Arquivo da categoria: Livros

Noções básicas de filosofia: o Brasil tem boas produções

rembrandt_ofilosofo

Imagem: O filósofo – Rembrandt

Quando eu era pequena, havia duas coleções ótimas para os “primeiros passos” em temas importantes do debate filosófico contemporâneo. Eram a “Os Pensadores” e a “Primeiros passos”. Como ambas estão esgotadas, deixo aqui a dica para boas coleções há pouco lançadas – e que podem ser muito úteis para seus filhos/sobrinhos/irmãos/alunos ou mesmo pra nós, que estamos engatinhando em tantos assuntos. É claro que deixo também os links para download das coleções “Os pensadores” e “Primeiros passos”, que são excelentes.

“Filosofias: O Prazer de Pensar“: é da editora WMF Martins Fontes. De acordo com a própria editora, o foco da seleção de livros é facilitar a vida do professor – tornado-se uma ferramenta de auxílio na sala de aula e, ao mesmo tempo, uma fonte instigadora nos jovens leitores. Já esclareço que a Marilena Chauí foi bastante neutra e que a Martins Fontes só é ruim quando se trata de traduções. Esta coleção é genuinamente brasileira. Ideal para o público jovem.

“Entendendo”: trazida ao Brasil pela LeYa, ela utiliza elementos e referências Pop para introduzir temas problemáticos. Cada livro é escrito por um reconhecido especialista do assunto e ilustrado por um artista gráfico. De forma prática e com referencias de cultura pop, a coleção oferece informações tanto para leitores buscam um primeiro contato, quanto aqueles que  desejam adquirir um conhecimento conciso sobre o assunto.

No que tange às coleções antigas e fora de circulação comercial, deixo – claro! – os links para download:

Clique aqui para fazer o download da Coleção Primeiros Passos

E clique aqui para fazer o download da Coleção Os pensadores

 

Post scriptum: Não recomendo a coleção “dez lições sobre”. É mal escrita DEMAIS..

“Perdoando Deus”, o melhor conto de Lispector

VanGogh8Imagem: Van Gogh

Tinha 11 anos quando li Clarice Lispector pela primeira vez. Comecei pelo livro “Felicidade Clandestina” e de cara esse conto me marcou pela sensível brutalidade. Hoje, ao reler, já não vejo o que via antes – mas continua sendo meu conto preferido.

Clarice tem sido divulgada nas redes sociais através de citações descontextualizadas de suas obras, o que é uma pena. Vale sempre dar uma espiadinha na fonte.

 PERDOANDO DEUS

Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade.

Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.

E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.

Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contigüidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admiro e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurava esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado poderia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.

Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.

… mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, e eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer de minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim só consegui foi me submeter a mim mesma, pois sou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.

LISPECTOR, Clarice. Felicidade clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998.

Livros e História, mudando o mundo – por Voltaire Schilling

Imagem: Nuestros libros de hoy

“…o livro passou e mudou,
mudou como um rio,
ao passo que você passou na vida,
passou a viver também…”

M. Tsvetaiva

Aparentemente, um livro não é senão que um conjunto de páginas manuscritas ou impressas, protegido por uma capa, dependendo da época histórica, que serve para matar o tempo ou entreter alguém, com a função de ilustrar ou afastar o tédio e a mediocridade da nossa existência. Algo sem conseqüências muito extraordinárias ainda que, em geral, socialmente valorizado.

Agente de mudanças
Todavia pensar assim é um engano. A sua dimensão e seu impacto sobre os fenômenos da história mostra sua verdadeira faceta: a de ser o maior agente das mudanças do mundo. Sem ser preciso mencionar a importâncias das obras religiosas (A Bíblia, o Alcorão, etc.), na conversão de milhões, ainda que pouco se saiba da vida de Cristovão Colombo, nenhum estudioso dos Descobrimentos nega o efeito que a leitura das crônicas de Marco Pólo (“As viagens”) causou sobre o capitão genovês e o conseqüente desbravamento do Oceano Atlântico e o encontro de outros povos e civilizações.

Nesta mesma esteira, encontra-se a enorme implicação que produziu nos aventureiros que se lançaram na conquista espanhola do Novo Mundo a leitura das façanhas do cavaleiro “Amadis de Gaula” (de Rodrigues de Montalvo, de 1508) e de “Dom Quixote de La Mancha” (obra maior de Cervantes, de 1606). Assim como nada abalou tanto a Cristandade ocidental e o poder papal como a publicação da “Resoluções” de Martim Lutero, em 1518, como não se entende a desapropriação dos bens da Igreja Católica na Inglaterra, sem levar em conta o impacto causado pelo panfleto “A súplica dos mendigos” de Simon Fish, de 1529, que fez com que Henrique VIII simplesmente decretasse o fim do poder clerical no seu reino.

A Revolução Francesa de 1789 explode bem antes, a partir das primeiras linhas do “O Contrato Social” de J.J.Rousseau, de 1762, que diz: – o homem nasce livre, mas esta encadeada em todas as partes. -, assim como toda a efervescência social e revolucionária dos séculos 19 e 20 encontra-se nos parágrafos iniciais do “Manifesto de 1848” de Karl Marx. Lembrando ainda que foi o “Senso Comum” de Thomas Paine quem definitivamente impulsionou os norte-americanos à Independência de 1776, e que foram os eletrizantes versos de Theodor Körner“Então povo, ergue-te e deixe que a tempestade se abata sobre nós” – quem fizeram os alemães insurgir, em 1813, contra a ocupação napoleônica.

Ninguém nega que a melodramática e um tanto piegas novela “A cabana de Pai Tomas”, de Harriet B. Stowe , 1851-2, fez mais pela causa da abolição nos Estados Unidos do que todos os discursos libertários que a antecederam. Bem como coube aos versos do “Navio Negreiro” de Castro Alves, 1869, “Senhor Deus dos desgraçados! Dizei-me vós, Senhor Deus! Se é loucura… se é verdade Tanto horror perante os céus?!”… desmoralizar para sempre com a escravidão entre nós.

Sem deixarmos de mencionar que boa parte da legislação social inglesa resultou das candentes, comoventes e realistas novelas de Charles Dickens, escritas entre 1838 e 1849 (“Oliver Twist”, “David Copperfield“, etc.), como as andanças erráticas e inconformistas de Che Guevara resultaram da leitura de “O gaúcho Martin Fierro” de José Hernandez, de 1872. E assim tem sido a longa e gloriosa crônica dos livros, flagelo das ditaduras e luz da humanidade.

Autor: Voltaire Schilling
Veio daqui.

Alice no país das maravilhas: o autor, a obra e a matemática (Parte II)

Imagem: Alice in wonderland em sua primeira versão, desenhada por John Tenniel

3. A matemática

Nas obras de Carroll, muitas vezes podemos encontrar a matemática e desafios de lógica. Alguns teóricos defendem que se deve também a esse fato a fama mundial do livro. Vejamos alguns pontos:

3.1. O diálogo com a lagarta azul:

Após conversar com a Lagarta Azul, Alice come um pedaço de cogumelo que faz com que o seu pescoço cresça demasiado. Uma Pomba que ia a passar no céu assusta-se e grita:
– Uma serpente.
Desenrola-se então o seguinte diálogo:
– Eu…Eu sou uma menina! Disse Alice, não muito segura, ao lembrar-se do número de mudanças que sofrera, só naquele dia.
– Uma bela história, na verdade! Respondeu a Pomba com profundo desprezo.
– Tenho visto muitas meninas na minha vida, mas nunca vi nenhuma assim! Não, não! Tu és uma serpente, e não vale a pena negá-lo. Creio que me vais dizer a seguir que nunca provaste um ovo!
– Claro que já comi muitos ovos! Respondeu Alice, que dizia sempre a verdade.
– Mas as meninas comem ovos, tal como as serpentes, percebes? Continuou Alice.
– Não acredito! Respondeu a Pomba.
– Mas se assim é, nesse caso elas são uma espécie de serpentes, é tudo o que posso dizer.

Do ponto de vista formal, a Pomba tinha razão:

As serpentes (s) têm pescoço comprido; Alice (a) também tinha o pescoço comprido, portanto era uma serpente (s).
No entanto, Alice (a) é uma rapariga (r), mas as raparigas (r) comem ovos, tal como as serpentes (s), portanto por subordinação, Alice não é uma serpente (s>r>a).

3.2. Na casa da Duquesa

O Criado-Peixe começou por tirar debaixo do braço uma grande carta, quase do seu tamanho, que estendeu ao outro num tom solene:
– É para a Duquesa. Um convite da Rainha para jogar croquet.
No mesmo tom solene, e trocando apenas a ordem das palavras, o Criado-Rã disse:
– Da Rainha. Um convite para a Duquesa jogar croquet.

3.3. O chá maluco

Ao ouvir isto, o Chapeleiro abriu muito os olhos, mas tudo o que disse foi:
– Em que se parece um corvo com uma secretária?
“Finalmente vamos divertir-nos!”, pensou Alice. “Ainda bem que eles começaram a dizer adivinhas.”
– Acho que sei essa! Acrescentou em voz alta.
– Queres dizer que sabes qual é a resposta? Perguntou a Lebre de Março.
– Exactamente isso! Disse Alice. (…)
– Já sabes a resposta da adivinha? Perguntou o Chapeleiro voltando-se de novo para Alice.
– Não. Desisto – respondeu Alice – Qual é a resposta?
– Não faço a menor ideia! Disse o Chapeleiro.
– Nem eu! Acrescentou a Lebre de Março.

Embora não tenha apresentado a resposta no livro, Lewis Carroll deu a seguinte solução, que pode ser encontrada em Varatek

P.: Em que se parece um corvo (raven) com uma secretária?
R.: Ambos podem produzir algumas notas. Numa secretária podemos produzir (escrever) algumas notas. O corvo, enquanto ave, também pode produzir (palrar) algumas notas. Na secretária nunca se escreve de trás para a frente e no corvo a palavra nunca (nevar) escreve-se de trás para a frente (raven).

3.4. Ainda o chá

A Lebre de Março pegou no relógio e olhou-o com um ar tristonho. Depois, mergulhou-o na chávena cheia de chá e voltou a olhar para ele. Mas não sabia dizer mais nada senão repetir:
– Era manteiga da melhor qualidade.
Alice estivera a observar o relógio por cima do seu ombro, com alguma curiosidade.
– Que relógio tão engraçado! Indica o dia do mês mas não indica as horas! Comentou.
– Porque haveria de o fazer? Disse o Chapeleiro entre dentes.
– O teu relógio indica o ano em que estamos? Perguntou o Chapeleiro.
– Claro que não. Respondeu Alice muito depressa.
– Mas isso é porque um ano inteiro dura muito tempo. Justificou Alice.
– O que é exactamente o caso do meu! Disse o Chapeleiro.

Carroll baseou esta passagem de Alice no País das Maravilhas, na sua charada dos Relógios Loucos de Carroll. Assinala-se que esta situação deu origem a um problema que pode ser encontrado num site matemático onde, todos os meses, se propõem 6 problemas para os cibernautas resolverem (aqui):

Considere que o relógio do Chapeleiro funciona e os ponteiros possuem todos o mesmo tamanho. Coloque-o agora em frente a um espelho e descubra a que horas, entre as 6 e as 7, o relógio e a sua imagem espelhada dão exactamente a mesma hora.

Solução: Quando o relógio marcar, aproximadamente: 6 horas, 28 minutos.

Ás 6 horas, o ponteiro dos minutos e o das horas formam exactamente um ângulo de 180º. Se movermos o ponteiro das horas x graus, então, no tempo reflectido no espelho, o ponteiro dos minutos move-se (180-x)graus.

O ponteiro das horas move-se 30º por hora e o dos minutos move-se 360º por hora. Então o tempo do relógio é exactamente igual ao reflectido no espelho, quando os dois ponteiros se moverem de modo idêntico, i.é., quando (180-x) /360= x/30, ou seja, quando x=180/13.

Assim sendo, este ângulo representa 180/13 x 1/360 x 60 minutos no mostrador do relógio. Reduzindo dá cerca de 2 4/13 minutos (aproximadamente 2 minutos e 26 segundos). As horas marcadas em simultâneo no relógio e no espelho são: 6 horas, 30-(2 4/13)minutos, i.é, 6 horas, 27 9/13 minutos, que é equivalente a termos exactamente: 6 horas, 27 minutos e 42 segundos.

Continuar lendo

Alice no país das maravilhas: o autor, a obra e a matemática (Parte I)

Imagem: Alice in wonderland em sua primeira versão, desenhada por John Tenniel

Em outubro, houve um viral no Facebook: trocar a imagem do avatar pelo seu personagem preferido na infância. Sinceramente ia colocar Tom Sawyer, do livro de Mark Twain, que muito me marcou. No entanto, o gato de Cheshire se parece bem mais comigo – e foi graças a ele que ganhei o apelido, na infância, de “Lisi-gato“.

Não foram poucas as pessoas que perguntaram as questões que envolviam o fato de eu tê-lo escolhido, entre tantos outros personagens. Por isso, resolvi fazer esse post, para contar a história do livro e o motivo de tê-lo escolhido. Vamos lá?

1. O autor

Não, ele não se chamava Lewis Carroll. Seu nome era Charles Lutwidge Dodgson e nasceu no povoado de Daresbury, no condado de Cheshire, Inglaterra, em 27 de janeiro de 1932. Dodgson foi escritor, matemático, diácono da igreja anglicana e também fotógrafo – esta última ocupação muito polêmica, como veremos ainda nesse post.

Na infância, Dodgson gostava de brincar com marionestes e magia ou ilusionismo, e durante toda a vida gostava de fazer passes de mágica – em especial para crianças. Era apaixonado por diversos tipos de jogos, de forma que inventou um grande número de enigmas e jogos matemáticos.

Durante a juventude, Charles foi educado em casa. Era bastante precoce, aos 7 anos já lia livros como “The Pilgrim’s Progress” (em pt “O peregrino”) e era gago. Em 1846, Dodgson mudou-se para Rugby School, onde declarou ser bem menos feliz. Deixou-a em 1949 e, depois de um intervalo que continua inexplicado, volta à cidade de Oxford, em 1851, para estudar na universidade Christ Church. Esta também era a Universidade onde seu pai havia lecionado e, por isso, já iniciou carreira com algumas responsabilidades de ” preservação do nome”.

Em 1852, recebeu o prêmio de Honra ao Mérito e logo foi nomeado para uma bolsa de estudos, graças a um amigo de seu pai. Pouco tempo depois, Dodgson perdeu a bolsa de estudos por se declarar incapaz de se dedicar à ela. Mesmo assim, permaneceu na Christ Church, assumindo diversas ocupações até a sua morte.

Era um jovem alto, de cabelos castanhos e olhos azuis acinzentados. A gagueira se estendeu por toda a vida e, por ter o hábito de usar referências pessoais para criar seus personagens, muitas pessoas acreditaram que o personagem “Dodo” (de Alice no país das maravilhas) era inspirado em sua condição enquanto gago. Quando questionado a respeito, Charles afirmou que “Dodo” era sim, inspirado nele, mas não por este aspecto.

A última grande obra de Dodgson foi “A caça ao Snark“, um “poema” (se assim pode ser considerado) absurdo, que explora as aventuras de seres de formas diferentes e de um castor. O pintor Rossetti ficou convencido durante muito tempo de que o poema era sobre ele.

A vida pessoal do autor não possui muito diferencial, exceto que Carroll é mundialmente conhecido como pedófilo. Como tinha na fotografia seu hobbie, gostava de retratar meninas nuas em fotografias e desenhos. Declarou sempre que seu intuito era puramente artístico, que tais retratos eram feitos somente com o consentimento dos pais e ordenou também, em seu testamento, que todos os retratos fossem queimados para evitar constrangimentos. No entanto, muitos estudiosos tentam acusá-lo.

Alguns estudiosos recentes, como Karoline Leach e Hughes Lebailly, afirmam que Dodgson não era pedófilo e que tais fotografias faziam parte de um movimento conhecido como “Victorian Child Cult“. O autor vivenciou exatamente este período, onde tais obras eram comuns entre os artistas e não representavam nenhum tipo de comportamento pedófilo, mas uma manifestação artística que era utilizada, inclusive, em cartões postais.

Seus diários desapareceram e isso auxilia nas acusações. Segundo Lebailly, os diários retratavam orgias com mulheres adultas e algumas delas, casadas. Isso teria feito com que sua família suprimisse os registros, para preservar reputação. Contudo, esse fato da vida de Carroll continua sendo motivo de discordâncias e não há nenhuma conclusão a respeito.

1.1 Como a obra nasceu

A obra nasceu em 4 de julho de 1862, quando Lewis Carroll passeava no rio Tâmisa junto a um amigo e três irmãs: Edith Mary, Lorina Charlotte e Alice Liddell. Carroll resolveu inventar e contar uma história para passar o tempo. Foi esta história, repleta de fantasia e personagens nonsense, que deu origem a um manuscrito entitulado “Alice’s adventures Underground“, entregue à Alice.

Mais tarde, resolveu transformar o manuscrito em livro e acrescentou alguns personagens, como o Chapeleiro Maluco e o Gato de Cheshire. Assim, em 4 de julho de 1865 – exatamente três anos após a viagem – a história foi publicada na forma que é conhecida hoje.

2. O retrato da Era Vitoriana

No post passado, publiquei algumas informações sobre o autor da obra e como ela foi escrita. Hoje, quero defender a obra de Carroll enquanto retrato da Era Vitoriana. Esta defesa não é algo novo, muitos pesquisadores já trataram de fazê-la. Contudo, ainda sinto necessidade de comentar sobre o tema.

Alice no país das maravilhas não é apenas uma fábula nonsense, mas constitui uma alegoria política de forte cunho crítico à época em que viveu Carroll. Foi escrita no auge da Revolução Industrial, onde as crianças dividiam-se em pobres que necessitavam trabalhar ou burguesas educadas de forma rígida e repetitiva. Os livros infantis refletiam esse aspecto: eram de uma função educativa nítida e de intenção moralizante, orientando a maneira metódica da educação e as rigorosas normas de conduta.

O reinado de Vitória era marcado pela moral puritana, a solidez política e pelo conservadorismo cultural. A sociedade era repressiva e formadora de pessoas apressadas e inflexíveis (questão bem retratada no personagem coelho branco). Alice representa mais que o fugir da regra: é o rebelar-se contra o conservadorismo. É uma menina que enfrenta situações de aparente caos da lógica, mas é capaz de se impôr enquanto individualidade. Responde à audaciosa pergunta “- Quem é você?”, proferida pela lagarta: “Eu… Eu… No momento não sei, minha senhora… Pelo menos sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então”. Alice reconhece que o emaranhado de fatos externos a fizeram mudar várias vezes de posicionamento durante o dia, ao ponto de questionar quem era. “Quem sou eu?” afinal, é uma das perguntas mais difíceis de se responder, se não apontamos para a condição “estar”, que é transitória.

Em outra cena, a menina cresce diante do tribunal montado pela Rainha de Copas, mostrando revolta contra o “deixar levar” da história. Vale lembrar que as próprias instruções da Rainha de Copas (assim como as da Rainha Vitória) não eram tão respeitadas assim. A famosa frase “– Cortem-lhe a cabeça!” recebe um tom tragicômico, quando o próprio Grifo elucida que jamais alguém fora executado através das ordens da Rainha (CARROLL, 1985, p.107). O próprio tribunal anota palavras desconexas do discurso das testemunhas, fixando a idéia de que o julgamento depende mais da desordem que da ordem.

O discurso dos adultos também é desafiado: oras, uma menina cai no país das maravilhas através do sonho (onde tudo pode ser) e desafia a capacidade (a nossa capacidade, comum) de entender o real: era o seu sonho, demonstrando o nonsense do mundo em que vivia. Daí que existia a obediência até determinado ponto, era necessário questionar esse mundo. Não existiam maneiras metódicas ali.

Alice mostra uma figura infantil diferente das crianças da época: questiona e fantasia, descobre que a linha entre o normal e o anormal é demasiado tênue e depende muito mais do ser histórico, da construção história da concepção de normalidade. Quebra-se a falta de espontaneidade da Era Vitoriana, sua forma aborrecida de ver as crianças e sua pressa para chegar em lugar algum (“- É tarde, é tarde!”).