Arquivo da categoria: Literatura

(Grande) lista de documentários que você vai amar assistir

Há mais ou menos três anos, fiz uma lista de documentários para assistir e publiquei aqui no blog. Todo ano eu a republico, devidamente atualizada, para compartilhar todos os documentários que considero aproveitáveis/bons/ ótimos. A lista está classificada por temas e, caso você tenha uma indicação/sugestão, basta deixar nos comentários.

  • ARTE

Sobre o poder transformador da arte: “Lixo extraordinário”.

Sobre a “arte” no nazismo: “Arquitetura da destruição”.

História da arte, persuasão e outros temas: “Como a arte moldou o mundo”, que é da BBC. Recomendadíssimo.

Dear Mr. Watterson: Este documentário explora o surgimento e a fama das histórias em quadrinhos com os personagens Calvin & Hobbes, criadas por Bill Watterson. O filme enfoca o impacto que o desenho teve na vida de muitas pessoas, mostrando o processo criativo do cartunista e peso econômico e cultural dos personagens.

Jorodowkiys dune: Um documentário sobre os bastidores de um projeto cancelado: a adaptação cinematográfica do romance de ficção científica “Duna” por Alejandro Jodorowsky em 1970. Dirigido por Franck Pivatch.

  • HISTÓRIA

Série “Roma” (HBO) mostra vários aspectos da cultura romana. É, em verdade, uma série ficcional.

Vikings: Excelente apresentação dos principais estilos artísticos e do cotidiano material dos nórdicos durante a Era Viking.

Connections: Este é antigo, mas é fascinante, Conexões, com James Burke. Como chegamos até aqui, e todas as conexões não aparentes de nosso mundo, e através da história. Fascinante!

Sobre o mito: “O poder do mito”, de Joseph Campbell.

“Racism, a story” é um documentário da BBC sobre racismo.

“Histórias de heróis viajantes” busca a origem dos mitos gregos.

“Libertação 1945″ fala sobre duas diferentes frentes de batalha durante a Segunda Guerra. A parte do genocídio é bizarra.

“Matando Hitler” é o documentário da National Geographic sobre as tentativas de matar o “líder” nazista.

“Arquivos secretos da inquisição” é do History Channel, e mostra os pontos mais obscuros de intervenção da Igreja Católica.

Sobre o mito do Papai Noel: Assisti faz pouco tempo no History Channel “A verdadeira face do Papai Noel”.

Sobre o Brasil: “Raízes do Brasil”, do Sérgio Buarque de Hollanda.

“Do horror à memória” – sobre o centro de detenção clandestina da Argentina que torturou e assassinou cerca de 5 mil pessoas.

Sobre o holocausto: “Rompendo o silêncio”.

“O povo brasileiro” é um documentário baseado na obra de Darcy Ribeiro.

Documentário sobre racismo: “A negação do Brasil”.

Sobre medievalismos: “Por dentro da mente medieval”.

Para quem estuda história das religiões: “História das religiões”. 13 episódios.

“Julgamento em Nuremberg” fala do julgamento de Rudolf Hess, um dos fanáticos entre Adolf Hitler.

  • CIÊNCIA

“IMAX Hubble” – para quem curte as imagens feitas pelo Telescópio Espacial Hubble. É de arrepiar. Apaixonante!

Árvore da vida: O Documentário sobre Charles Darwin e sua teoria revolucionária da evolução pela seleção natural, produzido pela BBC para marcar o bicentenário do nascimento de Darwin.

No jardim de Darwin:  Filmada nos jardins e estufas da casa de Darwin, na Inglaterra, a série redescobre a ciência botando a mão na massa. Os episódios são ilustrados com lindas imagens em alta definição e gráficos surpreendentes.

Sobre Einstein e suas teorias: “Einstein muito além da relatividade”.

Sobre teoria da evolução: há o documentário “O relojoeiro cego” – baseado no livro de mesmo nome, do Richard Dawkins.

Sobre as missões Apollo: “Na sombra da Lua”.

Space race”: documentário da BBC sobre a história da conquista espacial é imperdível, principalmente as histórias da disputa entre Sergei Korolev (engenheiro chefe do programa soviético) e Wernher von Braun (diretor do Marshall Space Flight Center).

“Janela da alma”– sobre deficiência visual e comportamento. Em um mundo saturado de imagens, o ver e o não-ver.

Também sobre Darwin há o documentário “O gênio de Charles Darwin. Foi escrito e apresentado pelo Richard Dawkins.

“Sobre a evolução “A origem do homem”, do Discovery Channel.

Através do buraco de minhoca“: Consegue explorar bem as coisas novas da astronomia.

Sobre a conquista espacial (do lado americano): “Grandes Missões da NASA”.

“Confinamento solitário” é um documentário do canal National Geographic sobre o que acontece com o indivíduo durante o isolamento.

“Stephen Hawking – Uma breve história do Tempo”, baseado no livro de mesmo nome.

Cosmos” está sempre entre os meus preferidos, tanto na versão original (com Carl Sagan) quanto no recente remake (com Neil Tyson).

Não existe amanhã“: a animação mostra com fatos e números o quanto nos resta de recursos findáveis e quanto tempo demoraríamos para consumi-los até o esgotamento total.

  • OUTROS

“No estranho planeta dos seres audiovisuais” é um documentário de 16 episódios que mostra a nossa relação com o audiovisual.

Marjoe: Conta a história de um evangelista, Marjoe Gortner, que depois de enganar milhares de fiéis por anos, tem uma crise de consciência e resolve mostrar para as câmeras suas técnicas de charlatanismo. O filme causou tanta revolta na época que nunca mais foi exibido, apesar de ter levado o Oscar. O negativo por pouco não foi perdido e o filme só foi lançado em DVD há pouco tempo.

Cabra Marcado para Morrer: Dois grandes filmes em um. Depois que os militares interrompem as filmagens de um documentário sobre lideranças camponesas, em 1964, Coutinho volta ao local, 18 anos depois, para retomar a história. Fascinante.

Basquete Blues” (“Hoop Dreams“, 1994): de Steve James, um dos marcos da revolução das câmeras digitais, ao acompanhar por quase meia década a luta de dois jovens afro-americanos de Chicago por uma carreira no basquete

Surplus: critica ao consumismo, o documentário aborda a essência humana, as necessidades sociais e reações às dificuldades corriqueiras da vida em sociedade.

A educação proibida”  trata do questionamento das lógicas da escolarização moderna e uma nova forma de entender a educação, apontando novas experiências educativas que são nada convencionais, apresentando um modelo de aprendizado mais lúdico e com mais experiências se comparado ao atualmente utilizado.

“Estamira” me ganhou desde a primeira vez que assisti. Estamira é uma mulher de 63 anos que sofre de “distúrbios mentais”. Ela vive e trabalha há 20 anos no Aterro Sanitário de Jardim Gramacho, um local que recebe diariamente mais de 8 mil toneladas de lixo da cidade do Rio de Janeiro. Com um discurso filosófico e poético, ela analisa questões de interesse global.

“Notícias de uma guerra particular” é o documentário que deu origem ao “Tropa de elite”.

Para os administradores e curiosos de plantão: “O jeito Google de trabalhar” (National Geographic) mostra os bastidores do Google.

“O Inferno de Dante” (do Discovery Channel) leva os “círculos do inferno de Dante Alighieri” para a interpretação contemporânea.

Sobre os jovens (menores de 18 anos) em conflito com a lei: Documentário “Juízo”.

Esse tem que ser muito analisado, um documentário duro e frio: “Olhos azuis” (Blue eyed), com a Jane Elliot. É sobre preconceito racial.

Sobre o suicídio assistido: “EXIT: O Direito de Morrer”.

Desigualdade econômica do Brasil: “Boca de Lixo”.

Sobre crise populacional: “Quantas pessoas podem viver na Terra?”. É um documentário da BBC.

Sobre o sistema carcerário dos EUA: “Imagens da prisão”.

“Sicko”, do Moore – sobre o sistema norte-americano de convênios médicos. É BIZARRO e indignante.

Sobre o roubo da imagem/identidade das comunidades em SP: “À margem da imagem”.

“Objectified” investiga nossa relação com os objetos produzidos e as pessoas que os projetam.

Sobre a política de drogas no Brasil e no mundo: “Cortina de fumaça”.

“Complexo – Universo Paralelo”: Uma visão sensível de dentro da favela.

Para quem curte Friedrich Nietzsche, há o documentário da BBC: “Nietzsche – All To Human”.

Aos que curtem Kafka, existe um documentário de Modesto Carone sobre Kafka.

Sobre música clássica, havia uma série chamada “the great composers” (BBC).

Sobre Espinosa: “Espinosa – O Apóstolo da Razão“.

“Prisoneiros da grade de ferro”: Um ano antes da desativação do Carandiru, detentos documentam o cotidiano do presídio.

A educação proibida: Este documentário propõe o questionamento das lógicas da escolarização moderna e uma nova forma de entender a educação, apontando novas experiências educativas que são nada convencionais, apresentando um modelo de aprendizado mais lúdico e com mais experiências se comparado ao atualmente utilizado.

CitizenFour: Vencedor do Oscar de Melhor Documentário, Citizenfour conta a história de Edward Snowden, enquanto discute a questão da espionagem.

E se você faz boas leituras em inglês, ESTA OUTRA LISTA pode ajudá-lo bastante.

Aproveite!

A ficção e os instintos: por que as histórias de violência e vingança nos atraem tanto?

Imagem: DeviantArt

Imagem: DeviantArt

Navegando distraída pela internet, encontrei um excelente texto sobre nossa atração pela violência. Resolvi replicá-lo aqui, muito embora se trate de um post longo.

Texto de Camilo Gomes Jr. em Ontogenia literária

Em Hamlet, de Shakespeare, o personagem-título da peça diz que o propósito da dramaturgia poética — e da literatura, por extensão —, é «apresentar o espelho à natureza, mostrando à virtude suas próprias feições, à ignomínia sua imagem e ao corpo e idade do tempo a impressão de sua forma» (Hamlet, ato III, cena 2). Ora, é claro que as narrativas de nossos tempos mudaram muito em relação às que se escreviam há dois, cinco mil anos, bem como também mudaram nossos critérios de valorização de uma obra literária — motivo pelo qual nem todo texto fictício é hoje consensualmente tido por «literário» ou por «boa literatura». Porém, há um detalhe que permaneceu imutável, ao longo de todos esses séculos: a literatura continua a cumprir aquela função de exibir o espelho à natureza humana. Em alguns textos, aliás, o reflexo é tão nítido, tão escancarado de fato, que torna mais fácil para o ser humano identificar nele a própria imagem, ou antes, a imagem de seu animal interior. Ao passo que noutros o reflexo vem distorcido de forma deliberada pela engenhosidade do autor, fazendo-se mais difícil notá-lo, exigindo mais aguda percepção e atenção do leitor para que se o enxergue. 

Como qualquer amante das letras o poderá confirmar, embora tramas fictícias se multipliquem em narrativas o mais diversas possível, e os estilos e movimentos literários mudem e se influenciem uns aos outros ao longo do tempo, o fato é que não só a literatura permanece, como nela também insistem em persistir temas antigos e triviais — os quais são reciclados e repetidos um sem-número de vezes, sem que essas incontáveis recorrências façam esmaecer-se sua capacidade de fascinar as pessoas, nas mais diversas culturas. Temas que ainda são degustados, como se exibissem o doce frescor da novidade, sempre. E a indagação que se faz é justamente por que essas questões ainda nos encantam ou interessam tanto. Quer dizer, por que fomos e somos sempre tão atraídos por temas nada originais como amor sexo, por exemplo, ao ponto de fazermos destes, invariavelmente, apostas quase certeiras para os best-sellers de ontem e de hoje, em quaisquer cantos da Terra? Por que a temática religiosa e de autoajuda ainda apela fortemente a tantos leitores que só esse tipo de textos consomem, vorazes? Por que livros espíritas vendem tanto? Por que, enfim, dentre as histórias que sempre nos despertam interesse, são tão frequentes os motes traiçãomorte, vida após a mortehonracoragem, esperança, perseverançalaços familiaressuperação de adversidadesconquista de poder e statusconquista ou manutenção liberdade?

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A capacidade de ouvir o outro (a beleza mora lá também)

How_do_you_do_Print_800x1131Imagem: Paula Braconnot

Andarilhando pelos meus sites preferidos, encontrei uma linda crônica de Rubem Alves. Vem bem a calhar no nosso cenário. Segue:

Escutatória
Rubem Alves
“Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar, ninguém quer aprender a ouvir.
Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma. Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia.
Parafraseio o Alberto Caeiro: Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma. Daí a dificuldade: A gente não aguenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração, e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor.
Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade. No fundo, somos os mais bonitos…
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios: Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Vejam a semelhança: os pianistas, por exemplo, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio, expulsando todas as idéias estranhas. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos… Pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado. Segunda: Ouvi o que você falou. Mas, isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou.
Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer: Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou. E, assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência… E, se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras… No lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar – quem faz mergulho sabe – a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia… Que de tão linda nos faz chorar.
Para mim, Deus é isto: A beleza que se ouve no silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: A beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
(Esse texto faz parte do livro de crônicas: Rubem Alves. O amor que acende a lua.)

“Perdoando Deus”, o melhor conto de Lispector

VanGogh8Imagem: Van Gogh

Tinha 11 anos quando li Clarice Lispector pela primeira vez. Comecei pelo livro “Felicidade Clandestina” e de cara esse conto me marcou pela sensível brutalidade. Hoje, ao reler, já não vejo o que via antes – mas continua sendo meu conto preferido.

Clarice tem sido divulgada nas redes sociais através de citações descontextualizadas de suas obras, o que é uma pena. Vale sempre dar uma espiadinha na fonte.

 PERDOANDO DEUS

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Livros e História, mudando o mundo – por Voltaire Schilling

Imagem: Nuestros libros de hoy

“…o livro passou e mudou,
mudou como um rio,
ao passo que você passou na vida,
passou a viver também…”

M. Tsvetaiva

Aparentemente, um livro não é senão que um conjunto de páginas manuscritas ou impressas, protegido por uma capa, dependendo da época histórica, que serve para matar o tempo ou entreter alguém, com a função de ilustrar ou afastar o tédio e a mediocridade da nossa existência. Algo sem conseqüências muito extraordinárias ainda que, em geral, socialmente valorizado.

Agente de mudanças
Todavia pensar assim é um engano. A sua dimensão e seu impacto sobre os fenômenos da história mostra sua verdadeira faceta: a de ser o maior agente das mudanças do mundo. Sem ser preciso mencionar a importâncias das obras religiosas (A Bíblia, o Alcorão, etc.), na conversão de milhões, ainda que pouco se saiba da vida de Cristovão Colombo, nenhum estudioso dos Descobrimentos nega o efeito que a leitura das crônicas de Marco Pólo (“As viagens”) causou sobre o capitão genovês e o conseqüente desbravamento do Oceano Atlântico e o encontro de outros povos e civilizações.

Nesta mesma esteira, encontra-se a enorme implicação que produziu nos aventureiros que se lançaram na conquista espanhola do Novo Mundo a leitura das façanhas do cavaleiro “Amadis de Gaula” (de Rodrigues de Montalvo, de 1508) e de “Dom Quixote de La Mancha” (obra maior de Cervantes, de 1606). Assim como nada abalou tanto a Cristandade ocidental e o poder papal como a publicação da “Resoluções” de Martim Lutero, em 1518, como não se entende a desapropriação dos bens da Igreja Católica na Inglaterra, sem levar em conta o impacto causado pelo panfleto “A súplica dos mendigos” de Simon Fish, de 1529, que fez com que Henrique VIII simplesmente decretasse o fim do poder clerical no seu reino.

A Revolução Francesa de 1789 explode bem antes, a partir das primeiras linhas do “O Contrato Social” de J.J.Rousseau, de 1762, que diz: – o homem nasce livre, mas esta encadeada em todas as partes. -, assim como toda a efervescência social e revolucionária dos séculos 19 e 20 encontra-se nos parágrafos iniciais do “Manifesto de 1848” de Karl Marx. Lembrando ainda que foi o “Senso Comum” de Thomas Paine quem definitivamente impulsionou os norte-americanos à Independência de 1776, e que foram os eletrizantes versos de Theodor Körner“Então povo, ergue-te e deixe que a tempestade se abata sobre nós” – quem fizeram os alemães insurgir, em 1813, contra a ocupação napoleônica.

Ninguém nega que a melodramática e um tanto piegas novela “A cabana de Pai Tomas”, de Harriet B. Stowe , 1851-2, fez mais pela causa da abolição nos Estados Unidos do que todos os discursos libertários que a antecederam. Bem como coube aos versos do “Navio Negreiro” de Castro Alves, 1869, “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus?!”… desmoralizar para sempre com a escravidão entre nós.

Sem deixarmos de mencionar que boa parte da legislação social inglesa resultou das candentes, comoventes e realistas novelas de Charles Dickens, escritas entre 1838 e 1849 (“Oliver Twist”, “David Copperfield“, etc.), como as andanças erráticas e inconformistas de Che Guevara resultaram da leitura de “O gaúcho Martin Fierro” de José Hernandez, de 1872. E assim tem sido a longa e gloriosa crônica dos livros, flagelo das ditaduras e luz da humanidade.

Autor: Voltaire Schilling
Veio daqui.