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Racionalidade e política: um guia para um debate político mais racional

Texto escrito por Riis Rhavia Assis Bachega,
diretamente para o Universo Racionalista

Frente a recente onda de irracionalidade motivada por questões políticas, é extremamente necessário que se divulgue ferramentas para que essas questões tão importantes para todos nós sejam discutidas de maneira racional e objetiva. Esse texto se dividirá em duas partes: a primeira parte se encarregará de tentar entender por que há tanto fanatismo e irracionalidade nas discussões de cunho político e social, e a segunda parte se encarregará de fornecer algumas dicas para que possamos discutir mais racionalmente esse tema e não cairmos no fanatismo.

I – Por que o fanatismo?

Primeiramente, tentarei expor alguns motivos que impulsionam a polarização de opiniões e a onda de fanatismo. A saber:

  • O viés de confirmação

É muito bem documentada a tendência das pessoas de procurarem informações que condizentes com suas crenças prévias e prestar atenção apenas nos fatos que confirmem essas crenças. Essa tendência é conhecida como viés de confirmação, um tipo de viés cognitivo. Por exemplo, se uma enfermeira que trabalha em uma maternidade acredita que nascem mais bebês durante a Lua cheia, ela irá prestar mais atenção nas noites de Lua cheia em que nascem mais bebês, ignorando quando não nascem. O viés de confirmação é a principal origem das crenças supersticiosas, e também, da polarização ideológica.

  • Bolhas ideológicas

Como consequência do viés de confirmação, se forma as chamadas bolhas ideológicas. É tendência natural das pessoas se agruparem com outras pessoas com gostos e opiniões parecidas com as suas, o que não tem problema nenhum à princípio. O problema é quando a pessoa limita seu círculo de relações somente a quem pensa parecido com ela. Também, a pessoa tende a seguir somente veículos de mídia e formadores de opinião com os quais ela já concorda, dessa maneira, gente de esquerda tende a acompanhar publicações de esquerda, e gente de direita tende a acompanhar publicações de direita. Para o de esquerda (direita), as publicações de direita (esquerda) são mentirosas e manipuladoras, enquanto as publicações de esquerda (direita) são isentas e verídicas. Dessa maneira, veículos de mídia e formadores de opinião aglomeravam em torno de si as pessoas que seguem aquela linha de pensamento, e formam um séquito. As consequências são a polarização de opiniões, o fanatismo e a intolerância.

Enquanto a rede de conhecidos se limitava a o círculo familiar e de amigos, era muito propício a formação dessas bolhas ideológicas. Com o advento da internet, tivemos uma oportunidade como nunca antes na história da humanidade, de ter acesso a informação e conviver com pessoas das mais variadas orientações de pensamento. Tínhamos oportunidade de um ambiente plural necessário para o exercício do livre pensamento e a emergência de um mundo mais plural.

No entanto, o que ocorreu foi o contrário. As pessoas limitaram sua lista de contatos em redes sociais somente àqueles que pensam de forma parecida. Vimos muito isso nas últimas eleições, em que várias amizades foram desfeitas entre pessoas que apoiavam candidatos diferentes. Essa tendência é intensificada pelo que o pesquisador Eli Pariser chama de “Filtro Bolha, os algoritmos que sites de busca e redes sociais utilizam que tornam mais visíveis para o usuário somente informações e conteúdos de acordo com os interesses e crenças deste. Segundo Eli Pariser “O filtro bolha tende a amplificar dramaticamente o viés de confirmação. De certa forma, ele é feito para isso. Consumir informações que corroborem com suas ideias de mundo é fácil e prazeroso; consumir informações que nos desafiem a pensar de novas formas ou questionar nossas presunções é frustrante e difícil”. As consequências disso é que as opiniões tendem a ficar mais polarizadas e os usuários mais extremistas.

  • Ignorância racional e irracionalidade racional

A teoria da ignorância racional e da irracionalidade racional está muito bem explicada nos textos “Por que as pessoas são irracionais sobre política? e no texto Por que políticos ruins se reelegem?”, e, portanto, não me alongarei aqui discutindo esse tema. Mas resumidamente, o termo ignorância racional vem da teoria econômica da escolha pública. Ele se refere ao fato que muitas vezes os custos de colher informações para embasar uma decisão excedem os ganhos. Para exemplificar, no caso de eleições, o custo para um eleitor de pesquisar candidato por candidato excede em muito o ganho individual, já que o voto individual dificilmente vai alterar o resultado das eleições. Por isso que aqueles políticos que já tem visibilidade e reputação (mesmo que má) acabam se elegendo, pois é mais cômodo para os eleitores votarem em quem já conhecem (mesmo sabendo que é um patife) do que pesquisar novos nomes.

Já o termo irracionalidade racional se refere ao fato que muitas vezes, as pessoas pensam irracionalmente por que é de seu interesse pensar assim. Esse conceito vem da distinção entre dois tipos de racionalidade: a racionalidade instrumental (o que eu preciso fazer pra alcançar um determinado objetivo) e a racionalidade epistêmica (pensar de maneira logicamente consistente e com boas evidências empíricas). Resumindo: se for vantajoso para alcançar determinado objetivo, eu pensar de maneira ilógica, então pensarei de maneira ilógica.

  • O debate político é dominado por ideólogos

Por fim, segue o fator que eu considero mais grave, porque se aproveita dos fatores anteriormente descritos. Os principais formadores de opinião são ideólogos. Por ideólogos, eu me refiro àqueles que têm compromisso antes com um projeto político/ideológico do que com os fatos. O ideólogo faz uso do viés de confirmação, para ele os únicos fatos relevantes são aqueles que se encaixam na sua concepção ideológica de mundo, ou que são uteis para o seu projeto político/ideológico. Os que não se enquadram são ignorados ou se faz um malabarismo argumentativo para que eles possam se enquadrar.

Outra marca do ideólogo é a relativização de valores, em que bem e mau, certo ou errado, verdade ou falsidade; depende de quem faz. Quando alguém da tribo ideológica deles comete algo que ele condena na tribo “inimiga”, ele relativiza/releva/ignora/nega.

Não que não existam estudiosos sérios debatendo questões políticas, mas o alcance deles é muito reduzido. Para a maioria das pessoas, segundo os conceitos de ignorância racional e irracionalidade racional, é mais fácil consumir análises rasas e terceirizar o pensamento. E dessa maneira, os ideólogos reúnem um verdadeiro séquito em torno de si, e insufla um sentimento de “nós x eles”, partindo para a total desumanização do adversário.

O objetivo dos ideólogos é ficar em evidência para que sua mensagem atinja o maior número de pessoas possíveis. Por isso, ele está pouco preocupado com a consistência lógica e compatibilidade com os fatos da mensagem que ele divulga, já que ele sabe que tem um séquito que irá aceitar à priori tudo que ele diz. Também ele sabe que tem os haters, aqueles que irão rejeitar à priori tudo que ele diz. Das duas formas, agradando seus seguidores e irritando seus haters, ele consegue visibilidade.

Quem mais se prejudica com essa polarização são aqueles que assumem posições mais moderados, pois recebem ataques dos extremistas dos dois lados. A racionalidade leva a moderação, a entender que não existem respostas finais e soluções fechadas para a maioria dos problemas. Se você tende a uma posição mais de centro, acaba sendo “acusado” de esquerdista pelos extremistas de direita, e de direitista pelos extremistas de esquerda.

II – Como podemos debater racionalmente?

Agora que vimos algumas das causas para tanto fanatismo, darei algumas sugestões para aqueles, que antes de qualquer posicionamento político/ideológico, valorizam a razão, a evidência e o livre pensamento.

  • Saia das bolhas ideológicas

Como vimos limitar sua rede de contatos somente àqueles que pensam de maneira parecida conosco, e seguir veículos de comunicação e formadores de opinião, com os quais já tendemos a concordar, reforça o viés de confirmação. Se nos isolarmos em bolhas ideológicas, nunca iremos ter oportunidade de confrontar nossas opiniões e assim, não saberemos quão boa elas são.

Sair das bolhas ideológicas também é importante pra percebemos que quem pensa diferente não necessariamente é algum tipo de monstro, ou algum imbecil. Entender as razões que levam a pensar daquela maneira, mesmo que não concordemos, é importante para não desumanizar o adversário. Em minha opinião, a internet contribuiu muito para essa desumanização do diferente, pois nas discussões cara a cara, é mais fácil desenvolver empatia, enquanto que nas virtuais, o que temos é um perfil, e aí é mais difícil medir o impacto do que falamos sobre as outras pessoas.

  • Procure diversas fontes de informação

Quando se trata de política, sejamos realistas: não existem veículos de informação isentos!Os interesses envolvidos são muitos, e os veículos de mídia sempre vão dá informações que favoreçam um lado e comprometam outro. O pior é que muitos consideram os veículos de mídia que se posicionam contrariamente a linha que eles defendem como tendenciosos e mentirosos, enquanto que aqueles que se posicionam na mesma linha como confiáveis e isentos.

O que aqueles que valorizam opiniões formadas com base em evidências devem fazer quanto a isso? O volume de informações que nos chegam é muito grande, e é humanamente impossível verificar a veracidade de todas elas. A recomendação que eu dou é: acompanhe veículos de mídia das mais variadas orientações, pois já que todos tem um lado, procure reconhecer aquele que é mais coerente em relação aos fatos. Como vimos os ideólogos não estão preocupados com a coerência dos seus argumentos, apenas em defender um discurso ideológico. Se um veículo de mídia, a despeito de sua orientação ideológica, é coerente em seus argumentos, isso mostra que ele é confiável.

  • Admita sua própria ignorância

Frequentemente somos intimados a nos posicionar pelos extremistas, e quem prefere manter a cautela é logo rotulado pejorativamente de “insentão”. Lembre-se: a ignorância pode ser uma bênção! Muitas das questões debatidas (como a do impeachment) exigem conhecimentos especializados de direito, sociologia, economia, história, ciência política, etc. É melhor ser “insentão” e admitir que você não tem competência de julgar certas coisas pra formar uma opinião embasada do que repetir clichês ideológicos prontos e seguir manadas.

  • Esteja disposto a mudar de opinião

Não há problema nenhum em defender causas políticas e sociais, pelo contrário, isso é muito nobre. Mas não podemos nos deixar cegar pelas ideologias de nossa preferência e simplesmente ficar alheio aos fatos. Formar uma opinião com base em certas informações, e ao se deparar com uma informação nova, mudar de opinião (um procedimento bayesiano que será tema de um artigo futuro) é algo louvável. Denota humildade e respeito às evidências.

Também seja crítico em relação às informações que você recebe, independente de elas se alinharem ou não ao que você acredita. Por exemplo: não é por que saiu uma denúncia de corrupção envolvendo um político que você não gosta que a denúncia necessariamente seja verdadeira, assim como se sair uma denúncia em relação a um político que você apoia que ela seja falsa. Sempre vá atrás da veracidade da informação, independente de ela te agradar ou não. Uma boa dose de ceticismo é sempre bem vinda.

Outra coisa: quando você se deparar com um texto argumentando uma posição contrária àquela que você defende, antes de procurar furos na argumentação e ensaiar uma “refutação” (eu não gosto dessa palavra), procure entender os argumentos apresentados no texto, eles podem ser bons e você aprender algo novo com eles! Ou eles podem ser ruins e você consegue ficar mais seguro de suas crenças. Das duas formas, você ganha.

Conclusão

Todos têm a ganhar com o debate racional, e todos perdem com a polarização de opiniões. A finalidade de um debate não é humilhar e refutar (por isso que eu não gosto dessa palavra) aqueles com posição diferente, mas sim chegar a um esclarecimento mútuo e solucionar problemas que nos afetam.  É o que ocorre na ciência, em que cientistas debatem teorias diferentes, comparam com os dados disponíveis para ver qual a que melhor corresponde a esses dados. Dessa maneira a ciência progride.

Um adendo: cientistas são pessoas e não estão imunes a vieses cognitivos, filtros bolha ou desonestidade pura e simples. Mas o método científico e o compartilhamento de trabalhos para ser submetidos ao crivo crítico da comunidade científica acabam por minimizar esses efeitos, ainda mais se compararmos como o que ocorre em outras áreas, como a política e religião, por exemplo. Em debates científicos, os debatedores normalmente saem de um estado de maior ignorância para um de menor ignorância, enquanto que nos debates políticos e religiosos, os debatedores saem de um estado de ignorância para um de maior ignorância ainda. Nos debates científicos, o ganho é mútuo por que cientistas estão cientes da sua ignorância, enquanto que em debates políticos e religiosos os dois lados estão certos de que sua posição é a verdadeira, e o prejuízo é mútuo.

Para que a democracia progrida, é necessário um ambiente de livre pensamento, com respeito a quem pensa diferente e valorização da racionalidade epistêmica (consistência lógica e respeito às evidências empíricas). Como diz Bertrand Russel, se você sente raiva de alguém com uma opinião diferente da sua, é por que provavelmente sua opinião não é bem fundamentada.

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Vamos falar sobre sexo

pandora

Imagem: Caixa de Pandora

“Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”
(Fernando Pessoa)

Uma moça teve um vídeo íntimo compartilhado na internet. “Que horror”, todos dizem. Mas todos querem assistir. Quem nunca viu essa cena?

Pois é. Os brasileiros parecem ter fetiche pela mulher “sem rosto”.

Amam a nudez, cultivam os mais diversos fetiches, mas não suportam quando a mulher é cotidiana. Quando ela existe para além das telas de celulares e computadores. Quando ela tem uma vida próxima da sua: mesmo bairro, mesmo círculo de amigos. A mulher que ele deseja nos sonhos (especialmente se for próxima, como colega de trabalho ou professora na faculdade) se transforma então automaticamente na “vadia” que, por fazer sexo e também ter fetiches, é “imoral”, indigna de ser levada a sério em qualquer relacionamento. Namorar com ela? Jamais. Apaixonar-se? Nunca. 

Quando falamos em sexo, esquecemos a naturalidade de todos os outros assuntos que permeiam nossas vidas pessoais: somos apavorados conosco mesmos. Temos medo, nojo e nos sentimos no direito de infernizar a vida de outrem porque eles, de alguma forma, externalizam nosso tesão.

O mundo está repleto daqueles que defendem a “correta moral”, santos do pau oco que estão sempre prontos a condenar o próximo por aquilo que eles mesmos cometem em suas vidas particulares. O homem que não admite que a esposa seja uma “puta na cama” e procura uma prostituta para saciar seus desejos mais sórdidos. Aquele que assiste vídeos pornôs e se masturba vendo a mulher desejada, mas considera impensável realizar suas fantasias com a mulher que dorme ao seu lado. O cara que, sentindo desejo por uma travesti, a ofende publicamente para tentar defender-se daquilo que ele mesmo sente. Ou mesmo a mulher que “faz a caveira” de outra porque aquela transa da forma que esta gostaria.

Essa curiosidade quase mórbida pela vida sexual do outro mostra como somos imaturos com a própria sexualidade, propagando e condenando publicamente aquilo que fazemos às escondidas. Os mimimis em excesso não expressam nenhum tipo de perfeição de caráter, apenas nossa hipocrisia particular com tudo que envolve intimidade. Condenar a liberdade sexual do outro e reafirmar nossa “repulsa” não justifica nem diminui nossos próprios desregramentos. Desregramentos? Sexualidade simplesmente é.

Como ler e interpretar um livro/texto muito teórico?

Imagem: s/n

Imagem: s/n

Este post é um trecho de“Argumentação:
a ferramenta do filosofar”, de Juvenal Savian Filho.

Ao nos aproximarmos de um texto devemos, antes de tudo, deixá-lo “falar”. Em outras palavras, isso quer dizer que, antes de o interpretarmos ou darmos nossa opinião sobre ele, devemos entendê-lo segundo a maneira como o autor o construiu. É muito comum que se desista de ler um livro por completo devido à sua rigidez teórica.

Vemos que a maioria das pessoas, quando lê um texto, já começa a falar sobre ele. Muitas vezes, elas nem sequer o entenderam segundo a ordem das razões do autor. Isso não é aceitável na atividade filosófica. Por isso, Juvenal Savian Filho propõe cinco passos para análise:

Primeiro passo: consiste em ler o texto inteiramente, mesmo que não entendamos tudo o que lemos. É claro que, em se tratando de um livro, devemos ir por partes (por capítulos ou por parágrafos). Nessa primeira leitura, devemos procurar identificar o assunto central do texto e fazer um levantamento do vocabulário que não conhecemos, marcando e anotando os termos desconhecidos.

Segundo passo: consiste em buscar o sentido dos termos desconhecidos. É preciso notar se o próprio texto não explica o termo, pois, muitas vezes, a definição é dada por ele mesmo. Se o texto não explica um termo, então recorremos a um bom dicionário.

Terceiro passo: consiste em reler o texto, em ritmo mais lento, para identificar os argumentos ou raciocínios do autor (seus pressupostos, premissas e conclusões). É nesse ponto que começamos a comparar nossas experiencias do mundo com as experiências do autor. Chamamos a esse argumento ou raciocínio de “movimentos” do texto, pois representam os movimentos do pensamento do autor. O conjunto desses movimentos compõe o texto.

Quarto passo:consiste em enumerar esses movimentos, identificando a estrutura geral ou a armação do texto. Trata-se de uma visão de conjunto muito esclarecedora.

Quinto passo: consiste em relacionar o texto analisado cm o restante da obra do autor e com o contexto histórico (época) por ele vivido, pois isso amplia nossa compreensão, na medida em que podemos ver correlações com fatos, pessoas, teorias, etc., importantes para esclarecer o pensamento do autor estudado. Isso não equivale a explicar o texto em função do contexto, como se alguém pensasse o que pensa apenas porque, no mundo de sua época, ocorresse alguma coisa que o determina. Se fosse assim, muitos filósofos ou cientistas não se teriam adiantado com relação a seu tempo. Trata-se apenas de, com o auxílio de dados já bem assentados (históricos, culturais, sociológicos, etc.), estabelecer conexões que aprofundem a compreensão do texto.

Eis os cinco passos na análise de texto:

  1. Leitura de texto, identificando o assunto principal e levantando o vocabulário desconhecido;
  2.  Checagem do vocabulário, no próprio texto ou em um bom dicionário; 
  3. Identificação dos argumentos do autor;
  4. Enumeração dos movimentos do texto;
  5. Correlação do texto com seu contexto histórico.

Somente após esse trabalho de análise que podemos dispôr do texto para interpretá-lo, concordando com ele ou discordando dele. Para entender de fato um texto, é preciso ter a paciência de descobrir seu mecanismo, sua estrutura.

Argumentação: a ferramenta do discurso

Imagem: DeviantArt Free

Imagem: DeviantArt Free

Este post foi baseado no livro “Argumentação:
a ferramenta do filosofar”, de Juvenal Savian Filho.

Sempre que tomamos posição sobre um tema, tentamos mostrar como nossas conclusões são verdadeiras ou, dito de outra forma, buscamos explicitar os motivos pelos quais pensamos o que pensamos. Acontece de forma igual com cientistas, filósofos, artistas em geral: eles esperam ser acreditados. É claro que não chamamos a ciência de simples opinião: embora algumas vezes elas sejam interpretações diferentes de um fato único, têm como objetivo de corresponder à realidade do mundo.

Quando expomos nossas opiniões, procuramos convencer. Diz corretamente Juvenal Savian Filho que o procedimento de convencer é comum tanto à mera opinião quanto à ciência. Exceto, naturalmente, se tentarmos convencer alguém pela força. Se, do contrário, procuramos motivos para justificar aquilo que pensamos e expomos, adotamos uma postura muito semelhante com o conhecimento dito objetivo. O aspecto em comum é a ação de convencimento, partindo de dados já adquiridos e chegando a conclusões bem justificadas. Esse procedimento tem um nome famoso: argumentação.

A argumentação do conhecimento e até mesmo da ciência, que possui certo grau de certeza e não consiste tão somente em uma opinião bem defendida, é chamada especificamente de demonstração – mas elas também não podem ser consideradas definitivas (válidas para todo o sempre).

Esta atitude evita o nosso fechamento em um mundo autorreferente e egoísta, como diz Juvenal. Faz-nos buscar uma comunicação sincera com os outros. Ao perguntarmos a nós mesmos se o nosso interlocutor tem razão, interessamo-nos pelos argumentos fornecidos o diálogo ou constatamos a ausência de bons argumentos.

Para analisar os argumentos, precisamos saber ouvir: nossa primeira atitude deveria ser a de perceber o modo como argumentações são construídas. É por isso que o autor (o supracitado Juvenal Savian Filho) publicou em seu livro (“Argumentação: a ferramenta do filosofar“)  citou a lista, mais ou menos conceitual entre os filósofos,das cinco maneiras de raciocinar:

  1. Partimos de experiências parecidas e repetidas, e elaboramos uma conclusão geral. Ou seja, categorizamos através de repetidas experiências. A este tipo chamamos INDUÇÃO.
    EX: Sabemos que toda água ferve a 100ºc.
  2. Outras vezes, partimos de certos dados já conhecidos e tiramos as consequências que estão implícitas neles. EX: “Todos os seres humanos são mortais”: João é humano. “Logo, ele é mortal”. Incluímos dados particulares num princípio geral. A esse tipo chamamos DEDUÇÃO.
  3. Um terceiro tipo é quando, guiando-nos pela sensibilidade para com certos sinais aparentemente não relacionados, chegamos a conclusões que fazem sentido. EX: como age um detetive. A esse tipo chamamos ABDUÇÃO.
  4. Podemos ainda estabelecer comparações explicativas entre situações distintas e raciocinar, então, por analogia. Ex: a rigor, “saúde” e “doença” são termos atribuídos a seres humanos, mas, como alimentos causam a saúde no ser humano, dizemos, por analogia, que eles também são “saudáveis”. A este tipo chamamos ANALOGIA.
  5. Algumas vezes, ainda, quando não somos conhecedores de determinado assunto, confiamos na palavra de quem o conhece. Deve ser, no entanto, uma autoridade nesse assunto (de nada vale utilizar o argumento de um sociólogo para falar de física quântica, por exemplo). A esse tipo chamamos de ARGUMENTO DE AUTORIDADE.

Para finalizar, deixo um pequeno esquema para se visualizar o quão bom são os seus argumentos: quanto mais acima da pirâmide eles estão, mais válidos são.

hierarquia-argumentos-mini

Para que um argumento seja sólido, é preferível que tenha introdução (do que se trata), desenvolvimento (evidências) e conclusão (resultado). Com este básico sobre argumentação, espero que você consiga reconhecer alguns tipos argumentativos e procure prestar mais atenção na argumentação de seus interlocutores. 😉

Por que compartilhar boatos na internet pode ser prejudicial?

Imagem: Google Search

Imagem: Google Search

A palavra “hoax” é usada para designar falsas notícias (boatos) que circulam na internet e que alcançam um elevado número de pessoas. Alguém os inventa com uma má intenção e as pessoas acabam por acreditar nele, espalhando-o na maior boa vontade. Afinal, se é uma mentira, “todo mundo vai esquecer”. “Mal não faz”, não é mesmo?

Faz sim. São conhecidos diversos casos de pessoas que tiveram suas fotos ou contatos espalhados na rede através de um hoax – e acabaram perdendo emprego ou sendo perseguidas. Os boatos podem ofender, denegrir e causar danos não apenas à reputação, mas também à saúde mental de alguém.

Em outros casos, como frequentemente ocorre com hoax de “medicamentos que curam câncer”, as pessoas podem esperar curas milagrosas e acabar não utilizando o medicamento indicado pelo médico ou abandonar o tratamento. Criar falsas esperanças é uma das mais nefastas reações de um hoax.

A função do hoax é explorar a facilidade que as pessoas têm em acreditar em tudo que visualizam na internet. O conteúdo tende a ser apelativo, chamando atenção para a comoção que a “notícia” traz consigo. Uma amostra disto são as mensagens que mostram crianças, adultos ou animais acidentados ou acometidos por doenças. Digitar um “amém” não salva ninguém – e, diferentemente do que diz o imaginário popular, traz muito prejuízo. Imagine para um pai, um irmão, um familiar ver alguém que muito estima em fotos terríveis na internet, que circulam sem qualquer autorização? Mesmo em casos de óbito, estas imagens desrespeitam completamente o bom senso.

Existe ainda a velha história de espalhar sites de promoção (falsos) que pedem seus dados confidenciais, onde você acaba tendo o cartão clonado, entre outras coisas. Espalhar hoax pode ser, sim, muito prejudicial.

Fica sempre um apelo: não compartilhe boatos. Pesquise, procure boas fontes, verifique a veracidade da história.

É difícil dizer os motivos pelos quais os hoaxes são inventados: se promoção pessoal, se difamação de um inimigo, se uma má interpretação de alguma notícia. No entanto, é possível prevenir-se procurando identificar os boatos. Assim, o site E-Farsas (que se dispõe a esclarecer e desmistificar boatos que correm a internet) publicou uma lista com 10 passos para reconhecer um hoax. Republicamos aqui:

1) Cita nomes de pessoas ou de instituições para conseguir mais credibilidade
Exemplos:“Esse aviso partiu da Secretaria de Segurança”
“A Universidade Nacional Autônoma do México aprova o uso do leite de alpiste para a cura do diabetes”

2) Usa nomes de pessoas inexistentes com cargos de nomes pomposos e/ou de instituições que não existem
Ao contrário da característica número 1, há hoaxes que usam nomes de pessoas ou de empresas que não existem. Para verificar isso é fácil: basta buscar algum dos nomes citados no texto no Google, por exemplo. Se o nome do personagem só aparece em blogs que apenas copiaram a notícia, pode ser um indício de farsa.

3) Não é datada para que o leitor sempre tenha a impressão de que a notícia é recente
Exemplo: “Família da garota Ashley Flores, desaparecida há 2 semanas, pede sua ajuda”. Na verdade, essa história já ronda a web há anos!

4) Pede para ser repassada ao maior numero de pessoas
A maioria dos hoaxes pede para ser repassado. Atualmente, os boatos que trafegam pelo Facebook pedem para ser compartilhados para, dessa forma, se espalharem mais e mais.

5) Possui um texto incoerente e confuso
Os autores dessas notícias falsas nem sempre estão preocupados com a gramática ou com a consistência de seus textos. Uma rápida análise em alguns parágrafos já dão pistas de possíveis fraudes.

6) Ausência de fontes
Quando uma noticia chega até você, o primeiro passo é tentar localizar a fonte daquela “bomba”. Grande parte dos hoaxesnão possui autor ou fontes confiáveis.

7) Trata de algum assunto que atraia a maior quantidade de leitores
Assuntos como “saúde”, “famosos”, “crianças”, “maus tratos com animais”, “religião” e “dinheiro” são corriqueiros entre os hoaxes. Quanto mais gente ler aquela notícia, maiores são as chances da história ser repassada.

8) Possui um tom conspiratório
Muitas das mensagens falsas que rondam a internet possuem um tom conspiratório como se apenas as pessoas que lerem aquilo passarão a fazer parte de um seleto grupo de pessoas esclarecidas. Ou seja, só quem está lendo o texto tem o privilégio de se proteger de alguma ameaça.

9) Usa algumas palavras em letras maiúsculas e/ou coloridas para chamar a atenção do leitor
Vários hoaxes possuem algumas das palavras “URGENTE”, “ATENÇÃO”, “LEIA ESSA MENSAGEM” e outras. A maioria delas escrita em letras garrafais ou coloridas. O leitor é atraído quase que inconscientemente para esses trechos do texto.

10) Mistura fatos reais com ficção
Às vezes, o autor de um boato mistura fatos reais com coisas que saíram de sua mente. Um exemplo disso é aquela famosa teoria que lista várias coincidências entre os presidentes Lincoln e Kennedy.