Arquivo da categoria: Ateísmo

O mundo precisa de mentes abertas

600870_563442463700381_566892851_nImagem: s/a

“(…) Além da força de persuasão da lógica, para mim há algo um tanto estranho a respeito das avaliações éticas daqueles que pensam que uma Divindade onipotente, onisciente e benevolente, depois de preparar o solo por milhões de anos de névoas sem vida, poderia considerar-se adequadamente recompensado pelo surgimento final de Hitler, Stalin e da bomba H. […] apenas aqueles que se escravizam para louvar o sucesso podem pensar que a eficiência é admirável sem se importar com seus efeitos. De minha parte, penso que é preferível fazer um pouco de bem a muito mal. O mundo que eu desejaria ver seria livre da virulência das hostilidades grupais e capaz de perceber que a felicidade de todos deve derivar da cooperação, e não da rivalidade. Eu desejaria ver um mundo em que a educação se destinasse à liberdade mental, e não ao aprisionamento da mente dos jovens em uma armadura rígida de dogmas calculados para protegê-los, ao longo da vida, dos golpes e evidencias tendenciosas. O mundo precisa de corações abertos e mentes abertas, e isso não pode derivar de sistemas rígidos, sejam eles velhos ou novos.

Bertrand Russel in “porque não sou cristão”, p.25.

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Em que crêem os que não crêem?

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Mas você não acredita em nada?” é a pergunta que mais me fazem quando assumo publicamente meu ateísmo. Não adianta que eu explique a base etimológica da palavra “ateu”, as pessoas acabam inclinadas a pensar que ceticismo e negativismo são irmãos siameses. Eu não creio em deuses ou sobrenaturalidades. E concordo, sim, que há muitos ateus mais fanáticos que os próprios religiosos.

A gente não vive tempo suficiente pra ler todos os livros, ver todos os filmes, dominar minimamente todas as teorias, conhecer todos os métodos. Não. A gente não vive tempo suficiente pra aprender a não cometer erros, a desacreditar das mentiras, a discernir sem falhas. Erramos, todos – e somos ignorantes em muitos aspectos. Nossas teorias e nossa ciência, aparentemente tão “impecáveis”, serão em grande escala destruídas no futuro. Mas a gente vive tempo suficiente pra aprender o mínimo, pra estar disposto, pra aceitar o toque do outro, pra se despir dos dogmas, pra proclamar a liberdade. Vive sim. Cabe na nossa vida muito mais do que somos capazes de viver: cabe o que os outros viveram antes de nós, e cabe o que vamos deixar para os que ainda virão.

Nós, que dominamos tecnologias tão modernas, somos os mesmos homens que viviam nas cavernas – mas podemos discernir as sombras. Cabe a decisão, que é intransferível. “Sair da caverna”, qualquer que seja ela, não é um posicionamento fácil.

Já ouvi diversas vezes a argumentação da “aposta de Pascal”: Se você não tem certeza de que existe um deus, é melhor acreditar. Assim, se você estiver errado não perderá nada e se estiver certo vai de encontro à vida eterna. Será? Além da dicotomia óbvia, crer tem muito custo. O custo de dedicar a sua vida a tradições e dogmas, a anseios, esperanças e inseguranças que você não precisaria ter. E quem garante que seu deus se importa com a sua crença? E quem garante que uma crença forçada seja válida? Falei bem mais sobre isso aqui (clique para ler). Eu, particularmente, não gostaria de retornar ao mundo mais de dois mil anos depois e constatar que a imagem que me “assegura” sou eu pregada em uma cruz de madeira. Me nego a aceitar um deus que vê de bom grado o sofrimento de muitos e a felicidade de poucos. Religião não é saudável para crianças: por favor, não force seus filhos. Religião pode não ser saudável pra você, por favor, não se obrigue.

Acontece que muitos teístas acreditam que, pelo fato de acreditarem em um deus, automaticamente são bons e irão para o que se chama “vida eterna”. Vida eterna? Ok. E quantos deuses você rejeita? E se você acredita no “deus errado”? E se seu deus simplesmente não existir? E se você, não sendo religioso, consegue ter uma moralidade mais bem fundamentada em si mesma que quem frequenta às Igrejas? E se a bondade não for pautada por crença, mas por ação? E se, de repente, fazer o bem sem desejar recompensa for melhor? E se…?

Não preciso de uma vida eterna. Preciso viver bem a vida que tenho aqui e agora. Preciso olhar para o meu semelhante e entender que reparto com ele uma existência singular, possível entre tantas milhões, em uma época determinada e onde olhar para o ser humano é mais importante que olhar para um deus. Não espero uma justiça divina. Espero uma justiça humana, um olhar humano, mãos humanas. Já disse Platão: A pior injustiça é a justiça simulada.

Imagine uma vida eterna pautada nas suas ações do hoje. Você a desejaria? Se sim, parabéns: você não precisa de religião – embora seja livre para tê-la. Se faz bem sem prejudicar, se você não usa a religião pra legitimar preconceitos, se você não é preso ao dogma, e especialmente se é capaz de se indignar com as injustiças sem deixá-las “apenas nas mãos de Deus”, receba minha sincera admiração.

É comum que questionem se considero ruim a “Espiritualidade”. Não, não é ruim. Ruim é a mordaça da fé: imposta pelas religiões e aclamada pelos fiéis. Ruim é se aproveitar da crença para proclamar preconceitos. Ruim é usar uma opinião particular para justificar o injustificável. Ruim é fazer com que as pessoas, por tradição, transmitam o ódio ao questionamento de forma transgeracional. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não pode esperar que o mundo corresponda às suas fantasias. O real continua sendo real, independentemente de você acreditar ou não. A única coisa que temos sob controle é a ilusão de que podemos controlar plenamente alguma coisa.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Toda a sabedoria resulta de aprendermos a não ter receio de morrer, o que acontecerá (a morte) inevitavelmente. O desprezo e a angústia que ela nos inspira permite que vivamos agradavelmente e sem preocupações com nossa existência. Contudo, o mesmo desprezo que nutrimos e nos “protege” do desespero não pode ser ferramenta do comodismo. A vida deve ser pensada, as coisas não deixarão de acontecer porque você não se preocupa.

Se eu não acredito em nada? Asimov responde: “Eu acredito em prova. Eu acredito em observação, medição, e raciocínio, confirmados por observadores independentes. Vou acreditar em qualquer coisa, não importa quão bizarra e ridículo, se houver provas para isso. O algo mais bizarro e mais ridículo, no entanto, a mais firme e sólida evidência tem que ter”.”

O que eu sou 365 dias por ano independente das ameaças de infernos ou promessas de vida eterna é o que me constitui quanto ao caráter. Quem você é enquanto não precisa de um deus?

O céu é só uma promessa.

Post scriptum: Quer saber mais a respeito? 1) Nigel Spivey fala sobre nosso medo da morte e a criação dos símbolos. 2) Daniel Dennet fala como a religião oferece desculpas para que não pensemos. 3) Sagan disserta sobre  nosso papel no mundo. 4) Dawkins e Neil deGrasse Tyson falam sobre a poesia da ciência. 5) “Daniel L. Everett fala como é ser desconvertido por uma tribo indígena onde ele pretendia ser missionário. 6) Os apresentadores do AE mostram como a moral não cai do céu. 7) Em quantos deuses você não acredita? 8) Bill Maher satiriza sobre as religiões não causarem nenhum mal. 9) George Carlin e os dez mandamentos. 10) Lawrence Krauss questiona os paraísos. 11) Hitchens comenta sobre o ateísmo. 12) Um debate com Dawkins. 13) Bill Maher fala sobre o novo Papa. 14) Sam Harris e o perigo das crenças religiosas. 15) Frans de Waal e a moralidade sem religião.

A Aposta de Pascal refutada

al_Escher07_Magic_Mirror1Imagem: M. C. Escher

Essa postagem é pra você que acredita que é melhor crer em um Deus para não perder nada que não crer e perder tudo.

“Ou Deus existe ou não existe. Mas qual das alternativas devemos escolher?
A razão não pode determinar nada: existe um infinito caos a nos dividir.
No ponto extremo desta distância infinita, uma moeda está sendo girada
e terminará por cair como cara ou coroa. Em que você aposta?
(…) Não se pode provar que Deus existe. Mas se Deus existe, o crente ganha
tudo (céu) e o descrente perde tudo (inferno). Se Deus não existe, o crente
nada perde e o descrente nada ganha. Portanto, há tudo a ganhar e nada
a perder ao acreditar em Deus.”

Blaise Pascal, Pensamentos (edição póstuma, 1844).

Aposta de Pascal é um argumento de filosofia apologética, totalmente baseado na falácia das consequências adversas. Ela já foi refutada há séculos, mas muita gente a continua utilizando (mesmo que sem nomeá-la). Resolvo pontuar rapidamente, então, os motivos pelos quais a Aposta de Pascal está completamente equivocada. Reitero que nada tenho contra o fato de você acreditar, mas tenho muito contra você querer impôr sua crença.

1) Trata-se de uma falsa dicotomia. A aposta não prevê religiões que não trabalham com paraísos e infernos, ou que trabalham com infernos diferentes. Nada garante que você terá uma perda finita se crer, ou uma perda infinita se não crer.

2) O argumento não dá conta de suprir a todos os deuses. Crer em um Deus não lhe garante que você vá evitar o inferno de todos os outros múltiplos deuses.

3) Crer tem custo. Crer implica aceitar dogmas, pautar suas vivências e direcioná-las. Crer implica em responsabilizar o exterior pelas consequências de suas ações. Crer implica em obrigação. Crer tem, sim, muito custo. Sacrificamos a honestidade à perpetuação de uma mentira.

4) Crer ou não é uma decisão, embora muitas vezes inconsciente. Não existe garantia de que QUERER acreditar vá fazer você acreditar. Não existe um liga-desliga para a crença. Você pode fingir que acredita, mas será que isso seria melhor que ser honesto e simplesmente admitir que não acredita? É uma crença desonesta.

5) Não é um argumento a favor da existência de um deus. É um argumento a favor da crença, baseado em medo. A grande chave do argumento, portanto, não está na razão ou na lógica, mas nas relações de poder.

Por favor, não seja fanático. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não tem o direito de querer impôr isso aos outros. Liberdade religiosa é um direito. Obrigada.

Uma feliz páscoa, porque não sou cristã

“Agora que a terra é redonda
E o centro do universo é outro lugar
É hora de rever os planos

O mundo não é plano, não pára de girar
Agora tudo é relativo
Não há tempo perdido, não há tempo a perder.”
(Além da máscara – Pouca Vogal)

Antes de falar sobre minha vida enquanto ateia, preciso contar que já ouvi diversas vezes a argumentação da “aposta de Pascal”: Se você não tem certeza de que existe um deus, é melhor acreditar. Assim, se você estiver errado não perderá nada, e se estiver certo vai de encontro à vida eterna. Ok, venha cá, vamos conversar. Além da dicotomia óbvia, crer tem muito custo. O custo de dedicar a sua vida a tradições e dogmas, a anseios, esperanças e inseguranças que você não precisaria ter. E quem garante que seu deus se importa com a sua crença? Religião pode não ser saudável para crianças: por favor, não force seus filhos. Religião pode não ser saudável pra você, por favor, não se obrigue.

Acontece que muitos cristãos acreditam que, pelo fato de acreditarem em um Deus, automaticamente são bons e irão para o que se chama “vida eterna”. Vida eterna? Ok. E quantos deuses você rejeita? E se você acredita no “deus errado”? E se seu deus simplesmente não existir? E se você, não sendo religioso, consegue ter uma moralidade mais bem fundamentada em si mesma que quem frequenta às Igrejas? E se a bondade não for pautada por crença, mas por ação? E se, de repente, fazer o bem sem desejar recompensa for melhor? E se…?

Não preciso de uma vida eterna. Preciso viver bem a vida que tenho aqui e agora. Preciso olhar para o meu semelhante e entender que reparto com ele uma existência singular, possível entre tantas milhões, em uma época determinada e onde olhar para o ser humano é mais importante que olhar para um deus. Não espero uma justiça divina. Espero uma justiça humana, um olhar humano, mãos humanas. Já disse Platão: A pior injustiça é a justiça simulada.

Imagine uma vida eterna pautada nas suas ações do hoje. Você a desejaria? Se sim, parabéns: você não precisa de religião.

É comum que questionem se considero ruim a “Espiritualidade”. Não, não é ruim. Ruim é a mordaça da fé: imposta pelas religiões e aclamada pelos fiéis. Ruim é se aproveitar da crença para proclamar preconceitos. Ruim é usar uma opinião particular para justificar o injustificável. Ruim é fazer com que as pessoas, por tradição, transmitam o ódio ao questionamento de forma transgeracional. Você tem o direito de crer no que bem entender, mas não pode esperar que as outras pessoas acreditem no mesmo que você – e nem pode obrigá-las a isso.

Tenho família e amigos cristãos, e respeito suas escolhas sobremaneira. O que pretendo destacar é que, enquanto homens sociais, não podemos deixar que o desejo de infinitude nos deixe reféns de um “amor simulado” pelo outro: que sejamos capazes de ver, sentir, tocar, abraçar e amar todos os dias.

Diz Cícero que filosofar não é outra coisa senão preparar-se para a morte. Toda a sabedoria resulta de aprendermos a não ter receio de morrer, o que acontecerá (a morte) inevitavelmente. O desprezo e a angústia que ela nos inspira permite que vivamos agradavelmente e sem preocupações com nossa existência. Contudo, o mesmo desprezo que nutrimos e nos “protege” do desespero não pode ser ferramenta do comodismo. A vida deve ser pensada, as coisas não deixarão de acontecer porque você não se preocupa.

Porque comer chocolate, ir na missa ou não comer carne em uma sexta-feira não são fatores constitutivos do meu (e do seu) caráter. O que eu sou (e você é) 365 dias por ano, sim. Quem você é enquanto não precisa de um deus?

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Post scriptum: A Páscoa teve sua origem na Roma Antiga e Grécia em 200 a.C. com a celebração dos deuses Cybele, deusa da fertilidade, e de seu companheiro o deus Attis, deus da vegetação, que nasceu de uma virgem e ressuscitou ao 3º dia (alguma semelhança?). Um festival comemorava todos os anos o seu renascimento no 1º domingo após a 1ª lua cheia após o equinócio de verão (quando o dia tem o mesmo número de horas do que a noite). O festival tinha início 3 dias antes, conhecida como Sexta-feira Negra. Coincidia com o início da Primavera no hemisfério norte e o período de flores e muito verde era creditado aos deuses. A Páscoa teve muitos nomes conforme a região mediterrânea que era comemorada, mas sempre celebrando a deusa da fertilidade: Afrodite no Chipre Antigo, Ashtoreth em Israel Antigo, Astarte da Grécia Antiga, Deméter de Micenas, Hathor do Egito, Ishtar da Assíria, Kali da Índia, além de Austron, Ausos, Ostare, Ostara, Ostern, Eostra, Eostre, Eostur, Eastra, Eastur. Daí resultando na palavra inglesa para Páscoa que chamam de Easter. E todos eles eram celebrados no mesmo dia, ou seja, no 1º domingo após a 1ª lua cheia após o equinócio de verão. Interessante, não?
Post post scriptum: O Pessach (páscoa judaica) e refere à comemoração, e não à data.

7 fatores que fazem as pessoas acreditarem em coisas estranhas

Believe1Imagem: Google Search

Texto de Ana Carolina Prado
Em Super/Abril 2011

 

Em uma pequena cidade de Illinois (EUA), um bandido misterioso – e bizarro – estampava as capas dos jornais lá por volta de 1944. Tudo começou com uma mulher que declarou que um homem entrou em seu quarto no meio da noite e anestesiou suas pernas com um spray a gás paralisante. Logo apareceram os jornais com manchetes como “BANDIDO DO ANESTÉSICO À SOLTA”. E, nos 13 dias seguintes, cerca de 25 casos semelhantes foram relatados e amplamente explorados pela imprensa. A polícia da cidade ficou de prontidão. E os maridos com suas armas carregadas. Duas semanas depois, ninguém havia sido preso. E nenhum vestígio químico havia sido descoberto. Assim, tanto a polícia quanto a mídia começaram a se referir ao evento como um caso de “histeria de massa”.

Ondas de avistamentos de ETs, chupacabras, fantasmas ou bandidos bizarros cuja existência nunca foi comprovada aparecem de tempos em tempos em diversos lugares. Às vezes, vira moda ver sinais milagrosos – ou mensagens malignas escondidas em músicas, rótulos, filmes. Mas o que leva uma pessoa a acreditar em coisas como essas? É disso que fala o livro “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”, do psicólogo e historiador da ciência americano Michael Shermer. O critério usado por ele para definir o que são coisas “estranhas” é a falta de evidências científicas para comprovar sua existência.

Com base no livro, listamos alguns fatores que influenciam nesse tipo de crença – e podem fazer, inclusive, com que pessoas extremamente inteligentes sejam pegas. Afinal, garante ele, ninguém está completamente imune à histeria coletiva. Dê uma lida e depois diga pra gente se você concorda ou não.

1. Elas querem acreditar

Segundo Michael Shermer, a principal razão pela qual as pessoas acreditam em coisas estranhas é simpes: elas querem acreditar. Mas por que? Porque dá bem-estar, é reconfortante e consola. Para Shermer, se alguém perguntar qual é a sua posição sobre a vida após a morte, é provável que você diga que é favorável. E explica: “O fato de eu ser favorável à vida após a morte não significa que vou consegui-la [ou que ele acredito nela]. Mas quem não a quereria? É esse o ponto. É uma reação muito humana acreditar nas coisas que nos fazem sentir melhor”.

2. A gratificação imediata

Muitas crenças estranhas promovem um bem-estar instantâneo. Shermer cita no livro o exemplo dos médiuns que atendem pelo telefone – a um custo de 3,95 dólares por minuto. Eles usam as chamadas técnicas de leitura a frio: vão tentando adivinhar as coisas partindo de informações mais gerais (envolvendo coisas banais que são verdadeiras para quase todo mundo, como “pressões financeiras vêm lhe causando problemas” – afinal, até Eike Batista terá um dia difícil se perder grana no mercado financeiro). A partir das pistas que as pessoas vão dando, os supostos médiuns conseguem deduzir as informações mais específicas que irão impressionar. Se o médium diz algo que não corresponde à realidade da pessoa naquele momento, a saída é simples: ele diz que a coisa vai acontecer no futuro. E a pessoa acredita.  Afinal, a grande sacada é que eles não precisam estar certos o tempo todo. “Quem telefona costuma esquecer os erros e lembrar mais dos acertos e, o mais importante, as pessoas desejam que o médium acerte. Os céticos não gastam 3,95 dólares por minuto nisso, mas os crentes sim”, explica o autor.

3. Simplicidade

Para termos uma gratificação imediata, é preciso que as crenças tenham explicações simples para as coisas complexas do mundo. “Coisas boas e ruins acontecem tanto para as pessoas boas quanto para as ruins, aparentemente de modo aleatório. As explicações científicas costumam ser complicadas e requerem treino e esforço para ser entendidas. A superstição e a crença no destino e no sobrenatural oferecem um caminho mais simples”, diz Shermer. Para ilustrar isso, ele conta uma experiência de Harry Edwards, chefe da Australian Skeptics Society (Sociedade dos Céticos Australianos).

Edwards publicou uma carta num jornal local falando sobre uma galinha de estimação que ele costumava carregar empoleirada nos seu ombro. Às vezes, porém, ela não se segurava e acabava deixando um “cartão de visitas” na sua camisa. Mas o que poderia ser algo desagradável acabava dando origem a acontecimentos muito positivos. Edwards listou alguns desses episódios e os correlacionou com certos eventos que ocorriam em seguida e chegou à conclusão de que o cocô da galinha lhe trazia boa sorte. Sempre que ela carimbava sua roupa, ele encontrava uma carteira com dinheiro, ganhava na loteria, recebia alguma notícia boa. Então ele levou a ave para várias consultas espirituais e descobriu que ela havia sido um filantropo numa vida passada e que tinha reencarnado para fazer o bem às pessoas – por meio de suas fezes. Assim, Edwards terminou sua carta ao jornal oferecendo-se para vender saquinhos com o “cocô da sorte” de sua galinha. Era tudo um teste, mas ele recebeu dois pedidos e 20 dólares pela “mercadoria”. Sim, houve pessoas que compraram a história. Porque ela era simples – mais fácil que as leis da probabilidade, por exemplo.

4. Nível de incertezas e perigos do local

O local onde a pessoa está influencia suas crenças. Estudos mostraram que quanto mais incertezas o ambiente oferece, maior é a superstição. O antropólogo Bronislaw Malinowski constatou, por exemplo, que os habitantes das ilhas Trobriand, no litoral da Nova Guiné, recorriam mais a rituais supersticiosos à medida que se afastavam no mar para pescar. Nas águas calmas das lagoas a que estavam acostumados, os rituais desapareciam. Ele concluiu, então, que a magia aparece em situações em que estão em jogo a incerteza, o acaso e um jogo emocional intenso entre a esperança e o medo. “Não encontramos isso quando a atividade é certa, confiável e está sob o controle de métodos racionais e processos tecnológicos”, conta Malinowski.

5. Abertura a novas experiências

Estudos envolvendo experiências místicas concluíram que as pessoas com maior predisposição ao misticismo (ou seja, à crença em coisas estranhas) tendem a ter uma personalidade com altos níveis de complexidade, abertura a novas experiências, variedade de interesses, inovação, tolerância à ambiguidade e criatividade. Elas também podem ter maior propensão a serem absorvidas em fantasias, capacidade de suspender o processo de julgamento que permite separar eventos reais e imaginação e uma boa disposição de investir seus recursos mentais para representar o objeto imaginário do modo mais vívido possível.

6. O fato de pessoas inteligentes em um campo da ciência não serem necessariamente inteligentes em outro

Michael Shermer chama atenção para o fato de que muitos pesquisadores brilhantes em certas áreas podem cometer erros e deixar passar fatos importantes, por ignorância, ao fazerem incursões em outras áreas.  “Os recém-chegados de outros campos, que em geral se enfiam com os dois pés sem o treino e a experiência exigidos, passam a gerar novas ideias que consideram – por causa do sucesso que obtiveram em seu próprio campo – revolucionárias”. O problema é que, na maioria dos casos, aquelas ideias já foram avaliadas anos ou até décadas antes – e foram rejeitadas por razões legítimas.

7. “Pessoas inteligentes acreditam em coisas estranhas porque têm capacidade para defender crenças às quais chegaram por razões não inteligentes”

Segundo Shermer, a maioria das pessoas constitui suas crenças por uma variedade de razões que não têm muita evidência empírica nem raciocínio lógico. Elas fazem suas escolhas segundo variáveis como a constituição genética, social, influência de familiares e amigos, experiências pessoais etc. “Selecionamos dentre a massa de dados aquilo que confirme mais as coisas em que já acreditamos e ignoramos ou racionalizamos o que não vem confirma-las. Todos fazemos isso, mas as pessoas inteligentes fazem melhor, seja por talento ou por estarem treinadas”, explica. Assim, elas também podem defender melhor suas crenças para si mesmas.

 

 

Para saber mais: “Por que as pessoas acreditam em coisas estranhas?”  Michael Shermer, Editora JSN