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Gosta do Carl Sagan? Esta é a Série Sagan – Completa e legendada

Reid Gower resolveu fazer um tributo à NASA e ao – grande! – divulgador científico Carl Sagan. O quê ele fez? Criou uma série realmente muito boa, denominada The Sagan Series, com vídeos de mais ou menos seis minutos cada um. E você pode conferir completa e legendada (em um único vídeo) aqui:

Como bonustrack, Sagan falando sobre o progresso tecnológico em nosso planeta:

E sua última entrevista antes de falecer:

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Memórias Imaginárias de Lucrécio – por Philipe Sollers

 Lucrécio, o maior herdeiro de Epicuro no mundo romano

Lucrécio, o maior herdeiro de Epicuro no mundo romano.

 

Publicado na Folha de São Paulo no domingo, 4 de setembro de 1983.
Originalmente publicado no Le Monde | Transcrição Bernardo de Oliveira
Tudo está calmo esta manhã no campo romano, uma calma que faz pensar no vazio além do qual se encontram os deuses. Para mim chega o momento de apreciar o conjunto de minha obra. Escrevo aqui um exame rápido, mas sem dúvida queimarei este documento. Só o poema deve permanecer. Está aqui, sob meus olhos. Depois de oito dias, continuo a repetir as primeiras e as últimas sílabas. As últimas: Multo cum sanguine saepe rixantes potius quam corpora deserentur 1. As primeiras: Aeneadum genetrix hominum diuomque voluptas 2. Penso que está bem claro. A volúpia, a morte, o nascimento e o fim dos corpos, o prazer que aproxima, a peste que desagrega. Tracei o círculo, eu o percorri.Eles não saberão nada da minha vida, tomei as precauções elementares. Dirão provavelmente que eu estava louco: que me destruí. Sempre o mesmo método. Quando se escapa à sua vigilância, à sua malevolência, recorrem à grande exclusão: um monstro, eis como serão obrigados a se referir a mim. Teriam preferido o silêncio completo, o desaparecimento integral, mas o poema existe, circulará, já sabem que não poderão colocar a mão sobre todas as cópias, nosso grupo é poderoso o suficiente para escondê-las e difundi-las, será preciso que me inventem, que me refutem. Imagino aqui seu trabalho de deformação nos anos próximos e no curso das épocas. Que me importa? Além disso, já não estou na mesma cadência do tempo.

Um texto não é nada se não contém uma adesão razoável fundada sobre o entusiasmo pela verdade mais difícil e simetricamente sobre a raiva originada da mentira que convém a muitos a aos que a desfrutam. O que eu disse, eles não saberão admitir. O que eles dirão será indefinidamente contestado por minha demonstração. Sempre insisti, como nosso próprio mestre, sobre a necessidade de se reservar nossa doutrina aos mais nobres, aos mais bem testados.

Azar nosso se um dia, depois de mil perseguições, qualquer tribuno da plebe se metesse a aprovar nossas idéias, quanto mais delas se servir para dominar a cidade. Seria grande, então, o risco de um terror exercido pelo desespero e nele fundado. Pois assim como a nossa visão permite o máximo de liberdade para aquele que sabe penetrá-la e se calar, da mesma maneira poderia provocar a pior escravidão se fosse utilizada pelo poder do ressentimento medíocre e perverso ou pelo fanatismo policial.

O que nós defendemos é insuportável para a maioria. No entanto, foi correto correr o risco de revelá-lo. Mas esta revelação só alcança um a um, se assim posso dizer, ela o visa pessoalmente, você, leitor, e só você. Não somos filósofos como os outros, muito menos escritores ou poetas cuja superficialidade acrescenta ornamentos preciosos à filosofia. Não: nossa verdade está além, simultaneamente, da filosofia e da poesia. Ela é a ciência falando melodicamente ao ouvido humano. Jamais a ciência poderá dizer que estávamos errados, tal é a minha certeza. Talvez provisoriamente cometamos erros, mas eles acabarão se dissolvendo, nossa doutrina nem mesmo será afetada.

É preciso sempre voltar aos princípios: o mundo não é eterno, terá um fim, os astros não nos são superiores em nada, muito pelo contrário; os deuses são insensíveis tanto ao favorecimento quanto à cólera; o pensamento deve se expandir para além do vazio, o infinito, os átomos e o arco que os une. O maior criminoso é portanto aquele que faz apologia da religião, do modus, do nó. Assim, o que ele quer é mergulhar com você no prazer sombrio da morte imortal.

Conosco, um vampiro fácil de desmascarar, mas não sem um esforço sobre si próprio. Porque cada um de nós, formado como é da mesma mescla apaixonada, adere a esta paixão. Os nós sucederão aos nós, as ilusões às ilusões, as crenças às crenças. E invencívelmente a clara consciência da inanidade universal, livre, carregando seus turbilhões de corpos elementares, retornará sobre alguns poucos, e os arrebatará.

Quem sabe? Talvez virá uma época onde, pelo desenvolvimento sem fim da técnica, os homens poderão observar estas partículas das quais tudo é tecido. Nos acusaram de ter invocado fantasmas! Invenções de nossa imaginação sobrecarregada! E se ainda só falássemos das substâncias dos mundos! Sóis ou minerais! Mas sua raiva, é evidente, deriva sobretudo de nossa lucidez sobre o amor. Que tenhamos claramente descrito o papel e a pressão das sementes, os simulacros que se seguem, os sonhos decorrentes, as vanidades e apetites que se desdobram e devastam os destinos a partir do nada, este é o escândalo.

Mas, ainda uma vez, quem sabe? Quem poderá saber se não virá o tempo onde se poderá ver claramente o mecanismo do engendramento? A conjunção do macho e da fêmea? O princípio da fecundação? Vamos mais longe; não se pode pensar que será possível induzir aproximações, enxertos? Fabricar a vida de todas as peças a partir dos líquidos necessários? Loucura! dizem. Ou ainda: Horror! Como estão interessados em manter esse mistério onde sua vanidade se sustenta! Como amam seus charlatães, escritores, sacerdotes, filósofos! Arruinamos, até a raiz, sua pretensão delirante.

Percebemos, as provas virão, que a existência não tinha nenhuma razão fundamental, nenhuma justificação em si. Destruímos todos os nós apresentados como ligações respeitáveis. E em primeiro lugar, talvez, o incrível, o lamentável poder do espelho sobre o cérebro de nossa condição passageira. Como são grandes o orgulho e a cegueira terrestres!

Nosso orgulho é plenamente justificado. A maior humildade o garante. Olho o meu manuscrito. A disposição das palavras e letras é rigorosa. Ele fala da disposição de tudo que se pode ver, entender, tocar, sentir, falar. Uma mesma combinação regula os fenômenos físicos e o entrelaçamento das frases. Muito mais, sei que, graças ao infinito, esta constatação já teve lugar. Já me produzi, vivi, pensei tudo isso, tracei os sinais, não guardo nenhuma lembrança. A morte introduziu entre eu e eu um corte completo. Em que língua já escrevi este hino perdido? Não sei.

Em que língua, em que paisagem futura, será novamente escrito por mim que não terei a menor lembrança do que sou nesse instante? Impossível prever. Utilizará apenas os mesmos caracteres? Roma será Roma? E ainda haverá alguém para conhecer o segredo de Vênus? Nossa escola pode ser dispersa, vencida. Está inserido em uma ordem. Fiz o que devia fazer: ritmar seus conhecimentos para que eles sejam transmitidos e aprendidos de coração.

Agora o sol se põe. A sombra começa a se desvanecer sob o grande pinheiro para-sol da vila onde estou refugiado. Sei que me procuram. Sei exatamente quem, porque, como. Velha história! Vão me encontrar só. Vão folhear tudo sem encontrar o documento de que são obrigados a se apoderar a qualquer preço, antes de me matarem.

Vão me torturar talvez, os infames? Isso não é tão grave, o desfalecimento nos salva da sobre-humana dor. Acho mesmo que posso me incitar a terminar, a partir do interior, por uma espécie de interrupção da respiração que nos ensinou um dos nossos adeptos, um médico. Não, eles não conseguirão me tornar louco. Não, não vou me suicidar. É simplesmente a velha prisão humana que se fecha em si mesma para perpetuar sua impostura. Nós não somos desse mundo. Já o dissemos. Voltaremos a dizê-lo um dia.

Notas

De rerum natura, Livro VI, 1285-1286: [Alguns, com grande clamor, colocavam seus parentes sobre piras que tinham sido acumuladas para outros e depois chegavam-lhes as tochas], e preferiam bater-se, com grande derramamento de sangue, a abandonar aqueles corpos.

Virgílio (71-19 a.C.), inspirando-se em Homero, fez do herói troiano o personagem de seu poema Eneida. As lendas sobre Enéias tinham o mérito de dar a Roma títulos de nobreza, fazendo remontar a estirpe de seus fundadores às origens dos tempos, atribuindo-lhe também antepassados divinos, como Zeus e Afrodite (Vênus entre os romanos). Com isso, garantia-se a grandeza romana, supostamente predita pelo próprio Homero, e acreditava-se que Roma realizaria a reconciliação de troianos e gregos.

(Da natureza das coisas), sua única obra conhecida. Lucrécio pretende ser o tradutor do pensamento do filósofo grego Epicuro de Samos (~341-270 a.C.) – discípulo de Demócrito de Abdera (séc. V a.C.) – e o intérprete de seu pensamento para uma cultura latina que pouco conhece o materialismo grego. A obra exerceu imensa influência no pensamento filosófico, sobretudo como referência para o materialismo (Spinoza, Marx e muitos outros).

Como explicar às crianças sobre a homossexualidade

Ensinar sem preconceitos é um desafio e tanto, ainda mais quando se trata de um tema tão polêmico quanto a homoafetividade. Você querendo ou não, seus filhos, irmãos e sobrinhos vão sentir curiosidade para saber sobre o tema – e é necessário uma forma lúcida o suficiente para fazê-los refletir a respeito.

Um livro alemão foi escrito justamente com o intuito de explicar às crianças o que é “homoafetividade”. Não, não se trata de “apologia.” Ele faz isso de forma simples, direta e sem nenhum tipo de preconceito. O material bem que poderia  ser distribuído aqui no Brasil, principalmente para alguns adultos. Leia a pequena história em alemão, traduzida para o português e diga o que você achou da abordagem:

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Via Xonei, em dica do Douglas Rodrigues.

A beleza das pequenas coisas

alegoria_cavernaImagem: alegoria da caverna

Encontrei esta mensagem do Richard Feynman em um vídeo e gostaria de compartilha-la com vocês:

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“Eu tenho um amigo que é um artista, e de vez em quando ele toma uma posição que eu não concordo muito bem.

Ele segura uma flor e diz: ‘Olha como é bonito‘.

E eu concordo. E ele diz: ‘Viu, eu, como um artista, posso ver como isso e tão belo, mas você, como um cientista, desmantela tudo isso e se torna em uma coisa muito chata‘.

E eu acho que ele é meio maluco. Primeiramente, a beleza que ele vê está disponível para outras pessoas e para mim também, creio eu, embora eu posso não ser tão refinado esteticamente como ele é, mas eu posso apreciar a beleza de uma flor. Ao mesmo tempo, eu vejo muito mais a respeito da flor que ele vê. Eu posso imaginar as células lá dentro. As ações complicadas, que também têm uma beleza.

Quero dizer, não existe beleza só nesta dimensão de um centímetro, também há beleza em dimensões menores. A estrutura interna, também os processos, o fato de que…  As cores e as flores se evoluíram, a fim de atrair insetos para polinizar é interessante. Significa que os insetos podem ver a cor.Isso adiciona uma pergunta. Será que esse sentido estético também existem nas formas mais baixas?

Por que é estético? Todos os tipos de questões interessantes que com a ciência, o conhecimento, só aumenta a excitação e mistério e a admiração de uma flor. Isso só acrescenta. Eu não entendo como pode subtrair.

Se você espera que a ciência venha lhe dar todas as respostas para as perguntas maravilhosas sobre:

O que somos,
para onde vamos,
qual o significado do universo,
e assim por diante,
então eu acho que você poderia facilmente se tornar desiludido e procurar alguma resposta mística para estes problemas.

Como um cientista pode ter uma resposta mística eu não sei, porque o espírito todo é de entender. Bem, não importa isso, quero dizer. Nem eu mesmo entendo isso. Mas de qualquer forma, se você pensar sobre isso da maneira que eu penso, o que estamos fazendo? Estamos explorando, estamos tentando descobrir o máximo que pudermos sobre o mundo.

As pessoas me dizem: ‘Você está procurando as leis definitivas da física?’. Não, eu não estou, eu estou olhando apenas para descobrir mais sobre o mundo. E se acontecer que existe uma simples lei final que explica tudo, que assim seja. Isso seria um descobrimento muito bom.

Se acabar ficando que é uma cebola com milhões de camadas, e nós estamos fartos de olhar para essas camadas, então isso é o que seja. Mas seja qual for o resultado, a natureza está lá, e ela vai revelar-se tal qual como ela é.

Por isso, quando formos investigá-la, nós não devemos pré decidir o que estamos tentando fazer, exceto para procurar mais sobre isso.

Você vê uma coisa: é que eu consigo viver com dúvida e incerteza em não saber. Eu acho que é muito mais interessante viver sem saber ao invés de ter respostas que podem ser as erradas. Eu tenho respostas aproximadas, e possíveis crenças, e graus diferentes de certeza sobre coisas diferentes. Mas não tenho absoluta certeza sobre nada, e sobre muitas coisas eu não sei nada a respeito mais não preciso ter uma resposta.

Eu não me sinto amedrontado por não saber sobre estar perdido em um universo misterioso sem ter nenhum propósito que é a maneira como realmente é, a tanto o que eu posso dizer possivelmente. Isso não me assusta.

Entao, com tudo isso, eu nao consigo acreditar nas histórias especiais que foram inventadas sobre a nossa relação com o universo em geral.

Porque elas parecem ser muito simples, muito conectadas.

De qualquer maneira, não adianta argumentar. Não posso argumentar. Só estou tentando lhe dizer pelo ponto de vista científico, ou pela visão de meu pai, é que devemos olhar para ver o que é verdade. O que talvez seja, ou talvez não seja verdade. Quando você começar a duvidar.

O que acho que para mim é uma parte muito fundamental da minha alma: duvidar e perguntar.

Quando você começar a duvidar e perguntar, fica um pouco mais difícil de acreditar.”

Fé na verdade – Parte IV – A verdade pode magoar

macsucciImagem: Claudia Macsucci

Por Daniel Dennett

 5. A verdade pode magoar

Toda a gente deseja a verdade. Quando o leitor se interroga sobre se o seu vizinho o enganou, ou se há peixes nesta área do lago, ou para que lado deve caminhar para chegar a casa, está interessado na verdade. Mas então, se a verdade é tão maravilhosa, por que motivo existe tanto antagonismo em relação à ciência? Toda a gente aprecia a verdade; mas nem toda a gente aprecia os instrumentos científicos de procura da verdade. Ao que parece, algumas pessoas prefeririam outros métodos mais tradicionais de alcançar a verdade: a astrologia, a adivinhação, os profetas e gurus e xamãs, o transe e a consulta de vários textos sagrados.

Nestes casos, o veredicto da ciência é tão familiar que quase nem preciso repeti-lo: enquanto diversões ou exercícios de elasticidade mental, todas estas atividades têm os seus méritos, mas, enquanto métodos para procurar a verdade, nenhum deles pode competir com a ciência — um fato em geral reconhecido tacitamente pelos que defendem a sua prática alternativa favorita através do que afirmam ser a base científica (que outra coisa haviade ser?) dos seus poderes. Nunca encontramos um crente na comunicação com o além a procurar o apoio de uma associação de astrólogos ou de um Colégio dos Cardiais; pelo contrário: exibem-se avidamente todos os farrapos de possíveis indícios estatísticos e qualquer físico ou matemático extraviado que possa oferecer um testemunho favorável. Mas então por que motivo há tanto pavor, se mesmo os que procuram passar palavra acerca de alternativas apelam regularmente para a ciência? A resposta é amplamente conhecida: a verdade pode magoar. Sem dúvida que pode. Isto não é uma ilusão, mas é por vezes negado ou ignorado por cientistas e outras pessoas que fingem acreditar que a verdade acima de tudo é o bem supremo. Posso facilmente descrever circunstâncias nas quais eu próprio mentiria ou omitiria a verdade para evitar o sofrimento humano.

A uma senhora idosa, no fim dos seus dias, nada resta senão as histórias dos feitos heroicos do seu filho — vai o leitor dizer-lhe a verdade quando o seu filho for preso, condenado por um crime terrível e humilhado? Não será para ela melhor deixar este mundo em ignorante serenidade? Claro que é, afirmo eu. Mas note-se que mesmo aquitemos de compreender estes casos como exceções à regra. Não poderíamos oferecer a esta mulher o  conforto das nossas mentiras se mentir fosse a regra geral; ela tem de acreditar em nós quando falamos com ela.É um fato que as pessoas não querem muitas vezes saber a  verdade. E é um fato mais inquietante que aspessoas não queiram muitas vezes que os outros saibam a verdade. Mas, tentar transformar estes fatos de forma a que apoiem a ideia estúpida de que a própria fé na verdade é uma atitude humana relativa a certas culturas, situada ou em qualquer caso opcional, é confundir tudo.

O pai do acusado que ouve em tribunal os testemunhos contra o seu filho, a mulher que se pergunta se o marido a anda a enganar — eles podem muito  bem não querer saber a verdade, e podem ter razão em não querer saber a verdade, mas o fato é que acreditam na verdade; isso é claro. Eles sabem que a verdade está aí, para ser evitada ou abraçada, e sabem que a verdade é importante. É por isso que eles podem muito bem não querer saber a verdade. Porque a verdade pode magoar. Podem conseguir enganar-se a si mesmos, pensando que a atitude que têm nestas ocasiões perante a verdade reflete um defeito da própria verdade, assim como da própria procura e descoberta da verdade — masse isto acontecer é puro autoengano. O máximo a que podem aspirar agarrar-se é à ideia de que podem existirboas razões, as melhores razões — no tribunal da verdade, note-se — para, por vezes, suprimir ou ignorar averdade. Não devíamos, então, considerar a possibilidade de suprimir, em grande escala, a verdade, protegendo assim dos seus efeitos corrosivos vários grupos em situação de risco? Pense no que acontece inevitavelmente quando a nossa cultura científica, e a sua tecnologia, é apresentada a populações que têm até agora sido poupadas às suas inovações. Que efeitos terão os telefones celulares e a MTV e o armamento de alta tecnologia(e a medicina de alta tecnologia para combater os efeitos do armamento de alta tecnologia) nos povos subdesenvolvidos do Terceiro Mundo? Sem dúvida, muitos efeitos destrutivos e penosos.

Mas não temos de olhar para os artifícios eletrônicos para ver o mal que pode ser cometido. Tijs Goldschmidt, no seu fascinante livro, Darwin’s Dreampond (1996), conta-nos os efeitos devastadores de introduzir a perca do Nilo no Lago Vitória(Uganda): a eptosa espécie de peixes ciclóstomos quase se extinguiu em apenas alguns anos, uma perda catastrófica… isto é, para os biólogos, mas não necessariamente para as pessoas que viviam nas suas margens eque podem agora completar as suas dietas de subsistência com uma nova e abundante pesca. Goldschmidt também descreve, todavia, um efeito cultural análogo: a extinção dos tradicionais cestos sukuma. Estes cestos à prova de água eram tecidos pelas mulheres e usados nas festas religiosas como vasilhas para consumir vastas quantidades de  pombe , uma cerveja de milho […] Os cestos eram entretecidos, empadrões geométricos de significado simbólico, com folhas de erva tingidas com manganês. Nem sempre erapossível descobrir o significado dos padrões porque a introdução do mazabethi — os pratos de alumínio, cujo nome deriva da rainha Isabel, introduzidos em grande escala durante o domínio britânico — foi o fim da cultura masonzo. Falei com uma mulher idosa de uma pequena aldeia que, ao fim de mais de 30 anos, estava ainda revoltada com os mazabethi […] “ Sisi wanawake, nós, as mulheres, costumávamos tecer cestos, sentadas emgrupo, ao mesmo tempo em que falávamos umas com as outras. Não vejo nada de mal nisso. Cada mulher dava o seu melhor para tentar fazer o cesto mais bonito que fosse possível.

Os mazabethi acabaram com tudo isso.”[pág. 39] Acho que ainda mais triste é o efeito da introdução de machados de aço junto dos índios panare daVenezuela.Dantes, quando se usavam os machados de pedra, juntavam-se vários indivíduos, trabalhando emconjunto para cortar árvores para fazer um jardim. Contudo, com a introdução do machado de aço, um só homem pode fazer um jardim sem qualquer ajuda […] A colaboração já não é obrigatória nem é particularmente frequente. (Katharine Milton, “Civilization and Its Discontents”, Natural History, Março, 1992,pp. 37-42) Estas pessoas perderam a sua “estrutura de interdependência cooperativa” tradicional, perdendo tambémgrande parte do conhecimento, acumulado ao longo dos séculos, da fauna e da flora do seu próprio mundo.  Muitas vezes as suas línguas extinguem-se numa ou duas gerações. Estas são sem dúvida grandes perdas. Mas que políticas devemos adotar em relação a eles? Em primeiro lugar, não devemos esquecer o óbvio: quando os povos de culturas tradicionais contatam coma cultura ocidental adotam entusiasticamente quase todas as novas práticas, os novos instrumentos, os novos costumes. Por quê? Porque sabem o que sempre desejaram, valorizaram e ambicionaram, e sentem que essas novidades são melhores meios para os seus próprios fins do que os seus velhos costumes. Os machados de aço substituem os de pedra, os motores fora de borda substituem as velas, a medicina moderna substitui os curandeiros, os radiotransistores e os telefones celulares são avidamente desejados.

Estas pessoas não são afinal melhores do que nós a prever os efeitos em longo prazo das suas escolhas, mas, com base na informação de que dispõem, as suas escolhas são racionais. É sem dúvida verdade que por vezes a “publicidade” espalhafatosa, astuciosamente dirigida às suas noções insulares do que a vida tem para nos oferecer, tira partido da sua inocência. Mas repare-se que estatática deplorável não é domínio exclusivo dos que os exploram. Aqueles que os querem proteger da tecnologia moderna estão aparentemente preparados para morder a língua e mentir-lhes descaradamente: “Escondam asvossas maravilhas de alta tecnologia! Se lhes derem alguma coisa, impinjam-lhes pérolas de fantasia coloridasou quaisquer outros nadas que eles possam rapidamente incorporar na sua cultura tradicional.” É assim que se tratam membros adultos da nossa própria espécie? Não temos todos nós, entre outros direitos humanos, o direito de saber a verdade? É escandalosamente paternalista dizer que devemos isolar estas pessoas dos frutos da civilização. Serão eles como elefantes, para serem postos numa reserva? Acho que devemos tratá-los como tratamos os nossos próprios cidadãos: oferecemos lhes todos os instrumentos de procura da verdade que temos, de maneira a que possam escolher com base numa opinião informada — se assim o escolherem.

É claro que esta política é uma estrada de sentido único. Depois de os termos informado já violamos a sua prístina pureza. Não é possível voltar atrás. Não é possível ter as duas coisas. Se se trata de humanos adultos, então têm o direito de saber, não têm? Está o leitor realmente disposto a tomar medidas no sentido de lhes impedir o acesso à educação? Mas a educação irá transformá-los completamente. Perderão muitos dos seus velhos costumes. Em alguns casos será um alívio, noutros será, sem dúvida, trágico. Mas que cânone usaria o leitor para definir o que devem e o que não devem perder? Devem preservar os costumes dos últimos 100 anos? Ou dos últimos 10 anos? Ou dos últimos 10 milênios? E, o mais importante de tudo, o que nos daria afinal o direito de os discriminar em relação aos nossos próprios cidadãos? E já agora, estas restrições autoimpostas são exigidas por quem? Quem é que implora que fechemos as nossas bocas “imperialistas” e que guardemos as chamadas verdades científicas para nós próprios? Não é, em geral, o povo, mas antes os seus autoproclamados líderes espirituais. São eles, e não o seu rebanho, que exigem que o seu rebanho seja protegido das influências corrosivas e irreversíveis da nossa cultura científica da verdade. As pessoas que trabalham nos cultural studies e outras que agitam a bandeira do multiculturalismo deviam deter-se cuidadosamente sobre a seguinte sugestão: a sua política bem intencionada de tolerância das políticas tradicionais que recusam o livre acesso aos instrumentos científicos de procura da verdade é muitas vezes uma política ao serviço dos tiranos — e parece-me que são mais as vezes em que isto é assim do que aquelas em quenão o é.

Na nossa cultura, o conceito de consentimento informado é uma das pedras-de-toque da liberdade. Mas o próprio conceito de informar as pessoas para que possam consentir ou não é encarada, noutras culturas, com hostilidade. Na verdade, penso que os líderes políticos terão cada vez mais dificuldades em manter os seus povos num estado de falta de informação. Tudo o que precisamos fazer é continuar a passar a palavra claramente e sempre com o cuidado escrupuloso de dizer a verdade. De fato, não há nada de novo nesta sugestão. Algumas instituições, como a BBC Internacional, têm vindo a fazer precisamente isto, com enorme sucesso, desde há décadas. E ano após ano, a elite de todas as nações do mundo envia os seus filhos para asnossas universidades para aí receberem a sua formação. Eles sabem, talvez melhor do que nós próprios pensamos, que a ciência e a tecnologia da procura da verdade constitui o nosso mais valioso bem de exportação. Dept of Philosophy Tufts University, USA.

Referências

Akins, K. A. 1989 Narcissism and Mental Representation: An Essay on Intentionality and Naturalism,Dissertação de Doutoramento, Dept. of Philosophy, University of Michigan, Ann ArborDennett, Daniel C. 1991.

Consciousness Explained. Nova Iorque e Boston: Little, Brown; Londres: Allen Lane.

Feynman, Richard 1985 QED: A Estranha Teoria da Luz e da Matéria. Trad. 1988, Lisboa: Gradiva.

Goldschmidt, Tijs 1996. Darwin’s Dreampond. Cambridge, MA: MIT Press Hauser, Marc 1996 The Evolution of Communication.

Cambridge, MA: MIT PressKrebs, John R., e Dawkins, Richard 1978 “Animal Signals: Information or Manipulation” in J. R. Krebs e N. B. Davies, orgs.

Behavioural Ecology: An Evolutionary Approach, Oxford: Blackwell Scientific Publications, pp. 282-309Milton, Katherine 1992 “Civilization and Its Discontents” Natural History, Março, 1992, pp. 37-42.

Rorty, Richard 1993 “Holism, Intrinsicality, Transcendence” in Bo Dahlbom, org., Dennett and his Critics. Oxford: Blackwell.