de girar
Agora tudo é relativo
Não há tempo perdido, não há tempo a perder.”
(Além da máscara – Pouca Vogal)

Semana passada uma turma de adolescentes que estudam em uma escola da localidade onde moro passou em frente à minha casa, quase todos eles segurando cartazes sobre a páscoa. Era uma intervenção urbana sugerida pela professora de Ensino Religioso. “- O que a senhora pensa sobre a páscoa?”, perguntou uma das moças. “- Um bom momento familiar”, respondi. “- Mas e Jesus?”, questionou a menina. “- Eu não sou cristã”, disse, e parece que minha resposta provocou algo além de olhos atentos: eles queriam saber como e por que motivo não sou cristã e como eu comemorava datas como a páscoa.

“- A senhora é judia?”. “- Não”. “- É o quê?”. “- Sou ateia, não tenho religião, não acredito em deuses”. A verdade é que fiquei feliz pela reação curiosa e não impositiva. Ninguém disse: “- Minha nossa, como alguém pode não acreditar em deus?”. Pelo contrário, eles quiseram saber meus motivos. Respeitaram minha descrença e foram embora depois de quase vinte minutos de conversa me desejando uma “feliz páscoa de carinho”. Respeito mútuo.

Fiquei surpresa porque estou acostumada com o estigma: “se não acredita em Deus, não é do bem”. Muitos religiosos acreditam que, pelo fato de acreditarem em um deus, seja ele qual for, automaticamente são bons e que não há moralidade para além da religião. Há sim.

O que acontece é que não preciso de uma vida eterna. Preciso viver bem a vida que tenho aqui e agora. Sabe aquela música do Engenheiros do Hawaii que diz que “o céu é só uma promessa”? É assim. Preciso olhar para o meu semelhante e entender que reparto com ele uma existência singular, possível entre tantas milhões, em uma época determinada e onde olhar para o ser humano é mais importante que olhar para sobrenaturalidades ou crenças. Não espero uma justiça divina. Espero uma justiça humana, um olhar humano, mãos humanas. Já disse Platão: A pior injustiça é a justiça simulada.

Imagine uma vida eterna pautada nas suas ações do hoje. Você a desejaria? Se sim, parabéns: você não precisa de religião, embora seja livre para tê-la.

É comum que questionem se considero ruim a “Espiritualidade”. Não, não é ruim. Ruim é a mordaça da fé, quando é imposta pelas religiões e aclamada pelos fiéis. Ruim é se aproveitar da crença para proclamar preconceitos (ao ateu, ao homossexual, ao de religião diferente, ao de cor diferente, ao de posicionamento diferente). Ruim é usar uma opinião particular para justificar o injustificável. Ruim é fazer com que as pessoas, por tradição, transmitam o ódio ao questionamento de forma transgeracional. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não pode esperar que as outras pessoas acreditem no mesmo que você – e nem pode obrigá-las a isso.

Tenho família e amigos cristãos, e respeito suas escolhas sobremaneira. O que pretendo destacar é que, enquanto homens sociais, não podemos deixar que o desejo de infinitude nos deixe reféns de um “amor simulado” pelo outro: que sejamos capazes de ver, sentir, tocar, abraçar e amar todos os dias, sem pretextos. Afinal, é mais verdadeira a ação pautada no medo do castigo ou no temor a um deus do que a ação pautada na simples vontade de fazer o melhor para si e para os outros?

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Toda a sabedoria resulta de aprendermos a não ter receio de morrer, o que acontecerá (a morte) inevitavelmente. O desprezo e a angústia que ela nos inspira permite que sustentemos uma espécie de “fuga” e procuremos não pensar nisso. Contudo, o mesmo desprezo que nutrimos e nos “protege” do desespero não pode ser ferramenta do comodismo. A vida deve ser pensada, as coisas não deixarão de acontecer porque você não se preocupa.

As suas ações dizem muito mais sobre você do que suas crenças. Comer chocolate, desejar feliz páscoa, rezar, ir na missa ou não comer carne em uma sexta-feira não são fatores constitutivos do meu (e do seu) caráter. O que eu sou (e você é) 365 dias por ano, sim. Quem você é enquanto não precisa de um deus?

Um pensamento sobre “A páscoa de uma não-cristã

  1. Tharyk Wances Wances maio 4, 2015 às 4:56 am Reply

    eu fico realmente feliz que nesse mundo cheio de superstições,preconceitos e falta de pensamento critico existam pessoas como você se esforçando para eliminar os dogmas, os preconceitos…….e muito mais!. rs

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