Perfil biológico da agressão entre os gêneros

“O primeiro passo para compreender a violência é deixar de
lado nossa ojeriza por ela durante tempo suficiente para nos
permitir examinar por que ela, às vezes, pode compensar do
ponto de vista pessoal ou evolutivo. Isso requer inverter a
formulação do problema: não mais por que a violência ocorre,
mas por que ela é evitada. Afinal, a moralidade não entrou
no universo com o Big Bang e então o permeou com a
radiação de fundo. Ela foi descoberta por nossos ancestrais
depois de bilhões de anos de processo indiferente à moralidade
denominado seleção natural” PINKER, S. Tábula rasa. p. 431.

O assunto está em alta com campanhas publicitárias na televisão e foi até tema da redação do ENEM neste ano: violência contra a mulher. Embora o conceito já seja popularmente conhecido, basta abrir uma aba de pesquisa no Google para descobrir que a identificação da violência de gênero não é assim tão fácil: são diversos os tipos de violência existentes, e a maioria deles não deixa marcas visíveis [1]. Alguns afirmam que este tipo de violência é fruto do contexto social, onde os homens aprendem a ser diferentes das mulheres. Será?

As demandas provenientes da violência de gênero são alvos constantes de discussões da minha categoria profissional (os assistentes sociais), e são pensadas cotidianamente as mais diversas estratégias para um enfrentamento eficaz. O que acontece, no entanto, é o tratamento deste tipo de violência como oriunda tão somente do contexto social, sem matrizes biológicas que justifiquem quaisquer diferenças entre os gêneros. Em diversos momentos tentei, ainda que inutilmente, levantar com outras categorias a discussão sobre um aspecto controverso neste mar de informações: o perfil biológico da agressão entre gêneros. Mulheres agridem menos? Mulheres são as maiores vítimas da violência? P’ra responder isso, vamos começar falando sobre as diferenças entre os sexos.

  1. QUE DIFERENÇAS?

Os meninos gostam de carrinhos, as meninas de boneca, certo? Bem, isso é facilmente explicável pela construção social. Concordo. Mas e se as crianças fossem criadas sem diferenciações, o que ocorreria? Richard Lippa realizou uma pesquisa que teve mais de 200 mil consultados em 53 países da América, Europa, África e Ásia. Eles foram perguntados sobre com o que gostariam de trabalhar. O que ele descobriu? Que há uma grande diferença. Homens são muito mais interessados em trabalhar com coisas: engenharia, mecânica. E as mulheres, relativamente, muito mais em trabalhar com pessoas.

Você pode pensar, por exemplo, que as mulheres no mundo todo não são encorajadas a isso. Em partes, é verdade. No entanto, seria de se esperar mudanças em vários países, se a cultura fosse a suprema influência – e os resultados da pesquisa foram persistentes em todas as 53 nações. Lippa concluiu que há algo biológico nesta disparidade. Ele surgere diferenças inatas entre os gêneros e, assim, acredita que seria plausível pesquisar sobre esta questão biológica no início do desenvolvimento. Quão cedo se pode perceber diferenças de interesses entre meninas e meninos?

O professor Trond Diseth, psiquiatra, realizou a pesquisa. Ele trabalha com crianças nascidas com deformações genitais e, no processo de determinar o gênero, utiliza um teste com brincadeiras simples. Funciona da seguinte forma: sua equipe escolheu dez brinquedos (quatro tidos como femininos, quatro considerados masculinos e dois chamados brinquedos neutros), colocou-os em um padrão e resolveu filmar a reação de bebês com menos de um ano de idade. Diseth notou que, desde os nove meses de idade, é possível notar a preferência das meninas por brinquedos femininos e a masculina por brinquedos masculinos.

[Meninos] gostam mais de brinquedos, armas, competição e ação do que bonecas, romance, relacionamentos e famílias. É claro que eles não vêm ao mundo com todas essas preferências plenamente formadas, mas nascem com alguma preferência inefável a se identificarem com coisas de meninos. Isso é o que a psicóloga infantil Sandra Scarr chamou de “escolha de nicho”: a tendência de escolher a criação que é adequada a sua natureza (Ridley, 2003, p. 80-81 – ver rodapé*).

“Eles estão sendo influenciados por papéis de gênero”, você pode argumentar. Em boa parte, você tem razão. Por outro lado, Diseth acredita que as crianças nascem com uma disposição biológica clara. A sociedade pode reforçar isso, mas apenas até certo ponto. Pesquisa semelhante foi realizada com macacos-vervet, tendo resultados semelhantes [2].

Esse fato nos leva a questionar se existem sinais de diferenças de gênero no início da vida. Simon Baron-Cohen é um professor inglês de psiquiatria, especialista em autismo, que fez inovadoras experiências sobre crianças recém-nascidas. Sua equipe fez um teste com bebês de um dia de vida: mostraram a eles um objeto mecânico e um rosto para olhar e marcaram quanto tempo cada bebê olhava para cada um desses objetos. Como imaginado, os meninos olharam por mais tempo para objetos mecânicos e as meninas para o rosto. Estes resultados sugerem que as diferenças são criadas antes das crianças nascerem.

Baron-Cohen [3] resolveu fazer outro teste: considerando que há diferentes níveis hormonais entre os sexos, passou medir o nível de testosterona de crianças ainda no útero (visto que a testosterona influencia no desenvolvimento do cérebro). O que descobriu é que, quanto mais alta a testosterona nas crianças na fase pré-natal, mais lentos elas são para desenvolver a linguagem e menos contato visual elas fazem na idade de um ou dois anos. Ou seja, mais testosterona está associada ao desenvolvimento mais lento da linguagem e do desenvolvimento social.

E se uma menina produzir muita testosterona? É uma condição genética e garotas com essa condição mostram um padrão muito masculino de preferência por brinquedos. Baron-Cohen acompanhou estes bebês até por volta dois oito anos, concluindo que as crianças com mais alto índice de testosterona têm mais dificuldades com empatia e reconhecimento das emoções alheias. Também têm maior interesse em sistemas, engrenagens e compreensão de como as coisas funcionam.

Nosso corpo e psique são influenciados pela evolução. A psicóloga evolutiva Campbell pesquisa como nossos traços são resultado de um longo processo de seleção. Para ela, qualquer característica que aumente o número de descendentes tenderá a ficar no conjunto genético. P’ra ela, é isso que seleciona traços específicos entre homens e mulheres.

Mas peraí: por que a evolução faz mulheres e homens diferentes em nível comportamental? Se as mulheres são quem gesta, dá a luz e amamenta as crianças, seria muito surpreendente se não houvesse algum tipo de orquestração psicológica que ajudasse as mulheres a realizar esses feitos e fazer esse tipo de tarefas particularmente prazerosas para elas. A consequência disto é evitar comportamentos perigosos, ter mais empatia, evitar comportamentos que gerem algum tipo de exclusão social. Todas elas dizem respeito a se reproduzir, viver mais e deixar filhos que também se reproduzam.

Conforme Campell, é por isso que as mulheres hoje são mais orientadas para outras pessoas do que os homens. Todo mundo é influenciado por genes milenares. É claro que a psicologia evolutiva é controversa inclusive no ramo da própria psicologia, mas mesmo os maiores críticos (como Jerry Coyne***, por exemplo), admitem que existe material muito bom na área e não se pode descartar suas contribuições.

Quando falamos em evolução, é frequente que se pense que a tese de Darwin faça menção tão somente ao nosso “parentesco com os macacos”. Gigantesco engano. A árvore genealógica da qual descendemos é a dos grandes primatas: dela fazem parte os bonobos, orangotangos, gorilas, chipanzés e humanos, ou seja, animais sem cauda e com porte físico maior que os macacos, como micos, lemures, etc. Desde as florestas equatoriais, os primatas divergiram de seus ancestrais há milhões de anos: primeiro o orangotango, 14 milhões de anos atrás; os gorilas há 7,5 milhões; os humanos há 5,5 milhões; chimpanzés e bonobos há 2,5 milhões de anos. De lá pra cá, o DNA humano foi mapeado e os avanços foram enormes no campo da genética.

Cabe lembrar aqui também que a psicologia evolutiva nada tem a ver com quaisquer tipos de determinismo biológico ou “destino genético”****.

  1. COMO ESSAS DIFERENÇAS PODEM EXPLICAR MAIORES AGRESSÕES FÍSICAS POR PARTE DOS HOMENS?

Essa década tem sido de significativos avanços da biologia molecular e da genética comportamental, inclusive na constatação de que existem diferenças entre os sexos – e admitir isso não é, de forma alguma, diminuir a importância de algum deles. É compreensível temer a admissão das diferenças entre a mente masculina e a mente feminina, visto que imagina-se que tais diferenças beneficiariam os homens e lhes dariam algum tom de “superioridade”.

Vamos elucidar rapidamente esse aspecto: sob o prisma genético, as estratégias de sobrevivência das mulheres são tão boas quanto as dos homens. O psicólogo e linguista canadense Steven Pinker [4] afirma que, da perspectiva biológica, é melhor ter adaptação dos machos para solucionar contingências que dizem respeito ao universo masculino e ter adaptação de fêmeas para resolver problemas femininos.

As mulheres e os homens têm a mesma origem evolutiva: suas estruturas cerebrais são iguais a olho nu e também o é o aparato cognitivo. Ao contrário do que dissemina a ideia popular de que mulheres são bem mais emotivas, os estudos demonstram que os níveis emocionais também são iguais para ambos: cuidam da prole, competem por status e cometem agressões em nome de seus interesses pessoais ou coletivos.

É evidente, contudo, que a mente feminina e a mente masculina diferem em muitos aspectos, inclusive no que diz respeito a comportamentos sexuais. Um exemplo simples é a quantidade de casos envolvendo pedofilia (dentro ou fora da internet): são raros os casos envolvendo mulheres pedófilas. Os homens também disputam mais agressivamente por suas parceiras**. Quando se trata de homicídios, os homens os cometem de 20 a 40 por cento mais do que as mulheres.

É claro que falamos de funções  adaptativas. Os pesquisadores Richard Wrangham e Dale Peterson [5] salientam que a agressão intencional não é algo exclusivo dos primatas humanos e que os embates entre grupos rivais são frequentes. A agressão não é uma característica exclusivamente humana, embora seja maior entre o sexo masculino (tanto nos primatas humanos quanto nos não-humanos)[6].

Assim, podemos assumir algumas questões simples:

  1. O aspecto cultural conta sim, e conta bastante. Mas há um limite para sua influência. A biologia é um aspecto que deveria – e muito – ser levado em consideração na hora de compreender a altercação das estatísticas de agressão, em geral partidas dos homens, e a aparente “submissão” feminina diante de muito destes casos (não no sentido de amenizar a culpa, mas de elaborar estratégias melhores de enfrentamento).
  2. As mulheres, diferentemente dos homens, evitam embates físicos ou agressões diretas, por questões de reprodução e sobrevivência. Esse fator pode ajudar a explicar a chamada “dominação masculina” em áreas como tráfico, violência sexual e homicídios.
  3. Seus interesses são tão distintos quanto suas estratégias de sobrevivência. E não deveríamos ter qualquer receio de admitir isso. Mulheres e homens não “têm que” gostar de coisas femininas ou masculinas. Elas (e eles) simplesmente gostam.
  4. O nível mais alto de testosterona nos homens os torna menos suscetíveis à empatia e à compreensão do sentimento alheio. As mulheres, no entanto, são mais propícias ao cuidado e ao contato social. Isso pode explicar as diferenças nos tipos de agressão e, inclusive, no fato de que as mulheres evitam conflitos “sangrentos”.
  5. O comportamento sexual também é diferente entre os homens e as mulheres, o que nos auxilia um pouco a entender os maiores casos de pedofilia e estupro por parte dos homens (a entender, não a justificar).
  6. Enquanto a agressividade feminina é mais ligada ao aspecto psicossocial, a agressividade masculina é mais ligada ao aspecto físico (agressões físicas) e à noção de superioridade (pelo papel de “zelador” da prole) – assim, os homens são mais propensos a demonstrar publicamente a agressão, reafirmando poder.
  7. Ambos os sexos, contudo, cometem agressões de ambos os tipos e também sofrem agressões de ambos os tipos, não havendo qualquer evidência para afirmar que “todos os homens são agressores em potencial” ou que “todas as mulheres são vítimas em potencial”. Todos somos potencialmente agressores e agredidos.
  8. Tanto quanto as diferenças sexuais (homem/mulher) existem, elas interagem com as diferenças de gênero (masculino/feminino). A identificação de gênero também é biológica (as pessoas nascem se identificando com um gênero ou outro, com ambos ou com nenhum). O que a sociedade faz é tentar adaptar sexo e gênero (fazer com que as mulheres sejam do sexo feminino e os homens do gênero masculino, obrigatoriamente). Por isso defendo de que a violência maior é contra o feminino.
  9. A violência de gênero deve, sim, ser debatida e combatida. Não se pode, porém, ignorar aspectos biológicos em nome de uma conformidade teórica sobre a construção social.

Alguns destes elementos podem parecer idênticos, embora apresentem pequenas diferenças (especialmente no que diz respeito à agressão).

Esses resultados são estatísticos, ou seja, não é possível usar esses resultados para inferir nada indivíduos. E há também o aspecto moral, que esses resultados não dão respaldo para que sejam feitos julgamentos sobre indivíduos que tenham comportamento fora deste padrão, os outliers [7].

Por último, cabe lembrar que explicar certos comportamentos não é, de forma alguma, concordar com eles ou justifica-los. Ninguém pretende encerrar a discussão ou apresentar dados definitivos (que não possam ser questionados), mas apresentar elementos para se pensar melhor a respeito.

REFERÊNCIAS

[1] Violência física, violência psicológica, violência sexual, violência patrimonial, violência moral.

[2] Miller & Kanazawa, 2007.

[3] Baron-Cohen, Simon. Diferença essencial – A verdade sobre o cérebro de homens e mulheres. Rio de Janeiro: Objetiva, 2003.

[4] Pinker, S. Tábula rasa: negação contemporânea da natureza humana. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

[5] WRANGHAM, R.; PETERSON, D. O macho demoníaco. s/a. Não se assuste com o título.

[6] Frans de Waal tem um livro excelente a esse respeito: “Eu primata”.

[7] Agradecimento especial ao amigo Marcelo Vargas dos Santos, por estas duas pertinentes considerações.

*Ridley, M. O que nos faz humanos. São Paulo: Editora Record, 2003.

** Você pode encontrar mais informações sobre isso em “Tábula Rasa”, do Steve Pinker.

***  COYNE, Jerry. Is evolutionary psychology worthless? : http://whyevolutionistrue.wordpress.com/2012/12/10/is-evolutionary-psychology-worthless/

**** Para quem deseja saber um pouco mais a respeito da psicologia evolutiva, pode acessar esse ótimo texto da NetNature: https://netnature.wordpress.com/2014/10/16/psicologia-evolutiva-modelo-computacional-modularidade-e-adaptacionismo/

Grande parte das informações deste texto são descrições do documentário “Lavagem cerebral, episódio 1” e das informações fornecidas por Gilson Marciano de Oliveira, em “A agressão humana: uma investigação filosófica mediante o pensamento de Steven Pinker” (Curitiba : Edição do autor, 2009).

9 pensamentos sobre “Perfil biológico da agressão entre os gêneros

  1. Alex Lenn dezembro 15, 2015 às 9:59 am Reply

    Baita post, Lis!

  2. D Stoffel dezembro 15, 2015 às 3:31 pm Reply

    Apenas diferenças adaptativas continuo achando os dois generos quase iguais sim
    se alguem tiver um argumento diferente pode rebater mas sem agressões

  3. D Stoffel dezembro 15, 2015 às 3:31 pm Reply

    Apenas diferenças adaptativas

  4. Jonas Rodrigues dezembro 18, 2015 às 3:31 pm Reply

    Gostei do texto Lisi, mas acho que tu cometeu o erro de confundir gênero com sexo. As próprias pesquisas geralmente não fazem uma distinção clara entre os dois conceitos, especialmente os estudos na área de psicologia evolucionista.

    Há, evidentemente, diferenças entre ambos os sexos, em diferentes níveis. Só pra mencionar um, existe a diferença hormonal. Entretanto, não existe fundamento biológico nos gêneros. É claro que no caso de uma mulher feminina ou de um homem masculino a biologia exerce um importante papel, mas não existe fundamento biológico que explique porque homens gostam de futebol, por exemplo. Existe um substrato evolutivo que explica porquê machos são mais propensos a atividades competitivas. Um macho mais feminino, por exemplo, provavelmente não vai se interessar por essa atividade.

    O que eu quero dizer é que essa fundamentação biológica tá associada com o sexo, não com o gênero. Não discordo de nada do que tu escreveu, só acho que tu acabou colocando gênero onde deveria ser sexo. Como eu disse, os próprios estudos confundem isso.

    O gênero, como tu bem mencionou, não é uma simples escolha. Você acaba sendo inserido em uma cultura que determina, antes do nascimento, o seu gênero (meu filho, se nascer homem, vai vestir azul e jogar futebol; minha filha, se nascer mulher, vai vestir rosa e ter maquiagem). O gênero acaba, em grande parte, sendo determinado pela própria cultura, mas a gente acaba tendo relativa autonomia para alterar algumas coisas ao longo da vida.

    A Lei Maria da Penha, por exemplo, que é um dos principais instrumentos legais para coibir a violência de gênero coloca que essa violência, doméstica ou familiar, é contra a mulher, não contra a fêmea. Isto é, a violência, nesses casos, é de gênero, não de sexo. Um exemplo disso é que um macho mais feminino pode sofrer violência de outros machos apenas por ser mais feminino. Isso também acontece com travestis e transsexuais femininas, que acabam sofrendo também violência de gênero. Aqui eu também penso que exista um atravessamento de gênero na homofobia, porque geralmente machos homossexuais mais femininos acabam sofrendo violência por não apresentarem traços que seriam típicos do gênero masculino (homem).

    Essa discussão sobre o suposto binômio de gênero é bem complexa e bem interessante. Só pra concluir, existe o substrato biológico que vai trazer diferenças entre os sexos, mas isso não tem uma relação causal com o gênero, ainda que sexo e gênero se misturem. Essa é uma diferença mais teórica/abstrata do que materialmente distinguível. Essa associação gênero-sexo quase sempre existiu.

    O que eu entendo, sendo super-hiper-mega-power simplista é que o sexo é determinado em grande parte por aspectos biológicos, mas não só, e o gênero é em grande parte por aspectos sociais (contexto social, cultural, econômico, histórico). Eu penso que a construção de gênero se dá muito mais pela tradição e pela cultura do que por outros fatores. Eu recomendo a leitura de ‘A Construção Social do Conhecimento’ do Berger e Luckmann, dois sociólogos que explicam, entre outras coisas, como a tradição institucionaliza a cultura. Isso explica também porque existe a desigualdade de gênero nas instituições. Tu deve conhecer esse livro ^^

    Desculpa pelo comentário enorme! hahaha

    • Lisiane Pohlmann dezembro 18, 2015 às 7:09 pm Reply

      Oi Jonas.

      Então… A perspectiva do texto é salientar que, tanto quanto as diferenças sexuais (homem/mulher) existem, elas interagem com as diferenças de gênero (masculino/feminino). A identificação de gênero também é biológica (as pessoas nascem se identificando com um gênero ou outro, com ambos ou com nenhum). O que a sociedade faz é tentar adaptar sexo e gênero (fazer com que as mulheres sejam do sexo feminino e os homens do gênero masculino, obrigatoriamente).

      Por isso defendo, na conclusão, de que a violência maior é contra o feminino, não contra a mulher (aí estão as drag queens para comprovar isso, por exemplo). Talvez não tenha me feito entender.

      • Jonas Rodrigues dezembro 19, 2015 às 3:13 am

        Ah sim, se eu entendi bem, tu defende que a violência é contra o sexo feminino, não contra a mulher enquanto gênero. Eu parto de outra linha de raciocínio, onde entendo que a violência – apesar de haver substrato biológico envolvido – é de gênero.

        Eu parto do binômio de gênero pra compreender a violência, onde coloca o gênero masculino como naturalmente violento e agressivo e o gênero feminino como naturalmente passivo, submisso e sensível. Eu mencionei o caso de homens homossexuais, que apesar de (em alguns casos) se identificarem com o gênero masculinos, acabam sendo vistos como femininos, isto é, sensíveis, passivos, submissos e alvos de violência.

        É por esta ótica também que eu avalio os casos em que uma mulher é violenta contra um homem. Nesses casos existe uma certa ruptura nas noções tradicionais de gênero. Nesse caso, ficaria ao cargo da mulher o papel de dominação. É por isso que no senso comum costuma-se dizer que trata-se de uma mulher macho, porque o próprio senso comum – obviamente inserido em uma cultura – produz e reproduz a dicotomia entre os gêneros.

        De qualquer forma, ótimo texto. ^^

      • Lisiane Pohlmann dezembro 19, 2015 às 4:51 am

        Jonas, essa é uma perspectiva muito interessante. Sabes me indicar alguma leitura nesse sentido? Gostei.

      • Jonas Rodrigues dezembro 20, 2015 às 9:29 am

        Não tenho nenhum material específico sobre isso pra te indicar. Essa perspectiva é uma mistura das leituras, reflexões e discussões que venho fazendo há alguns anos. É uma perspectiva bastante aceita na psicologia, especialmente na psicologia social.

        Eu reforço a indicação de “A Construção Social da Realidade”, onde Berger e Luckmann sequer mencionam gênero ou violência, mas postulam uma base teórica de compreensão da realidade e mais especificamente como ela é construída. Nesse livro eles vão falar sobre a importância da tradição – aquilo que a gente faz simplesmente porque sempre foi assim – na construção e institucionalização da cultura. Isso serve de base pra eu pensar porquê as relações de gênero vêm se perpetuando e atualmente se encontram dessa maneira e como a gente institucionaliza e legitima a violência do gênero feminino pelo gênero masculino.

        Eu tenho lido recentemente alguns artigos aleatórios da revista Estudos Feministas da UFSC¹. A revista produz um conteúdo bem interessante. Tem um artigo em específico que se chama “A construção do masculino: dominação das mulheres e
        homofobia” que é super interessante. Eu ainda não terminei de ler ele, mas basicamente o autor vai falar sobre como a socialização do gênero masculino se dá através da violência, entre outras coisas. Isto é, sobre como a violência parece constituir um traço importante na socialização masculina, o que explicaria, então, a institucionalização da violência de gênero. Eu recomendo o artigo. Foi uma professora que me indicou, ela trabalha com gênero e identidade.

        Quando eu entrei pra faculdade tinha um pensamento bastante semelhante ao teu, onde entendia que a violência ocorria entre os sexos e que havia um importante substrato biológico. Só que fui discutindo com algumas pessoas, especialmente professores que estudam gênero há bastante tempo e fui repensando a questão. Tenho uma professora que foi importante nisso que é a Marlene Neves Strey. Ela pesquisa e escreve sobre gênero há mais de 20 anos, tem vários livros e artigos sobre o assunto. Ela pesquisa sob a perspectiva da psicologia social e compreende que não há fundamento biológico na violência de gênero. O fundamento, nesse caso, é socio-histórico-cultural. Eu ainda não li nenhum livro dela, mas já li alguns artigos. Ela continua publicando. Se tu tiver interesse, dá uma pesquisada.

        É basicamente isso, se eu lembrar de mais alguma coisa, te indico.😀

        1. https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref

  5. Joao Kennedy M. Ornelas dezembro 18, 2015 às 7:28 pm Reply

    Posso dizer que tanto o homem como a mulher quando se vêem numa situação hostil e de conflito seja de interesses, ou ameaçados no seu cotidiano, todos eles usam da violência para se defender. Suas atitudes são iguais, apenas que as formas como são aplicados que diferem quanto ao gênero. Num relacionamento conjugal, de onde saem maioria dos casos de violência entre gêneros, sabemos que um conhece o outro muito bem, o convívio conjugal abre a psique do parceiro mostrando suas fraquezas. Essas observações revelam por si o que mais medo o outro tem. A natureza do homem é simples e fácil de entender pela mulher, diferente do homem a mulher é mais sutil, emocional. tem a falada inteligencia emocional, poderosa arma utilizada para confundir seu parceiro. Sabendo disso ela testa a reação do parceiro, escondendo ou emitindo situações de conflito ou dúvida. Assim começa o círculo da loucura do homem, sua intenção é desestabiliza-lo emocionalmente, como jogos onde impera a mentira, omissão, silencio e até ultrapassa o limite dos valores elementares num relacionamento, como a traição. Confundir seu parceiro é o maior prazer de satisfação do ego feminino na luta entre gêneros num relacionamento.É a satisfação total. Sabemos que tudo isso um dia aparece. Tudo isso se revela, um dia ela vai se acabar se traindo e tudo revelado. Exemplos, claro, existe tantos por ai, e as consequências todos sabem. Que é uma violência sim…todos sabem porém chamada de violencia emocional, tão forte, tão satânica como a violência física e moral.

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