Violência, terrorismo e religião: o que realmente podemos dizer a respeito?

Imagem: My way, s/a

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Com as recentes notícias que chegam a todo instante sobre atentados, ameaças e extremismos, a associação “religião = violência” vem sendo muito replicada. Na preocupação com os equívocos, e considerando que minha área de pesquisa é a violência, resolvi escrever este post. É impossível esgotar este assunto em uma única publicação, então é claro que passaremos apenas pela “ponta do iceberg” da problemática e muitas nuances ficarão de fora. Este é, portanto, um resumo bem simplificado do tema. Corro o risco de estar sendo simplista, quem sabe.

Quando falamos em violência, estamos nos referindo à reificação da alteridade, na forma de uma busca de estabilidade existencial a qualquer custo. Este fator é um elemento congênito da condição humana, pois está presente onde quer que o ser humano se estabeleça (e, sim, existem fatores biológicos na violência, o que é assunto para um outro post). Buscamos a estabilidade existencial porque nossas relações são renováveis: conforme elas se reestabelecem e se redefinem, novos elementos surgem e a singularidade de um determinado sujeito ou grupo é obrigada a diferenciar-se para se preservar.

Para explicar melhor, exponho as descobertas do filósofo e historiador francês René Girard. Ele construiu um sistema fenomenológico-antropológico para explicar a origem da cultura e a estrutura da violência nas sociedades, e é este sistema que analisaremos aqui.

No cerne da teoria de Girard está o processo de passagem da indiferenciação à diferenciação social, elemento instituinte da cultura. Mas como isso funciona? É mais simples do que parece: na indiferenciação (quando todos parecem iguais sob algum aspecto elementar da cultura), a rivalidade torna-se muito grande e ameaça a coesão do grupo social. Assim, o grupo cria mecanismos coletivos de diferenciação (onde cabem religiões e ideologias em geral).

A cultura se funda nestes processos de diferenciação, pois é ela que racionaliza a sociedade. Na indiferenciação, não há responsáveis identificáveis pela crise do grupo e consequentemente não há a quem culpar. Se pensamos todos de forma semelhante neste grupo, afinal, por que não estamos tão coesos assim? Pois é.

O que isso tem a ver com religião e terrorismo? A primeira solução diante da crise é o que Girard chama de “sacrifício vitimizador”, que polariza em uma vítima (o diferente, o oponente) a violência que representa todas as rivalidades e conflitos que ameaçam o grupo. A vítima (que pode ser outro grupo, outro país, outra ideologia) serve como bode expiatório para que o grupo sinta que “tem a razão a seu favor”, visto que, tendo experimentado os benefícios da violência fundadora enquanto solução para a crise que vivia, este grupo busca meios de perpetuá-la em nome da estabilidade e acaba ritualizando o sacrifício. Ou seja, a vítima é uma “catalisadora” e o grupo a vê como fonte de paz interna. Quando não é possível exterminar a vítima de uma única vez, a violência se torna cada vez mais brutal e desordenada. Trocando em miúdos, o “bode expiatório” surge para regulamentar ou regularizar a violência.

Quando falamos em terrorismo, podemos ter diversas definições em mente – e, muito provavelmente, uma delas é o terror causado por grupos extremistas, cuja grande marca oriental tende a ser a aversão ao ocidente, fincada no histórico obstáculo colocado pelos países ocidentais na unidade do mundo árabe. Os extremismos só existem porque se servem dos argumentos das ortodoxias – e é aí que entra a religião. A fé está no âmbito da emoção e, sendo assim, pode ser adaptada (podemos usar como exemplo aqui as muitas modificações que as religiões sofrem há milênios) e utilizada para justificar praticamente qualquer coisa, pois é aberta a novas interpretações e vista como sagrada. A violência por ela legitimada passa a ser “sacralizada”, entendida pelos seus adeptos como prova de superioridade e/ou transcendência.

É verdade que muitas religiões formaram-se e dividiram-se em meio a conflitos e colonizações. Porém, mesmo nestas situações, ela não foi mais que um bode expiatório (um meio) utilizado para a obtenção do poder (um fim). Existe uma multiplicidade de outras ideologias que podem ser igualmente utilizadas como um meio para este mesmo fim. Assim, vale salientar que um mundo sem religião não é um mundo automaticamente sem violência. O mundo sem ideologias extremistas é que provavelmente será um mundo melhor. As religiões, todas elas, não são mais do que formas que encontramos de nos organizamos em grupos mais coesos conforme visões de mundo. Uma religião extremista obviamente é apoiada em uma ideologia extremista, passando a um processo de retroalimentação.

É claro que os extremistas religiosos são muito diferentes dos religiosos moderados, e é impossível retirar parte da culpa do aspecto “sacralizador” oferecido por certas religiões. O objetivo da religião ser utilizada como meio em casos extremistas é claro: a guerra encontra sua justificação na doutrina da guerra justa, que legitima a violência como “ferramenta a serviço de um conflito justo”. Isso costumeiramente é feita com interpretações bizarras de livros religiosos ou “sagrados”.  Os extremistas, desejosos de poder e dominação política, utilizam a si mesmos (a doutrina ortodoxa serve pra isso, para que seus adeptos confiem irracionalmente na hierarquia) como instrumentos desta “guerra justa”, que encontra eco e justificativa nas ortodoxias, sejam elas quais forem. Neste caso, a religião. E existe nela, sim, uma responsabilidade. O que ela determina é “sagrado e incontestável” para seus praticantes. A cultura ocidental representa o rompimento com a justificativa cultural que, por séculos, eles consideraram correta. No caso do EI, isso é ainda maior e não diz respeito apenas às interferências ocidentais (aliás, ousaria dizer que elas têm pouco a ver com isso). Em um mundo globalizado, interconectado e cada vez mais repleto de avanços sociais, científicos e tecnológicos, sua postura deixou de encontrar grandes ecos.

Um esquema para que se possa entender melhor as teorias sobre a moralidade da guerra

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Assim, concluímos que o terrorismo, ao contrário do que comumente se pensa, não é culpa da religião em si: os homens adaptam suas crenças conforme suas personalidades e vontades – e podem utilizar uma multiplicidade de desculpas para a violência, incluindo a religião. Acontece que, nela, eles podem utilizar-se do sagrado como “sinal de estarem certos” e demonstrarem ao mundo que têm razão e seu deus, seja qual for, os favorece.

Como disse Jean-Marie Müller: “Não é possível condenar, recusar e desarmar os extremismos sem reavaliar as ortodoxias que lhes fornecem justificações”. O grande inimigo da liberdade e da democracia não é a religião, mas a ortodoxia. O grande obstáculo para o mundo ocidental não é o oriente, e sim a irracionalidade que encontra vazão em qualquer parte do mundo.

Post scriptum: no caso de desejarem ler mais sobre o que foi citado aqui, recomendo as leituras abaixo.

ARENDT, H. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1987.

DAHRENDORF, R. O conflito social moderno. Um ensaio sobre a política da liberdade. São Paulo: Edusp, 1992.

GIRARD. A violência e a religião. São Paulo: Paz e Terra, 1990.

MÜLLER, Jean-Marie. O princípio de não-violência. São Paulo: Palas Athena, 2001.

Um pensamento sobre “Violência, terrorismo e religião: o que realmente podemos dizer a respeito?

  1. Marco Bernardino novembro 16, 2015 às 2:04 pm Reply

    De modo geral, eu concordo com seus argumentos e sua conclusão. Acho contraproducente colocar a culpa toda na religião, quando sabemos que outras ideologias não religiosas já foram capazes das mesmas atrocidades. Realmente, o problema não é a religião, mas as ideologias. Mas acho que não podemos perder de vista que as religiões de origem semítica (judaísmo, cristianismo e islamismo) carregam em si a semente do extremismo e da violência. Povo escolhido, povo santo (santo = separado), expiação de pecados pelo derramamento de sangue, pureza ritual, céu e inferno, guerra contra satanás e seus discípulos, etc… são conceitos que nas mãos de radicais se transformam em poderosas armas. Para mim, a diferença entre muçulmanos moderados e muçulmanos radicais (assim como judeus ou cristãos) não é o quanto eles dão valor para a pluralidade e tolerância, mas o quanto eles realmente leram e levaram a sério seus livros sagrados. Abraço!

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