O fundamentalismo estéril e a discussão de gênero nas escolas

Imagem: Pablo Picasso,

Imagem: Pablo Picasso, “Mulher ao espelho”

Acompanhei – ainda que indiretamente – o debate que ocorreu na Câmara de Vereadores da cidade onde resido, acerca da “ideologia de gênero”. Infelizmente não pude falar abertamente sobre o tema na audiência pública, mas resumo aqui os comentários principais e minhas dúvidas e colocações sobre eles.

Em grande parte, a negativa dos que se põem contra a inclusão de gênero no PME circula na temática religiosa, tendo como principal ponto argumentativo a passagem bíblica de Levítico 20:13: “O homem que se deitar com outro homem como se fosse uma mulher, ambos cometeram uma abominação, deverão morrer, e seu sangue cairá sobre eles“. É exatamente neste ponto que se assenta o paradoxo: Se o problema é homem com homem e mulher com mulher, o problema é especificamente o gênero ou o sexo? Explico: se é o sexo, uma mulher trans pode namorar com uma mulher cis; o gênero é o mesmo, mas o sexo é oposto, e isto deveria ser aceito pela “oposição” ao PME. Se, ao contrário, o problema é o gênero, um casal formado por uma trans feminina e um homem cis, por exemplo, deveria ser aceito: o sexo é igual, contudo, o gênero é diferente. Nenhum dos casos, o entanto, é minimamente tolerado pela assertiva religiosa presente no debate.

Sob a mesma perspectiva, me parece que a ideia de gênero e sexo são dados (por aqueles que negam a discussão de gênero) como divinos, metafísicos, transcendentais. Neste caso, não adiantaria negar-se ao ensino de gênero, pois gênero e sexo seriam preestabelecidos desde sempre. É daí que parte uma outra perspectiva paradoxal: o argumento da “educação moral” (a educação para a diversidade, segundo argumentam alguns, não seria uma educação moral). Só existe a necessidade de uma educação moral se houver um consenso total sobre a moral? A moral vigente é quase sempre um contrato social modificável e não é, assim, universal.

Se a moral que acredito ser “correta” e “pronta” para ser ensinada é a moral que recebi transgeracionalmente (da minha própria família), qual seria seu fundamento? Religioso? Mas que garantia tenho de que a fé religiosa que professo seja amanhã a fé que professarão meus filhos? Se não há uma religião universal e a própria religião, de tempos em tempos, muda seus preceitos e interpretações, então o fundamento da moral deve ser independente da religião. A vontade de educação é sempre uma vontade voltada para o futuro: precisamos fundamentar a moral de hoje para amanhã, ou seja, para as terras incertas do futuro.

Queremos a liberdade. Também a moral é pautada na liberdade, pois ela supõe que o querer humano tem liberdade para escolher entre bem e mal. Fora da liberdade, absolutamente nenhuma exigência moral teria qualquer sentido. Afinal, quero o que quero porque é lícito ou porque é de minha vontade? E até que ponto o problema da moral não se confunde com o problema da liberdade? Disse Pascal que “cada um é tudo para si mesmo, pois, ele morto, o tudo estará morto para si“. Não podemos, contudo, utilizar a nós mesmos como contrapeso pra tudo, como medida para todas as coisas. Precisa-se de uma crítica sobre o valor desses valores morais, sejam quais forem.

Quando os fundamentalistas afirmam uma “preocupação” com a família, o discurso em primeiro momento nos parece compreensível. Lembra-nos Lucrécio: “a descoberta do fogo e do lar são a origem da civilização, e o nascimento das ideias morais é explicado pela preocupação comum dos adultos em proteger seus lares”. Pelo menos a maioria de nós quer e anseia por proteger nossos lares. O que o dogmatismo não compreende (ou finge não compreender) é que, longe de limitar, ampliamos o conceito de família e queremos defender não apenas uma família tradicionalmente composta, mas todas elas.

Essa ideia equivocada de uma “anarquia moral” na contemporaneidade (“no meu tempo não tinha essas coisas”, “é o fim dos tempos, tá aparecendo cada coisa…”) se deve em grande parte à decadência da noção de divindade como grande fundamento da moral. O que os fundamentalistas julgam como moral, por vezes, é o ato de substituir o juízo da consciência coletiva pelo seu próprio. Se a igreja não aceita os transsexuais, as travestis, interssexuais, pessoas de gênero não binário, a sociedade também não deve aceitar, dizem eles.  Acontece que a sociedade não é uma igreja. E acontece que a realidade consegue ser muito mais diversa e colorida do que a monocromia da superstição.

São alguns destes mesmos homens “casados e seguros de si” que negam publicamente as pessoas trans em público, mas as procuram no privado das casas noturnas. São algumas destas mesmas mulheres “de família” que educam seus filhos para preconceitos estéreis no dia-a-dia (“senta direito, menina!”, “se arruma, que assim nenhum homem vai te querer”, “mulher rodada fica pra titia”, “nada de engordar, viu?”). “Eu gerei, eu que educo!”, dizem eles. O que eles esquecem é que cabe aos pais ensinar, cabe à escola instruir, mas cabe à vida a sabedoria das escolhas. Ninguém deseja retirar dos pais as responsabilidades, deseja retirar deles justamente as irresponsabilidades. Ninguém se mantém preconceituoso pelo resto da vida senão pela vontade obstinada de não questionar. Acaso têm medo que a educação que dão em casa não seja suficientemente boa ou sólida pra manter-se fora dela?

Viva a diversidade!

Um pensamento sobre “O fundamentalismo estéril e a discussão de gênero nas escolas

  1. Pedro Ubuntu julho 2, 2015 às 10:05 am Reply

    Excelente abordagem. Ótimo texto, menina Lisiane.

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