Arquivo do autor:Lisiane Pohlmann

O fim do blog

Durante estes quase 10 anos de blogueirice, estar com vocês e ter a oportunidade de compartilhar ciência foi uma grata e incrível aventura. Aqui conheci pessoas fantásticas e sobretudo me foi dada a honra de conhecer contrapontos, visões e diferenças.

O fim do blog não é sinônimo da minha saída da divulgação científica. Pelo contrário, permaneço com o mesmo desejo e na mesma atividade, apenas em uma abordagem diferente: agora publicando em sites conforme meu tempo permite.

Vocês sempre poderão manter contato comigo e adorarei tê-los por perto.

Meu instagram é: esse aqui (pode clicar).

E meu email pessoal é: pohlmann@hotmail.com.br (não se esqueça: tem o .br)

Um imenso abraço,

Lisiane

Por que a memória pode falhar em lembrar eventos impactantes?

A neurociência tem corroborado que o processo mnemônico não é completamente leal à realidade. As lembranças não reconstroem os fatos conforme realmente ocorreram. A memória, segundo Squire, pode ser conceituada como “o processo pelo qual aquilo que é aprendido persiste ao longo do tempo”, estando a memória ligada indissociavelmente ao aprendizado. Há muitas dúvidas, inclusive entre os profissionais, sobre como é possível haver esquecimento ou falha em recordar eventos importantes, mesmo que este processo de recordação seja conduzido por um “tribunal”.

O esquecimento é parte ativa da memória (uma prática), que de forma recorrente pode servir como “proteção” ao sujeito em relação a lembranças dolorosas. Deste modo, cabe ressaltar as quatro formas de esquecimento existentes, destacadas por Izquierdo: a extinção, a repressão, o bloqueio e o esquecimento propriamente dito. A extinção e a repressão tornam as memórias menos acessivos, porém não as perde por completo. O bloqueio e o esquecimento já são consistentes em perda real da informação.

memoriaAlém destas quatro formas supracitadas, existem também as perdas naturais que decorrem da tradução e da evocação de memórias: existe uma tradução entre a realidade das experiências e sua formação na memória respectiva ao acontecimento – e outro ainda entre esta e a evocação. É necessário lembrar que ocorrem perdas em cada tradução. Stefanello diz que “não é mais possível pensar que uma pessoa pode recordar o fato tal como ocorreu, como ainda o nosso sistema jurídico insiste em pensar, pois o que lembramos nunca será idêntico à realidade”.

Sendo assim, é preciso pensar nas fontes de tais falhas. Loftus considera estas deficiências de três formas: uma memória seletiva; eventos não presenciados; e a distorção/alteração da memória por fatos que, embora embaralhados, foram reais. A autora compõe a tese de que são duas as principais causas de ambas as deficiências: o processo esquemático/inferencial da memória e as fontes específicas de informações errôneas.

memoria2No processo esquemático e inferencial da memória, existem espécies de “esquemas” que organizam estruturas de conhecimento (crenças, características, comportamentos, expectativas, pessoas e eventos, tudo que é reconhecível). Cada experiência acaba sendo categorizada neste esquema, para facilitar a compreensão do evento como um todo, fazendo correlações com dados já armazenados e, enfim, trazer compreensão ao fato. Este sistema é necessário ao ser humano e tem, claro, sua imensa utilidade – no entanto, não é livre de erros de percepção e até mesmo de julgamento, já que as lembranças são relacionadas diretamente com quais fragmentos foram ativados quando ocorreu o fato original.

Por outro lado, quando as fontes são especificamente de informações errôneas, elas podem adentrar na memória pelos mais diversos tipos de estímulo, sejam internos ou externos – e também podem tanto adicionar falsas informações quanto substituir a verdadeira memória, distorcendo-a e/ou acionando o processo esquemático citado acima. Estas influências podem ser provocadas pela sugestão de terceiros (como outras testemunhas que testemunharam o fato), pelo entrevistados (quando formula as questões), pelos boatos ou mesmo pela mídia (televisiva ou impressa). Existem diversos estudos sobre as falsas memórias, e destaco aqui o trabalho da especialista Elizabeth F. Loftus (que foi citada acima).

Não é raro que a memória do evento seja apenas parcialmente real, ou mesmo parcialmente relembrada. Há pouco tempo, foi publicada uma matéria sobre como um monte de gente inocente é presa no Brasil por falsas memórias.

Schacter (1999; 2001) e outros autores pontuam ainda que maior parte do esquecimento e enfraquecimento de uma recordação acontece nos primeiros momentos após a ocorrência do evento (horas, dias, meses, dependendo da experiência), assumindo um declínio lento e gradual. A capacidade de manter a recordação vívida e detalhada enfraquece com alguma rapidez, especialmente com crianças (Pinho, 2010), tendo em vista que estão em pleno desenvolvimento de suas compreensões de mundo, de si e dos outros. A análise, portanto, vai muito além do depoimento puro e simples.

Para a questão da memória infantil, haverá maiores detalhes em um próximo post.

Para compreender melhor as falsas memórias, aqui estão links de uma entrevista com Loftus: parte 1, parte 2, parte 3, parte 4, parte 5 e parte 6.

Sobre memória e gerontologia/envelhecimento, existe a entrevista do Drauzio Varella com o Dr. Wilson Jacob Filho, aqui.

A maior parte das informações deste post pode ser encontrada em um artigo da pesquisadora Sarah Stefanello, disponível aqui (recomenda-se a leitura na íntegra).

100 sites indispensáveis de pesquisa científica e acadêmica

Os principais sites para pesquisas científicas servem como referências de auxílio a pesquisa são essenciais para qualquer pesquisador.

Agradecimentos ao Even3

Referências e ferramentas de auxílio a pesquisa são essenciais para qualquer pesquisador e para quem está realizando trabalhos científicos ou acadêmicos. Portanto, nada melhor do que conhecer os principais sites para pesquisas científicas e as melhores ferramentas para encontrar conteúdo e publicações relacionadas a sua área de pesquisa e deixar seu trabalho ainda mais rico.

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O que significa sermos livres para tomar decisões, se nosso comportamento não faz senão seguir as leis da natureza?

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Imagem: s/n

“Existe uma questão em particular, em relação a nós mesmos, que muitas vezes nos deixa perplexos: o que significa sermos livres para tomar decisões, se nosso comportamento não faz senão seguir as leis da natureza? Será que não há contradição entre nossa sensação de liberdade e a lógica com a qual já compreendemos que se desenvolvem as coisas do mundo? Será que existe em nós alguma coisa que escapa às regularidades da natureza, e nos permite distorcê-las e desviá-las com nosso pensamento livre?

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Ponderar evidência e prática

“A fim de haver tolerância no mundo, uma das coisas a ser ensinada nas escolas deve ser o hábito de ponderar a evidência e a prática de não dar total assentimento a proposições em que não haja razão para serem aceitas como verdadeiras. Por exemplo, a arte da leitura de jornais precisa ser ensinada. O professor deve selecionar algum incidente acontecido há muitos anos e que tenha provocado paixões políticas à época. Então, ele deve ler para as crianças o que foi publicado por um jornal de uma corrente política e o que foi mencionado por outros jornais de opinião oposta, e algum relato imparcial do que realmente aconteceu. Ele deve mostrar como, a partir do viés de cada relato, um leitor habituado à leitura pode inferir o que de fato ocorreu, e precisa fazer com que elas entendam que tudo nos jornais é mais ou menos falso. O ceticismo cínico que resultaria desse ensinamento tornaria as crianças mais tarde imunes a apelos de idealismo pelos quais pessoas decentes são induzidas a favorecer os esquemas dos vigaristas.”

Bertrand Russell, 1920