Por que horóscopo e astrologia parecem funcionar?

Sabe o horóscopo? Tenho visto muita gente compartilhando certas “previsões e características” de signos e afins na minha timeline do Facebook. Então vou aproveitar a oportundiade e contar uma coisa pra vocês e depois explicar o motivo de previsões “parecerem funcionar”.

Lá por 2005, 2006, um amigo querido (a quem vou chamar de “X”, para fins de evitar constrangimento) e eu costumávamos nos reunir com outros amigos pra comer pizza e assistir filmes. Ainda alugávamos DVD (acredite!). Este amigo trabalhava em um jornal bem conhecido na cidade.

Certa feita, solicitaram que X escrevesse o horóscopo do jornal, visto que o rapaz que escrevia anteriormente estava de mudança. O que meu amigo fazia? Inventava qualquer bizarrice que servisse para a maioria das pessoas, como “é tempo de conhecer pessoas novas”, “não é hora de se apegar ao comodismo”. Em poucos minutos estava tudo prontinho para que as pessoas de qualquer signo se identificassem com qualquer descrição, então era só contar com a vontade que elas tinham de acreditar naquela baboseira toda. Lembro de dizerem que ele era ótimo, que tinha excelentes previsões. Ele, claro, agradecia.

Também conheci na faculdade de administração uma colega que “jogava tarô” utilizando a mesma técnica: servir-se de questões comuns a todas as pessoas. Acontece que, vez ou outra, as pessoas lhe depositavam tamanha confiança que contavam a ela coisas muitíssimo pessoais, que acabavam espalhadas na “boca do povo” por falta de sigilo.

As chances de você ser enganado por pessoas de má intenção é sempre gigantesca nestes casos.

É por isso que eu digo sempre que a melhor maneira de “ajeitar o futuro” é trabalhando no presente. E a pessoa que mais lhe conhece, tenha certeza, é sempre você mesmo.

Dito isso, resolvi (inspirada aqui) ainda em 2012 pegar os mais variados sites de astrologia e conferir neles as previsões do meu signo pra a data. Um signo, um dia e a conclusão: segundo as previsões, qualquer coisa pode acontecer a qualquer momento.

Previsões para 17/01/2012 para o signo de leão

Vida e estilo:
Alguns problemas em sua carreira podem começar a vir à tona neste período, apesar de Júpiter ainda beneficiar o setor. Tenha cuidado neste período com novos trabalhos e contratos. Amor em fase neutra.

Uol:
Sensibilidades a flor da pele! Altos e baixos, certa variação de humor prejudicial – cuidado com as palavras, que ao invés de esclarecer irão ocultar, cortando corações. E o seu não é de pedra, portanto não adianta fazer o estilo duro de roer.

Estrela Guia
Tenha cuidado com a sua própria ambição, hoje as pessoas estarão mais ariscas e de olho na grana.

João Bidu
O convívio familiar promete ser acolhedor, mas existem pequenas divergências a serem solucionadas. Ao expor seus pontos de vista, procure ser justo(a). Ouça todos os lados antes de dar a sua opinião. Você merece ser feliz!

Horóscopo virtual
Oportunidade de um entendimento mais compassivo e amoroso com as pessoas. Poderosos ensinamentos espirituais que devem conduzir a uma mudança de atitude nas relações. Se a realidade está longe do ideal, é hora de aproximá-las. Dê o exemplo, nativo de Leão.

Msn
A ligação da Lua com Mercúrio revela um momento favorável a melhorar sua vida pessoal. Comece organizando sua casa e buscando maneiras de pôr seu cotidiano em ordem também. Isso lhe dará forças para lidar com outros assuntos.

Portal Angels

Amor: É provável que venha a rever um antigo amor que já não via há algum tempo.
Saúde: Poderá sofrer de alguma retenção de líquidos.
Dinheiro: Nada de marcante acontecerá no dia de hoje.

Bastante vago e contraditório, não? Pois é. Tais descrições são válidas para qualquer pessoa, em qualquer dia – visto que são generalizadas. Explicações para isso existem? Sim, existem. Isso chama-seefeito Forer.

O Efeito Forer ou Barnum também é conhecido como efeito da validação subjetiva ou efeito da validação pessoal. A segunda expressão (“efeito Barnum”) possivelmente teve sua origem com o psicólogo Paul Meehl, em consideração à reputação do circense P.T. Barnum, como mestre da manipulação psicológica.

O psicólogo B. R. Forer descobriu que as pessoas tendem a aceitar descrições de personalidade vagas e generalizadas como se fossem aplicáveis unicamente a si próprias, sem perceber que a mesma descrição poderia se encaixar em praticamente qualquer pessoa. Considere o texto seguinte como se tivesse sido oferecido como avaliação da sua (sim, da sua) personalidade.

Você sente necessidade de que outras pessoas gostem de si e o admirem, e ainda assim tende a ser crítico em relação a si mesmo. Embora tenha algumas fraquezas de personalidade, geralmente é capaz de compensá-las. Você tem uma considerável capacidade não utilizada, que ainda não usou a seu favor. Disciplinado e com auto-controle por fora, tende a ser preocupado e inseguro no íntimo. Às vezes tem sérias dúvidas sobre se tomou a decisão correta ou fez a coisa certa. Prefere uma certa mudança e variedade, e fica insatisfeito quando é cercado por restrições e limitações. Também se orgulha de pensar de forma independente, e não aceita afirmações de outros sem provas satisfatórias. Mas descobriu que não é recomendável ser excessivamente sincero ao se revelar para outras pessoas. Às vezes é extrovertido, afável e sociável, embora às vezes seja introvertido, cauteloso e reservado. Algumas das suas aspirações tendem a ser irrealistas.

Forer deu um teste de personalidade aos alunos, ignorou suas respostas e entregou a cada um deles a avaliação acima. Pediu a eles que avaliassem a descrição com uma nota de 0 a 5, com “5” significando que o aluno achava a avaliação “excelente” e quatro significando “boa”. A média da classe foi 4,26. Isso ocorreu em 1948. O teste foi repetido centenas de vezes com estudantes de psicologia e a média ainda gira em torno de 4,2.

Em resumo, Forer convenceu as pessoas de que podia ler suas personalidades com sucesso. A exatidão surpreendeu as pessoas testadas, embora a análise de personalidade tenha sido tirada de uma coluna de astrologia de banca de revista e tenha sido apresentada a pessoas sem nenhuma relação com seu signo solar. O efeito Forer parece explicar, ao menos em parte, por que tantas pessoas acham que pseudociências “funcionam”. Astrologia, astroterapia, biorritmos, cartomancia, quiromancia, o eneagrama, métodos de ler a sorte, grafologia, etc. parecem funcionar porque parecem oferecer análises acertadas de personalidade. Estudos científicos dessas pseudociências demonstram que elas não são ferramentas válidas de avaliação de personalidade, embora todas tenham muitos clientes satisfeitos que estão convencidos de que são acuradas.

As explicações mais comuns para o efeito Forer são relacionadas com esperança, influência dos desejos, vaidade e tendência em procurar sentido nas experiências, embora a explicação do próprio Forer tenha sido baseada na credulidade humana. As pessoas tendem a aceitar afirmações sobre elas proporcionalmente a seu desejo de que sejam verdadeiras, em vez de em proporção à exatidão empírica dessas afirmações em relação a um padrão não subjetivo. Tendemos a aceitar afirmações questionáveis, mesmo falsas, sobre nós mesmos se as considerarmos suficientemente positivas ou lisonjeiras. Freqüentemente damos interpretações bastante liberais a afirmações vagas ou inconsistentes sobre nós mesmos para fazer com que elas ganhem sentido. Os que buscam aconselhamento de paranormais, médiuns, videntes, pessoas que lêem a mente, grafólogos, etc. freqüentemente ignoram afirmações falsas ou questionáveis e, em muitos casos, através de suas próprias palavras e atitudes, fornecem a maior parte das informações cuja origem erroneamente atribuem ao conselheiro pseudocientífico. Muitas dessas pessoas freqüentemente sentem que os conselheiros forneceram a elas informações profundas e pessoais. Essa validação subjetiva, no entanto, não tem valor científico.

O psicólogo Barry Beyerstein acredita que “a esperança e a incerteza evocam processos psicológicos poderosos que mantêm em atividade todos os que lêem personalidades por meios ocultos e pseudocientíficos”. Tentamos constantemente “encontrar sentido na avalanche de informações desconexas que encontramos diariamente”, e “tornamo-nos tão bons em completar as coisas de forma a obter um quadro razoável a partir de dados incoerentes que às vezes encontramos sentido onde ele não existe”. Freqüentemente preenchemos as lacunas e oferecemos uma imagem coerente do que ouvimos e vemos, embora um exame cuidadoso das evidências pudesse revelar que os dados são vagos, confusos, obscuros, inconsistentes, ou mesmo ininteligíveis. Médiuns, por exemplo, muitas vezes fazem tantas questões desconexas e ambíguas em uma rápida sucessão que dão a impressão de ter acesso a conhecimentos pessoais sobre seus clientes. De fato, o paranormal não precisa ter qualquer informação sobre a vida pessoal do cliente, já que este irá, voluntariamente ou não, fornecer todas as associações e validações necessárias. Os paranormais são auxiliados nesse processo pelo uso de técnicas de leitura a frio.

David Marks e Richard Kamman argumentam que uma vez que seja encontrada uma crença ou expectativa, especialmente alguma que resolva incertezas desconfortáveis, isso predispõe o observador a notar novas informações que confirmem a crença, e a ignorar evidências em contrário. Esse mecanismo auto-perpetuante consolida o erro original e cria uma confiança exagerada, na qual os argumentos dos opositores são vistos como fragmentados demais para desfazer a crença adotada.
Pedir a um conselheiro pseudocientífico que faça o inventário de personalidade de um cliente é uma situação cheia de armadilhas que podem facilmente induzir a pessoa mais bem intencionada ao erro e ao engano.
Barry Beyerstein sugere o seguinte teste para determinar se a aparente validade das pseudociências mencionadas acima pode ou não se dever ao efeito Forer, à predisposição para a confirmação, ou a outros fatores psicológicos. (Nota: o teste proposto também usa validação subjetiva ou pessoal, e não tem como objetivo testar a precisão de qualquer ferramenta de levantamento de personalidade, mas sim a neutralizar a tendência ao auto-engano nessas questões.)

“Um teste adequado deveria primeiramente obter leituras feitas para um grande número de clientes, e então remover os nomes dos perfis (codificando-os de forma que possam mais tarde ser associados a seus respectivos donos). Após cada um dos clientes ler todos os perfis de personalidade, seria solicitado a cada um que escolhesse aquele que melhor o descrevesse. Se o leitor tiver realmente incluído material unicamente pertinente o bastante, os membros do grupo, em média, devem ser capazes de exceder o esperado pelo acaso ao escolher, do conjunto de perfis, qual o seu. eyerstein observa que “nenhum método oculto ou pseudocientífico de leitura de personalidades… teve sucesso num teste assim”.

O efeito Forer, no entanto, explica apenas parcialmente por que tantas pessoas aceitam procedimentos ocultos e pseudocientíficos de levantamento de características como acurados. A leitura a frio, o reforço comunitário e o pensamento seletivo também estão por trás dessas ilusões. Além disso, deve-se admitir que, embora muitas das afirmações de uma leitura pseudocientífica sejam vagas e genéricas, algumas são específicas. Algumas das que são específicas na verdade se aplicam a um grande número de pessoas, e outras, casualmente, serão descrições precisas de uma seleta minoria. Deve ser esperado um certo número de acertos específicos devidos ao acaso.

Foram feitos numerosos estudos sobre o efeito Forer. Dickson e Kelly examinaram vários desses estudos e concluíram que, de um modo geral, existe confirmação significativa para a afirmação de que perfis no estilo de Forer são geralmente percebidos como acurados pelos participantes dos estudos. Além disso, há um aumento na aceitação do perfil quando este é rotulado como “para você”. Descrições favoráveis são “mais prontamente aceitas como descrições acuradas das personalidades dos sujeitos do que as desfavoráveis”. Mas descrições desfavoráveis são “mais prontamente aceitas quando apresentadas a pessoas com status percebido como mais alto do que às de status percebido como mais baixo”. Também descobriu-se que os sujeitos podem geralmente distinguir entre as afirmações que são acuradas (mas que também o seriam para um grande número de pessoas) e as que são singulares (acuradas para elas mesmas, mas não aplicáveis à maioria das pessoas). Há também evidências de que variáveis de personalidade, como neuroticismo, necessidade de aprovação, e autoritarismo têm relação positiva com a crença em perfis no estilo Forer. Infelizmente, a maioria dos estudos sobre o efeito foi feita somente com estudantes universitários.

Ainda vale assistir a dois vídeos ótimos a respeito:

  1. Carl Sagan fala sobre astrologia
  2. James Randi faz um pequeno teste para avaliar a astrologia

Referências:

Dicionário do Cético

Olhar Cético

Leitura adicional:

Beyerstein, Barry. “Graphology,” em The Encyclopedia of the Paranormal edited by Gordon Stein (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1996), pp. 309-324.
Beyerstein, Barry e Dayle F. Beyerstein, editores, The Write Stuff – Evaluations of Graphology, the Study of Handwriting Analysis (Buffalo, N.Y.: Prometheus Books, 1991).
Dickson, D.H. e I.W. Kelly. “The ‘Barnum Effect’ in Personality Assessment: A Review of the Literature,” Psychological Reports, 1985, 57, 367-382.
Forer, B.R.. (1949) “The Fallacy of Personal Validation: A classroom Demonstration of Gullibility,” Journal of Abnormal Psychology, 44, 118-121.
Marks, David e Richard Kammann, The Psychology of the Psychic (Amherst, N.Y.: Prometheus Books, 1979).
Thiriart, P. (1991). “Acceptance of personality test results,” Skeptical Inquirer, 15,116-165.

2 pensamentos sobre “Por que horóscopo e astrologia parecem funcionar?

  1. Alexandre Gameiro dezembro 5, 2015 às 11:44 am Reply

    Oi, Lisiane.

    Tenho acompanhado seu blog e tweets há algum tempo e quando escrevia o post sobre horóscopo chinês em meu blog, não tive dúvidas de pra onde apontaria o link sobre as inverdades dos horóscopos.

    Parabéns pelo excelente trabalho e jamais esqueça sua toalha.

    Grande abraço!

    PS: Se estiver curiosa sobre o post, é esse aqui: http://www.suntzulives.com/2015/12/horoscopo-chines-signos-astrologia.html

  2. Jose' Ricardo fevereiro 2, 2016 às 6:18 pm Reply

    Excelente trabalho, Lisiane.😉
    Tambem tem muita coisa aqui sobre este assunto (e correlatos):
    http://coletivoacidocetico.blogspot.com/
    Ja’ virei fan do blog…..
    Abracao.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: